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História de: Patrícia Pacheco da Cruz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2016

Sinopse

Patrícia Pacheco da Cruz descobriu que tinha diabetes quando estava grávida e comenta sobre seus medos e obstáculos que viveu em vários momentos e como conseguiu superá-los. Fala também do medo da hipoglicemia e de como foi aprendendo a se cuidar e a conviver com ela.

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História completa

Sou Patrícia Pacheco da Cruz nascida em São Paulo no dia Vinte e três de novembro de 1974. O nome da minha mãe é Maria Iraci Pacheco e do meu pai Luís Carlos Pacheco. Meus pais foram primeiro namorado um do outro, são pessoas muito simples, só que de uma evolução espiritual muito grande e isso me ajudou muito no meu crescimento. O meu pai é mais quieto, mas a minha mãe é mais de dar exemplos de vida. Então ela me ensinou muito a partir disso, da experiência de vida dela, não aquela coisa que se aprende numa faculdade, que se aprende em livros, não. Então eu agradeço muito a ela muita coisa que eu sinto, que eu penso hoje. Eu tenho um irmão mais novo chamado Rodrigo com o qual eu brinquei muito quando criança e tínhamos uma ótima convivência.

Eu tenho boas lembranças da minha infância. Ela foi também muito simples, não tinha luxo, mas não faltava nada que uma criança precisa. Porque hoje, comparando assim com o que a gente dá pros nossos filhos, imagina, eu não tive nada do que meu filho tem hoje. Mas não faltou nada também. Então eu tive muito amor, eu tive muito carinho, eu andei muito de bicicleta, andei muito de carrinho de rolimã, que não existia nada. E meus pais sempre presentes. Não tinha dinheiro pra viajar, não tinha dinheiro pra conhecer outros lugares, mas a gente sempre fazia festinha dentro de casa, arrumava piquenique fora de casa e dava um jeito de curtir.

A minha primeira experiência com a escola foi péssima. Eu me sentia a criança mais horrorosa do mundo. Porque a minha mãe era super protetora. Então ela não colocava um lacinho no cabelo porque podia dar dor de cabeça na gente. Então, eu era praticamente um menino, eu só usava roupa de malha que não pinicasse que não machucasse, então quando eu entrei na escola eu fui totalmente excluída. Porque eu não era a menina da escola. Aí começou isso, de eu não querer ir pra escola. Então foi um sufoco, eu chorei até a quinta série pra não ir pra escola. Meu irmão não teve nenhum desses problemas, mas eu tive. Eu não gostava, eu tinha vergonha, eu me achava muito diferente de todo mundo. A escola começa a ficar legal depois do sexto, sétimo ano, aí eu já comecei a caminhar, fazer as coisas mais do jeito que eu queria porque até então era tudo certinho, tudo regrado, não podia dar um passinho errado. Tinha que ser amizade certa, na hora certa, comer na hora certa, era tudo muito regrado, sempre, desde quando eu nasci. E durante esse período teve um professor que me marcou o Professor Albano de Educação Física. Ele era muito legal e me dava força no sentido de: “Não se põe pra baixo”. Porque eu nunca fui esportista, de jeito nenhum, então eu via uma bola na minha frente e eu falava: “Meu Deus, o que eu faço? Eu não tenho ideia”. Pra chutar no gol eu não chuto, eu consigo errar, eu não tinha noção nenhuma de esporte. Aí ele começou a me colocar pra cima em outro sentido, de falar: “Poxa, isso não é, você sabe fazer outras coisas, tudo”. Foi aí que eu entrei pra fazer teatro no colégio, o colégio tinha essa opção. Eu fiz magistério, então tinha opção de fazer esporte ou teatro. Eu falei: “Ah, eu preciso do teatro pra me soltar um pouco, pra ver as coisas de outra forma, pra não sentir esse medo, tudo”. Aí deu certo. E foi esse Albano que me cutucou.

Era maravilhoso fazer teatro, sempre foi. Por mim eu nunca teria parado. Mas eu descobri um mundo que eu podia ser quem eu quisesse. E eu sempre fui quem eu tinha que ser, eu nunca fui quem eu quisesse. Então lá eu fazia o que eu queria, eu ria, eu me soltava, eu falava o que eu pensava, eu conseguir olhar e falar não. Eu tinha uma dificuldade muito grande em falar não. Me ajudou bastante. Eu me lembro de um momento marcante que a diretora do teatro falou que eu não ia mais ser a atriz principal do teatro. Eu comecei a chorar e ela falou: “Você vai ser a diretora a partir de hoje”. Daí eu achei muito legal. Ela falou: “Você está super bem, você conhece todos os papéis”. Porque eu ensaiava todos os papéis, eu queria fazer parte de todos os personagens. Eu sabia a fala de todo mundo, então eu corrigia todo mundo, na minha cabeça eu estava corrigindo tudo certinho. E eu ajudava a fazer o roteiro, eu mudava as falas. Eu ajudava a confeccionar a caracterização, arrumava cabelo, tudo. Confeccionava peruca, essas coisas. Eu comecei a viver totalmente fazendo isso.

