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História

Infância de radionovela

História de: Cléa Magnani Pimenta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/01/2019

Sinopse

Cléa Magnani Pimenta nasceu em São Paulo, em 1947, e já veio ao mundo em uma história digna de radionovela: sua mãe a teve no quarto do hospital, sozinha, antes de a ajuda médica chegar. Nervosa com o parto inesperado, ela acabou empurrando a bebê da cama, com cordão umbilical e tudo – a sorte é que o pai, sem saber de nada, entrava no quarto naquele momento e conseguiu “salvar” a menina. Embora tenha sido filha única, Cléa passou a infância e a adolescência em uma espécie de vila rodeada pelos tios e por seus nonnos. Ali, vivenciou episódios felizes e tristes – como a tentativa frustrada de escrever o roteiro de uma radionovela com a prima – e acompanhou as mudanças da cidade, que ainda tinha bondes nas ruas e professoras alfabetizando crianças em suas próprias casas

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História completa

A minha mãe era viúva de uma pessoa que morreu no mesmo dia em que ela perdeu o nenezinho de que estava grávida. Já fazia oito meses que ela estava de gravidez, e ele era um lutador de boxe. E eles estavam passando por uma situação difícil. Então, ele fez um desafio pra outro lutador mais forte: se ele ganhasse, eles ficariam muito bem de vida. Mas minha mãe chegou à maternidade da Santa Casa, a médica fez o teste e falou: “O nenê está morto. Nós vamos precisar fazer um fórceps pra tirar essa criança daí”. Tentaram ligar pro marido e ninguém atendia, porque ele estava na luta, naquela mesma noite. E o outro lutador era de um peso muito maior do que o dele e era um lutador sujo. Ele deu um soco no pulmão dele, estourou a artéria pulmonar e ele morreu no ringue, saindo sangue pela boca. Já fazia três dias que ele estava enterrado quando a minha avó o encontrou, já na ala dos indigentes. Então, o trauma da minha mãe era esse, de ter perdido o marido e o nenê no mesmo dia.

 

Depois de cinco anos, ela conheceu meu pai e acabou se casando com ele. Eles se casaram em 1944 e, em 1947, ela engravidou de mim. Ela entrou na Maternidade São Paulo no dia 22 de dezembro, eu fui nascer no dia 29. Quando chegou o dia de Natal, meu pai foi lá visitá-la, mas, quando voltou pra casa, fundiu o motor do carro. Então, ele e o meu avô ficaram trabalhando esses dias, do dia 26 de dezembro até o dia 29, no carro. E meu pai não foi mais visitá-la no hospital. Aí, ela reviveu a história todinha! No dia 29 pela manhã, pouco antes das seis, eu resolvi que já estava cansada de ficar lá dentro e falei: “Oh, gente, me dá licença que eu vou nascer!”. E eu, 15 pras sete da manhã, botei a cabeça pra fora e nasci sozinha no quarto, com ela na cama. Quando ela sentiu as dores, ela gritou e eu nasci. Ela entrou em choque! Então, ela começou a espernear. Meu pai tinha conseguido arrumar o carro na noite do dia 28 pro dia 29. Conforme ele está entrando no hospital, escuta aquela gritaria. Ele correu no corredor e abriu a porta do quarto: minha mãe tinha me chutado com os dois pés, com o cordão ainda preso em mim! E eu caí da cama. Meu pai entrou e me pegou caindo da cama, de cabeça no chão! Ele me catou, se sujou todo de sangue, disse que deu uma dor de barriga... Pôs o nenê em cima da cama e correu pro banheiro (risos)! Então, eu não posso contar do meu nascimento tão maluco sem contar da história da minha mãe, porque tudo justifica, né?

 

E meu pai gostava de correr, deve estar correndo até hoje lá no céu! Correu muito, muito. Ele foi o primeiro campeão da primeira Corrida Nove de Julho de São Paulo em 1933. E no ano seguinte correu e ganhou de novo, foi bicampeão. Aí ele foi correr em muitos lugares no Brasil, correu na América do Sul, Argentina, Chile. E ele foi escolhido pra ir pra Alemanha na Olimpíada de 1936, que o Hitler ainda estava lá. E ele foi. E, no treino que eles fazem antes da corrida, ele foi derrubado por um oponente e se esborrachou, caiu de lado e foi raspando tudo. Teve que fazer punção pra tirar o sangue parado da perna. E correu mesmo machucado, esteve em primeiro lugar durante 30 voltas. Mas aí ele não aguentou mais a dor, foi diminuindo. Foi até o fim, mas chegou bem lá no fundo. E aí ele voltou das Olimpíadas em 1936 e ainda ganhou outra Nove de Julho em 1942. Ele correu até 1943 e parou de correr. Em 1944, se casou com a minha mãe, não corria mais. Mas eles treinavam, sempre treinavam. Ele tem 85 medalhas, meu pai.

