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História de: Dilson Dalpiaz Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/12/2004

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História completa



PESSOAL
Nome e nascimento Meu nome é Dilson Dalpiaz Dias, nasci no dia 15 de agosto de 1947, em Caçador, Santa Catarina.

FAMÍLIA
Pais Meu pai se chama Nabor Tibes Dias, é catarinense de Curitibanos e tem 77 anos. Minha mãe se chama Maria Elísia Dalpiaz Dias, ela é gaúcha de Santa Maria e tem 72 anos. Ambos vivem em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Avós Conheci todos os meus avós - só não conheci o meu avô paterno. A minha avó paterna se chamava dona Rosa Tibes Dias e minha avó materna, Hermínia Comaski Dalpiaz; meu avô paterno chamava Celeste Dalpiaz. Eu diria que a minha família, considerando a minha origem do Sul, é um caleidoscópio da formação étnica do brasileiro. Santa Catarina tem índio também e foi colonizada inicialmente por açorianos, que hoje ficam no litoral. A origem do meu avô paterno era de portugueses e minha avó paterna era filha de um alemão com uma índia. Já o meu avô materno era filho de italianos imigrantes e a minha avó era filha de poloneses, que lá no Sul a gente chama de polacos. Eu sou fruto dessa salada de fruta racial. Meus bisavós foram imigrantes. Irmãos Tenho uma irmã, nascida em Campo Grande. Casa de infância Eu tenho uma lembrança muito vaga da minha primeira casa porque eu era muito jovem, devia ter 4 anos. Nós morávamos na fazenda, numa região que fica no alto da serra e sua atividade básica era a pecuária. Hoje Santa Catarina é muito conhecida pela beleza das praias, pelo litoral e pelo Vale do Itajaí, onde houve colonização alemã. Mas eu nasci na serra, no alto da serra. Dali começam as planícies, que vão até a divisa da Argentina, que hoje é conhecida por suas empresas da área avícola. Lá era a região dos pinheiros, houve uma exploração muito forte da madeira do pinheiro. Como aqui nós temos cerrado, lá a árvore predominante era o pinheiro. Me lembro muito disso, algumas passagens na fazenda, com os meus pais. Depois a gente mudou para o Mato Grosso. Inicialmente meu pai foi para uma cidade que chama Porto Espiridião, próximo de Cárceres, que é divisa de Mato Grosso com a Bolívia, no Rio Paraguai. E foi um choque porque a diferença de temperatura é muito grande. Ele falava que estava cansado de passar frio lá em Santa Catarina e quis um pouco de calor. Só que ele exagerou na dose. Ainda bem que corrigiu a tempo, voltou para Campo Grande logo depois - ele foi primeiro. Eu lembro que nós fizemos uma viagem de trem de Santa Catarina até Curitiba, aí a gente tomou o avião e foi até Cuiabá, no Mato Grosso. E finalmente chegamos a Cárceres, na divisa da Bolívia. Então, ficamos pouco tempo lá e, depois, nos estabelecemos em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. O meu pai morava lá em Santa Catarina há 50 anos. A migração no Brasil não era uma coisa normal como é hoje, até pela dificuldade de transporte. E ele leu alguma coisa sobre o Mato Grosso e conversou com a minha mãe, que também era filha de imigrantes italianos - eles tinham uma colônia, uma vinha - , e disse: "Estou disposto a fazer uma aventura, de conhecer esse mundo lá, dizem que é uma amplidão de terras. Eu tenho lido: tem o Pantanal, tem onça, tem isso, tem aquilo. Eu quero ver isso, você topa?" "Topo". E ele foi, eu era pequenininho e minha mãe estava grávida da minha irmã. Alguns meses, ele mandou uma carta: "O caminho é esse. Você vai ver". Ela acabou de vender as coisas que ele tinha, recebeu o dinheiro e foi embora. Os filhos acabam vendo e ouvindo isso. É interessante perceber que há um certo planejamento e tem um outro caminho, que é do acontecer. Como diz o poeta espanhol: "al camiñar se hace el camiño". De Campo Grande eu me lembro bem. No início, a gente morava na fazenda. Meu pai sempre teve atividade rural, ou pecuária ou agricultura. O nome da fazenda do meu pai eu não me recordo. Na época, havia uma fazenda grande, a Fazenda São João, e dentro dela havia várias propriedades. Essa Fazenda São João era propriedade do meu avô. Eu fui alfabetizado na fazenda. Nesses momentos a gente lembra de coisas interessantes: eu aprendi ler em inglês, só que eu falava em português. Eu não sabia o que era isso. Na fazenda, àquela época, a iluminação era com candeeiro, que lá se chama lamparina. Se usava latas de freio, do fluído de freio para o breque dos carros. Ainda é assim hoje, se assemelha a uma lata de azeite de oliva. Meu pai me alfabetizou lendo naquilo. Então, a gente lia a palavra em português. Só muito mais tarde eu descobri que aquilo era uma palavra inglesa. Fui alfabetizado assim, fuel e oil acho que foram as primeiras palavras que eu aprendi a soletrar. Acho que as latas eram da Mobil Oil, se eu não me engano. Hidraulic foi outra dessas palavras. Depois, eu aprendi aritmética. Eu ajudava muito dentro da fazenda, tinha minhas atribuições - a vida na fazenda é muito solitária. Tem que ter solidariedade. Então era eu, minha irmã, meu pai, minha mãe. Todos trabalhavam. Nessa época, a gente não tinha máquina agrícola, usava o cavalo como auxiliar. Aqueles arados para ajudar fazer a limpeza da roça. A minha mãe ajudava, ela tinha um cavalo com o seu arado, meu pai tinha um com o dele e eu e a minha irmã cuidávamos da logística, da retaguarda. Cuidar para que o feijão ficasse pronto na hora do almoço. Teve uma vez eu queimei o feijão. Nossa Senhora Minha irmã devia ter 2, 3 anos, eu tinha 7, 8, por aí, e nós cuidávamos do feijão. Meu pai e minha mãe ficavam na lavoura, quando chegava na hora a gente preparava o almoço. E a gente se distraiu, lógico, éramos crianças, fomos brincar sei lá com que, nos distraímos e quando senti o cheiro, a fumaça do feijão... Não tive dúvida do que era. Meus pais compreenderam o episódio mas houve uma corretiva, levamos uma senhora coça. Essa vida de responsabilidades, de trabalho, acho que é característico do nosso pioneirismo. Você tem o risco e tem o perigo. Até aprendi uma brincadeirinha. A minha sogra faleceu, eu a adorava. Mas tinha uma brincadeirinha que dizia que o risco é a sogra morar na mesma cidade; o perigo é ela morar na sua casa. A minha mulher diria a mesma coisa do sogro. Digo isso do pioneiro porque ele arrisca. É interessante como isso reflete. Os meus dois filhos moram fora, estudam fora. A minha filha foi morar no exterior com 15 anos, foi fazer parte da formação dela, e lá enfrentou o desconhecido: viajou sozinha, fez vários transbordos, morou nos Estados Unidos, no interior, e passou as dificuldades dela. Ela voltou, morou com a gente mais algum tempo e, hoje, vive em São Paulo. Em uma semana, ela já estava dirigindo em São Paulo. Aquilo para ela foi uma coisa normal. Já meu filho foi interessante. Um dia estávamos em uma convenção do grupo, num Prodex, a gente chegou e ele, que estava com 16 anos, nos informou: "Olha, eu fiz a reserva do meu intercâmbio internacional, a data é tal, se vocês tiverem de acordo eu estou indo". Foi morar na Califórnia, isso há 8 anos. Hoje é muito mais rotineiro isso. Eles moram sós. De fato sozinhos, foi opção deles morarem sozinhos. Acho que, de certa forma, isso é uma cultura hereditária. Casamento Entre a gente começou assim: o professor podia ir na casa da menina. Meu sogro, como era um mineiro muito esperto, um dia falou para ela: "Engraçado esse teu professor, ele é muito esforçado porque ele vem dar aula para você às 6:15 da manhã". Isso porque ela tinha aula muito cedo e eu também. Então, eu saía, passava lá, dava aula para ela das 6:15 às 6:50, pegava a nossa jardineira e ia para a escola. E aí ele falou isso. Passou um mês, ele virou para ela e disse: "Ainda não vi a conta desse professor". Quando eu fui casar, a minha esposa era a última de cinco filhos, quatro filhas. Ela era a caçula, bastante jovem: tinha 18 anos. E meu sogro falou para ela: "Minha filha, você quer casar, faço muito gosto, mas eu tenho uma preocupação, pois eu acho que eu vou te ver muito pouco, porque pelo que eu sei do Dilson você vai ser uma pé na estrada. Não sei para onde você vai, mas estou preparado para isso". E foi incrível: nos primeiros dois anos, nós mudamos oito vezes. Casamos em Uberlândia, fomos para Ituiutaba, lá mudamos duas vezes de casa, viemos para cá, fomos para uma casa, para outra, para apartamento, para outro, para outro. Um dia ela disse para mim: "Acho que o meu pai tinha razão, viu?" Mas paramos aí. Então, foram durante só três anos que a gente teve uma mobilidade maior. E acabamos ficando em Uberlândia.

