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História

O cantador da cultura nordestina

História de: Sebastião Marinho da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2007

Sinopse

Em sua entrevista, Sebastião expõe toda sua admiração pela cultura nordestina e conta sobre as influências e importância dos cantores da década de quarente e cinquenta, sobre a forte literatura de cordel, os costumes das cantorias, sobre a influência do rádio na cultura nordestina. Ele descreve a rotina do repentista, a visão e as expectativas que o povo nordestino têm sobre a região sudeste do Brasil. Relembra como se tornou um cantador repentista profissional e sobre as emissoras de rádio em que trabalhou, além de contar sobre os novos problemas para propagar a cultura dos cantadores, como foi parar em São Paulo e começou a trabalhar também como zelador.

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História completa

P/1 – Sebastião, boa tarde!

 

R – Boa tarde, meu caro José!

 

P/1 – Eu queria começar a entrevista pedido para o senhor dizer seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Nome completo, Sebastião Marinho da Silva, nome de guerra, Sebastião Marinho, nascido dez de março de 1948, numa região denominada Bonsucesso, região do Alto de _______, na nossa Paraíba, no município de Solânea.

 

P/1 – Em que ano?

 

R – 1948.

 

P/1 – E o senhor podia dizer o nome de seus pais e qual a atividade profissional deles?

R – Bem, o nome do meu pai é Manoel Anulino da Silva. A minha mãe, Damiano Marinho da Silva, de quem herdei o sobrenome. Já naquela época, nos anos quarenta, a velha já era feminista (risos), gostava de mandar na coisa. São onze irmãos. A minha mãe disse: “Os meninos todos levam meu sobrenome. As mulheres levam o seu sobrenome”, falando para o meu pai. Então as mulheres são Anulino, e os homens são Marinho. E assim, caiu pra mim, eu sendo o primeiro dessa prole... E meus pais eram lavradores. E eu também, logo menino, entrei na vida de lavradores junto com eles, trabalhávamos no campo. Nós tivemos a grande influência dos cantores daquela época, no meu tempo, no final dos anos quarenta para os cinquenta, então era muito forte a literatura de cordel, não havia televisão, o acesso ao rádio era muito pouco, e jornais muito menos no nosso interior. O que mais nós recebíamos era influência dos escritores de cordel. A gente lia impecavelmente Leandro Gomes de Barros, João Martins de Ataíde. Leandro Gomes de Barros já era falecido, e Zé Camelo, que era autor do “Pavão Misterioso”, era nosso vizinho, natural de Pilõezinhos, antigamente Guarabira. Então nós pegávamos os trabalhos dos grandes cordelistas e naquela caminhada, nós, meninos da época, seguíamos nossos grandes desafios, que não tinha outro caminho a não ser cantador, porque a influência era grande.

 

P/1 – Eu queria voltar um pouquinho no tempo, seu Sebastião, queria que o senhor contasse um pouco como era a casa em que o senhor passou a infância. O senhor se recorda dela?

 

R – Pois é, meu compadre, a casa que eu vivi quando menino, era um casarão de seis quartos, uma sala enorme, como toda casa do interior que costuma ser sempre grande, e ali, quando o caboclo casa, o sogro juntamente com o pai daquele cidadão, procura logo preparar uma casa grande, já preparam para criar uma grande prole, aquele negócio. E o meu pai com a minha mãe não foi diferente. A minha mãe foi mãe de dezessete filhos, morreram um bocado, mas escaparam onze e naquele casarão a gente criou-se, vivendo aquela nossa vida simples do interior, onde os divertimentos sempre foram aquele bem interiorano. Nós éramos curtidores do pastoril, coisa que hoje não existe mais, infelizmente, reisado, novena, terços de maio, quantas saudades daquilo, uma coisa linda, era 31 noites de maio. E eu me criei no meio daquela criançada como toda criança simples do pé da serra, ouvindo sempre aquelas histórias do Lampião, aquelas vantagens.

 

P/1 – Quem contava histórias na sua casa?

 

R – Não falta contadores de histórias para o povo do interior, naquele tempo. Hoje é diferente, mas naquela época não faltava. Todo mundo sabia a vida de Lampião detalhadamente. Todo mundo sabia a vida de Padre Cícero detalhadamente. Todo mundo sabia a vida de Getúlio Vargas, o presidente, detalhadamente. Todo mundo sabia a vida de Napoleão Bonaparte, o império francês e mil coisas.

