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História

Histórias de um líder Xavante

História de: Paulo Cipassé Xavante
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/12/2014

Sinopse

O líder indígena do povo Xavante, Cipassé contou sua história ao Museu da Pessoa em novembro de 2014. Ele descreve as brincadeiras de infância, fala sobre o processo de migração dos Xavantes até o Mato Grosso e como os casamentos aconteciam em grupos diferentes, mas dentro da mesma nação indígena. Explica porque teve que deixar a aldeia aos oito anos de idade, enviado pelo avô para morar com uma família de não índios em Ribeirão Preto. Conhecida como Estratégia Xavante, o objetivo de seu avô era integrar os jovens xavantes como os não índios para ajudar na sobrevivência do próprio grupo. Cipassé descreve as dificuldades de adaptação a essa nova realidade e a saudade da família e da aldeia no período em que morou longe dos pais. Fala sobre sua mudança para Cuiabá e posteriormente para Goiânia, onde concluiu seus estudos. Recorda o seu envolvimento no projeto Aldeia Juvenil, da Universidade Estadual de Goiás, onde trabalhou ensinando jovens infratores a construírem ocas. Conta como começou a se envolver no movimento indígena, onde conheceu a índia karajá Severiá. Esse envolvimento acabou em um casamento de dois membros de povos anteriormente inimigos: os karajás e os xavantes. Ele fala sobre o ritual do casamento e sobre a filha que tiveram: Clara. Ele finaliza o depoimento explicando a parceria que fizeram com a fotógrafa Rosa Gauditano, da ONG Nossa Tribo, que resultou na produção de um vídeo e uma cartilha sobre saúde para o povo xavante, patrocinado pelo projeto Criança Esperança.

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História completa

Eu me chamo Paulo Cipassé Xavante, tenho 46 anos, nasci em 25 de abril de 1968. Nasci na aldeia Barreira Amarela, a aldeia fica na beira do Rio das Mortes no Mato Grosso, que fica na terra indígena de Pimentel Barbosa, município de Canarana, Mato Grosso. Meu pai é Waza’é Xavante, minha mãe, ela morreu uns dois anos atrás, o nome dela era Fernanda Wautomoaba Xavante. Hoje não existe mais a aldeia que ela nasceu.  A minha mãe na verdade morava na outra aldeia e meu pai na aldeia que ele morava não tinha mulher pra casar.   

A minha mãe veio de outra aldeia pra casar com o meu pai. Assim que se conheceram eles se casaram. O meu avô Ahopowê, foi um grande cacique, grande chefe na época dele. Ele que fez contato com o governo federal, na época era SPI hoje é a Funai, e antigamente ele era um chefe de toda a nação xavante. Como ele na época tinha casado quatro vezes, o xavante não pode casar mais de quatro, ele teve mais de 50 filhos.  Da minha família somos sete irmãos, quatro homens, três mulheres. Eu saí com os oito anos da aldeia com mais oito jovens da aldeia pra estudar numa cidade do interior de São Paulo que chama Ribeirão Preto. E era um projeto do vovô. Ele tinha uma visão das coisas, o futuro, que depois que ele tinha feito contato com o não índio e o povo dele não ia ter mais espaço, além disso, também em termos de espaço, em termos de território ia diminuir. Chama-se Estratégia Xavante.

Então eu tive 100% da minha infância, brincava, pescava, caçava, andava, ia pro rio, pro córrego aprender a nadar. E depois a gente vai crescendo vendo os adultos fazendo as festas e ao mesmo tempo a gente vai vendo como o mundo xavante, o mundo que a gente faz parte funciona, a gente começa a conhecer como que é o cotidiano assim da vida comunitária numa aldeia. Você começa a participar das festas, já começa a entrar no mundo do seu ritual e do seu povo, você já começa a entrar no Wapté, você já começa a aprender o que é a cultura, o que é o ensinamento, essa coisa, e vai cada vez crescendo. E fora disso, antes de entrar em tudo isso no Wapté, a gente também acompanha como é que é o carinho de qualquer casal tem relação com seus filhos, desde um casal de um indígena, isso é qualquer parte da etnia.  Eu brincava assim, a gente ia pro rio, eu corria atrás do outro, imitava a onça, a caçar o outro, pescava também, a gente caçava passarinho, arco e flecha, brincava lá imitando os adultos.