EDUCAÇÃO
Primeira escola Minha primeira escola se chamava Externato São Francisco. Eu lembro do diretor, o professor Ernesto. Era uma pessoa que o meu pai tinha conhecido e ele era o dono da escola, era o diretor, uma pessoa bem intelectualizada. Lembro que ele passou alguns valores para mim. Eu tive muita sorte com isso. Depois, fui para uma outra escola que tinha um outro professor. Ele havia sido seminarista, chamava-se professor Aguiar, tinha oratória muito boa. Era professor de português e de latim. Isso marcou muito esse lado em mim, menos da área de exatas. É até interessante pois depois eu acabei sendo engenheiro. Hoje, a engenharia me deu um background fabuloso, me orgulho muito disso, mas as atividades que a gente desempenha acabam tomando outro rumo. Entrei nessa escola quando tinha por volta de 6 anos de idade. Meu pai me levou a Campo Grande e acertou com os proprietários de uma pensão que eu ia estudar e ficar por lá. Então, ele me deixou, nunca esqueço isso. Ele era muito democrático nesse sentido. Dizia: "Você quer estudar? Então, você vai estudar. Você vai ficar sozinho porque eu não posso vir te buscar e quando terminar". Ele foi, me matriculou em um colégio e foi dada a data em que terminavam as aulas. Ele também combinou com o motorista, o dono da jardineira, que era o transporte coletivo que existia na época, que numa determinada data ele ia passar na pensão onde eu morava, me pegar e me levar para casa para passar as férias. Foi a única informação que tive. Isso aconteceu em 1955, eu tinha de sete para oito anos de idade. Assim, já cheguei à escola alfabetizado. Eu lembro que o primeiro ano do primeiro grau tinha três escalas: A, B e C. Eu fiz um teste e já entrei no C porque eu já era alfabetizado, já sabia aritmética, aquelas coisas básicas. Foi curioso porque recentemente eu viajei na Semana Santa, na Páscoa, fui ver meus pais em Campo Grande. E, por uma questão de facilidade, a gente foi de carro, eu e minha esposa. Nós fomos conversando, lembrando esses negócios. Recordei que na primeira nota minha eu chorei, tive um sentimento de fracasso terrível porque eu tirei terceiro lugar. Eu tinha que tirar nota 10 em tudo. Foi o primeiro mês de escola, nunca esqueço disso. Eu tirei terceiro lugar, mas no mês seguinte eu tirei segundo e depois era só o primeiro lugar. Essa vontade de ser sempre o primeiro na escola eu trouxe literalmente do berço. Eu não sei o quanto tem de DNA nisso e quanto tem da postura, da educação que eu tive. A fazenda ficava a uns cento e poucos quilômetros talvez, pois levava um dia ou dois para chegar. Dependia da estrada, se chovia, se o carro quebrava, se não quebrava. Até eu fiz um comentário com meu pai há pouco tempo: a temperatura mudou lá em Campo Grande. Esfriou. Comentei com ele: "Olha, o maior frio que eu passei na minha vida foi quando eu voltei nas primeiras férias". O ponto da jardineira ficava um pouco distante da fazenda. O transporte até lá era a cavalo e meu pai sabia o dia e a hora que eu deveria sair, mas não sabia a que horas eu chegaria. Então, não tinha condição de ir lá me esperar. Quando eu cheguei era tarde da noite. Conhecia o caminho e fui até a casa de uns agricultores que eram vizinhos - o nome dessa fazenda era Salobra, porque o rio que passava tinha a água um pouco salgada. Esses vizinhos estavam distantes da minha casa: considerando o horário, não dava tempo de chegar. Era escuro, de noite, frio, eu estava sozinho, um garoto de 7 anos. Aquelas pessoas me abrigaram, eu dormi em uma rede e foi a noite mais fria que eu tive na minha vida. E olha que eu já conheço alguns Alpes. A rede ficava exposta e, pela própria situação da região de Campo Grande, era uma casa simples, chão batido e com frestas, porque lá é muito quente e frio nunca existia. Até meus ossos doíam. Lógico, não morri, não foi nada de excepcional, mas eu não via a hora do sol nascer. O sol nunca demorou tanto para nascer. Pensão Eu sempre tive um temperamento muito fácil, muito aberto. É evidente que o desconhecido sempre atemoriza. Eu acho que até pela própria vida de quem nasce no campo, seus valores pessoais, você acaba tendo autoconfiança. Tive uma formação religiosa também dentro de casa. Tinha o dia de ir a missa, tinha o catecismo, tinha um ritual do domingo e o colégio. O filho da dona da pensão era um garoto um pouco mais velho do que eu e isso permitia um relacionamento. Eu brincava normalmente também com outros garotos, na escola. Ou seja, eu me relacionava. Eu até comento com meus filhos que tive uma passagem interessante: eu era muito obediente, disciplinado, quero dizer, quando o adulto fala, a criança escuta: não tem que responder. E, no início, a dona da pensão começou a me dar uns serviços que, no meu entendimento, não estavam no acordo que o meu pai fez. Ele pagava a pensão para mim. Quando eu cheguei das férias, comentei aquilo com ele. Ele falou: "Não, você não tem que fazer isso". Porque isso era usual na minha casa. Numa fazenda, você cria galinha, cria porcos, tem a vaca, você separa o bezerro, você ordenha leite, você cuida do cavalo, trata dos porcos. Também é normal a sobra de comida, você ir depositando as sobras e depois complementa a ração alimentar dos animais. E na pensão você imagina o quanto que tinha de sobra de comida. Eles me botavam para tratar dos porcos, juntar sobras da comida, e eu fazia aquilo, para mim era normal porque na minha casa isso era uma das minhas atribuições. Na fazenda todo mundo colabora. Então, de certa forma, a dona da pensão deu uma encostadinha em mim e eu fiz aquilo com naturalidade, e faria, continuei fazendo, mas não como obrigação e sim como colaboração. Eu tinha educação e disciplina, mas tinha também senso crítico da razoabilidade. Depois dessas minhas primeiras férias, minha vida na pensão entrou nos trilhos. Nunca tive nenhuma represália a respeito daquele evento em que acabei dormindo nos vizinhos. Tinha com minha família uma relação muito tranqüila. Àquela época, era normal que a educação fosse à base da persuasão física. Chegava ao chinelo mesmo, ao cinto, ao arreio. Isso era normal. Nunca tive nenhum problema nem mesmo com a dona da pensão, nunca tive esse tipo de problema. Formação escolar Eu fiquei em Campo Grande até terminar o terceiro colegial, acertei a minha vida de reservista, o Serviço Militar. Campo Grande sempre foi uma cidade muito militarizada. Por isso, havia uma oferta muito grande de Serviço Militar e eu fui dispensado. A gente sente pela educação de agora, dos filhos, como era muito mais multidisciplinar a formação da garotada aquela época. Eu fazia teatro, escrevia peça de teatro, a gente pesquisava. O modelo da educação, eu acho, era muito mais humanístico, muito mais europeu. A gente tinha aula de latim, filosofia, história antiga, história moderna, história das Américas, história do Brasil. Eu diria que o método não era muito amigável, você tinha que ralar, era decorado e tal, mas não sei porque eu sempre gostei muito de ler, eu sou um leitor fanático. Sou um contumaz. Às vezes, a gente está fazendo alguma coisa no dia-a-dia e aí a minha mulher me pega: "Me ajude aqui, vamos embrulhar isso". E vem com um pedaço de jornal. De repente, ela me flagra embrulhando e lendo. "Mas de quando que é isso?". "Sei lá de quando é o jornal". "Tem uma notícia interessante". O colegial chamava-se científico na época. Você tinha o clássico, a partir do qual as pessoas iam direto para o Direito, para Letras, eram da parte mais filosófica. Você tinha a área contábil e o científico, que era para as exatas e médicas. Ou seja, o pessoal que faria Medicina, Odontologia, Engenharia, esse fazia o científico. Eu fiz o científico. Durante todo esse período, eu ia para casa, na fazenda, apenas nos períodos de férias. Houve um ano em que eu fiquei estudando na fazenda, porque o meu pai perdeu toda a safra agrícola e não teve dinheiro para me fazer voltar - meu pai plantava arroz, era agricultor. Ele teve três anos seguidos de perda. Um ano foi a seca que torrou tudo; no ano seguinte, choveu demais, ele perdeu tudo de novo. Aí, veio uma praga de lagartas, que comeram todo o caule do arroz. Foi uma fase terrível para a gente. Nessa época eu fiquei estudando na fazenda: tinha uma escola rural. O curioso dessa escola é que todas as classes ficavam em uma mesma sala, era uma mesma professora. Hoje isso é um pouco inédito, mas à época acontecia. A professora, dona Abigail, era uma heroína, porque ela pegava todas as crianças. Tinha uma turminha que ela alfabetizava, tinha uma turminha de um grau melhor e tinha uma turma de um grau mais evoluído. Fiz o meu segundo ano primário nessa escola. Eu ia a cavalo para a aula e levava dois litros de leite para a professora. Era a maneira de custear a escola. Até o terceiro científico, fiquei naquela primeira pensão. Teve um ano que fiquei estudando na fazenda, na escola rural. Eu acho que essas são coisas que marcaram muito porque a gente tinha que improvisar. A professora ajudava na improvisação. A gente criava tudo ali. Eu acho que isso foi uma coisa que eu guardei aqui dentro. E, depois, eu voltei e fui para uma outra pensão, que hoje é tombada. É um monumento histórico de Campo Grande, chama-se Pensão Pimentel - é um prédio em um estilo colonial meio rococó, um museu. Não sou peça de museu ainda, mas a pensão é. E essa pensão ficava próxima do colégio em que eu fui estudar, fazer o ginásio. Chamava-se Colégio Oswaldo Cruz. Eu ia a pé, era a um quarteirão só do colégio e isso ajudou. Ao longo do ginásio fui fazendo amizades e eu tive um colega que era filho único. Quando a gente terminou o ginásio, ele me convidou para morar com ele, porque os pais tinham poder aquisitivo bem razoável e