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Histórias de vida da BR 163: Eurides Florentino

História de: Eurides Florentino
Autor: Michael Klingler
Publicado em: 25/01/2016

Sinopse

Eurides Florentino faz parte dos pioneiros que chegaram do sul do país à BR 163, nos anos 1980. "Sofrendo e aprendendo” era o método usual para capacitação nas novas técnicas agrícolas. Era o primeiro de plantar soja na região sudoeste do Pará, apesar dos problemas na regularização fundiária. Florentino morreu em circunstâncias trágicas em 2014; o seu otimismo persiste: “A gente preparando bem o que tá pronto, a gente vai produzir o dobro, o Brasil inteiro!”

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História completa

Eurides Florentino nasceu em Orleans, perto de Uruçanga, Tubarão e Criciúma, no estado de Santa Catarina. Com vinte anos, ele chegou a Capanema, Paraná. O lugar era puro mato, não tinha nem estrada para se chegar até a cidade. Muitas pessoas entraram a pé e a cavalo, à picada, facão e foice. Os guardas forneciam as terras e cada um ganhava um pedacinho, Eurides lembra do passado com um sorriso e conta que os solteiros ganhavam dez alqueires e os casados ganhavam vinte.

 

Em 1973, Eurides migrou para São Miguel do Iguaçu, Paraná. Naquela época, ele trabalhava como peão no mato e assim conseguiu adquirir mais um terreno no município. Três anos depois, ele conheceu a sua futura esposa. Neste período, a mecanização da agricultura estava começando nos estados do sul do país. Eurides tinha uma criação de porcos e começou a plantar soja para alimentar os animais. No município, onde também morava a conhecida família do Blairo Maggi, Eurides e seu irmão foram uns dos primeiros a mecanizar as terras. Eurides ainda segue o conselho de um professor do colégio: "A gente tem que estar com a alma limpa, sem pecado, como se morresse amanhã, mas trabalhar como se nunca fosse morrer”.

 

“Sofrendo e aprendendo”, este era o método usual para capacitação nas novas técnicas agrícolas. Desta maneira, até foi criada uma unidade de semente aplicada na região. Com o passar do tempo, o avanço técnico foi chegando à região – como a colhedeira e o secador, símbolos da intensificação da agricultura e do sucesso econômico. “Na época, se a primeira colhedeira colhesse 500 sacos durante o dia, a gente achava barbaridade, né, porque, se fosse cortar cada unzinho e botar dentro da tiradeira, precisava 50 pessoas mais ou menos pra colher o mesmo que uma colhedeira fazia num dia. Agora […] já tem colhedeira que colhe quatro, cinco mil sacos por dia!“

 

De repente, a construção da usina hidrelétrica de Itaipú causou várias desestruturações territoriais e desapropriações no extremo oeste do Estado do Paraná. Grandes movimentos migratórios de agricultores foram o resultado, igual Eurides que vendeu finalmente em 1983 a propriedade e decidiu ir para Tangará da Serra, Mato Grosso. A mudança foi dura no início, pois a primeira fazenda ficava longe da estrada. Ao mesmo tempo, contudo, Eurides viu que havia muita terra livre e barata no Mato Grosso e começou a ganhar dinheiro com compra e venda de fazendas. “Na época você comprava fazenda a cinco, dez reais por hectar – não era fazenda, era direito de posse. E o documento na época também saía quase nada. Aí foi valorizando, aí foi comprando, foi vendendo, só que a gente foi... não viu o futuro também, não viu que depois ia faltar, né?” Com a existência de tantos documentos de posse ilegais e problemas na regularização fundiária, uma vez ele até recebeu ameaça de morte por causa de „uma terra enrolada com dois documentos”. Sem recursos para enfrentar os bandidos, a família Florentino largou tudo e, seguindo o lema do governo, sempre pra frente, foi procurar a sorte no Pará.

 

Achando que a BR 163 ficaria pronta mais cedo, Eurides chegou a Novo Progresso em 1994. Como o preço das posses de terra era ainda mais baixo do que no Mato Grosso, ele conseguiu comprar um terreno na beira da estrada e abrir 50% dele. Depois de muita luta e trabalho para mecanizar toda terra, Eurides, decidiu em 2007 continuar no ramo agrícola e plantar soja pela primeira vez na região do sudoeste do Pará. Apesar das condições agrícolas muito favoráveis, o negócio não deu certo. No último momento, a empresa Cargill, em Santarém, resistiu a compra da colheita. Era um momento difícil, porque a moratório da soja foi lançada no ano anterior e Novo Progresso era um dos municípios com as mais altas taxas de desmatamento. Além disso, não existia uma infraestrutura local para a agricultura, o custo do frete era ainda muito alto e o preço de venda por saco, bem baixo. Hoje em dia, Eurides reconhece que ainda era muito cedo para este tipo de negócio na parte paraense da BR-163. No entanto, o alto investimento feito em máquinas de lavoura não foi em vão, já que levou Eurides e seu filho Sérgio, que estudava engenheira agrícola na Universidade Federal do Mato Grosso, em Cuiabá, a refletir sobre as perspectivas da agricultura novo progressense. "Quando o pasto tiver três, quatro anos, ele já vai diminuindo a potência, então eu pego... eu pego e planto uns dois anos, já vai produzir o dobro do que produzia antes!”

 

Atualmente, toda a área aberta está corrigida e o pasto recuperado dá para engordar três cabeças de gado por hectare. O plano da família Florentino é aprofundar a técnica aplicada para a região e aumentar a produtividade e a rentabilidade com a integração da lavoura no sistema da pecuária. O resultado será a intensificação do manejo da terra sem a necessidade de desmatar novas áreas. “A gente preparando bem o que tá pronto, a gente vai produzir o dobro, o Brasil inteiro!” Hoje, o préstimo das máquinas e a troca de ideias sobre o conhecimento agrícola da família Florentino é uma um excelente auxílio e uma fonte de inspiração para vários produtores da região. Eurides acredita que o futuro de Novo Progresso será bom e saudável por causa das boas condições de plantio e a cercania aos novos portos de exportação de Miritituba no río Tapajós. Mas existe um obstáculo que pode limitar os planos de Eurides: „A única coisa que tá se preocupando ainda é a documentação das terras que estão custando a documentar. No momento que sair a documentação, o pessoal ficam mais... mais garantido em cima da terra. [...] E uma preocupação até grande é sair a documentação pra quem tá plantando aqui na região que a gente tá trabalhando né?"

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