Sair foi uma quebra muito grande, muito grande mesmo, eu sofria, minha mãe sofreu, a comunidade sofreu e as famílias que deixaram esses oito jovens xavantes foi muito difícil pra eles. Mas como era uma missão, também o meu avô conversou muito com os filhos dele, com a sobrinhada deles, que essa nossa ida não era uma ida assim, era uma ida que futuramente vai segurar isso realmente que está aí.  Saímos de lá de avião. Chegamos em Goiânia, de Goiânia viemos de ônibus até Ribeirão Preto. Na época eu só falava xavante. O cara que ajudou a articular tudo isso ele sabia falar xavante, ele fez reunião com toda a família, explicou o projeto, as ideias, ele fez tipo um dicionário básico, tipo arroz, água, mamãe é não sei o que. E a partir daí as pessoas onde eu fiquei, a minha mãe, falava essas coisas básicas. Morei de 76 até 79. Aí eu voltei pra aldeia, fiquei uns três anos. Depois tinha uma bolsa na Funai, consegui a bolsa na Funai, comecei a estudar em Cuiabá no colégio interno em 80, eu voltei 81, pra baixo fiquei dois anos, 82. Depois transferi a bolsa lá pra Goiânia, 83. Ficou assim em Goiânia, depois voltei pra aldeia.

Fui pra Goiânia porque eu conhecia um professor que era o professor da Universidade Católica de Goiás, também eu conhecia um estudante que era de psicologia, fazia o curso de Psicologia, uma amiga também, então nessa época tinha um projeto que eles queriam fazer, chamava Aldeia Juvenil, que é um projeto da Universidade Católica de Goiás. A ideia do projeto era no sentido assim de pegar toda a filosofia xavante, como eles viviam em coletividade, tinham tudo, se esse método do xavante indígena, xavante, você poderia usar esse método pra tentar recuperar os meninos de rua. Mas no início foi muito bom, depois tiveram várias mudanças, várias alterações no projeto. Hoje existe Aldeia Juvenil em Goiânia, mas com toda a mudança, a estrutura não é mais a ideia inicial, hoje tem casa de alvenaria, hoje a Aldeia Juvenil é muito reconhecida nacionalmente, luta pelos direitos dos meninos de rua.  Nós fomos como instrutor de construir a oca, com isso nós tivemos contato com os meninos da Febem.

O primeiro contato que eu tive sobre o movimento indígena foi com a folha que o Cimi fazia, chama Porantim, Jornal Porantim, inclusive eu tinha ganhado a assinatura de uma enfermeira, uma amiga. Comecei a ler, comecei a entender, comecei a entrar no movimento indígena, ler, entender e nessa época eu já estava fazendo o ensino fundamental, já estava na sexta, quinta, sexta série e comecei já a entrar pessoalmente no movimento indígena. Eu fazia parte do movimento indígena, da UNI. Quando eu resolvi fazer o projeto na aldeia, nós criamos a nossa associação, chama Associação Pimentel Barbosa, que foi a primeira associação dos xavantes, foi criada antes da Constituição, antes de 88. Depois que nós garantimos que a organização indígena nível tradicional e reconhecido, também não nível tradicional que é UNI tem reconhecido, mas nosso já estava registrado. Depois disso tiveram várias criações a organização indígena na época.

