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História

Inovação em calçados

História de: Consolato Laganá Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2005

Sinopse

Infância na Itália. Na Itália, pai era proprietário de armazém de secos e molhados. Migração para o Brasil e trabalho em fazenda de café no interior do Estado de São Paulo. Migração para a cidade de São Paulo e trabalho em fábrica de tecidos. Abertura de oficina para consertos de calçados. Aperfeiçoamento do trabalho e o crescimento da clientela. Reflexos da imigração ocorrida no período pós-guerra. Transformações das ruas comerciais de São Paulo. Especialização na fabricação de calçados ortopédicos, formas de pagamento e distribuição do produto. Casamento, filhos e lazer. Legislação trabalhista relativa à mão-de-obra infantil. A Crise de 29 e suas conseqüências. Perfil da clientela e os costumes da época. A Revolução de 32. Cotidiano atual e lazer. Importância do registro de seu depoimento. Auto-retrato.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

Eu me chamo Consolato Laganá, nasci num lugarejo pequeno, que tinha mais ou menos mil habitantes, em 23 de fevereiro de 1904. Meu pai chama-se Consolato Laganá e minha mãe chama-se Teresa Laganá. Era na Decollatura, província de Catanzaro, Itália. O lugar era muito pequeno, mas era que nem Campos do Jordão, um lugar alto, um lugar muito saudável. Era muito longe do mar, não tinha trem, não tinha automóvel, não tinha nada. A gente vivia uma vida calminha, calminha que era uma maravilha! A criança não tinha perigo nenhum, ficava na rua brincando.

INFÂNCIA

Vou contar um caso interessante agora. Eu era criança, devia ter uns seis anos mais ou menos, estava na beira da estrada, colhendo violeta. Ouvi um barulho muito forte. Peguei e fui indo para casa. Quando chego perto da minha casa, passou um automóvel, fiquei tão assustado, nossa senhora, até agora! Eu nunca tinha visto automóvel, me assustei! Que até agora acho que estou assustado. Um caso muito interessante, não?

IRMÃOS

Éramos nove irmãos. Eu era o mais velho de todos. Vim aqui pro Brasil depois da Grande Guerra, eu mandei vir mais dois irmãos meus que vieram aqui com a família. Tenho duas irmãs que estão na Austrália. Éramos nove, mas espalhamos tudo, cada um foi num lugar, porque o lugar onde eu morava era muito pequeno, não tinha indústria não tinha nada. Migrar foi a única maneira. No princípio me apertei muito, mas foi bom porque aprendi viver, aprendi lutar e vencer.

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL

Com a gripe espanhola, morreu gente a torto e a direito. Meu pai tinha um negócio lá de secos e molhados, mas um negócio em lugar pequeno. Como a minha família ficou tudo doente, o negócio ficou fechado seis meses! Quando acabou a epidemia, meu pai ficou sem dinheiro para poder negociar, porque quem devia não pagou. Ficamos sem nada! Tinha a casa, somente. Veio um senhor do Brasil passear na Calábria, não sabia nem ler nem escrever, um homem muito atrasado. Chegou lá com os filhos tudo bem arrumado, compraram automóvel, passeavam. Meu pai se entusiasmou: "O Brasil deve ser terra muito rica, esse homem aí sem saber nada ficou tão rico, vamos lá, vamos no Brasil!" Viemos. Viemos cá para o Brasil, e junto com o meu pai, porque sozinho não podia viajar. Cheguei aqui no Brasil em 22 de fevereiro de 1922.

VIAGEM DE NAVIO

Saímos do porto de Gênova. A travessia, naquele tempo se viajava que nem animais. Tinha aquele camarote inteiro, onde a gente dormia. Tinha a cama embaixo e em cima, um calor de noite! Parou em Marselha, parou num porto da Espanha também, o navio ia parando em tudo quanto era porto. No Mediterrâneo ainda, antes de chegar no Estreito de Gibraltar, o mar era uma coisa bárbara, baixava, descia o navio, nossa senhora! Toda a gente ficava doente de estômago, vomitava. Era uma viagem muito ruim. Depois que passamos o Estreito de Gibraltar, paramos um dia inteiro na África. Parou lá, o navio carregou carvão, água. Passou, o mar era calmo, calmo, não teve uma onda brava, nada, até chegar ao Rio de Janeiro. Ao Rio de Janeiro chegamos era de noitinha. O Rio era uma coisa maravilhosa, uma coisa linda. A gente nem sabe contar como é que é tão bonita. O navio parou, desceu muita gente lá. Do navio mesmo joguei uma cestinha e comprei banana. Comi uma dúzia de banana de uma vez só! Achei tão gostosa! Depois que desceram os passageiros tudo, aí veio para Santos.