 

A minha mãe era muito pra frente, ela andava de bicicleta. Ela pegava sacos de farinha alvejados, tingia de azul e fazia calças compridas como as de moletom, com elástico lá embaixo, fofas, pra andar de bicicleta. Não existia calça jeans naquela época, e mulher usar calça, hum... A vizinha via minha mãe com meu pai e meus tios, que os cinco corriam de bicicleta. Então, num sábado de manhã: “Vamos até Itapecerica?”. “Vamos!” A minha mãe perguntava: “Que horas mais ou menos vocês voltam?”. “Ah, são sete e meia agora, a gente volta lá pelas dez e meia, 11 horas”. Ela preparava um monte de sanduíche, pegava a bicicleta dela com o porta-bagagem cheio de lanches e ia encontrá-los na entrada da Anhanguera. Ela entrava dentro de São Paulo, na Lapa, e vinha até ali encontrá-los. Depois, iam todos até a casa, e os meus tios iam embora. E a mulherzinha achava que a minha mãe saía pra encontrar esses homens. E xingava minha mãe. Um dia, estava uma chuva danada, e minha mãe a trouxe da feira debaixo do guarda-chuva. Quando chegou na porta, ela gritou: “Vagabunda!”. E deu com a porta na cara da minha mãe.

 

E, então, todos os Magnani vieram morar na Praça André Nunes, na Vila dos Quarenta. Essa era uma casa muito boa de alvenaria, bem trabalhada, com teto, estuque, pintada com aqueles frisos na parede, com florzinha. Era muito bonita a casa, bem arrumadinha. E meu pai, que não era exagerado, comprou a casa e mais os 20 metros do terreno. Então, nós tínhamos 800 metros quadrados. E meus avós moraram ali, meus tios pra cá.

 

E a gente, no fim de semana, andava na praça de bicicleta, mas com a minha mãe no portão olhando. Eu não podia passar da casa da nonna. Minha prima já passava e ia até lá embaixo, e eu olhava: “Não, volta pra cá”. Eu tinha uma obediência medonha, porque eu fui castigada muito pequenininha por uma desobediência. Quando eu tinha três aninhos, minha mãe falou: “Cléa, tá vendo esse buraco aqui no chão? Do buraco pra cá, é a nossa casa, do buraco pra lá é a casa da Suzana”, que era a minha prima. “Não é pra passar pra lá, tá bom?” E ela foi pra dentro, trabalhar no servicinho dela. E eu fiquei ali com a minha prima. E a minha prima chegava e falava: “Tô na tua casa, tô na minha casa. Vem!”. E eu: “Não, minha mãe falou que não”. Daqui a pouco, essa minha prima foi lá na casa da minha avó: “Tô na casa da nonna! Vem!”. E eu fui. A minha mãe não estava trabalhando, ela estava na janela do banheiro me olhando pra ver se eu obedecia. Ela desceu, pegou uma varinha de uma planta, arrancou as folhinhas e, ship, nas minhas pernas! Três varadas.

 

Minha mãe ouvia muita novela da Rádio São Paulo escondida do meu pai! Ele não gostava, porque a minha avó não gostava, e ele obedecia muito a mãe dele. Meus cabelos, por exemplo, não eram pra ser cortados. Era ela que decidia cortar, não era pra ir à cabeleireira. Minha mãe usava os cabelos enroladinhos aqui, como meu pai a conheceu. Nunca a deixou mudar de penteado. E eu tinha que continuar no mesmo caminhar, não podia ir ao cabeleireiro. Eu sempre tive cabelo crespo e eu era gorda. Eu, com 13 anos, tinha esse tamanho que eu tenho e pesava 80 quilos. E a minha prima Suzana era bonitinha, magrinha, loirinha de olhos azuis. E minha tia falava: “Ah, como a Suzaninha está linda, olha o corpinho da minha filhinha, que lindinho! E a Cléa parece um colchãozinho amarrado no meio, né?”. Então, aquilo pra mim: “É mesmo, eu pareço um colchãozinho amarrado no meio!”. E me acomodei naquele jeito. Minha mãe molhava meu cabelo, repartia no meio, penteava até aqui e cortava aqui e cortava aqui. Aí o cabelo secava e ia virando o João Felpudo, né? Punha um grampo aqui e lá. Então, a minha autoestima nunca foi boa. Meu pai costumava dizer: “Essa blusa ficou bem em você”. Ele não dizia: “Você está bonita”. A palavra “bonita” pra mim nunca foi dita. Nem pelo marido. Como ele era muito bonito e a minha sogra falava: “Ah, o Gilberto é tão lindo!”, eu sempre achei que ele era o bonito. E eu também estava conformada em ser como sou, nunca me senti mal por isso.


E a minha mãe ouvia muita novela na Rádio São Paulo escondida do meu pai, e eu ouvia aquelas vozes bonitas. Um dia, eu e minha prima resolvemos escrever uma novela. A novela ia se chamar Meu Inesquecível Amor, que era o Waldemar Ciglioni que falava: “Meu inesquecível amor”. Então, começamos: fulano sai pela rua, encontra a moça, aquela historinha. Nós duas, lá na beira da cerca, eu do lado de cá, ela do lado de lá. Chegou a hora do almoço, a minha mãe foi lá ver o que a gente estava fazendo. “O que vocês estão fazendo?” Eu falei: “Ah, nós estamos escrevendo uma novela”. “Ah, mas é muito cedo pra vocês fazerem essas coisas. Apaga aquilo lá e joga fora.” Então, joguei a minha novelinha no lixo e fiquei frustrada. “Puxa vida, por que será que eu não posso escrever?” “É muito cedo.” “Por quê? Será que se fosse depois das cinco da tarde podia?”

 


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