Na terra indígena tem nove aldeias. Na terra indígena dos nove tem quase duas mil pessoas. Da minha aldeia Wederã tem cem pessoas, mas somando as nove aldeias dá dois mil xavantes que moram na terra de Pimentel lá. Somando das terras indígenas xavantes vai dar 17 mil xavantes, só no Estado do Mato Grosso. Na verdade eu era cacique, recebi o convite, essa nova estrutura que a Funai pensou em implantar, recebi o convite, aceitei quatro anos, onde que eu já estou pensando voltar pra aldeia, estou vivendo quatro anos, acho que eu estou perdendo tempo, a comunidade perdendo tempo. Eu recebi, aceitei esse convite por questão política no sentido assim de que pensei que ia ajudar, o pessoal me convidou por causa de ter um currículo muito bom, trabalhei numa organização, tenho experiência e tudo mais.  Eu sou o chefe há quatro anos. Então quatro anos eu vejo aldeia toda assim, o movimento que eu vejo aqui no Brasil e está muito difícil. Então a gente que tem experiência tem que voltar pra gente trabalhar com a comunidade, com as lideranças, com os jovens, tanto que eu to fazendo isso.

Eu tenho curso de magistério. Além de ter terminado o curso de gestão ambiental tenho o curso de magistério. Eu fiz curso de gestão ambiental porque eu trabalhei 23 anos numa organização. 23 anos viajando aqui no Brasil ou fora. Na minha organização, Associação Xavante Pimentel Barbosa. Hoje tem uma nova organização, chama Associação Aliança dos Povos do Roncador. Então durante 23 anos é uma coisa que eu sei muito bem, então é por isso que eu fiz gestão ambiental pra lidar com esses projetos. Eu já fui como professor, já lecionei, já fui diretor da minha aldeia dois anos, dei aula também dois anos.

O xavante e o karajá foram inimigos durante muito tempo. O xavante lutou com várias etnias, com caiapó, com karajá, com javaé, com bororo, quando ele foi descendo até ele chegar no Mato Grosso. E a Severiá na época ela estudava, uma índia karajá que foi criada pelo não índio e na época ela fazia Letras e também na época ela estava entrando no movimento indígena. Então na verdade a gente se conheceu no movimento indígena, no encontro. Eu tinha na época 19 anos, ela tinha 25 anos, tinha cinco, seis anos mais velha que eu, e nos conhecemos, namoramos, casamos. Temos uma filha, a Clara. está com 17 anos. Morou muito tempo na aldeia, foi alfabetizada, a mãe dela a alfabetizou, então assim viveu lá. A minha filha fala duas línguas, português e xavante, inglês, porque a mãe dela fez letras, ela fala inglês.

A gente já tem um trabalho de parcerias com outras organizações, tipo WWF. Porque a gente tinha um projeto dos manejos dos queixadas, até hoje, porque a WWF trabalha com animais silvestres, de conservação também, com Ford também que mexe com capacitação de liderança, organização, a mesma coisa também. E com as organizações também aqui tipo Opan e outras demais organizações e as universidades. Então a gente tinha um trabalho de parceria. A Rosa (Gauditano) a gente já a conhecia como fotógrafa na época da UNI. Na época da UNI, do Núcleo de Cultura Indígena. Conheci a Rosa na época em que nós fizemos um encontro em Altamira, contra a usina Belo Monte e foi nessa época que a Rosa começou a entrar, conhecer o movimento indígena, conhecer o povo indígena e começar a querer se especializar na foto indígena. Foi em 88 parece o encontro que teve lá. E a partir daí ela começou fazendo as fotos dela. Como a gente já conhecia, a gente a convidou pra ela fazer umas fotos, registrar as festas da aldeia. Então ela foi convidada, uma vez tinha uma cerimônia muito longa, tinha furação de orelha, essa coisa toda e ela foi, registrou tudo, no início até o fim, por isso tem um acervo muito bom pros xavantes, esse que está, chama Raiz do Povo Xavante.