 

P/1 – Napoleão?

 

R – É, todo mundo sabia as lutas, as conquistas, as proezas dos doze pares de França embalado pelo imperador Carlos Magno. Agora, isso era uma cultura levada pelos cantadores ao povo do campo. Eram os cantores-repentistas que levavam, que eram os verdadeiros mestres que orientavam aquele povão. E sem contar com a vida e morte de Cristo. O caboclo naquela época sabia ao pé da letra. No campo a gente tinha aquela riqueza, coisa que hoje infelizmente não temos.

 

P/1 – O senhor tinha onze irmãos, ou era o senhor e mais dez?

 

R – Não, era eu e mais dez. Só que eu sou o mais velho de um time. Tiveram muitos que quando nasceu já era cantador. Comecei com vinte anos de idade. Quero dizer, cantar desde menino eu já cantava.

 

P/1 – Quando,  o senhor, menino, apareceu esse dom e a sua família recebeu isso?

 

R – Bem, lá em casa eu não tive nenhum parente, porque muitos cantadores tiveram o privilégio de ser uma coisa passada de pai para filho, de filho pra netos, como é o caso de muitos cantadores famosos que a gente conhece. Já não foi o meu caso. Na minha família nunca houve sequer um parente que fosse cantador de viola. Agora, eu tive influência, porque o meu avô foi promotor de cantorias. O que é um promotor de cantorias? Ele tinha um casarão enorme lá no sítio Bonsucesso e tinha duas cantorias por ano. As cantorias eram véspera de São José e Dia de Todos os Santos. Então era no mês de novembro e no mês de março. Aquilo ali era uma festa enorme, reunia o povo da região todinha e ali passava aquela noite concentrada com aqueles cantadores. Os cantadores chegavam três dias antes da cantoria. O gostoso não era o dia da cantoria. O bom era a palestra que os cantadores levavam para o povo. A gente fazia aquela roda. Dali eu comecei a sentir os primeiros versos. Eles me explicavam como se fazia uma sestilha, eles me explicavam como desmanchava um martelo agalopado, eles me explicavam como fazia uma toada gemedeira, uma embolada, qualquer estilo da cantoria, um galope a beira-mar. Então, dali começavam a orientar a gente. Depois, quando eu completei seis anos de idade naquele aprendizado, aí foi quando o meu pai inventou de me mandar para a cidade. Eu saí do sítio e fui para a casa de uma tia minha estudar na cidade. Aí, lá, as primeiras letras que a gente recebia, aí até o meu pai disse assim: “Acho que vou lhe mandar para a cidade, mas depois eu lhe pego de volta e contrato a fulana de tal, que era uma prima da gente chamada Josefa - saudosa memória. Essa Josefa é nossa parente, vem pra cá para desarnar todos vocês (risos). Só que a Zefa, essa minha professora, além de ser parente, era muito ligadona ao mundo da cantoria. Quando menino eu já aprendi a cantar “Triste despedida”, de Antônio Maracajá, um poeta da cidade de Acopiara, estado do Ceará. Aprendi, naquela época, a cantar a “Canção do Lenço”, do Severino. E dali começou a influência dos grandes cantadores, aquele contato, e dali comecei cantando, fazendo as primeiras estrofes com dez anos de idade. E dali começamos a deslanchar por ali afora. Com quinze anos eu já estava pronto para entrar na viola, só que a família não aceitou.

 

P/1 – Mas no início, o que seu pai e sua mãe acharam?

 

R – No começo eles acharam que era uma maravilha. Todo mundo curtiu o menino cantando, lendo história de cordel – comecei a ler, soletrando, como se diz na terrinha, dos oito anos pra frente eu já comecei a ler história de cordel. E aí reunia a família todinha lá no casarão, preparavam aquele cuscuz de milho novo na época da safra, aquele café, aquela bolacha seca, a gente chama de quebra-queixo, e ali eu começava, no clarão da lamparina, porque não tinha outra luz, era lamparina tradicional, e eu lendo “Pavão Misterioso”, “Cachorro dos Mortos”, “Sofrimentos de Alzira”. Além das batalhas dos “Doze pares da França”, “Vida e morte de Cristo”. E no meio daquele povo e todo mundo concentrado. Aquilo era um tipo de teatro. Naquele tempo eu já aprendi a sentir o drama. Eu entrava tão profundo na história e, dali a pouco, ao redor [de] todo mundo, dependendo do assunto, todo mundo ao meu lado chorando.

