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Histórias da aldeia Xokleng

História de: Vei -Tchá Uvanhaccü Tëiê
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/05/2010

Sinopse

Com a destreza de quem já contou uma história dezenas de vezes, Vêi-Tchá explica como seus antepassados formaram a aldeia indígena de Xokleng, logo depois de terem sido retirados da mata em 1914 por um “pacificador”, o carioca Eduardo de Lima e Silva Hoerhann. Este havia vindo para o interior de Santa Catarina com a missão de “amansar” os índios e de introduzir entre eles os costumes e o idioma dos “brancos”. Vêi-Tchá conhece a fundo esse passado, porque já o detalhou para todos os seus filhos e, na função de mestre griô, também para as demais pessoas da região. Além da origem da reserva, ele fala das tradições de seu povo, da culinária e das antigas brincadeiras de criança. 

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História completa

Vêi-Tchá Uvanheccü Tëiê. Esse é meu nome completo. Aqui no Estado de Santa Catarina mesmo, que antes era o município de Ibirama, eu nasci. Na aldeia. A aldeia aqui, depois que a gente se conheceu por gente, era aqui mesmo, mas os índios, eles saíram do mato em 1914. Logo após, eu nasci. Em 1914, o pacificador, o nome dele era Eduardo de Lima e Silva Hoerhann. Era o pacificador. Ele veio para cá, com idade de 16 anos. Com 14 anos, dizem que ele matou alguém lá. Ele é lá de Rio de Janeiro. Daí, como ele era criança, o governo fez a pergunta: “O que ele queria ter na vida?” Ele disse: “Eu quero ser amansador de índio lá em Santa Catarina.” Ele veio. Quando ele entrou aqui, ele já sabia que tinha índio no mato ainda. Ele começou a querer tirá-los, a amansá-los.

 

Os índios foram chegando. Os primeiros que foram chegando perto, no encontro dele, foram o falecido meu sogro com o irmão dele. Os outros já foram chamar. Vieram. Tinha outro lá para o lado. Vieram. Acabando, quando saíram, eram cinco mil e poucos índios que saíram do mato. E ali, então, os índios, nós já começamos a aprender. Os velhos que vieram do mato, ele queria também ensiná-los a ler e escrever. Alguns já aprenderam, alguns não, mas boa parte dos pequenos aprendeu, que nem eu.

 

O branco, a gente vai começar a contar, ele já tem o caderno e a caneta na mão. Ele vai escrevendo. Tudo vai anotando. E o índio, não. De pequeno assim, ele conta, e o caderno do índio é esse. Caderno e o lápis. Aqui entra, aqui ele guarda tudo. Quando ele está assim, ele já sabe tudo. Quando está velho, ele casa. Quando ele casar, ele já conta para os filhos. Vai transmitindo para os filhos, para as filhas. Assim é.

 

O velho, ele não conta a história quando está velho. Desde que ele casa, ele já tem a família. A filha nasce, o filho nasce, ele já vai contando. Ensina, conta para ele todo o passado. Então, o pai fica velho, o filho já está por dentro. Então, às vezes, um pergunta e ele manda o filho dele no lugar dele contar. Assim é. O branco, não. Toda história ele marca, vai anotando toda num livro daquilo. Faz um livro daquilo. E a história do índio é verdade.

 

Na época, naquele tempo, tanto o Brasil inteiro era mata que os índios viviam ali. Quando foi descoberto o Brasil, diz que o Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil no ano de 1500, e os portugueses, quando entraram, os índios já estavam. Então, os índios eram donos, eles já estavam no Brasil. Aí, o branco foi destruindo com índio. Foi tomando o Brasil todo, que era do índio. Os índios foram sofrendo, andando de lado a lado, os índios Xavantes, Pataxós e assim por diante. E ali nós também, né? E os brancos também foram atacando, foram matando, foram tomando, dizendo que eles são os donos do Brasil, mas não. O dono do Brasil era o índio. E se existisse a mata inteira ainda, estava bem, nós estávamos bem.

 

No mato, eles faziam bebida com mel de abelha. Só que eles tiram bastante “abelheira” com aquele mel. Então, eles tomam aquele, só que não é de todo tempo assim. É uma festa, mas aí gostam de tomar também. E eles deixam a pessoa bêbada, né? Então, eles gostam, também lá uma vez fazer. Isso eu tomei já. É que nem vinho de uva, de ameixa, a mesma coisa. Eles gostam muito, às vezes, eles estão falando para mim: “Vêi-Tchá, vê se faz um vinho para nós!” Agora, eu fui mostrar, eu fiz um lá em Jaraguá, me chamaram, me pagaram. Eu digo: “Olha!” Eu vou levar o pessoal para mostrar. Nós temos dez dias. Fiz o buraco na terra para assar carne no buraco. Fizemos fogo bastante, botamos. Aí, botei as varas tudo, botamos camada de folha de caeté, e a carne em cima. Depois, cobrimos com caeté e botamos barro. Aí fica. No outro dia, eles tiram. Assim, eles faziam no mato. Nós fazemos um buraco comprido e matamos, às vezes, cinco porcos-do-mato, às vezes, duas antas. Eles tiram tudo a carne pura e fazem aquele fogo cumprido, colocam no buraco e cobrem. Fica. No outro dia, já está assadinho. E ali fica, carne cozida fica. Quando eles querem comer, amanhã eles vão lá pegar, no outro dia vão lá. E assim vai ficando.

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