construíram uma casa. A casa ficou muito grande e ele era filho único. Eu freqüentava muito a casa, ia muito lá para fazer o dever da escola. Eles realmente me convidaram para morar com eles e fui. Isso teve uma influência muito grande na minha formação cultural e intelectual, porque eram pessoas bastante voltadas para a área de leitura. Ele estudava piano em conservatório e eu comecei a tomar gosto por música, a compreender música clássica, a vida dos compositores, a própria música popular da época. Primeiro era aquela invasão americana de Elvis Presley, Paul Anka, Neil Sedaka, com a influência latina - Campo Grande é muito próxima do resto da América do Sul, tem influência boliviana, paraguaia. Também havia as músicas latinas, os tangos, os boleros. Aquilo fez a gente ir tomando gosto e também freqüentar os meios sociais. Eles eram sócios dos clubes da cidade. Aquilo me permitiu ter acesso a informações e a um relacionamento que, eu acho, influiu muito no fato de a gente começar a se sentir à vontade em qualquer ambiente, em qualquer meio e, com isso, poder crescer, evoluir. Eu sempre gostei muito de ler. E o meu pai, durante uma época, passou a ser o encarregado de uma grande fazenda que tinha tanto atividade pecuária como de lavouras. Dois sócios eram proprietários dessas fazendas: um morava em São Paulo e o outro morava em Campo Grande. E eles assinavam revistas internacionais. Eu lia muito Readers Digest e lá eles tinham também aqueles livros condensados. Era um acesso ao mundo. Através da leitura eu conhecia o mundo, eu viajava. A Bíblia sempre ajuda muito, talvez até pela solidão da fazenda, mesmo em férias de dois, três meses. Então, lia a Bíblia profundamente e muito pelo lado histórico. Meus pais sempre tinham muita curiosidade com isso. Eu lembro que a minha cota de leitura era uma vela. Então, eu lia até queimar a vela, porque estava acostumado a dormir um pouco mais tarde, como se faz nas cidades. Na fazenda, a ordem é ir dormir ao entardecer. Escureceu, o que você vai ficar fazendo? Mesmo porque no outro dia a faina diária é também com o raiar do dia. Meu regime era diferente: eu lia até ter sono. Essa convivência com eles foi uma mudança de patamar muito grande na minha vida. O nome do casal era seu Nilton Évora e dona Ercília Barbosa Évora. Ele já é falecido, ela é viva ainda, mora em Ribeirão Preto porque o filho Paulo Roberto, que é esse meu irmão de sangue, de coração, estudou medicina. Nós fizemos o colegial juntos e ele foi para São Paulo fazer cursinho de Medicina, enquanto eu fiquei mais um ano em Campo Grande e optei por fazer Engenharia. Aí eu fui para São Carlos, porque Campo Grande à época só tinha Direito e Filosofia, que eram os padres salesianos. Eu sempre pensei muito em Medicina, mas também gostava de contas e quando eu comecei a ter aula de Física, de Química, aquilo me despertou. Acho que a Medicina me faria ir para São Paulo, e as condições de recurso eram muito mais difíceis. Também acho que, no fundo, não queria deixar parecer que eu estava simplesmente querendo seguir o meu amigo Paulo Roberto; talvez, eu não sei. Nunca parei para refletir sobre isso. Talvez também pensasse: "Puxa, médico não tem hora. Não tem hora para dormir, não tem hora para levantar". E aí, eu digo, se foi por isso eu tive um ledo engano, caí do cavalo, porque eu fiz Engenharia, fui trabalhar em telecomunicações que não tem hora, são 24 horas por dia, rock around the clock. Eu passei mais de 25 anos da minha vida como plantonista permanente. Universidade São Carlos foi o primeiro choque que eu tive dos patamares de recursos que você tem disponível para o aprendizado. Eu estudei em um colégio estadual lá em Campo Grande, professores muito dedicados, mas os recursos didáticos, a profissionalização era muito mais voltada para o lado das humanas, era muito mais humanístico. E eu quase caí de pára-quedas, caí de pára-quedas em um curso de Engenharia, pois eu vinha só com a minha formação normal, aí eu fui fazer um cursinho e vi que o furo era muito mais embaixo. Tive que me aprofundar muito na área de Física, de Matemática, na parte de exatas mesmo, pois meu colegial não contemplou isso. E tem um outro fato que vai dar um link com uma pessoa que está no grupo até hoje, o Weber Pimenta de Melo. Fui para São Carlos e chegando lá fui me arrumar. Consegui dormir em uma república e fui me ajeitando, e conheci uma pessoa que, conversa vem, conversa vai, era de Minas - eu era de Mato Grosso e ele era mineiro. E fizemos um cursinho rápido, um preparatório de um mês e meio. Eu fiz, não passei naquele vestibular, senti a diferença do meu nível de preparo. E esse mineiro sumiu, nunca mais vi. Aí, eu fiquei um ano estudando em São Carlos, me preparei para fazer vestibular lá. Também me inscrevi no Rio de Janeiro, na Nacional de Engenharia. E quando estava terminado o ano letivo me aparece o tal mineirinho: "Oh, você sumiu.". "Não, eu estou fazendo Engenharia. Eu descobri uma escola federal em Minas". "Em Minas, onde? Juiz de Fora, Ouro Preto, Belo Horizonte?", que era só isso que a gente conhecia. "Não, Uberlândia". "Onde é que é essa tal Uberlândia?". "No Triângulo Mineiro, perto de Uberaba". Falei: "Mas como é que é?". "É uma escola federal que está no segundo ano de funcionamento, de Engenharia. Por que você também não inscreve, não faz vestibular lá?". "Ué, por que não? Você leva os meus negócios?". "Levo". Vestibulando sempre tem um kit pronto. Aí ele levou e eu fiz vestibular em São Carlos, na Nacional do Rio, e vim fazer aqui em Uberlândia também. Vim para Uberlândia quando já tinha feito os outros dois. Era o ano de 1967 - em 1966 eu morei em São Carlos. Foi o primeiro ano em que eu votei. Votei para governador, era o Carvalho Pinto. Nunca esqueço disso. Meu primeiro voto eu não esqueci. Era o auge do regime militar, o segundo ano da revolução. O ativismo estudantil muito forte, eu tinha professores altamente contestadores. Depois, eu soube que um deles foi até metralhado na época pesada da repressão. Também foi a época em que começaram os grandes movimentos. Começou a Tropicália, a Jovem Guarda, começou Caetano, Gil, Vinícius, Jobim. Eu conheci o Soneto da Separação, de Vinícius. Ele ainda era poeta e diplomata, muito antes de se tornar músico. Aí eu vim para São Carlos por indicação de um dos sócios que era proprietário da fazenda da qual o meu pai era encarregado. Ele era de Ribeirão Preto. E falou: "Lá perto de Ribeirão tem uma cidade que eu escuto falar, uma cidadezinha lá muito fria, mas disse que tem uma escola de engenharia muito boa, por que seu filho não vai para lá? Eu acho que ele devia fazer contabilidade porque aí ganharia dinheiro logo, ia te ajudar. Mas se você teima que ele quer fazer engenharia, se você der conta de sustentar ele lá, São Carlos é uma cidade módica em que ele vai poder viver com aquilo que vocês puderem, com os seus meios". Fiquei esse ano em São Carlos, aprendi muito. Tenho essa grata lembrança até hoje. Eu conheci televisão ao vivo em São Carlos. Eu tinha 17 anos, a TV era recente, mas lá em Campo Grande não chegava ao vivo, não havia meios de transmissão. Era tudo videotape. Essa vinda para Uberlândia, portanto, foi um pouco provocada por esse meu amigo, o Weber. Foi uma recomendação dele. Eu nunca me esqueço: vim para cá com a Viação São Bento, que está até hoje aí. Eu vim de ônibus de São Carlos até Ribeirão Preto e em Ribeirão foi uma dificuldade danada, porque eu não achava esse ônibus para Uberlândia. Tinha uma tal de fazenda Usina Junqueira, que eu não sabia onde era, e tinha uma tal de Araguari, porque a linha de ônibus era Ribeirão Preto - Usina Junqueira - Araguari e Uberlândia era um ponto de parada. Eu costumo dizer que eu trouxe uma carteira de identidade e alguns trocados, pois a gente achou que ia morar numa república. Mas quando eu cheguei, não tinha vaga na república. Então fiz minhas contas: eu tinha dinheiro ou para pagar pensão ou para pagar comida. Quer dizer, ou eu almoçava ou eu dormia. Optei por dormir, porque ficar no relento não dava. Essa passagem é muito interessante porque eu fiquei em um hotel, que até pouco tempo ainda existia, ao lado do Uberlândia Clube, em um sobradinho. Quando saí uma tarde do domingo, estava atravessando a avenida e encontrei o mineiro Weber lá. "Oh, Mato Grosso, você veio mesmo?". "Vim". E conversa vem, conversa vai: "Eu estou indo para a minha casa. Vamos para lá? Vamos tomar um lanche?". Eu não tinha nada... "Tá, vamos tomar um lanche". Aí, chegando lá, ele falou: "Onde é que você está hospedado?". "Eu estou aqui ao lado, nesse hotel". Aí, ele falou: "Você está tudo resolvido, acomodado, tudo bem?". "Não, está mais ou menos. Amanhã vamos ver como é que fica". E ele me convidou para ficar com ele, na casa dele. Morava num apartamento com dois rapazes mineiros, que estavam de férias. Eu disse que não tinha dinheiro para pagar e ele me levou para falar com o pai dele. Ele chamava seu Antônio e a mãe, a dona Iracema, que já faleceu. Ele falou: "Rapaz, fica aí, depois você vai passar mesmo no vestibular". "Se eu não passar eu vou sumir no mundo". "Não, você vai passar, vai morar com a gente. Você vai ver". Ele foi um Pitom, Pitonisa. Então, eu fiquei lá com eles e fiz vestibular. Fiquei muito mais motivado para fazer o tal do vestibular e fui bem-sucedido, acabei ficando aqui. O interessante é que aquela nossa turma de São Carlos invadiu Uberlândia. Muitos tinham a premissa de passar no vestibular, ficar um ano na cidade e voltar para trás. Mas só um voltou, de Rio Claro, o apelido dele era Lilico. Todos os demais ficaram, terminaram o curso em Uberlândia. Eu digo, sem medo de errar, que 25% deles se casaram em Uberlândia, dentre eles eu.