 

P/1 – Chorando?

 

R – Aquela coisa linda, os meus avós do lado. Era uma coisa linda. Uma coisa que sinceramente hoje traz saudade e infelizmente não existe. E a família era aquele carinho enorme. Só que coisa ficou brava quando comecei com doze, quinze anos já encarando os primeiros cantadores na minha região e ficavam na casa do meu avô. Eu já era convidado para cantar no local, cantava com os cantadores, mas não profissionalmente.

 

P/1 – Mas já era o desafio?

R – Segurava, pau a pau, só que a família começa a sentir que eu ia partir e lá vem a pressão. “Não, você não pode porque isso é vida de vagabundo. Gostar de arte todo mundo gosta, menos ter um artista na família. Ninguém quer ter artista na família”. Hoje, não, a coisa está aberta, mas ontem era terrível. Aí o que fizeram? Montaram o armazém de compra e venda. Na época da safra nós comprávamos algodão, algarves, que é o sisal, comprávamos o feijão, fava, e pegava aquele negócio no armazém, quando terminava a safra passava para as feiras. E eu fiquei naquele meio. E eu me jogava para dentro do barracão, ficava preso e assim me seguraram até os vinte anos de idade. E eu segurando a barra, cantando na região já, deitando e rolando. As cantorias já eram oficializadas.

 

P/1 – Nos fins de semana?

 

R – Já era comigo. Sexta, sábado e domingo já era comigo lá no pé-da-serra, mas somente na região, não podia sair porque tinha aquele barracão que eu tinha que segurar. Não podia sair de dia, somente à noite, quando fechava. Era a hora em que eu me mandava para as minhas cantorias nas quebradas. E a pressão da família em cima, em cima. Quando eu completei vinte anos, meu compadre, lembro daquele quinze de novembro de 1968, a minha primeira cantoria oficial com um cantador chamado Cícero Beija-Flor, um cantador paraibano da cidade de Catolé do Rocha, a terrinha do Chico César. Dali começou a minha história.

 

P/1 – O senhor quer contar um pouquinho desse dia?

 

R – Pra mim não foi muita novidade porque eu já vivia atuando como cantador. Só aquela expectativa de que daqui dá para eu viver pra frente, porque a família me dispensou. Essa é a primeira cantoria profissional! Foi quando eles me viram pegar o primeiro dinheiro e botar no bolso, com o trabalho que eu prestava, porque antes eu não fazia isso. Eu cantava nas cantoria dos outros e passava o dinheiro todo para eles. Aí a família fez aquela pressão, “Você quer encarar como cantador?” “Quero!”. Então, pronto, não foi ninguém da minha família na primeira, nenhum parente, e o pior é que a cantoria foi na vizinhança, e não foi nenhum parente.

 

P/1 – De propósito?

 

R – De propósito. E não foi ninguém. E eu segurei a barra, cantei com o Beija-Flor, a casa estava lotada, muitas mocinhas que eu estava namorando, só o cavalo velho (risos). Eu era solteiro na época. Cantador da região. E dali veio a proposta final da família, “Olha, vai, continua como cantador, agora quando estiver passando fome, duro, sem um centavo, não volte pra cá, porque ninguém vai lhe dar a mão!” “Tá, tudo bem!” Daí eu meti a cara. Sofri como o danado. Não é brincadeira você encarar logo assim... Cantar uma coisa por esporte, tudo bem, mas quando é para encarar profissionalmente, eu sofri os diabos, passei fome, andei a pé, sofri como um danado.

 

P/1 – A pé como?

 