CHEGADA AO BRASIL

Chegamos em Santos, e já no desembarque fomos parar na imigração e ficamos lá dois dias. Deram lanche, uma pessoa nos acompanhou na estrada de ferro, tomamos o trem e quando chegamos a uma fazenda que chama Nova Louzó, descemos. Descemos e fomos apresentados a um nordestino, ao administrador, que deu já um lugar para poder ficar. Aquela noite, dormimos no chão, porque não tinha nada; no outro dia, veio uma senhora, comprou colchões, comprou uma porção de coisa. Deram uma casinha, tinha dois dormitórios, tinha uma salinha, era muito bem feitinha. Tinha um terreno muito grande que a gente podia fazer horta lá. Depois veio o senhor com o cavalo e foi mostrando o que nós tínhamos que fazer. Deram uma enxada para cada um, pegamos o café, começamos a trabalhar. Ficamos lá quatro meses. Limpava o café, aprendi logo a fazer porque é uma coisa muito fácil. Aquele café que nós pegamos para tratar tinha sido de um alemão. O alemão morreu, a mulher abandonou tudo e era uma época muito boa, era o apogeu do café. Nós ficamos com o que tinham plantado. Tinham plantado milho, feijão, arroz, e ficou tudo para nós.

MUDANÇA PARA SÃO PAULO

Meu pai achou que não gostava da fazenda. Eu, por mim, naquela época tinha mandado vir a família, o café estava no apogeu. Mas meu pai não quis. Ele vendeu o milho, vendeu arroz, vendeu feijão, vendeu tudo. Na Itália, era difícil ter todo aquele milho. Viemos a São Paulo. Daqui mesmo meu pai arrumou um emprego numa companhia italiana no Rio de Janeiro. Eu não quis ir com ele, porque comecei a ficar aborrecido, ele estava indo errado. Meu pai foi para o Rio, me chamou uma porção de vezes para ir lá, mas eu não quis ir. Ele arrumou um emprego em Montevidéu, se mandou. Eu fiquei aqui no Brasil. Mas ele me escrevia, não ficamos de mal. Fiquei aqui em São Paulo. No primeiro dia, passei o raio aqui, sozinho com 18 anos, mas não desanimei. Sempre tive pensamento positivo. Arranjei emprego numa fábrica de tecidos do Matarazzo, Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – SAPATARIA

Eu gostava de trabalhar. Quando eu era pequeno, eu trabalhava, tinha uns seis ou sete anos, fazia sapatinho de boneca, brincava de sapateiro, eu gostava, era apaixonado por esse trabalho. Depois, como eu tinha aprendido um pouco de sapateiro lá na Itália, arrumei uma salinha, uma portinha na Rua Visconde de Parnaíba, número 310. Na Itália, aprendi sapataria em uma oficinazinha que tinha lá. O sapateiro arranjava um aprendiz ou dois, não era oficina grande. Aí comecei a pensar em consertar sapato. Fazia meias-solas, e de vez em quando fazia também uma encomendinha, fazia um sapatinho pequeno. Depois achei que precisava aprender mais, porque aprendi a fazer o sapato, mas não sabia de moda. Encontrei um livrinho no sebo, o Manual do Sapateiro. Depois encontrei um anúncio numa revista, mandei vir uma revista italiana. Comecei a ler, comecei a fazer, e me despertei que era bom. Aprendi a fazer modelos, aprendi tudo, e continuei no Brás até 1939. Arranjei uma freguesia grande, às vezes ia de noite na casa delas para pegar o modelo e a encomenda. Mudei para a Praça da República em 1939. No dia que rebentou a guerra eu estava fazendo mudança. No primeiro mês, no segundo mês foi meio ruim, não tinha freguês, mas depois fui indo, e de repente veio muita freguesia! Precisei pegar mais sapateiro. Estava numa casa térrea, tinha outra casa desocupando, do lado, aí peguei a outra casa. Numa casa tinha a oficina e na outra eu morava.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – SAPATOS ORTOPÉDICOS