CORPORATIVO
Ingresso na CTBC Meus pais não tinham telefone no Mato Grosso, a comunicação era por carta. A família do seu Nilton e da dona Ercília tinha, sim. Mas dar notícia por telefone não era muito usual. No nosso pensionato, da dona Iracema, colocamos um telefone lá depois de três anos que estávamos morando com eles. E aí começa uma outra história: foi nessa pensão que eu e o Weber conhecemos o doutor Luiz Alberto Garcia, pois os professores de pilotagem moravam conosco - e o Luiz começou tomar aula de pilotagem. Essa casa era vizinha da CTBC, onde hoje tem uma Pharma. É a casa ao lado, depois do Posto de Serviço. O Luiz morava no prédio da própria empresa, da telefônica. Ele tinha um apartamento lá. Saía dali e pegava os pilotos para ter aula de pilotagem. Ele tomava café da manhã com a gente. Ele é muito, muito brincalhão. Um dia, o Weber foi fazer um estágio com ele. Algum tempo depois formou-se e foi trabalhar na CTBC. Numa conversa, eu falei: "Como é, tem um estágio para mim?". Começou por aí a história, eu estava no meu último ano da faculdade. Naquele tempo, formar-se em Engenharia era um grande appeal. Você tinha três, quatros empregos, facilidade, era IBM, Petrobras, requisitos. Eu me lembro que tinha requisito para ir para o Alasca quando estavam construindo aqueles polidutos, e também para a Arábia Saudita. Mas meu espírito de aventura não chegou a esse ponto. Eu estava aqui na CTBC e houve uma outra particularidade, porque a minha formação é em Engenharia Mecânica, pois à época aqui só tinha Mecânica e Química. E, na ocasião, em 1971, os equipamentos de telecomunicações eram eletromecânicos. A eletrônica ainda estava engatinhando. Então, tinham muito a ver com nossa formação aqueles aparatos, que envolviam conceitos de eletricidade e de mecânica. São os relés. Você tem uma coisa indutiva na qual você passa corrente elétrica e aí permite os contatos, que é o chaveamento, as suítes da telecomunicação. Hoje é tudo eletrônico.

CTBC
Aprendizado Quando terminei meu estágio, o Weber Pimenta me convidou a continuar na empresa. Falei: "Mas eu tenho que me especializar nisso". "Você vai estudar. Você vai continuar estudando telecomunicações". Então, fui estudar telecomunicações com o próprio fabricante. Fui morar em São Paulo, estudar na Ericsson, na Siemens, que eram os grandes fabricantes da época, e comecei a desenvolver minha carreira técnica em telecomunicações. Eu fazia Engenharia Mecânica e me identificava muito com a minha formação acadêmica. Eu já tinha realizado estágio em outras empresas de mecânica: Villares, de aços, SKF, de materiais, Romi, em Americana, e outras empresas. Acho que isso teve a ver com esse lado do desafio, da cidadania, de estar envolvido com os outros. Eu acho que isso é uma troca muito forte. Se a gente teve o privilégio de encontrar pessoas que nos deram a mão, você acaba também, instintivamente, fazendo essas contrapartidas. Participei da chamada Operação Mauá, que era um estágio para estudantes de engenharia ligados ao Exército. Em Araguari tem um Batalhão de Engenharia do Exército e eles estavam fazendo a retificação do trecho Araguari - Brasília. Fiquei três meses com o Batalhão de Engenharia dos militares, acampando no mato junto com os próprios soldados. Eu me lembro que a gente estava no Centro Acadêmico, do qual eu era diretor social, e a gente promovia as festas do diretório para fazer esse congraçamento entre os estudantes e a comunidade. E na porta ficava, às vezes, estacionada uma perua, uma Rural Willys, que era uma van, a Cherokee de hoje. Nela estava um desenhinho, um poste, uns fios - era a Companhia de Telefones do Brasil Central - UHF/VHF. Eu nunca esqueço disso. São os sistemas de transmissão. Estava começando a Embratel naquele tempo, você começava a ouvir falar disso. Aquilo me chamou a atenção. Transmissão Comecei na CTBC na área de transmissão, área de longa distância. O chefe dessa área era o Walter Machado, que é irmão do Celso, o diretor da ABC Propaganda. Nós éramos todos muito jovens, quase todos da mesma idade. Eu estudava Engenharia e o meu tempo de estágio era de duas horas e meia por dia. Tinha toda uma programação. Comecei fazendo manutenção de fusíveis, nunca me esqueço. Um ferro de solda, aqueles fiozinhos, você tinha que soldar, queimava a ponta do dedo. Falava: "Isso é trote desse pessoal". Mas eu agradeço muito, porque eu não tomei aquilo como trote. E não era, de fato não era. Eu ficava na esquina da Machado de Assis com a João Pinheiro, onde fica a CTBC. E ali eu comecei a querer entender por que aquele fusível, para que funcionava aquilo. Fiz um acordo com ele: "Eu vou cuidar da parte de manutenção por um determinado tempo, mas quero estudar, compreender isso". Então eu começava a abrir, nunca esqueço, numa sala grande, abria aqueles esquemas, aqueles fios, aonde os fios vão, para começar a entender a lógica dos equipamentos. Fui muito autodidata em telecomunicações no que refere ao funcionamento dos equipamentos. Isso aconteceu ao longo de um ano. Estagiei naquele setor algum tempo, viajava muito porque era da manutenção e havia linhas físicas, os fios, esses equipamentos tinham uns rádios e tinha uns outros que iam sobre os fios. Tanto um como outro, eu aprendi a ter familiaridade com aquilo. O passo seguinte foi ver as estatísticas do funcionamento dos circuitos. Havia um setor que fazia o controle da operação, se o circuito estava operando, se não estava. E cada defeito desse, cada anomalia, gerava um report. Passei, então, a estudar o comportamento daquilo. Já estava aplicando aquilo na minha formação de engenheiro. Fazia as primeiras estatísticas, os primeiros levantamentos daqueles defeitos. Não que o pessoal não fizesse as manutenções adequadas, mas eles traziam pouco do lado científico, da estatística da coisa. Passei por isso e o passo seguinte foi na parte da rede externa: acompanhar os cabos, os fios. O meu estágio nesse ano de CTBC foi técnico, na área de operação e técnica. Eu não fui para a área de administração, em absoluto. Isso foi muito importante porque eu tive a oportunidade de não ter o constrangimento do aprendizado. Convivi com muitas pessoas com boa vontade de ensinar. O chefe da área era o Walter; na possibilidade que ele tinha, ele me passava conhecimentos. Eu tinha um colega de engenharia que era estagiário lá também, o Katsunori, meu colega de sala. Eu descobri que ele era estagiário lá o dia em que fui e o encontrei lá. Isso ajudou. Havia também o Itelino, a pessoa que cuidava dessa parte do controle das linhas, que a gente chama de exame de linha. Era uma pessoa com quem eu tinha muito contato, muita convivência. Depois, fui para a área das centrais telefônicas. Tinha o Jaime, que era um técnico, o Gumercindo, outro técnico. Essas pessoas sempre passavam orientações. Tinha também o responsável pela rede, que era o José Leonardo. Com ele também tive a oportunidade de aprender muita coisa. Passado isso, me tornei engenheiro e fui mais para a área de engenharia. Na ocasião, tínhamos recém-adquirido o controle da telefônica de Uberaba e o Weber foi para assumir, ser o gerente-geral responsável pela empresa, no fim de 1971, ano em que me formei. Formado, tive uma conversa com o Luiz. "Olha, eu estou me formando e tenho esse leque de alternativas de trabalho, você tem interesse?" Ele falou: "O Weber já está trabalhando com a gente há um ano e, se você quiser, você já está entrosado. Eu vou precisar de engenheiros, a empresa está expandindo". "Mas a minha formação é mecânica" "Mas você vai estudar. Você vai ter tempo para entender de telecomunicações. Se não, não adianta". Então fizemos esse acordo. Isso era em novembro, dezembro. Fim de ano a gente procura resolver logo a vida para não correr risco de não se formar. Assim, tinha dezembro por conta. Ele determinou: "Você fica aí até dezembro". Acho que eu me formei no dia 18 de dezembro, se não me engano. "Mas até lá você vai estagiar". Administração Aí fui para Uberaba. O Weber ficou muito mais voltado à área de engenharia e começou a ter demanda na administração, porque o pessoal de Uberaba começou cobrar de Uberlândia. Havia um bairrismo muito forte à época. Ele falou: "Dilson, você que é jeitoso, vá lá para Uberaba ser o gerente da parte administrativa". Meu Deus do céu "Não se preocupe, você se dá muito bem com o Weber, vá ajudá-lo lá". Está bom, vou ajudar. E lá fui eu para Uberaba atender cliente, porque essa parte é muito personalizada, a pessoa quer falar com o gerente. O cliente hoje já está mais acostumado com a profissionalização. Mas antes tinha que falar com o dono, com o gerente. Eu tive passagens incríveis. Porque era recém-formado e havia uma pressão política muito forte. Os clientes diziam: "Uberlândia comprou Uberaba. Onde se viu isso?". Então via a placa do carro Uberlândia: "Uberabinha", "Uberabinha". Tinha gente que chegava brava lá. Eu me lembro que chegou um senhor que estava colérico, quase a ponto da agressão física porque o telefone não funcionava. Com muito custo comecei a acalmá-lo para entender o que acontecia. Para resumir, o telefone dele não funcionava porque ele tinha mudado de casa mas não tinha ligado o telefone. Não ia falar nunca. Caí