R – A pé pegando de Solânea pra Picuí, não dá nada menos que umas quinze léguas. A gente saía a pé. Tinha cantoria no sábado, eu saía uma vez na quarta-feira para cantar no sábado em Picuí, enfrentando no pé aquele mundo velho. Porque não tinha dinheiro para pagar passagem. O transporte também era muito difícil. A gente andava dois, três dias à pé. Mas não voltei pra casa, não fui buscar dinheiro de ninguém, e não vou, segurei o capricho. Assim, segurei o fim do ano de 68, 69 e em 1970 eu lancei um programa numa emissora chamada Rádio Cultura de Bananeiras, é vizinha da minha cidade. Nesse programa eu fiquei por uns dois ou três anos, mais ou menos. Em 1973 eu terminei o programa e passei para Campina Grande, depois João Pessoa e Recife. Só que quando eu lancei o programa em 1970 foi quando a família já começou a comprar os primeiros rádios, aí começaram a me ouvir. Aí me perdoaram, a consagração foi a volta. Voltei, mas antes disso eu voltava pra cantar e eles não iam para a cantoria. Quem primeiro abriu foi meu avô materno, chamava-se Antônio Marinho. Ele foi o primeiro a abrir. Quando, uns seis meses eu voltei para aquela região, o meu avô materno já estava lá. Aí, pronto. Quando eu lancei o programa no rádio que eles assistiam todos os dias, aí voltei e foi a consagração. Até hoje a família me acompanha no dia-a-dia da viola. Pra mim foi ótimo. E daria tudo para começar de novo. Começaria tudo outra vez, talvez até por um outro caminho diferente, com mais consciência, mas isso faz parte do dia-a-dia. A gente começa meio perdidão, numa praia meio danada, porque a viola... O cantador tudo modificou no dia-a-dia. A música teve seus rumos diferentes. A música que eu falo é a tradicional. O sanfoneiro, por exemplo, começou com pé de bode, hoje está com essa sanfona que é um computador. Você vê um Dominguinhos pegar a sanfona dele, não tem nada a ver com a sanfona de Seu Luiz. A sanfona do Oswaldinho não tem nada a ver com a sanfona do velho Pedro Sertanejo. A sanfona hoje do Oswaldinho é um computador. E eles passaram a conhecer a música profundamente que os velhos não conheciam. Seu Luiz não conhecia, Pedro Sertanejo não conhecia, mas Dominguinhos e Oswaldinho conhecem. Enquanto o repentista não desenvolveu, pelo contrário, ele continua gritando mais do que gritava. “Mas por que repentista gosta tanto de gritar?” É porque quando a gente começou, meu compadre, era a necessidade. Sabia que você chegar num salão, numa sala com trezentos, quatrocentos metros quadrados, lotado de bancos e gente, todo mundo com a cara ligada na sua para você cantar sem som, ter que arrancar no peito para o outro do outro lado te ouvir? Era a cultura do grito!

 

P/1 – Não havia microfone?

 

R – Não tinha nada. E isso até hoje. Existe muito no Nordeste ainda. Ainda tira no grito. Aí cantador começou naquela linha, e quando é hoje pra cantar ele está morto.

 

P/1 – Muita gente não conhece o repente, nunca ouviu falar. Não aqui no Brasil, mas em outros lugares que podem ler o seu texto. Você poderia contar como é uma cantoria, como ela é composta?

 

R – É o seguinte: quando o ambiente é propício para a coisa, o cantador começa a cantar em sextilha e tem sempre um motivo. Se é um aniversário do cidadão, ele começa a falar do aniversário. É claro que ele vai ter que ter dados, pegar a vida do cara, quantos anos o cara tem, qual a família, aquela coisa, e trazer o ontem dele até o momento, falando dos amigos que estão presentes. O primeiro baião de viola, que é a primeira etapa, sempre em sextilhas, a dupla de repentista começa a falar o que está acontecendo. Isso é na cantoria é tradicional, hoje estão usando um outro esquema da cantoria tradicional. O cantor já está levando o show pronto. O de hoje, já não é o tradicional. O tradicional vai contar o que está acontecendo ali. Já a turma mais nova está trazendo a coisa pronta, mas aquele baião pronto que é para impressionar. Eu acho isso um crime. O público – o cantador jovem que me perdoe – é o mais divino que se tem que respeitar, e eles não estão respeitando. E para o povo eles estão cantando de improviso, mas eles já trazem pronto. Sempre o Primeiro Baião, já o tradicional, que é o meu caso e de alguns cantadores, até jovem também que usa a linha tradicional, a gente gosta mesmo de começar com o que está acontecendo aqui, é quando você se identifica muito mais fácil. Mas tem uma importância muito grande o repentismo, é nada mais nada menos... É o seguimento do cordel. Então isso teve muita importância na Cultura do povo do NE. Sem os cordelistas, sem dos cantadores, essas figuras de Lampião, Padre Cícero, eles tinham passado batido na história e ninguém saberia o que é. Fomos nós, os cantadores e cordealistas, que propagamos essas figuras. Por exemplo, Getúlio Vargas se tornou popular no NE... Teve uma época em que era um deus. Ele, malandro pra danar, junto com a turma política que era do lado dele dava dinheiro para os cantadores, se eles levantassem a bola da figura. E assim vai. Antônio Conselheiro... Todos teriam passado batido na história. Por exemplo, Lucas da Feira foi um cangaceiro muito pior que Lampião. Nascido em município de Feira de Santana na Bahia, pintou muito mais coisas que Lampião, mas coitado, como a Bahia não se preocupou... Não era muito a praia do cordelismo, o Lucas passou batido na história. Lamarca arrebentou-se no sertão da Bahia. Cadê? Ninguém contou a história do Lamarca, porque a Bahia não se interessou muito. Se Lamarca tivesse morrido em Pernambuco, na Paraíba, no Ceará, talvez tivesse sido até canonizado (risos). A caminhada dele daria mais força que o próprio Padre Cícero.