Eu tinha a melhor freguesia de São Paulo, toda a classe fina. Depois da guerra veio muita gente aqui para o Brasil, para São Paulo principalmente. Veio italiano, veio espanhol, veio grego. O negócio de moda que era no centro da cidade, Barão de Itapetininga, Praça da República, Largo do Arouche, passou lá para a Rua Augusta, onde o pessoal que chegou da Itália se estabeleceu. Eu perdi muita freguesia, quase que eu ficava sem nada! Comecei a estudar bem o pé, comecei a estudar podologia, comecei a fazer sapato bonito e ortopédico. Quando me firmei nesse trabalho aí, formei uma freguesia nova. Eram fregueses que estavam com problema no pé e não encontravam o sapato pronto. Aí me afirmei outra vez.

CLIENTES

Não precisava fazer propaganda. As clientes faziam o reclame entre elas. Mas fiz reportagem na televisão, com a Sônia Ribeiro, a Xênia também fez, mostrando que eu fazia sapato para quem tinha problema no pé. Vieram freguesas do Rio, de Porto Alegre, até de Belém do Pará. Tinha uma moça, era jornalista. Essa moça veio, fez o sapato, eu nem sabia que ela era jornalista. Ela tinha operado o pé, que tinha joanete, e não conseguia andar mais, o pé doía mais do que antes. Fiz aquele sapato ortopédico, ela até tinha o pé grande, número 38. Um mês ou dois depois, estava chovendo, ela me aparece lá na oficina, começou a me abraçar e a me beijar. Eu já tinha 70 anos. Fiquei meio estranho. "Laganá, você salvou a minha situação." "Que aconteceu?" "Eu tinha operado o meu pé, não conseguia andar. Tenho que trabalhar, como é que eu ia trabalhar? Me conte como é que você aprendeu a fazer essas jóias." Eu não tinha nenhum freguês naquela hora, era um dia de chuva, frio. Sentei no sofá e comecei a contar, ela começou a escrever, escrever, escrever. Depois disse: "Olha, Laganá, eu sou jornalista, vou publicar no Estado de S. Paulo." Foi uma maravilha para mim e para ela também Veio também uma médica que tinha tido um desastre e entortado o pé. Ela veio em São Paulo para operar. Arrumei um sapato para ela, depois de uma semana ela voltou lá. "Laganá, eu não vou mais operar o meu pé. O sapato que você fez eu consigo andar." Fiz mais um par. Depois, de Belém do Pará, ela mandava o cheque para fazer o sapato. Isso são coisas que eu fico entusiasmado de contar porque me sentia feliz, porque tenho vontade ainda de trabalhar, eu podia trabalhar, mas não consigo. Não tenho mais força.

FORMAS DE PAGAMENTO

Quase toda a minha freguesia era gente rica, de posse. Eu fazia o sapato, mandava, tinha dois meninos que faziam as entregas. Quando era fim do mês, minha secretária fazia uma cartinha e mandava para o freguês, e eles mandavam pagar. Tinha o Matarazzo, chegava lá um pagador com um chapéu, "Indústrias Francisco Matarazzo". O Crespi fazia a mesma coisa. Eu [também ia buscar], por exemplo, chegava no Matarazzo, na Avenida Paulista, tinha lá o porteiro, mostrava o recibo, ou então mandava entrar. Tinha lá uma senhora, que acho que era a governanta, que pagava. Tinha também que assinar um livro, fora assinar o recibo. Depois que comecei a fazer o sapato ortopédico, mudei o negócio: a pessoa vinha buscar e pagava, não tinha mais entregador. O entregador era uma despesa muito grande. Eu tinha seis salas na Praça da República. Larguei três salas, diminui a oficina. Algum empregado aposentou, foi embora, outros ficaram doentes, diminui também o funcionário. A freguesa ia lá e tinha que pagar na hora, a gente não mandava mais o sapato. Aí deu algum lucro. Vendi muito tempo assim: o freguês fazia, no fim do mês pagava, mas às vezes ia viajar, ficava dois, três meses para pagar. Era tudo freguês de categoria, não podia desconfiar, porque pagava mesmo. Mas eu não calculava que depois de três, quatro meses o lucro tinha ido na inflação!

