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História

Garimpo, garrafadas e um monte de histórias pra contar

História de: Sinair Nelson Garcia (Grande)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2013

Sinopse

Sinair, mais conhecido como Grande, nasceu em Goiás, mas em seu depoimento lembra que foi criado em Uberlândia, MG. Conta que ao perder a mãe aos 11 anos, morta em trabalho de parto, resolveu abandonar a família e procurar um garimpo para trabalhar. Recorda o cotidiano dos garimpos por onde passou, revela como ouro atiça a cobiça das pessoas e como é fácil ganhar e perder dinheiro em busca de riquezas. Com o conhecimento que aprendeu com os índios Xerem, faz garrafadas que ajudam nas moléstias em Laranjal do Jari.

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História completa

Eu sou nascido em Itumbiara, Goiás, aos 3 de novembro de 1954. Meus pais são de Minas, Uberlândia. Meus avôs maternos e paternos são da Bahia, de Nazaré das Farinhas. Era tudo agricultor. Um dos avôs era criador, o pai da minha mãe. O meu pai conta que foi uma praga que deu na lavoura na Bahia, naquele tempo, eles vieram embora. Meu pai antes era agricultor, depois ele ficou trabalhando em Minas, em Goiás. Uberlândia estava desenvolvendo bem naquela época, estava bom de ganhar dinheiro e ele foi para lá.

O meu pai começou sendo agricultor e ele trabalhava naqueles armazéns, trabalhando de carregador. A minha mãe sempre foi lavadeira de roupa. O meu pai viveu lá a vida toda. E a minha mãe não foi a vida toda porque ela morreu muito nova ainda. Quando ela morreu, eu estava com 11 anos. O meu pai trabalhava com umas pessoas de Uberlândia, e eles tinham fazenda em Goiás, pertinho da divisa ali em Itumbiara. Essa época meu pai ia lá para fazenda deles. Foi uma época dessas que ele foi, que ele levava a família, e a minha mãe já me teve por Goiás. Época de trabalho no armazém era a época que não era de trabalhar, ele trabalhava nas fazendas de gado.

Ele passava às vezes três meses, quatro meses, e levava a família. Foram seis filhos. Mas até lá ainda não tinha nascido tudo, ainda tinha um para nascer ainda. Seis homens e mulheres. Deu certo de nascer três em Minas e três em Goiás. Minha mãe que tirou esse nome, Sinair, não sei de onde. E não me registrou logo. Fui registrar por minha conta própria, mas meu pai me contou que ela queria esse nome, e eu coloquei. Em Itumbiara eu nem me lembro, eu ainda era bebê. Eu sei contar um pouco só do estado de Minas. Eu fiquei até a idade dos 11 anos em Uberlândia. Para lá não existe casa de madeira, era uma casa também de alvenaria, uma casa bem feita mesmo. Tinha uma irmã que foi morar com meu avô, ela não quis morar mais com meu pai, foi morar com os avôs. A mais velha. E morou para lá até quando morreram tudo para lá. Ficamos só cinco em casa. Era uma casa de mais ou menos cinco cômodos: cozinha, sala e três quartos.

O meu pai era mais alto do que eu, mais forte um pouco do que eu. Ele para os filhos dele não era muito bom. Assim, pisando fora da bola e ele não perdoava. Então tinha que andar direitinho. Eu fui um dos que apanhei menos, porque eu corria. Mas os que não corriam, tem deles que já estão velhos que nem eu, mas tem sinal no rosto. Agora, eu não dei esse gosto para ele. Minha mãe não era tão má. Essa era baixinha, era um metro e 40. Era calma, tranquila, falava baixo. As brincadeiras eram essas brincadeiras de rua. Por exemplo, eu era bola, eu era doente por bola. E os outros irmãos também. Eu achava bom ir caçar, essas coisas assim. Eu comprei uma espingarda escondida do meu pai, eu a deixava ela no mato e ia para o mato caçar com a minha espingarda. Também se eu matasse alguma coisa, não podia trazer, tinha que dar para alguém, que não dava para trazer. Eu estudei só dois anos também. Eu não quis mais e meu pai não forçou a barra, não me obrigou a estudar. Só eu que não estudei. Os outros todinhos estudaram e estão até hoje na cidade. Não gostava e estudar porque tinha palmatória, ela passava uma conta, eu não dava conta, ela mandava os outros moleques baterem na minha mão. A minha mãe não queria que eu parasse. Então eu ajudava-o em tudo, capinar e fazer colheita, essas coisas. Lá em casa era quase que uma igreja, minha mãe reunia todo mundo ali, ela pegava a bíblia, ia ler, depois tinha que rezar.