 

P/1 – Mas a história é de quem conta, né?

 

R – É claro. Aí Conselheiro morreu na Bahia, mas como ele tinha raízes lá em cima, no sertão do Ceará, porque ele era cearense, então os cantores do Ceará começaram a manifestar e por ali veio. Ta aí o Conselheiro na História. O Lampião, que era pernambucano, e o Padre Cícero que é do Ceará. Enquanto o coitado do Lamarca não teve chance... Então são esses personagens que os cantadores ilustraram. Além disso, a vida do campo, por exemplo, o que acontecia na cidade grande, o que acontecia no rumo da política brasileira, eram os cantadores que levavam a informação naquele anos quarenta, cinquenta. Depois de sessenta a coisa começou a se desenvolver, e mudou de figura.

 

P/1 – E qual foi a influência do rádio?

 

R – Bem, o rádio foi muito importante no começo da viola. Foi quando os cantadores começaram a ocupar espaço um pouquinho na mídia. O povo começou a ouvir o cantador através do rádio, sem conhecê-lo pessoalmente. Perdeu um pouquinho aquele valor que tinha os velhos mestres, aqueles carismáticos, como é o caso do _________ Monteiro, o Manoel Elias da Paz, um Severino de Pirauá, o Josué da Cruz, é uma infinidade de cantadores que eram tido como mestres. Esses cantadores eram quem levavam informações para o povo. Quando veio o rádio, chegaram os cantadores da voz bonita, o que tocava a viola mais bonita, então começou aparecer a turma da voz. E aqueles velhos mestres foram ficando pra lá um pouquinho. Mas não resta dúvida que o rádio teve uma grande influência pra divulgar, trazendo para a cidade também, um pouco das coisas do interior.

 

P/1 – E como eram o seu programa de rádio?

 

R – Sou um militante eterno do rádio. Eu sou um apaixonado pelo rádio. Eu, com 22 anos, já tinha programa de rádio profissional, eu já tinha programa de rádio e até hoje eu me viro no rádio. Eu tenho programas de rádio em São Paulo, tenho programas no Nordeste, eu atuo em três emissores na Paraíba, Rádio Serrana de Araum, Rádio Integração de Bananeira, e  Rádio Cidade de Sumé, são três emissores em três emissoras diferentes. Gravo aqui e mando para lá. Aqui eu atuo na Rádio Atual, Rádio Imprensa, e de vez em quando, um bicuzinho na Bandeirante (risos). Onde abrir leque pra gente, nós estamos nos virando. Eu gosto muito do rádio. Foi através do rádio que eu consegui espaço de dominar, até de uma maneira perversa, consegui ganhar espaço com os grandes mestres, coisa que sem o rádio eu jamais conseguiria entrar. Hoje no Nordeste há dois grupos no Nordeste: os novos e os velhos. Só que não tem nada a ver com novos e velhos, porque os novos que eles chamam tem a mesma idade dos velhos que eles chamam. Mas o que eles se referem como novos e velhos é que [são] os líderes de cada grupo, um tem mais de cinquenta anos, mais velho do que eu, que tenho quase sessenta. E o outro líder não chega aos quarenta anos. Os novos e os velhos. Só os cabeças é que são diferentes nas idades. Então, eles estão tentando acabar com a cantoria do pé da parede. Porque eles estão achando agora que a cantoria tem que ser show, aquela cantoria feita no palco, que eu não sei se isso funciona. Se é para o palco a gente canta também. Agora não podemos acabar com a tradicional. A tradicional, do pé da parede, ou você vai cantar para famílias. No palco você não vai cantar para as famílias. Eles estão tentando com a cantoria show, pra isso estão inventando uns festivais aí que não tem muito a ver com a coisa. Eu sempre condenei esses festivais porque somente atuam esses dois grupos, que aliás isso é uma denúncia danada que eu sempre faço nos meus programas e os cantadores ficam mordidos. Fazer o quê? E o pior que todos esses grupos contém, cada um, trinta, quarenta cantadores. Mas somente esses grupos atuam nos festivais, eles não dão chances para outros cantadores aparecerem, para cantadores novos eles não dão chance. Então fica somente esses grupos fechados, um de um lado, outro de outro, uma polêmica danada. Um se alia a um deputado, o deputado lidera no núcleo daquele e cidades daquelas, reúne cinco, seis prefeituras, que é o reduto daquele deputado, daquele determinado grupo, e arruma aquele festival. Então eles estão vivendo disso daí. Fazem festival sexta, sábado e domingo, fecham naquele fim de semana aquele lugar ali, o outro já atua em outro canto, e o pior é que todos eles têm programas de rádio, e eles gritam, “Quem quiser cantoria, fazer cantoria, não convide cantador a não ser desses dois grupos, mesmo não sendo do nosso, mas do opositor! Porque o resto é fura-viola, não-sei-o-quê, não-sei-o-quê. Ao passo que fora do grupo também, nós temos grandes cantadores também. E aqui em São Paulo a nossa visão é combater isso aí.

