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História

Quer transformar o mundo? Vá lá e faça.

História de: Benedicta Gonçalves Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/05/2007

Sinopse

Mudança de Itapetininga para São Paulo. Trabalho do pai como caseiro em Cotia. Cortiço em Pinheiros. Injustiças na escola. Moradia na cocheira do Jockey Club. Trabalho. Mudança para casa alugada no Morro do Querosene. Casamento com Chiquinho. Tratamento para engravidar. Nascimento dos quatro filhos. Aborto. Casa Própria no Jardim Bonfiglioli. Adoção de dois meninos. Catequista. Escola São Domingos Sávio. Larzinho São José.

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História completa

Benedicta Gonçalves Pereira. Ditinha, pelo apelido. Me acostumei desde criança. Nasci em 07 de fevereiro de 1937, em Itararé, Itapetininga. 

 

Como papai colocava dormente nas estradas de ferro em Itararé, quando a mamãe deu a luz, ele não podia fazer o registro do meu nascimento. Quando ele foi, mamãe disse a data e que gostaria que eu tivesse o nome da mãe dela, Francisca. Ele não escreveu e quando chegou no cartório, disse: “É um nome de parente, uma homenagem: Benedita”. A moça perguntou: “Quando nasceu sua filha?” Ele falou: “Numa terça-feira de uma festa muito grande”. A moça falou: “Bom, festa grande que eu me lembre, agora nos últimos tempos, foi sete de setembro, numa terça-feira”. Então, ele me registrou: sete de setembro de 1937. Só que eu nasci em 07 de fevereiro, terça-feira, feriado de carnaval. 

 

Papai é bem índio mesmo, a feição, as unhas, o cabelo. Ele era analfabeto convicto. Sabia tudo e não precisava aprender a ler, media as palavras pelo tamanho das letras. Mamãe, por sua vez, era uma pessoa muito culta. Professora leiga. Andava à cavalo quilômetros e dava aula nas fazendas. Meus avós, mamãe contava que eram de uma linhagem africana.

 

Por ser analfabeto papai falou: “Vocês vão estudar”. Nós moramos uns anos em Itapetininga e em 1940 viemos para São Paulo, para o Largo de Pinheiros. Tia Maria Luiza era dona de uma pensão e mandou buscar mamãe e papai para auxiliá-la. Eu sofri muito. Lembro que tinha medo da campainha, do barulho do bonde. Tinha uma chácara em Cotia que precisavam de caseiro. Fomos para lá. 

 

Depois, eles saíram de lá e vieram para São Paulo. Viemos morar na Rua Aldeia, na Cidade Universitária. Eu menininha, tava acabando a guerra, 1945, 46. Depois, viemos novamente pra Pinheiros, morar na Rua São Manoel. 

 

Lá a moradia era num quintal, várias casas. Morávamos num quarto só. Quando abria as camas, tinha que passar por cima das outras. Então, vivíamos fora de casa. A nossa sala era o quintal. Papai chegava do serviço, ligava o rádio. Mamãe fazia janta num espaço apertadinho e os dois ficavam conversando. Víamos isso e saíamos.

 

Eu tinha uma irmã mais velha, que era estudiosa, a Olinda. Eu e o Sérgio, meu irmão, já éramos mais levados. A gente ia fazer arte: furar pneu de carro, subir e pular muro, brincar de pega-pega, barra manteiga: “Barra manteiga na fuça da nega, minha mãe mandou...” E eu sempre querendo ganhar a corrida. Era um moleque. 

 

Num dia de aula, não tinha lanche para levar. Como é que eu ia dizer para a minha mãe que ela tinha que me dar? Eu ia sem. Agora o cheiro daquele lanche das crianças! Pão! Recheio! Sempre olhei para a lata de lixo dos outros e era diferente da minha. A minha tinha folha, carvão e pó. A dos outros tinha casca de mamão, de laranja, de banana. Eu dizia: “Porque essa diferença?” 

 

E meu pai pedia: Cadê o caderno?” Eu dizia: “Não enxergo, papai, tô sofrendo da vista, as letras passam”. Meu pai imediatamente me levou para comprar óculos. Eu não tinha lição porque não gostava do que via e ouvia. Pra mim “b” e “p” eram a mesma coisa “Um tá com a barriga pra cá, outro tá com a barriga pra lá”. Repeti um ano e foi a vergonha da família. Essa foi a minha dificuldade inicial na escola, mas depois deslanchei, tive notas altas. 

 

Depois da escola Alfredo Bresser, fui pro Castro Alves. 

 

Nessa época, no início da minha adolescência, nós morávamos no Jockey Club de São Paulo. Eu já estava com meus onze, doze anos. Papai trabalhava nas cocheiras e deram um comodozinho pra gente sair do aluguel. 

 

O papai fazia a mamãe dormir com as mulheres e ele dormia com os homens. “Lurdes, tome conta delas, que é para ninguém chegar perto de nós.” E ele tomava conta dos homens. E era assim, na cocheira de cavalos.