Eu gostava muito de atentar com os outros irmãos. Portanto que quando minha mãe morreu, os outros tudo ficaram em casa, eu resolvi sair, que eu vi que não ia ter mais nada para mim lá. Os irmãos não se davam muito comigo, que eu bagunçava muito com eles. Minha mãe morreu de parto. Ela passou sete anos sem ter filho, engravidou e foi para Itumbiara de novo, ela morreu. Ficou com dor lá no mato três dias e a parteira tentando. Com três dias a parteira despachou. Ela foi para o médico, chegou lá passado da hora e morreram ela e a criança. Eu me lembro de ir a Itumbiara quando eu já tinha 12 anos. Com 11 anos eu saí de casa.

O senhor Zezinho trabalhava nesses garimpos por aí, garimpo de cristal. Eu saí à procura de garimpo. Não, sabia o que era, mas não pensava que era do jeito que é. Sabia que era atrás de minério, só que não é bem assim. É atrás de minério, mas não é só chegando e achando minério. Estava desbravando a Belém–Brasília, de ônibus e aquelas caminhonetas que faziam corrida. Eu vinha, a hora que acabava, eu parava, trabalhava naquelas fazendas por ali, ganhava de novo, tornava ir mais um pouco. Eu passei uns seis meses para chegar lá. Cheguei já bem mais maduro. E que eu passei mais de seis meses para chegar lá. Eu já estava com uns 15 anos quando cheguei em Tocantis e fui direto para os garimpos. Tinha o garimpo do Rebojo, tinha o garimpo do Cariolando. O primeiro garimpo que trabalhei foi do Rebojo. Tem a corrutela onde tem os comerciozinhos, tem divertimento, tem bilhareto. No garimpo é assim, por exemplo, eu acho uma grota que tem muito ouro, eu vou trabalhar. Mas daí a fofoca sai por aí: “Ah, o seu Grande está numa grota que está pegando ouro”.

Começa a chegar gente. A gente não dá logo tudo porque vai vir mais gente ainda, sabe que vem mais gente. E nessa época assim, quanto mais gente era melhor. Porque animava mais. A gente precisava da ajuda de um, a gente ia e chamava. Eu parei de garimpo por causa de tanta covardia. Eu parei aqui já nessa região. Porque nesse rio aonde nós vínhamos é o caminho dos garimpeiros para cima, eles passam por aí. Tem vez que eles dormem aqui. Tem alguém aqui da vila que está no garimpo também, está trabalhando para cima. Mas muita covardia. Eu não sabia administrar nada, as mulheres tomavam conta do que eu ganhava. A gente começa a baixar um barranco aqui, só vai pegar ouro quando terminá-lo. E sempre trabalha em dupla. Um barranco, por exemplo, cinco por cinco, se ele der dez palmos de fundura, a gente vai acabá-lo com cinco dias.

Com cinco dias que vai terminar de chegar no cascalho. Do cascalho para frente ainda gasta três a quatro dias de novo, para tirar o cascalho para cima, lavar e apurar o ouro. A gente só acha ouro quando lava a terra. A gente lava tudinho, a terra sai e o ouro fica. O ouro entranha tudinho naquela farrapilha, não vai dali para frente. O primeiro ouro meu deu 400 gramas. Até hoje tem comprador de ouro para todo canto. A mercadoria que eu comi enquanto eu estava tirando esse barranco eu comprei fiado. Eu fui vender o ouro, vendi, paguei e sobrou muito dinheiro ainda. Eu comprei outras mercadorias e estourei o resto. Achei boa a vida.

O garimpo que eu demorei mais foi sete meses, sem ir para cidade, só dentro. Tinha cigarro, tinha bebida, tinha mulher, tinha tudo lá. Não precisava. Eu guardava sempre o ouro dentro da cueca. Quase todo mundo é assim. Amarra um fio nele, amarra na cintura e bota dentro da cueca. Morava em barracos feitos muitas vezes de palha, outra vez de plástico mesmo, a gente levava o plástico, estendia, fazia um barraquinho assim. Mais mesmo era de plástico enceradozinho, desses pretos que são bem levezinhos para carregar. Em Tocantis fiquei uma porrada de ano lá. Tanto era no Tocantins, como no sul do Pará. Sul do Pará era o Xinguara, Redenção, Rio Maria, aquela região ali.

Aquela região ali é uma região muito rica, era madeira e ouro. Eu fiquei uns 26 anos no garimpo. O povo foi saindo do garimpo e eu não tinha condição de sair, porque não tinha como sair por água e nem por terra. Só de avião. Eram 18 gramas a passagem de avião. E não consegui arrumar esses 18 gramas. Eu passava de quatro meses, três meses. Às vezes eu ia à cidade, voltava para o mesmo garimpo de novo, porque estava bom. Eu tinha que comprar umas coisas no garimpo não tinha, eu ia para lá, comprava e voltava de novo para o mesmo garimpo. Eu vim direto para o Laranjal, para os garimpos daqui, eu estava nos garimpos de Altamira. Eu ouvia falar que aqui no Jari tinha um garimpo que estava muito bom e tal. Só que onde eu estava, estava melhor do que aqui, em Altamira. Um tempo eu trabalhei de ajudante numa canoa. Eles traziam de noite para o porto a maconha.