 

P/1 – Quando o senhor resolve, então, se mudar para São Paulo?

 

R – Bem, naquele período de 1975 eu estava em Campina Grande atuando em duas emissoras de rádio: na rádio Borburema, em que eu tinha um programa tradicional, o Retalhos do sertão, e os titulares eram o Zé Gonçalves, um cantador cearense da cidade de Várzea Alegre, mas morava em Campina Grande há muitos anos. Esse programa era o programa mais tradicional que nós tínhamos no Nordeste. Aliás, era o cartão postal do mundo da cantoria. Até no meio  da década de setenta, Campina grande ainda era referência para a cultura do Nordeste. Só para você ter uma idéia do que era Campina Grande: os maiores forrozeiros moravam em Campina Grande, até o próprio Teixeirinha, aquele gaúcho de “Coração de luto”, quis lançar o nome no Nordeste e teve que morar seis meses em Campina Grande. Campina Grande era vitrine de tudo. Então, para o mundo da cantoria não seria diferente. Eu passei a morar em Campina Grande onde tinha um crédito. Chegou o convite daqui de São Paulo, de uma organização municipal para fazer a semana nordestina aqui no Parque do Anhembi. Eu nunca tinha vindo ao São Paulo. E nem sonhava, nem pensava em vir a São Paulo. Todo mundo falava de São Paulo, mas pra mim era nada. Só que, naquela época, eu solteiro, chegou o convite pedindo uma dupla de repentista. Éramos três no rádio. Os outros eram casados e eu era solteiro. É claro que sobrou pra mim. Disseram assim: “Você vai para Recife, lá pega o avião...”. “Pego avião nada!” Tinha um medo de andar de avião danado. Aí peguei um ônibus pela Itapemirim e vim pra São Paulo, mas arrastado bode pra dentro d’água. Eu não tinha vontade de vir para São Paulo. Daí, no meio do caminho, começaram aquelas fantasias. O caboclo trabalhava de servente de pedreiro, de faxineiro, e chegava lá com o relogião de marca, dinheiro no bolso, todo danado, parecia rico mesmo. Sabe que São Paulo é bom! E fazia uma fantasia danada. Aí eu pensava: “Em São Paulo os prédios devem ser todos iluminados, banhado a ouro”. Eu trazia essa fantasia. Naquelas cidades do interior, todo fim de ano, por mais pobre que o dono da casa seja, ele compra nem que seja cal para a frente da casa ficar bonitinha. E eu pensava que em São Paulo tava vendido tudo isso aí. Meu compadre, quando a gente baixa ali na Estação Júlio Prestes, eita frustação! Isso daqui é São Paulo! São Paulo de guerra! Mendigos pra um lado, lixo para outro, cachorro pra diabo. Naquele tempo São Paulo tinha mais cachorro que gente, era uma praga de cachorro. Uma coisa imunda, aqueles prédios pretos, aquele lixo. Vou ser sincero: olhei de lado, cuspi frustração com a São Paulo que eu trazia na cabeça. Mas aí veio o castigo, né? Fui para o Brás direto, para o hotel Borba, ali na rua Cavaleiro, um hotel em que Gonzagão também ficava, aliás, ele também estava lá, Marinês, o Trio Nordestino, todos eram meus conhecidos de Campina Grande, porque eu militava no rádio que eles ocupavam também. Nesse tempo a Marinês morava em Campina Grande, o Trio Nordestino vivia lá. Campina Grande era vitrine disso tudo. Encontrar Gonzaga e isso tudo não foi novidade. Novidade foi encontrar Jackson do Pandeiro, que era de Campina mas não vivia lá. Aí encontrei Jackson que também ia participar da Semana Nordestina. Participei junto com ele. Meu compadre, aí veio o castigo: vim para passar quinze dias, passei um mês. Daí me apaixonei por São Paulo. Voltei naquele mesmo ano para Campina Grande - maio de 1976 - mas quando foi no mês de julho eu já estava aqui de volta. Aí voltei em 1977.  E em 1978 voltei de uma vez. Casei e vim para São Paulo, e vim para São Paulo de uma vez. Fui somente casar lá, porque eu já tinha noiva pronta.