Eu sempre quis ser uma pessoa que ensinasse algo. Na época eu falava professora, mas poderia ser qualquer coisa que ensinasse alguma coisa e que cuidasse da pessoa e que tirasse alguma coisa ruim dessa pessoa. Ou ensinar, ou ajudar a andar, ou algo parecido. Iniciou-se assim, professora, professora, professora. Aí depois não: “Eu quero ser professora, mas eu quero ser psicóloga porque eu quero entender o que a pessoa está pensando, eu quero saber se ela está realmente feliz ou triste”, e foi indo, indo, tudo nesse sentido.

Tive meu primeiro namorado com 17 anos e pra variar era amigo da minha mãe e do meu pai. Eram amigos e ele filho dos amigos. Na verdade não foi um namoro porque a gente mais, brincava, saía, se divertia junto, ia na época para o Playcenter, sabe, essas coisas? Então esse nós ficamos bastante tempinho juntos. E eu não tinha muitas amigas, eu nunca fui de grupo, eu sempre tinha uma amiga, duas amigas. Mas eu tive uma amiga, a Sílvia que me marcou muito. Todas as minhas viagens sozinhas com essa amiga, fugiram do padrão. Porque aí você se sente livre, leve e solta, né? Minha primeira viagem foi com 18 ou 19 anos, eu fui pra Porto Seguro com minha amiga sozinha. Você fala: “Pera aí, que planeta que eu estava, que planeta que eu estou?”. E é bom, é ótimo, claro que hoje eu não faria 1% do que eu fiz, tudo tem sua época, mas eu acho que também foi válido porque eu tinha que conhecer um lado que os meus pais não deixavam. Com essa superproteção eu não conhecia o que prestava e o que não prestava, droga, sexo, eu não conhecia essas coisas. Então eu não estava preparada pra me proteger dessas coisas também, não estava. Eu aprendi ali, vendo.

Aos 21 anos eu comecei a trabalhar com eventos. Eu fazia feira e nessas feiras eu consegui um emprego fixo que foi de uma marca, Mit. Eles tinham uma rede de couro, carteira, bolsa, cinto e tinha o perfume que era da mesma marca. Aí eu comecei a trabalhar distribuindo, dentro da feira, os papelzinhos olfativos. E distribuindo, tudo, só que eu consegui vender muito, muito mais do que o stand estava preparado. Aí o coordenador do stand perguntou se eu não queria fazer isso em todos os lugares, todas as cidades, indo para o Nordeste, Norte, Sul. E eu aceitei. E não foi o meu primeiro emprego, porque a partir dos 17, 18 anos aonde dava para eu ganhar um dinheiro eu fazia. Porque como meus pais não tinham condição de dar nada, comprar um batom caro, uma coisa supérflua, cara, e eu queria, então eu ia atrás. Eu decorava posto de gasolina com balão, eu fazia o que tinha que fazer. Mas esse emprego nas feiras, foi meu primeiro emprego fixo, ficou trabalhando com isso por 03 anos. Eu comecei a viajar todo Nordeste, fazendo vitrine da empresa, fazendo a divulgação do perfume, aí me chamaram pra fazer a foto do perfume também, aí eu fiz a foto do perfume e foi todo o Brasil, menos o Sul. Fui viajando por todo o Brasil. Aí eu cresci bastante, porque era eu sozinha e pronto, eu tinha que me virar.

Quando eu sai do colégio do magistério aí eu consegui entrar pra fazer Psicologia. Fiquei só seis meses. Não dava porque eu trabalhava à noite, eu fazia divulgação de bebidas também, de energético à noite e trabalhava de dia. De dia eu trabalhava com a Mit, às vezes eu fazia lembrancinha pra festa de madrugada pra vender e trabalhava à noite com divulgação, então não dava porque era da meia-noite às quatro da manhã ali, com aquele som, com aquela coisa vendendo bebida, ia embora e chegava em casa às seis. Às oito, oito e meia eu tinha que levantar. Então não tinha espaço. E entrando dinheiro. Eu consegui, com 18 anos comprar um Fiat 147, com todo esse dinheiro que eu ia guardando. Aí com 20 anos eu já troquei e peguei um Uno zero. Então eu tinha essa expectativa do dinheiro. E a faculdade, meu pai não tinha condição de dar nada e eu não ia poder trabalhar, então eu fiz essa opção de parar de estudar.