LAZER

Depois de trabalhar, às vezes jogava uma tranquinha, distraía. Mas quando era no domingo, eu ia no Tênis Clube, batia peteca. Tinha uma turma de amigos lá. Era um esporte muito gostoso! Eu mesmo fabricava as petecas.

NAMORO E CASAMENTO

Foi um caso interessante. Eu estava na Rua Hipódromo conversando com uns amigos, parece que era um domingo. Minha esposa estava na porta da casa dela também com umas amigas. Então ela chegou perto de mim e perguntou: "Verdade que se chama Consolato?" Ela achou o nome muito estranho. Aí começamos bater um papo. Acabamos namorando. A mulher me tapeou direitinho. Ela foi esperta, as mulheres são espertas. Namoramos 18 meses. Depois desses 18 meses nós casamos, tivemos cinco filhos, vivemos muito felizes, hoje sou muito feliz. Depois que ela morreu tem minha filha, Teresinha, e meu genro, me querem muito bem. Os cinco filhos são Teresinha, Gilda, Valter, Dirce e Neide.

EXTINÇÃO DA PROFISSÃO DE SAPATEIRO

Depois da lei do Getúlio, não tinha mais criança para aprender nas oficinas, tanto é que alfaiate e sapateiro falta na praça, não tem. Tem operário que trabalhou até 81 anos. O mais novo quando fechou a oficina tinha 74 anos. Eu fui obrigado a fechar. Porque hoje o sapato é tudo colado, é diferente. É sapato bom, porque as colas são muito boas também, fica firme. Eu não sabia trabalhar com o colado e acabei fechando. CRISE DE 1929 Tivemos uma grande crise. Naquela crise eu estava começando a minha vida, então eu fiz uma espécie de consórcio. Quem ficava no consórcio pagava um mil réis por semana. Minha mulher que fazia as cobranças. Sexta-feira ela fazia as cobranças, porque no sábado saía na loteria. Quem ganhava o número levava o sapato. Mas eu já tinha tudo calculado na despesa. Fiquei muito tempo assim, tanto que, no tempo da crise, uma crise de trabalho, tinha muito trabalho. Cheguei a fazer três ou quatro clubes. Ganhei um bom dinheiro, tanto que sobrou. Sobrou dinheiro, eu cismei de abrir uma lojinha de sapato. Abri, mas eu não sabia comprar, não sou negociante. Fiz umas compras, numa semana vendi tudo. Mas depois parece que tinha tido algum defeito, alguma coisa, fiz uma compra muito maior, não consegui, parou o negócio. Depois de seis meses mudei outra vez de casa, era uma casa mais barata. Comecei a trabalhar de novo. Já tinha dois filhos, a minha mulher cuidava, não podia mais sair, eu comecei a fazer freguesia. Eu levantava bem cedinho, fazia os modelos, preparava o serviço, fazia os sapatos. Fiquei muito tempo assim. Até que depois mudei pra Praça da República.

PUBLICIDADE E DESFILES DE MODA

A Madame Rosita fazia uma vez por ano, ou cada seis meses, fazia os desfiles de modas. Eles faziam o vestido e eu fornecia o sapato. Tanto a Madame Rosita como o Franco. O Franco era uma firma que tinha tudo de moda. Tivemos contato porque a mulher do Franco fazia os sapatos lá em casa. A Madame Rosita também, a filha dela também era minha freguesa. Para mim era interessante, porque elas faziam o desfile, falavam: "Vestido não sei o que lá, sapato é do senhor Laganá". Para mim era interessante fazer o desfile porque eu estava na Praça da República, mas no segundo andar, não tinha vitrine, não tinha nada. Era um reclame para mim. Eles tinham freguesia muito fina, freguesa que podia pagar.