 

Logo fui trabalhar numa fábrica de macarrão, na rua Butantã. Sai correndo de medo do dono porque ele “passava a mão” nas funcionárias. Aí, fui trabalhar numa tipografia. Fiquei um aninho, mais ou menos. Quando sai, fui trabalhar numa concessionária da Real Transportes Aéreos. Eu usava uniforme e exercia a função de telefone.

 

Um dia, estávamos em casa jogando dominó. Eu tava já de olho no meu marido e ele em mim. Mas eu não gostava dele porque tinha muito sotaque de cearense. E ele também me achava muito magra! A gente tinha uma amizade e jogava dominó junto. Ele tinha 20 anos e eu tinha 14.

 

E o Chiquinho ia ficar noivo da Maria. E eu disse: “Vai nada, ele é louco por mim”. Me arrumei, me perfumei e fui esperar no portão. Era um quintal enorme, de areia, com as portas dos cavalos. Assim que ele apontou, falei: “Você pode até casar com a Maria, só que o primeiro convite de casamento tem que ser meu.” Ele disse: “Eu não gosto da Maria”, e já ficou todo se derretendo para o meu lado. Então, minha adolescência foi namorar e me casar. Me casei com dezesseis anos.

 

O Chiquinho era jóquei e tinha um nível financeiro melhor. Para a minha família parecia que nós éramos ricos. A gente era classe média. É que nós éramos muito pobres mesmo. Então, tudo a gente repartia. E aí fomos alavancando a família porque tudo o que nós dois conseguíamos, os irmãos e os tios tentavam conseguir. A família inteira foi sendo chamada pra cima, em virtude desse casamento.

 

Levei ainda dois anos para engravidar, tive que fazer um tratamento.

 

Tivemos quatro filhos. E no caminho, fiz um aborto. Mas, me arrependi na hora e no ato. Eu falei assim: “Deus, vou adotar um filho quando puder. Eu pego um, mas conservo os meus”. Por causa da burrada que eu tinha feito. 

 

E, mudando de bairro, vim morar no Bonfiglioli, na casa que comprei em 1959. 

 

Então, adotei dois meninos no Convento Bom Pastor, em Osasco. Esses dois eram levadíssimos. Falei: “Vamos devolver”. Pegamos todas as roupas que compramos, fizemos a malinha dos dois e fomos para o convento. Chegamos, descemos do carro de mão dadas, e ia vindo uma freirinha, a irmã Laura: “Olha que lindos, como engordaram! Preciso contar uma coisa para vocês. Passei a noite inteira de joelhos, agradecida à Deus, por vocês. Porque vocês são os únicos que não devolveram, até hoje.” Pusemos os dois no carro. Costumo falar: “Nasceram aí, nossos filhos.” Cada vez que conto essa história, me emociono. 

 

Fui ser catequista para dizer como uma tem que ser. Tem que mostrar um Deus, um Jesus. As rezas e o Credo você tem a vida inteira para aprender. Eu não estou para fazer decoreba de religião. Imagine! E aí foi. Minha turma de catequese foi de 1970 até 1979. Depois, comecei a trabalhar com escola porque puseram fogo numa escola e o padre precisou de alguém para dar aula.

 

De 5 crianças, passei para 75. Ele se assustou. Porque eu dava uma aula, quando era catequista, ensinava a diferença o que é Deus e o que é o mundo. Eu pegava a flor e a flor de plástico, comparava e dizia: “O que é de Deus? O que é do homem? O que o homem faz? Como é que de uma sementinha nasce essa maravilha perfumada?” Vinha pai, avó. A igreja ficava cheia de gente em volta e eu dando a minha aula. E o padre cresceu os olhos.

 

Então, escola e igreja fiz caminhar juntas. Até que tive que ter a minha, por divergência de comunidade. Começou escola paroquial São Domingos Sávio e acabou por causa do bairro, por ciúmes e porque ela crescia em volta de mim. Se era eu que fazia tudo, era difícil crescer em volta de outra pessoa. E não podia. A comunidade precisa crescer. Me retirei. Quando cheguei em casa, fui lavar uma trouxa de roupa para esquecer dessa trabalheira. Toda vez que tenho problema, um tanque de roupa alivia. Mas, não é na máquina, é na mão. Então, chegou uma mãe com trinta crianças na minha casa: “Onde a senhora for, vai ensinar nossos filhos. Comece a sua escola”. Foi uma revolução em casa. Desmancha dormitório, compra cadeirinha, foi assim que começou o Larzinho São José.

 

Eu vi a grandeza de São José, de entender o que ninguém entende. Ele sofreu para entender. E eu também custei para compreender as dúvidas humanas. E ele venceu. Eu falei: “São José merece ser o nome da minha escola porque é protetor da família”. E “larzinho” porque é uma casa, uma pequena escola onde ele vai aprender a fritar bolinho, fazer chocolate. Vou dar agulha, tinta na mão dele, não importa, a criança vai ser feliz. Cresceu assim minha escola. 

 

Depois de 28 anos parei e me aposentei.

 

Eu fundei o larzinho por causa da minha escola, eu virei catequista por causa do meu aprendizado de religião. Todas essas coisas fazem a gente. Quer transformar o mundo? Exerça. Vá lá e faça.

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