Ela criou a organização Nossa Tribo e ela falou pra nós, eu, pro Caimi, pra Severiá, se a gente poderia fazer a parte de diretoria. A gente faz parte da diretoria como fundadores, tal, e vamos. Então dentro da organização a gente está como fundador também, como conselheiro e tal. E ela começou a fazer os projetos com outras etnias. Em relação do projeto que ela queria apresentar pro Criança Esperança, ela falou: “Cipassé, eu estou pensando o que você acha a gente trabalhar com as crianças a parte de alimentação, cuidados.” “Vamos. Na boa”. E na época a gente trabalhava também nesse Projeto Jaburu com animais silvestres, com os produtos do cerrado. E eu falei: “Aqui no Wederã a gente tem uma região muito rica, tem muito fruto de cerrado, pequi, buriti, tudo. Vamos, por que não?”. Então tá. Ela foi lá, conversou com a comunidade, a comunidade concordou, além disso, também na área de saúde, o cuidado com as crianças, essa coisa toda. E a comunidade falou que tinha o projeto que eles queriam, tal, anotou os conteúdos. Chegou aqui, fez o projeto, ela mandou pra nós, lemos, aprovamos e mandou lá pro Criança Esperança foi aprovada. Você tem que pegar um profissional que entende, qualquer área, seja área como enfermeira, como bióloga, como antropóloga, como médica, essas coisas pra você montar a equipe pra realmente o projeto ter êxito, ter sucesso. E ela já conhecia todo mundo e ela montou uma equipe muito boa. Ela pegou uma equipe aqui, eu tinha indicado um cara tipo engenheiro florestal, um cara muito bom. E a gente tinha a nossa equipe, então nós fizemos uma parceria entre a nossa organização que chama Aliança dos Povos do Roncador e a Nossa Tribo. Então eu ficava na parte organizacional da aldeia, as atividades, as ações, e ela ficava com a direção da Nossa Tribo como lidar com a equipe daqui.

Com esse projeto nós produzíamos o vídeo e cartilha, o objetivo é isso, distribuir pro xavante e também usar isso nas escolas. E também o pessoal que trabalha na saúde mesmo trabalhar na prevenção nas reuniões comunitárias. Então hoje a gente usa muito isso e foi muito bom e a gente quer reativar de novo, dar continuidade e colocar isso também pra outras aldeias. Mas mudanças é o seguinte, porque pra você fazer um trabalho dessa área tem que fazer muito encontro, um monte de conscientização. Porque não adianta você falar uma vez e não ter continuidade. Apesar de nós produzirmos dois materiais que é visual que é o vídeo, que é a cartilha, mesmo assim também o próprio nosso que foi feito a gente já tinha um trabalho, a gente continuou fazendo um trabalho. E a gente quer fazer de novo, reativar isso, continuidade, e a gente quer colocar isso também nas outras aldeias. Igual eu falei pra você, onde que a gente pode que é até Pimentel Barbosa ainda era muito rica na parte de fauna, tem muitas frutas, tem muito bicho, essas coisas, e flora também, tem muito cerrado, tem muita fruta. Então a gente quer mostrar que também não só trabalhar com a comunidade, também envolver a escola pra produzir o material também, ensinar pras crianças a importância das árvores, da fruta, dos bichinhos, tudo, mudar um pouco.

A mudança que aconteceu que as mulheres são um pouco tímidas, as mulheres tiveram muito assim que aprender como cuidar das crianças em relação a alimentação, principalmente não muito a alimentação, mas principalmente como cuidar das crianças. Principalmente negócio de gripe, gripe lá quando dá, dá um surto, toda a comunidade fica gripada. O que a gente frisou muito nessa área porque tinha muita morte de criança, gripe, é uma coisa tão assim, torna-se pneumonia, torna-se uma coisa assim. Então a gente, a cartilha a gente fez com esse objetivo, como evitar isso. Então como ajudar, como criou essa coisa que ajudou muito. E o segundo é a alimentação.

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