no meio de verdadeiros conflitos. Acho que isso vai por aquela coisa de não temer o risco. Você vai e assume o risco. Fiquei algum tempo e começou a minha formação. Expansão Eu tinha que ir para São Paulo fazer os cursos da Ericsson. Fiquei seis meses estudando especificamente equipamentos de telecomunicações e, em uma dessas voltas, fui convocado: tinha terminado um curso e iniciaria um outro, pois havia necessidade na área de São Paulo. O gerente estava em transição, se desligando, e precisava de reforço. Fui convocado para assumir a região de São Paulo como engenheiro. Nós tínhamos o Luís Márcio, que está conosco até hoje, é responsável por Franca, que era uma parte da região. Mas ele era a pessoa que fazia o atendimento, era o gerente geral. E havia um engenheiro em Ituverava, o Antônio Cassiano. Mas a outra parte, das outras cidades que estavam automatizando, tinha muito conflito porque os telefones ainda eram de manivela. Eu tenho um na minha casa até hoje, com um fio só e, aí, trazia as centrais telefônicas automáticas e aqueles telefones eram desligados. Muitos clientes não se conformavam, e lá fui eu para aquele conflito. Fui em um caminhão carregado de fios e de cruzetas para postes, cheguei de noite em Orlândia, não tinha onde dormir. Tinha só um bar. Eu falei com a dona e ela disse que na cidade não havia hotel, pois era muito pequenininha. "Dona, vamos fazer o seguinte: se a senhora não se importa, vamos juntar essas mesas aqui, eu durmo em cima e na hora de abrir o bar eu levanto". Na minha primeira noite de Orlândia, foi assim que eu dormi. Este era um momento de grande expansão da CTBC, um momento heróico também, porque a CTBC era limitada ao Triângulo Mineiro. Era basicamente a grande cidade de Uberlândia e algumas outras aqui pela região de Patos de Minas. Mas Uberaba e Ituiutaba eram telefônicas próprias, independentes. Essas cidades tinham sido recém-incluídas na região de São Paulo. E a gente foi para lá para poder dar o suporte técnico à região. Tinha uma pessoa em Ribeirão Preto que era o supervisor geral da área, o senhor Wilson Luís da Costa. Posteriormente, ele veio para Uberlândia, foi superintendente da CTBC e faleceu recentemente. Aprendemos muito com ele. A minha permanência em Orlândia foi curta. Foi muito rica, intensa, mas curta, porque a CTBC assumiu a telefônica de Ituiutaba e fui convocado para implantar toda a cultura e gestão na nova empresa. Essa transposição também passou pelo espírito empreendedor, pioneiro. Porque assumir isso, uma companhia com sua história particular, como o senhor Alexandrino e o doutor Luiz faziam, isso é uma questão de pioneirismo, de possibilitar o crescimento. Você tinha a convicção de que iria agregar muito valor ao produto. Acho que isso era a grande força motriz que tínhamos. A motivação de que você iria para lá para melhorar aquilo. No início, havia um choque, você sentia a rejeição, você imediatamente assumia todo ônus do serviço que não era prestado adequadamente, você era cobrado por aquilo mas, por outro lado, você tinha a expectativa do cliente de que aquilo iria transformar o estado das coisas. E era para melhorar. O nome, o blend CTBC, a reputação da CTBC, nasceu com ela essa marca registrada de estar levando o melhor. Ela era querida, era bem recebida porque estava sempre à frente. O sr. Alexandrino estava muito presente porque, ao mesmo tempo em que estava fazendo a estratégia, ele ia ao fronte. Ele fazia a picada, decidia para onde ela ia, onde se passaria a linha, decidia também a maneira de fazer a negociação para assumir o controle, comprar a parte dos outros sócios, dos proprietários do controle acionário daquela empresa etc. Essas empresas eram muito ligadas às pessoas. Em Uberaba, a telefônica era dos Cunha Campos, da dona Anita. Ituiutaba era do seu Valico, que era presidente e fundador; o seu Geraldo, que era um sobrinho dele, era o administrativo. Essa empresa tinha 20 anos e os que estavam lá em postos-chave tinham 21 anos também. O estado daquele momento requeria uma relação mais profissional - e ainda era uma relação muito familiar, muito paternalista. Para se ter uma idéia, quando fui a Ituiutaba, cada cliente, quando mudava, ganhava um pedacinho do fio que sobrava com o nome dele escrito. Tinha uma área enorme com pedacinhos de fios com o nome de cada pessoa. Nunca você encontraria aquilo Não era prático, mas trazia essa visão. A contrapartida é que às vezes as pessoas não pagavam a conta telefônica. "Isso está muito caro, eu não vou pagar", diziam. Mas exigiam o serviço. Renovação da concessão Durante todo o tempo, toda essa vivência no início, as concessões eram as prefeituras que davam. A concessão era municipal e era negociada com cada município. Em cada um negociava-se um prazo. Alguns era 10 anos, outro era 20 anos, outro era 25, outro era 30. E era a câmara de vereadores que aprovava o valor da tarifa. Imagina: 30, 40, 60 cidades, tinha que ir lá justificar perante os vereadores que o custo era esse, passou a ser tanto. E aí vinha os grandes clientes não querendo pagar, fazendo pressão nos vereadores. Tudo isso exercitou uma competência de relacionamento legislativo. Uma das razões da CTBC estar aí até hoje é que ela manteve essa questão de cidadania. O valor era o seguinte: era uma concessionária de serviço público. Nós que estamos prestando serviço ao poder instituído. Não é ao prefeito do partido tal. É ao poder instituído. É à figura do prefeito, é à figura do presidente da Câmara. Isso permitiu que a CTBC sempre mantivesse um posicionamento sempre democrático e não partidário. Porque era um espírito público impregnado. Até cabe lembrar: quando nós inauguramos o novo sistema em Ituiutaba eu já não estava mais lá. Não era mais o gerente. Mas o governador era o Aureliano Chaves. E era uma pessoa ligada à Arena, ao regime militar forte e já tinha o modelo de estatização de todas as empresas telefônicas, tinha que ser só uma por estado. E nós éramos muito assediados pra vender, pra ser encampados. Generais, aquela coisa toda. Aí o Aureliano, ao inaugurar a CTBC - que ele tinha sido professor do doutor Luiz Alberto na escola de engenharia e ele conhecia a saga da CTBC - ele falou assim: "A CTBC é uma empresa privada impregnada de serviço público". Aquilo foi muito forte, porque uma pessoa como ele dizer isso era uma mensagem. Resistam. E se "vocês são impregnados de espírito público", tirou um mote de ser estatal. No momento desse assédio, isso foi um desafio hercúleo, e foi de décadas. O segredo dessa resistência que segurou a Companhia em mãos privadas é aquilo que a gente comentou antes que dá muito rendimento a consultores e que está muito em voga, um jargão, mas praticar é um desafio: é o profundo respeito ao cliente. E que hoje nós traduzimos como encantamento do cliente. Quando havia as motivações fortes, os clientes estavam do nosso lado. Quando vendeu a concessão unificada que a CTBC tinha, e que venceria em 31/12/91, e a saída regulatória, legal, que era uma lei pra determinar o novo prazo, nós votamos isso em todos os âmbitos do Congresso Nacional. Foi votado em duas comissões no Senado. Foi no plenário do Senado, veio pra Câmara Federal, foi Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, já tinha passado na Comissão de Justiça do Senado. Foi pra Comissão de Comunicação, Informática e Tecnologia da Câmara. Foi examinado. Passou. Dali foi para o plenário da Câmara Federal. Uma lei pra uma empresa. Num momento crítico da privatização. Então, era muito forte o espírito sindical. O PT crescia muito; que era todo a política do Estado como empresário. Aquilo foi um ponto de mutação. E houve uma passagem muito interessante: o sindicato dos telefônicos fez uma assembléia na véspera da votação no plenário da Câmara para que todos os funcionários fossem contra a empresa continuar privada. E só teve um voto para a pauta que o sindicato pôs. Foi do presidente do sindicato. Só um. É interessante a gente resgatar só um pouquinho como que funciona esse negócio da concessão. A gente havia dito que, desde o império no Brasil, desde Dom Pedro, o serviço de telefone foi por concessão. Ele nasceu privado. Aí quando chegou em 1967, com a Constituição de 67, ele continuou privado, só que veio uma nova ordem, uma nova lei. A criação do Ministério das Comunicações, da Embratel, posteriormente da Telebrás, e aí, por uma política de governo, passou-se a fazer uma por estado. E o grande recurso que se tinha era do estado. Através do Fundo Nacional de Telecomunicações que era taxa de 25%. O estado começou a estatizar as empresas que aí estavam. Porque elas não prestavam um bom serviço, porque não tinham tarifa, e não se dava tarifa porque não tinham bom serviço. Aí o estado veio e começou a unificar. Antes, como era a prefeitura que dava, nós tínhamos alguns milhares de empresas telefônicas. Era muito difícil também a conexão dessas empresas. Mas tinha que se separar o joio do trigo. E a CTBC era diferente. Então por isso ela acabou ficando a única empresa privada. Como esses prazos eram variáveis, quando chegou em 1984, no governo do Presidente João Figueiredo, acertou-se de fazer uma avaliação dos prazos que iriam além do ano 2000 