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História

Fuga da escravidão

História de: "José"
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/10/2008

Sinopse

José é o pseudônimo de um rapaz que, aos 19 anos de idade, contou sua história um dia depois de ter fugido de uma fazenda, onde trabalhou por dois anos em condições análogas à escravidão. Ele fala das dificuldades que o fizeram deixar a família em Floriano, no Piauí, para buscar emprego na região de Açailândia, no Maranhão, e da carona de caminhão que o levou ao lugar que imaginava ser sua grande oportunidade de mudar de vida. Ao contrário do que esperava, José passaria uma longa temporada servindo aquela fazenda, sob as ordens e as humilhações de um homem com revólver da cintura, sem direito a descanso e, menos ainda, ao salário prometido no início. Acolhido pelo Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos, ele pensava em apenas duas coisas: ser um cidadão respeitado e ter liberdade para viver sua vida.

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História completa

A cidade em que eu nasci se chama Floriano. Fica no Piauí. A cidade é bonita, tem uma ponte, o rio descendo. Tem umas coisas muito bonitas lá. Comecei a estudar, e não deu certo lá porque a minha mãe, as condições eram fracas. Não tinha como eu estudar, e eu deixei lá os meus estudos. Daí, eu disse para ela: “Mamãe, vou atrás de melhorar a nossa vida.” E saímos eu mais minha tia, eu mais ela. Quando a gente chegou em Açailândia, ela foi embora, e eu fiquei. E agora eu estou com dois anos sem ir para casa, sem ter notícias da minha mãe.

 

Aqui, em Açailândia, eu comecei a trabalhar... Não tive muito serviço, não. Tinha um serviço de pastéis, mas eu não peguei, não. Eu peguei logo uma carona com um boiadeiro desses aí, eu parei no arame. Ele parou lá. E, quando eu parei lá, eu dando a volta, passei, tinha um cara apreciando, e ele me chamou. Aí ele disse: “Rapaz, você não quer trabalhar?” Eu disse: “Eu quero.” Eu fui para lá, trabalhar com ele, e estou com dois anos lá. E saí agora. Sendo humilhado lá dentro. Se o cabra fala de ir embora, ele diz que quer matar o cabra, vira a costa da foice na cabeça do cabra, de facão. E o cabra fica com medo. E lá também tem arma, tem fuzil, tem 12, tem 20.

 

Lá é perigoso, a pessoa fica com medo. Eu saí de lá ontem às quatro horas da manhã. Saí “de” pesão. E, toda vez que eu via um carro, eu entrava dentro da mata. Eu pensava: “Será que são eles, que vão me matar?” Eu entrava dentro da mata e deixava o carro passar. E, quando eu cheguei na pista, ia vindo um carro, eu só perguntei de onde era, e ele dizia: “Não, eu vou para Buriticupu.” Eu entrei, e quando chegou lá no posto, o cara me disse: “Cadê o dinheiro, cara?” “Rapaz, eu não tenho, não, pode chamar a polícia.” Ele foi e disse: “Rapaz, pois tu vai ficar.” Eu disse: “Tá bom.” Mas ele também não brigou comigo, não. Aí, vinha vindo, passando outro cabra, e eu disse: “Ih, rapaz, você vai para onde?” Ele disse: “Rapaz, eu vou para Buriticupu.” Eu digo: “Rapaz, eu vou para lá também, quanto que é a passagem?” “Tanto.” Eu entrei, e ele não cobrou logo na hora, não. E, quando chegou na parada, ele disse: “Cadê o dinheiro?” Eu disse: “Rapaz, eu não tenho, não, pode chamar a polícia.” Eu contei minha vida para ele, porque é que eu estava vindo. “Rapaz, eu estou saindo é fugido, porque lá onde eu estou, o cabra não quer que ninguém saia, trabalhando que nem escravo, até no dia de domingo a pessoa trabalha. Se não trabalhar, ele não quer dar o ‘de comer’ também. O cabra também não pode ir embora porque jura de matar os cabras, e está ruim de a pessoa trabalhar.” Ele foi e disse: “Poxa, não carece de pagar, não.” Eu fui, falei com o promotor de Buriticupu, nós ligamos para o Centro de Defesa. Não. Ligamos para o Ministério da Saúde em São Luís, não deu certo, ligamos para o de Teresina, não deu certo. Aí, ligamos para cá, e foi o que deu certo. Ontem, eu dormi na casa do padre.