Eles chegavam de madrugada com as maconhas para gente levar para o garimpo. Era deles, a gente só fazia o transporte. Tinha mercadoria também, arroz, feijão, chá. Eu trabalhei pouco. Não trabalhei muito tempo. Não gostava. Eu fiquei trabalhando na canoa até aparecer uma vaga para mim. Quando apareceu, eu fui para o garimpo. A gente respeitando os direitos dos índios, eles gostam. Então eu toda vida respeitei, eles gostaram e me convidaram para eu ir passear. Estava nos garimpos do Tocantins. Chegou lá, o cacique se deu comigo, disse: “Não, passa uns dias aqui, mais nós, e tal”. Eu fiquei. Eu ia caçar mais eles. Que eles não gostavam de caçar com espingarda, só com flecha, e eu gostava da espingarda. E eles conheceram que a espingarda dava resultado mesmo. Eram os índios Xerém.

É a mesma coisa dos índios Xavantes, me chamavam Dadoprearé. Os remédios. A maioria foi lá. Eles me ensinaram também para gente ter experiência com remédio, tinha que ter experiência com os animais. O caso de eu ter saído de lá, foi que uma índia engravidou. E se o cacique desse fé dessa arrumação que ela tinha engravidado, aí acabou nossa amizade. Eu tive que sair antes do cacique descobrir. Ela também ajudou que eu saísse: “É bom tu sair logo”. Fui para o garimpo de novo. Toquei a vida para frente. Aqui no Jari não duraram cinco anos. Eu fui trabalhar nessa área da Jari roçando, para a Agrominas. Quando saí de lá, eu vim para boca do Iratapuru.

Os donos dali que me convidaram para vir. Trabalhando em roça e castanha também. Na época da castanha, a gente tirava castanha. Está com 21 anos que eu cheguei aqui. Eu me dei bem mesmo aqui. Estou até hoje. Tem uma mulher que tem uma pousada ali em Laranjal do Jari. Então ela adoeceu, e foi para Belém, o médico falou que não tinha mais condição para ela. Ela veio embora para o Laranjal. Eu não a conhecia. Um outro que a conhecia que me falou, falou: “Rapaz, eu tenho uma amiga, gente boa demais, estava doente para Belém, chegou, o médico disse que o câncer dela não tem mais jeito, vai morrer”. Eu digo: “O câncer dela é aonde?”. Ele disse: “É na costela”. Eu me lembrei do açacú. Eu digo: “Rapaz, talvez se fizesse uma garrafada para ela, ela melhorava”. Ele disse: “Se o senhor quiser fazer, eu falo lá para ela”. Muitas vezes veio gente, traz o doente para aí : “Não, eu sei que o senhor vai fazer o remédio, tal”.

E esses doentes que têm essas doenças perigosas atacam mais é à noite. E muitas vezes já passei noite sem dormir ali com doente. Eu tenho que levantar, sair, ir para o mato, vou caçar, só venho de manhã de novo. Eu descobri assim: a mulher queria engravidar, e aqui e acolá ela tinha uma pequena gravidez, e antes de o filho crescer, ela botava fora só aquela bola assim. Então eu notei que aquele pau, o leite dele é como se fosse uma cola. Eu digo: “Esse pau, se botá-lo para murchar e fazer um chá e a mulher engravidar, ela segura o filho”. Eu só fiz uma vez. Dei para ela e ela engravidou gêmeos. Engravidou logo dois.

Não precisou mais remédio daí para frente, continuou tendo filho. Não precisou mais, foi só essa vez. Eu vendo castanha para os atravessadores, na época de castanha eles estão por aí. Anos dá bom, anos dá ruim. Esse ano mesmo deu ruim no começo, veio dar bom no final, quando já não presta quase mais a castanha, que ela vai apodrecendo tudo no mato. Eu casei em 75, com Ivanete, em Tocantins. Nós ficamos seis anos juntos. Não deu mais certo, aí eu vim embora para o garimpo e ela ficou. A familia dela não se davam muito comigo, porque de vez em quando eu a deixava, ia para o garimpo, passava uns três meses, quatro por lá. Esse apelido de Grande não começou de Grande, era Gordo.

Eu era muito gordo. Eu pesava 105 quilos. Foi a vez que eu peguei a primeira malária. Eu a peguei com hepatite e com anemia muito forte. Eu fui para o hospital, eu passei uns 26 dias internado, quase morria mesmo, saí seco, seco. Aquelas calças que eu tinha, eu tive que amarrar aqui para eu sair do hospital. Então quem me via gordo, me via e dizia: “Ele está compridão, rapaz, agora. Acabou aquela banha toda”. Quando me veem: “Ê, rapaz, mas tu ficou muito grande agora”. Pegou. Acabou o negócio de Gordo, passou para Grande. E Grande está até hoje.

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