e de prazos que já tinham vencidos. Chegou-se ao número de 8 anos. Ficou para 31/12/1991 expirar esse prazo. Nesse ínterim, veio a Constituição de 88 e lá as forças estatizantes da esquerda eram muito fortes. E conseguiram colocar na Constituição Federal um serviço de telecomunicações sob o regime de concessão para empresas de controle estatal. Então, pela primeira vez criou-se a figura do Estado no controle. Aí, de fato, nós ficamos completamente fora desse contexto estatal. Mas tinha que se respeitar o prazo da concessão que ia até 1991. Nós entendemos que o tempo que nós tínhamos pra mudar esse estado de coisas era o de 89 a 91. E o caminho que nós entendemos que tinha que ser era um caminho muito público, um caminho de hora da verdade. Pela competência. E aí estrategicamente acertamos que seria uma lei. E, como eu era o diretor da CTBC em 1987, eu fui o operador de todo esse processo. Quando houve o agravamento do estado de saúde do seu Alexandrino, do estado de saúde do seu Wilson Luís da Costa e uma forte crise econômico-financeira que o grupo passou a ter, também em função do momento do Plano Cruzado e de toda crise econômica que tinha o país, houve uma reformulação da estrutura da profissionalização. Então, o doutor Luiz Alberto falou: "Vou profissionalizar as empresas". E me convidou, me deu essa honra de eu liderar a primeira diretoria executiva profissional da CTBC. Então, eu fui o diretor-superintendente e que não tinha nenhum laço familiar da carreira profissional. E convidei os meus diretores. Ele me delegou isso. Então foi uma responsabilidade muito grande. Foi um diretor técnico, o José Cândido, que hoje ele ajudou a fazer o start up da Tess, hoje não está mais no grupo; o diretor de operações Nelson Cascelli, que hoje é o vice-presidente de operações da Algar Telecom, foi superintendente da CTBC. Foi até o meu sucessor. E o financeiro que é o Geraldo Caetano; eu convidei o Geraldo a ser diretor. Montamos essa primeira diretoria profissional da CTBC Telecom. Então a gente teve essa honra. E isso era pra permitir também uma relação forte no Congresso, na Telebrás e no Ministério. Porque, como um diretor estatutário, eu tinha legitimidade pra tratar essas coisas no meio burocrático do país, sempre mantendo a possibilidade... numa instância legitimada, com essa estratégia do presidente poder atuar no momento que fosse mais perfeito, mais adequado. O nosso vice-presidente executivo, que era o doutor Mário Grossi, compreendeu muito bem isso e nos deu toda a força, todo o respaldo para que acontecesse a conquista da concessão. Nós constituímos em Brasília uma assessoria parlamentar para nos permitir preparar a lei de maneira tecnicamente adequada e fazer o relacionamento junto do Congresso, a influência dentro do Congresso de maneira democrática, legítima, mostrando o que era a empresa. Porque a única maneira é que os parlamentares compreendessem o que era a empresa. Porque são 600 e tantos deputados de todos os lugares do país. Somente os dessa região conheciam a gente. E ainda o espírito estatizante era muito forte. Nós estamos falando aqui no início, antes de vir o Governo Collor. Começou em 1989. Nós preparamos um projeto. Teve um senador de Rondônia, vê que coisa incrível, de Rondônia, Odacir Soares. Ele tinha essa sensibilidade e falou: "Eu vou preparar o projeto de vocês e nós vamos entrar com esse projeto no Senado". A estratégia começou até onde entrar. Porque um projeto de lei ele pode ser de iniciativa do Executivo, de uma subscrição popular de algumas milhares de assinaturas - a Constituição de 88 já contemplava - ou por meio da Câmara, ou do Senado. Muito pouco são os projetos oriundos do Senado, porque o Senado é Câmara Alta, não é? Ele tem mais o papel de revisor. Mas a estratégia foi essa. Aí, ele entrou no Senado e foi aprovado, passou pelas Comissões do Senado. Por negociação já com a esquerda, com o PT, ele teve que ir ao Plenário do Senado, não foi possível aprovar ao nível de Comissão. Ele ficou explícito: o pedido era de 30 anos. Esse prazo foi aprovado no Senado. Ao quando nós descemos à Câmara essa estratégia passou para que os deputados relatores do projeto fossem favoráveis à essa compreensão do novo estado de coisas. E foi o deputado Ibrahim Abi Ackel, de Minas Gerais, o relator na Comissão de Infra-Estrutura e Constituição. Ele é respeitado como constitucionalista e o projeto demonstrou ser constitucional. "É constitucional ou não é?". Porque é o prazo de uma empresa privada. Mas ele foi muito bem elaborado tecnicamente. Passou por esse crivo. Aí, quando ele foi pra Comissão de Constituição e Tecnologia da Câmara, toda a oposição, a esquerda - nós já estávamos no governo Collor, no auge, o Lula, foi ali aquela disputa. Era muito forte o poder estatizante, a corrente estatizante. Não só da oposição mas da própria situação. Tinha muita gente estatizante. Foi um trabalho de convencimento. Primeiro no âmbito da Comissão, de todos os seus deputados (se não me engano eram por volta de 38, 39 membros), de todos os partidos e de todos os estados da Federação. O staff da companhia em Brasília era uma pessoa, eu; e morando aqui, sendo superintendente da empresa. O Congresso votou essa lei. Teve que ser negociada. Deixou de ser 30 anos, passou a ser 8 mais 8. Votaram do plenário da Câmara. Muitos deputados da oposição falaram: "Ó, eu só vou votar por uma questão ideológica, mas eu não tenho nada contra a CTBC". Pessoas altamente estatizantes quando consultadas falavam: "Olha, eu sou estatizante, mas essa empresa tem que ficar". E os líderes da oposição, do próprio PT, quando os nossos associados, eles que foram lá. "É democracia? Então respeite a nossa vontade. Se o cliente quer, se o associado quer e se o serviço é bem prestado, qual a razão?". Então, mais uma vez a CTBC foi pioneira e assumiu o risco de ser o ponto de mutação do sistema de telecomunicações: permanecer estatal ou se tornar privado. Porque quando veio a discussão da privatização, todo o trabalho de mídia, toda a opinião pública, a CTBC foi o parâmetro de comparação. Reestruturação Eu fui o líder da diretoria que assumiu o papel de desenhar uma nova estrutura, que os tempos requeriam. Nós tínhamos mais de doze níveis hierárquicos. E a empresa tinha um modelo: era privada mas era um modelo de gestão estatal. Com a minha diretoria, eu fui o líder desse desenho, é o modelo de gestão da CTBC hoje que a gente chama de bolograma. Ele está guardado entre as minhas coisas num flip chart. Foi onde a gente quebrou a hierarquia tradicional taylorista. Quando eu terminei esse projeto da reestruturação, eu levei para o vice-presidente, para o Mario Grossi, e falei: "Olha, está aqui, está perfeito, só que não sou eu que vai tocar esse projeto. Eu, na minha competência , para tocar esse projeto interno de reestruturação da empresa, não sou eu". Então tinha todo um elenco de razões, da minha tradição interna na empresa, da minha maneira de me relacionar com as pessoas e também as funções que eu já fazia lá. Então, ele falou: "Onde é que você cabe aqui? É o vice-presidente?" Eu falei: "Se vocês acharem que se eu devo continuar fazendo essa missão que eu faço lá". Foi aí quando eu assumi a vice-presidência, e a diretoria da CTBC continuou executiva como era só que com um outro modelo de gestão. E o indicado, a pessoa que eu indiquei pra me suceder, foi o Nelson Cascelli, que ficou até o ano passado quando veio o José Carlos. Aí eu passei a me dedicar à questão da renovação da concessão da empresa, ao relacionamento com órgãos de prefeituras, associações de classe. Que era muito forte isso. Estava inerente. E a holding criou uma diretoria de comunicação. Para poder se relacionar com o mundo lá fora, como holding. E eu fui designado pra montar essa diretoria, que eu respondo até hoje, que é uma parte da minha vice-presidência. Tem a comunicação, tem as relações institucionais que fica lá em Brasília, que foi quem puxou isso aí. São três pessoas. À época eram duas. Hoje eu tenho mais é uma missão à parte, de sistemas. Mas isso é uma missão que eu tenho transitoriamente, esse ano vai ter outra destinação. A minha vice-presidência é a comunicação, a parte de relações públicas, relação com imprensa. É toda a parte corporativa, a reputação empresarial, a cidadania empresarial, que é um valor. Valores corporativos Nós somos os guardiões dos valores da reputação da organização. E a gente passou a atuar muito forte na lei. Eu paguei um preço por isso, eu assumi uma hérnia de disco violenta. Fiz duas cirurgias. Muita parte disso eu fiz na cama. Eu tive duas fases de um mês e meio imobilizado numa cama, depois mais três meses. Foi um preço, mas foi um preço que valeu a pena. E para essa interação com parlamentares, eu tinha três telefones na minha cama. Porque eu tinha que explicar qual era, em que ele estava votando, qual o valor que estava ali. Que a moeda do parlamentar é o voto. Um parlamentar da Rondônia não tinha nada em Rondônia; um do Acre, um do Rio Grande do Sul. Era uma questão de conceito de valores, de reputação. E aí entrou toda essa questão de cidadania da CTBC. Eu era engenheiro recém-formado e eu era responsável pelos projetos. Eu lembro que