Conheci meu atual marido em uma viajem de Carnaval com a minha amiga Sílvia. No começo eu não tinha gostado dele, mas fomos conversando e namoramos por 04 anos até casarmos em 2002. Eu engravidei do meu filho Vitor e ele nasceu em 2004 e foi durante a minha gravidez que eu fui diagnosticada com diabetes.

A minha gravidez começou complicada. Em outubro eu fiquei sabendo que eu estava grávida, tudo, mas eu não tinha muito essa noção de gravidez, eu não tinha muito a noção do que estava acontecendo comigo. Aí no segundo mês eu fiz todos os exames que tinha que fazer porque eu vi que eu estava grávida, e aí veio o diagnóstico do diabetes. Eu não sabia o que era diabetes. Diabetes pra mim não podia comer açúcar, a pessoa era obesa e estava prestes a morrer, é isso que eu sabia de diabetes. Aí eu olhei e falei: “Não, mas o que é isso?”. Eu passei com o médico e esse médico cuidou de mim a gravidez inteira. Ele falava que eu podia comer o que eu quisesse desde que eu tomasse uma insulina, essa foi a explicação que eu tive. E eu não comia porque eu não tinha coragem. Então eu passava mal, eu tinha hipoglicemia e ia para o hospital e voltava. Aí eu tive descolamento de placenta, pressão alta, eu tive tudo o que você imagina, foi uma gravidez realmente muito complicada. Engordei 33 quilos, eu inchei. O Vitor nasceu de oito meses. Eu fiquei praticamente em repouso a minha gravidez toda. Eu parei de trabalhar, parei de fazer tudo e ficava conversando com ele, oito meses. Eu ficava conversando e pedindo pra que ele não tivesse nada, pedindo pra que tudo ocorresse bem. Eu senti muito medo na minha gravidez. E eu não tive ajuda nenhuma em relação ao diabetes, nenhuma. Tudo o que o médico poderia fazer em relação a mim de pior ele fez. Então eu não sabia nada, eu perguntava as coisas e ele falava para eu não esquentar a minha cabeça, para eu pensar no meu filho, que tudo isso ia se resolver porque o meu diabetes era gestacional e ia passar, ia passar. E ele falava: “E aí quando você ver seu filho vai sair tudo junto com a placenta. Aí pronto, aí você vai poder comer seus doces, tudo à vontade”. Aí eu falei: “Tudo bem, então não vou me preocupar tanto com isso”. Só pedia para o Vitor nascer bem. Até que chegou um dia que eu quase explodi, eu estava de oito meses, o ginecologista, o obstetra resolveu fazer o Vitor nascer. Aí ele nasceu e teve Icterícia. Então ele ficou internado e logo quando ele foi internado aquilo pra mim foi o pior dia da minha vida. Foi o melhor dia, o do nascimento, e pior ao mesmo tempo porque ele ficou internado. Aí o médico que é o endocrinologista que passou comigo toda a gravidez entrou a falou: “Patrícia, infelizmente eu tenho que te dar uma notícia”, foi exatamente assim: “Bem-vinda ao mundo dos diabéticos”. E saiu. Isso pra mim eu nunca vou esquecer. E eu fiquei lá chorando sozinha. “Calma, tudo vai ficar bem. Nós vamos fazer um tratamento, tudo vai ficar bem”. E saiu. Então isso foi péssimo. Meu filho ficou internado 11 dias, meu diabetes ficou em torno de 450 todos os dias, eles davam uma insulina que eu nem sei qual foi na época, nem lembro, ninguém sabia nada. Todo mundo vinha me visitar com aquela cara de: “Ah, coitada! Coitada!”, sempre foi assim: “O filho internado, ai, coitada”.

Minha mãe quase morreu, meu pai e o meu irmão também. Porque pra eles eu tinha uma doença que eu não ia durar muito. Até que surgiu o doutor Márcio Krakauer, que esse foi um anjo na minha vida, ele mudou completamente a minha vida. Ele sentou e falou: “Esquece tudo o que você passou até agora. Esquece tudo o que você sabe sobre o diabetes, vamos começar do zero”. Aí ele me mostrou o mundo verdadeiro, o que realmente existe. Tudo. Insulinas, tratamentos, tudo que eu não tinha ideia, que tudo o que eu fazia era errado, tudo errado.

Eu me sinto vitoriosa hoje, eu não me sinto em nenhum momento uma pessoa coitada, de jeito nenhum. Eu tenho oportunidades que muita gente não tem, eu tive a oportunidade de encontrar um médico que me abriu um mundo diferente, um outro mundo. Hoje tem tantos medicamentos, tantas coisas, então de verdade eu só agradeço. Eu tenho um filho saudável, maravilhoso, eu tenho uma vida, eu não tenho do que reclamar. E hoje os meus sonhos são muito relacionados ao meu filho, é tudo pra ele, sonhos que eu tenho de verdade. É vê-lo formado, ele quer ser médico, então ele é um orgulho na minha vida.

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