 

P/1 – E qual é o nome da sua senhora?

 

R – Dona Selma Lopes. No começo foi muito difícil a cantoria em São Paulo. Quando eu cheguei aqui, tinha cantoria, mas se restringia a dois recantos. Era na rua Paulo Afonso, no Brás, e na rua Brigadeiro Machado, no Brás também. Ali as cantorias começavam meio-dia e se alongavam até onze horas da noite, meia-noite. Todos os dias. Isso no Brás. Só que, com o dia-a-dia, eu não percebi, a gente chega meio barrigão, não entende a coisa. Mas depois eu comecei a perceber que no meio tinha cantadores infiltrados, vagabundos. Então, quando alguém dava lance de dinheiro,  o cara chegava na esquina e pegava. Percebi e vi que o ambiente era nocivo. Eu já estava com vontade de fazer o canto em São Paulo, só que naquela época, em 78 quando eu casei e vim para São Paulo em definitivo, só que eu senti dificuldades em segurar a peteca. Quando eu estava solteiro foi ótimo, mas quando casei, pronto, começa a responsabilidade, do aluguel, não-sei-o-quê, o dia-a-dia, daí eu tive que trabalhar, além da viola. Passei a trabalhar de zelador, ali na rua das Palmeiras, em frente onde é a Rádio Globo, 288, na Santa Cecília. Morei ali três anos, quando fui zelador.

 

P/1 – Morava no prédio?

 

R – Morava no prédio. Morava lá em cima, não pagava aluguel, não pagava água, não tinha encargo nenhum, e tinha o salário certo. E esse prédio era diferente dos outros condomínios: era um prédio somente de inquilinos, o dono era um senhor que nem brasileiro era.

 

P/1 – E era dono do prédio todo?

 

R – Era dono do prédio todo. Morava lá no Guarujá. Eu fazia a função de síndico até faxineiro. Aqueles inquilinos todos, se fizessem alguma coisa, tinha que vir ao meu pé pra eu poder implorar para o dono, ligar pra ele, chamar ele cá para resolver qualquer coisa, se ele estava de acordo, se não tava... Tudo passava pela minha mão. Eu ficava ali dentro, todo mundo tinha a sua chave, e eu fazia a função de síndico e faxineiro. Uma vez por mês eu lavava o prédio. Todos os inquilinos tinham obrigação de pegar o lixo e levar lá embaixo na lixeira. Era um condomínio completamente diferente. E quando eu completei um ano, o dono do prédio disse, “Seu Marinho, o senhor pode sair quando quiser!”.

 

P/1 – Por que antes o senhor  não saía?

 

R – Não saía. Eu cantava, mas somente em SP, não saía. Aí eu contei pra ele a minha função – o salário também era baixo. “Não dá para eu viver, seu Talfik!” E ele, “Não, o senhor pode deixar a sua esposa. Ela bota o lixo quando o carro passar!” E uma vez por mês eu lavava aquele prédio. Pegava de apartamento em apartamento, tocando campainha de um por um e, “Vamos ajudar aqui!”, e todo mundo batia mão às vassouras e cada um lavava seu andar. Era uma coisa linda, gostosa!

 

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