eu fui fazer um projeto pra implantar telefonia numa cidadezinha. É uma cidade até bem mais próspera. Era Pedrinópolis. E eu mostrei para o seu Alexandrino, falei: "Seu Alexandrino, em 20 anos isso não se paga. Como eu sou um engenheiro, um técnico, não é a minha instância aprovar isso". Ele falou assim: "Dílson, não se preocupe, as maiores ajudam. Um rio não nasce grande. Ele não é grande sozinho. Ele é feito de seus pequenos afluentes. Então Uberlândia agüenta. As pouquinhas ligações telefônicas que for daqui pra lá e que vier de lá pra cá, Uberlândia agüenta". Então ele trazia esse espírito de cidadania, do compartilhar... a gente vai e volta e cai na presença dele. A CTBC, realmente, sempre foi uma empresa cidadã. Impregnada mesmo do espírito público. Pelo seu próprio modelo de crescimento. Nós recebíamos e recebemos até hoje cartas de líderes comunitários e de prefeitos pedindo que nós façamos o atendimento do serviço de telecomunicações naquela cidade. Muitas vezes não é possível porque a legislação não permite. Mas eu ainda quero estar aí porque no fim do próximo ano essa amarra regulatória desaparece. Então, aonde alguém pedir a gente vai poder chegar lá com esse serviço. A CTBC completou 46 anos. Faz 46 anos que ela está exercitando isso. Então, ela faz o seu caminho é ao caminhar. E cada pessoa que chega nessa empresa é um líder. Ela pega essa bandeira e leva. Isso é o que sensibilizou aqueles parlamentares. Eu acho que uma das coisas mais caras da relação é o bem querer. A CTBC sempre foi bem querida. Porque ela se doou. Quando tinha uma pequena comunidade isolada, se era o poste e o fio que tinha que ir lá, ia plantar o poste lá. E fazia junto com a comunidade através de seus instrumentos constituídos. A lei votada na Câmara, a permuta com a Prefeitura. Isso sempre andava de braço dado. Eu vivi ao longo de todo esse tempo milhares de projetos feitos de parcerias. Às vezes as palavras ficam um pouco gastas, mas era mais que parceria. Era cumplicidade. E isso criou um valor no Congresso. Até hoje, eu, que ando por aí, encontro parlamentares ou ex-parlamentares que lembram: "Ó, eu votei aquela lei de vocês. Vocês estão aí. Eu acreditei. Vocês estão fazendo bonito, vamos ver daqui pra frente". Cliente Seu Alexandrino e o Doutor Luiz contrataram uma central automatizada da Ericsson e o governo não permitiu que ela entrasse no país. Tinha lei de informática, um monte de coisa. Mas, no fundo, era porque as empresas estatais não tinham adquirido aquilo. Mas quando foi possível nós colocamos a primeira central computadorizada do interior brasileiro, e foi aqui. A telefonia celular do estado de Minas Gerais e de São Paulo falou no celular pela CTBC Celular. Não foi pela Telesp, não foi pela Telemig. Então é isso: quando a gente chega lá no fundo é buscar encantar o cliente. O lema quando eu entrei na CTBC, no primeiro prédio dela, do lado de fora tinha um quadradão assim e estava escrito: "O assinante é o nosso maior patrimônio". Hoje quer dizer: encante teu cliente. Algar 2100 Nós temos um projeto que chama "Algar 2100". Que é o fórum que nós temos pra discutir, sem a mínima preocupação de qualquer envolvimento pessoal, porque dificilmente nós vamos chegar lá no 2100 - então, qualquer coisa que a gente discuta nós estamos desprovidos de qualquer influência pessoal - e a gente validou esses valores. Um dos pontos forte foi isso, a validação dos valores da organização. Associados A empresa como ente social. Esse é um valor que, na CTBC, qualquer um que chega tem que receber como o seu, a sua saudação de boas-vindas. É o papel social que a empresa desenvolve. Ela tem seu negócio, rentável, um bom negócio. Ela tem que atender os tradicionais tripés: tem que remunerar o investimento daquele investidor que acreditou nesse negócio; tem que ser um lugar motivador, saudável, que permite o propício desenvolvimento ao crescimento das pessoas que aqui estão, os associados; mas acima de tudo ela tem que cumprir o seu papel de atender ao cliente. Na medida em que ela atende bem esse cliente, ela entra no circuito da cidadania.

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ATL E quando a gente teve a oportunidade, a primeira, nós ganhamos. Foi a celular banda B, Rio de Janeiro, onde nós aqui, mineirinhos do interior, fomos disputar o Rio de Janeiro, o segundo mercado telefônico e telecomunicações do país, com gigantes, com a AT&T, a maior companhia de comunicações do mundo, com parceira da Rede Globo, a maior empresa de comunicações do Brasil, de maior influência política, com o Bradesco, o maior banco de varejo do país. E nós. A nossa cesta de valores e tarifas deixou o ministro Sérgio Motta perplexo. Perplexo E o jornal O Globo, no dia seguinte, veio aqui em Uberlândia e fez uma matéria. "Quem são eles?". E para mim foi emblemático. O repórter retratou com fidelidade. Foi emblemático. Quem deu a resposta foi um carroceiro, com telefone celular. Isso há 3 anos atrás, quando telefone celular ainda era um status, quando tocava todo mundo olhava, 3, 4 anos atrás. O pioneirismo trouxe junto o seguinte. Se você não é o maior, realmente você tem que ser o melhor e mais ágil. E isso foi sempre um valor da CTBC. Foi a vanguarda tecnológica. A primeira fibra óptica comercial que operou nesse país foi aqui nessa cidade, que a CTBC pôs.

COMUNIDADES
Alexandrino Garcia Posso citar uma passagem do seu Alexandrino: como nós, do grupo, havia aqui também as revendas GM, os Irmãos Garcia, uma empresa com mais de 60 anos. O seu Alexandrino era amigo dos dealers GM do Brasil inteiro, e lá em Ituiutaba havia um deles, que por sinal era de origem portuguesa como ele. E o dealer da Ford também. Quando cheguei, uma das prioridades era melhorar a qualidade do serviço, além de otimizar o desempenho econômico e financeiro da empresa. Então, fui verificar as contas telefônicas e vi que as pessoas mais humildes estavam em dia, pagando suas contas, e que os grandes clientes usavam estes recursos na gestão do seu fluxo de caixa, pagando da melhor maneira que dava. Eu comecei a tomar algumas atitudes de gestão que não foram muito agradáveis para eles. E recebi alguma pessoas coléricas. Eles chegavam e me viam lá, me achavam um moleque... deixei até o bigode crescer para melhorar essa impressão. Eu tinha que mostrar alguma coisa. Quando me formei em Engenharia eu pus bigode para ficar um pouquinho mais sério. Eles diziam: "Quem você está pensando que você é?". "O senhor foi notificado, não pagou a sua conta, o seu telefone está desligado. Sinto muito". "Eu vou falar com o Alexandrino, vou te pôr na rua". "Eu acho que o senhor deveria refletir um pouco". "Eu sou amigo do Alexandrino". "O senhor me desculpe. Eu acho que Sr. Alexandrino deve ser amigo do senhor, mas o senhor não é amigo dele. O que o senhor está fazendo com a empresa dele um amigo não faz". Então, o nome dele era usado, a reputação dele pesava. A gente sentia muito isso. Eu nunca me esqueço, esse episódio levou a Associação Comercial e Industrial de Ituiutaba convocar uma reunião. Puxa vida, eu era garoto. Eu falei: "Meu Deus do céu". Aí eu procurei ver, falei: "Vou chamar Uberlândia, vou pedir socorro lá pra direção". E eles estavam em viagem. E aquelas convocações... Eu falei: "Não tem problema.Vou encarar". E fui lá. Então tudo aquilo que eu fui perguntado, eu respondi. Respondi a verdade; às vezes a verdade não era o que o pessoal queria ouvir, mas era a verdade. E a empresa tinha aquela reputação, o presidente tinha aquele nome. E eu sei que quando terminou a reunião eu fui convidado pra participar das outras reuniões como um membro lá. Eu diria que foi um dos grandes desafios profissionais que eu tive. Porque não era só a minha pessoa física. Eu estava ali representando a organização, a empresa. Então se saísse mal eu ia ter um reflexo e todas as repercussões desse desempenho. E até hoje é usual a CTBC participar de reuniões de câmaras municipais, em associações de classe. Até no próprio Congresso nós fomos chamados Existe um folclore paralelo com o nome do seu Alexandrino. Ele é uma legenda. Cândido Mariano Rondon Eu vou me permitir relembrar uma coisa, pois depois ela fica válida. Eu convivia em Campo Grande com os familiares do General Rondon. Ele é mato-grossense e emprestou-se o nome dele porque ele desbravou áreas do Brasil. Se o Barão do Rio Branco fez a anexação política da consolidação das fronteiras brasileiras com a Bolívia, anexando Acre etc, foi o Rondon quem tornou essa integração um fato, quando estendeu o telégrafo até lá na ponta do Acre, de Rondônia - esse nome também é uma homenagem a ele. Eu convivi com netos e filhos dele. Me lembro que num dos trabalhos que nós fizemos no colégio, eu acho que foi o centenário dele, escrevemos uma peça e a dramatizamos contando a vida do Rondon. Foi isso que despertou em mim essa coisa da comunicação. Da importância dela. Eu sentia que eu tinha um chamamento para isso. E veio a oportunidade. No fundo, tinha alguma coisa que levava a telecomunicações. Para aqueles que acreditam em algum desígnio, 25 anos antes o meu pai tinha batizado o primeiro DDD - Dilson Dalpiaz Dias. Dá para conversar um pouco com quem gosta de coisas esotéricas.