 

Mas o meu serviço mesmo lá era fazendo cerca. Assim que eu cheguei, fiquei carregando estaca. Comecei a carregar estaca nas costas, duas, três, e eu fui sentindo dores no peito. Eu falava para ele: “Rapaz, eu não aguento mais, não.” Ele dizia: “Rapaz, tu é um cabra novo, que tem muita força.” Ele vinha assim, e eu pensava que tinha muita força mesmo e o jeito era aguentar. E eu aguentei ainda um bocado de dia lá mais ele, botando estaca. Aí, eu disse para ele: “Rapaz, se for desse jeito, eu não aguento, não. Você vai me matar. O senhor não tem nenhum comprimido?” Ele disse que não tem, não. Eu fui para o mato, tem uma ladeirinha, e achei um pé de mastruz. Pedi um leite para um vaqueiro e fiz um mastruz. Aí, ele me colocou para roçar “junqueira". Roçar “junqueira" é cortar mato. Matona fechada aí. Matão que tem cobra, tem tudo, e você vai só com uma foice na mão e vai trabalhar em cima da mata.

 

Eu estava cortando a bola de capim no brejo, porque lá ele tem um brejo que ele mandou roçar. Eu estava cortando um capim, quando eu abaixei. No que eu levei a foice, uma jararacuçu foi e pulou em cima da foice. Quando ela pulou, eu afastei para trás e gritei. Aí, ele disse: “Rapaz, tu é frouxo.” Eu digo: “Acabou?” Ele disse: “Rapaz, se você não aumentar o serviço não vai ganhar a diária de hoje, não. E é arriscado tu nem jantar.” Mesmo assim, a pessoa tem de aguentar o que for, que a cobra morda, ou que um bicho pegue o cabra. Mesmo assim, a pessoa tem que aguentar. Só não aguenta quando ele vê que o cabra já está nas últimas mesmo. Ele joga o cabra na rede e deixa morrer.

 

Os outros lá, eles não abrem para ninguém, porque têm medo que contem para o “gato”. Mas tem gente que tem vontade de sair, sim. Tem velhinho que não aguenta mais trabalhar, tem menino. Eu também sou menino, mas tem menino lá que não consegue nem arribar uma foice e vai trabalhar também. É um sofrimento sinistro.

 

Eu estava trabalhando lá com as botas feias, todas rasgadas, e eu saí roçando. Foi quando eu pisei assim e, quando eu fui para a frente, o toco entrou. E aí eu fui derribar a bota e eu tirei o pau. Quando eu tirei, estava o buraco aqui. Tinha um velho que estava derribando também, eu pedi a gasolina, e só fiz pôr o dedo e meter a gasolina. Queimou, mas também não sarou na mesma hora, não. Passou um bocado de dia. E, quando eu chegava lá, a bota só tinha aquela salmourazona de sangue. Quando chegava de tarde, ficavam aqueles mosquitos dentro da bota, quando eu tirava o pé. Eu mesmo que fervi uma água. Foi assim que sarou, ele está bom. Eles que ensinam a largar gasolina no pé, que fica bom. É o único remédio que tem lá. É gasolina. Então, se pegar algum corte, pode meter gasolina. Não tem outro remédio para o cabra usar lá.

 

Eu já tinha ouvido falar de escravo, porque dizem que escravo era o bicho que apanhava. Ainda, graças a Deus, que não chegaram a bater, não. Só chegaram a ameaçar. Dizia que ia cortar a cabeça do cara de foice, dizia que iam abrir um periquito na cabeça do cara de foice. Eu fiquei com medo também. Muitas vezes, eu não dormia, ficava pensando. Muitas vezes, eu ficava pensando em fazer coisa ruim, mas, graças a Deus, nunca deu certo, não. E nunca tentei fazer. E, graças a Deus, a única coisa que eu tentei botar na cabeça foi sair. E eu consegui sair e, graças a Deus, eu estou aqui no Centro de Defesa e estou mostrando para outros cidadãos. Mais à frente, algum dos meus amigos que estiverem me ouvindo, prestem atenção e vejam que todo cidadão tem o seu direito. Vamos trabalhar, mas não vamos trabalhar para morrer e nem como escravo.

 

Eu não tenho muitos prazeres na minha vida, não. O que eu tenho prazer é receber meu trabalho, ser um cidadão comum, ser um tipo de cidadão respeitável e viver a minha vida. Só isso.

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