RESPONSABILIDADE SOCIAL
Associação Comercial O episódio das gestões da CTBC desde a Associação Comercial em Uberlândia até a constituição da Companhia como ela é hoje remete à figura, mais uma vez, do seu Alexandrino Garcia. Ele era presidente da Associação Comercial de Uberlândia. Essa associação teve sempre uma presença marcante no desenvolvimento da cidade. E os grandes temas sempre passavam pela Associação Comercial e Industrial: o asfaltamento, a ferrovia, o aeroporto. Então sempre passava pela Associação Comercial. A empresa telefônica do seu Alexandrino, que chamava Companhia Telefônica Teixeirinha tinha 500 telefones e ela não estava conseguindo atender à altura a demanda da cidade. E não tinha mais condições daquela entidade continuar prestando serviço. Então, a Associação Comercial assumiu aquilo. Fez-se um Livro de Ouro, criou uma nova entidade. Assumiu o patrimônio da Teixeirinha e cotizou-se entre os empresários da cidade uma nova companhia. E foi criado uma comissão pra gerir esse negócio na Associação Comercial nessa fase de implementação. E o seu Alexandrino, como presidente, foi convidado pra ser o presidente dessa empresa. Passou a chamar Companhia de Telefones do Brasil Central. Nós estamos aqui em fevereiro de 1954. Ele manteve as duas atividades e como uma empresa telefônica requer uma forte espírito de doação, porque é um serviço de 24 horas... Imagine hoje e pensa naquela época, que era um dos poucos meios de recurso que se podia ter com o mundo exterior... as pessoas, aquela comissão, conforme foi tomando mais tempo, foi requerendo, foram se posicionando: "Olha, eu tenho meu negócio, eu tenho minha atividade, eu tenho minhas obrigações e eu não vou poder ficar aí". E o seu Alexandrino foi tomando gosto por aquilo. Eu e o Celso tivemos oportunidade uma vez de gravar um longo depoimento dele e aquilo foi entrando como um germe, contaminou o sangue dele e ele foi tomando gosto com aquilo. Ele fazia uma brincadeira dizendo que a dona Maria, esposa dele, foi mais compreensiva que as esposas dos outros, porque como convivia lá com as telefonistas, dos plantões de 24 hora; as outras eram mais ciumentas; dizia que a dona Maria foi mais compreensiva e, então, ele tomou gosto por isso. E, com o desenvolvimento da telefônica, ele passou então a dedicar mais parte do seu tempo à empresa telefônica. Foi que os irmãos e os outros passaram a tocar mais a parte do empreendimento de veículos. Então, a CTBC nasceu ali dentro da Associação Comercial, e foi tão forte que esse spin off, como a gente diz hoje, elevou junto o seu presidente. Passado alguns anos, no fim dos anos 70, quer dizer, 25 anos depois, o filho do seu Alexandrino, Luís Alberto, foi o presidente da Associação Comercial também. E na época, seu Alexandrino, que era o presidente da Aciub disse que ele era um empresário já realizado e que pretendia até se aposentar. Ele tinha 47 anos de idade. E eu tive mais um daqueles desígnios de ser eleito presidente da Aciub, sem nenhuma premeditação da minha parte, também com 47 anos de idade. E sendo vice-presidente da CTBC, isso 40 anos depois. Eu acho que isso é uma coisa que traz um élan. Foi muito gratificante pra mim ser esse agente de manter uma ligação forte da Associação Comercial, da Aciub, com a CTBC ao longo dessas cinco décadas. Uma ligação histórica arraigada. E quando dessa parte da concessão dos novos prazos, da lei que foi votada para a CTBC, a Aciub teve um papel importante. Assim como as Associações Comerciais e Industriais de todas as cidades servidas pela CTBC participaram ativamente.

LOCALIDADES
Uberlândia Uberlândia ainda hoje mantém uma característica: ela surpreende quem chega pela primeira vez. Me lembro que eu cheguei de ônibus em um sábado à tarde e de um determinado local eu vislumbrei no horizonte um prédios altos. "Que é isso? Será que é na tal de Goiânia que eu estou chegando, será que dormi?". E era Uberlândia. Era uma cidade muito limpa, bem cuidada e com cara de cidade grande, metida a cidade grande. Essa foi a primeira impressão. Aí eu sentia a hospitalidade mineira porque, primeiro, essas pessoas me acolheram dessa forma, isso é uma maneira de ser. A gente não tinha linha de ônibus para a faculdade, chamava Escola de Engenharia na época, era um prédio só, ficava longe, tinha mato para chegar lá, era o antigo Colégio Salesiano. E nós tínhamos uma jardineira. Saía da porta da catedral dez para as sete da manhã e levava a turma para a escola. Quando terminava a aula, meio-dia e alguma coisa, voltava. Esse era o transporte que a gente tinha. Se você perdesse isso era a pé ou você pegava alguma carona genial com um carroceiro. Uberlândia ainda tem os carroceiros de entrega, até hoje ainda tem isso aqui. Entregavam o material de construção, cimento, telha, tijolo. Era muito comum a gente ir no meio da telha e do tijolo para a aula. Isso já é irreverente, já é descompromissado. E as charretes, que eram chique; tinha táxi, ponto de charrete na rodoviária. Essa era Uberlândia. Já tinha o Uberlândia Clube, um senhor clube. Vale a pena conhecer. É um estilo art deco único, muito interessante. Já tinha o Praia Clube, o Cajubá estava recém-inaugurado. Nós chegamos e conseguimos um convênio com o clube, pois tínhamos um mentor, o Dr. Genésio de Mello Pereira. Foi uma pessoa de grande visão aqui nessa área, era um engenheiro, e ajudou a criar a escola. Ele era o nosso mentor. Ele conseguiu que a gente entrasse numa classe especial de sócio para freqüentar o Praia Clube e o Cajubá. Era uma sociedade fechada, muito fechada, mas se você tivesse uma possibilidade, era muito bem recebido. Foi uma paixão pelo lugar porque foi interessante, isso me chamou muito a atenção e a gente comentava. Uberlândia tinha festa de segunda a segunda e trazia duas coisas para nós, estudantes de fora: eram festas familiares, era a tal brincadeira, chamava brincadeira. Se era o aniversário de alguém, comemorava-se com uma galinhada. E a galinhada é uma coisa fácil de ser feita. Então, se fazia uma galinhada, botava música na vitrola e o pau quebrava. A gente que era de fora, eu era um desses e tinha outro colega, o Brasiliano, que era assim também, acabava indo para a cozinha. Isso é, talvez, uma questão de origem, da minha criação. Aquilo ficou em mim: ninguém me conhecia aqui. Eu era apresentado para o pai ou para a mãe de uma menina e eles logo perguntavam: "Qual é sua família? Quem é seu pai? Quem é sua mãe? Você não é daqui". A primeira coisa era me apresentar: "Eu sou estudante da Engenharia, venho lá de Mato Grosso, meu nome é tal, fomos convidados pelo fulano, estamos aqui na sua casa..". Como quem diz: se der qualquer coisa aí eu estou apresentado. Então, a gente acabava indo para a cozinha, e isso criou uma coisa que eu tenho até hoje aqui em Uberlândia: conheço muita gente por isso, por essa facilidade que tive da origem. Havia um certo distanciamento em relação às pessoas de fora. Quando nós chegamos, aconteceu um fato interessante. A elite da rapaziada era no Batalhão do Exército. Depois, começaram a vir os universitários de fora. De certa forma, houve um overlap. Veio junto, mas nunca houve conflito. Mas começou a acontecer o natural: essa turma nova que veio começou a disputar o mesmo espaço dos garotos que eram daqui. Em determinados níveis havia certa resistência. Mas o garoto sempre tem uma irmã. Se você é amigo da irmã, você fica amigo do irmão, você fica resolvido. Eu tinha uma mesada do meu pai. Ele me ajudava e logo comecei a trabalhar dando aula particular, aula de reforço de Matemática, Física e outras matérias. Depois, comecei a dar aula no segundo grau, nos colégios, nos horários que a faculdade permitia. Por último, dei aula em cursinho, o que permitia um ganho maior. Era algo diferenciado. Logo comecei a mandar um dinheirinho para casa. Eu sempre tive essa facilidade. A gente já tinha um nicho de mercado de aula particular que permitia uma boa remuneração. Você criava clientela. As pessoas a quem eu dava aula particular hoje são médicos, engenheiros, dentistas, meus amigos. Depois, me profissionalizei. Tem um parênteses, uma particularidade: freqüentei a casa da minha esposa dando um reforço de aula de francês para ela.
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