INSTALAÇÃO DO TELEFONE

Era só pedir [a instalação] na companhia que eles mandavam. Quando estava na Rua Hipódromo tinha pessoas que andavam oferecendo telefone, porque não tinha muita procura que nem hoje.

EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA – RÁDIO E TELEVISÃO

Naquele tempo não tinha nem rádio ainda. Estava começando o rádio, precisava por aquele fone no ouvido. Tanto que quando tinha uma família tinha o rádio em casa, tudo brigava, porque um queria ouvir, o outro queria ouvir. Tinha aqueles bares, quando tinha jogo de futebol ficava tudo cheio de gente, ouvindo o jogo no rádio. Tinha os vendedores de rádio que vinham oferecer em casa, deixava o rádio uma semana em casa para ver, para depois a gente comprar. Pagava em prestação. Eu não comprei logo meu rádio, porque no princípio eu queria arranjar capital para ir na frente com o negócio. Demorei um pouco. Aí eu comprei um General Eletric. Eu nem ligava muito para programas, eram meus filhos e a minha mulher que gostavam muito de rádio. Quando largava de trabalhar, eu preferia jogar um buraquinho, ou ia no Tênis Clube pra bater peteca. Depois apareceu a televisão. Era uma novidade, nossa senhora! Também vinham oferecer em casa. Comprei a minha quando estava na Praça da República. Acho que foi General Eletric. Naquela época também não tinha geladeira. Eu tinha uma caixa de madeira, a Antarctica passava em casa toda a manhã e deixava um bloco de gelo. Depois começou a vir geladeira do estrangeiro, de Norte América. Comprei a primeira geladeira, a mulher ficou toda contente, ficou toda alegre. Uma maravilha!

SÃO PAULO ANTIGA

Quando estava na Praça da República, começava a trabalhar sempre às 8 horas. Às vezes eu saía, espiava as vitrines e tudo o mais. Mas de dia eu só pensava trabalhar. Almoçava, descansava um pouco, depois tocava a trabalhar outra vez. Era assim. No domingo, às vezes ia na casa de meu cunhado que morava no Ipiranga. Naquele tempo o Ipiranga tinha pouquinha casa. Ele morava num lugar, às vezes tinha galinha na rua. Isso faz uns 60 ou 70 anos. Outras vezes tinha um outro cunhado que morava na Vila Mazzei. Naquele tempo era interior, íamos de trem lá. Era um passeio gostoso. Outras vezes eles iam lá na minha casa. Vinham almoçar com a gente, ficavam na Praça da República. Naquele tempo a Praça da República era uma maravilha, não era que nem agora, os meus filhos ficavam brincando. Meus filhos chegavam da escola, atravessavam a rua e iam na Praça. Hoje não se pode atravessar mais! Não tinha esse parque que tem agora, era livre. De noite eles juntavam uma porção de molecada que era das vizinhanças, iam na Praça da República brincar, correr. Agora é uma barbaridade. Quando eu morava lá não tinha Avenida Ipiranga, era Rua Ipiranga. Depois abriram a avenida. Era uma rua estreitinha. Passava o bonde na Santa Ifigênia. Era ponte era de ferro. Nem ônibus não tinha, porque o motor não tinha força suficiente. Tinha um bonde que ia de Jabaquara até Ponte Grande. Na Rua São Bento passava bonde, na Rua Direita passava bonde. Era assim.

SÃO PAULO ANTIGA – POLÍTICA

A política era gozada aqui. Era sempre embrulhada. Defunto votava aqui, depois votava em outro lugar, era assim. Tinha um italiano, chamava-se Major Emolinári, ele que mandava aqui na política de São Paulo. Na hora de fazer eleições, todo o mundo procurava o Major, porque ele arrumava tudo, ele naturalizava, dava o título de eleitor. Depois do Getúlio, acabou essa bocanha. Tanto é que mataram o Emolinári no Largo São Bento. Um estudante matou ele.

GETÚLIO VARGAS

Depois que acabou a Revolução, teve violência aqui em São Paulo, porque às vezes passava algum oficial do exército, algum soldado, e não podia andar sozinho porque linchavam ele. Durante a revolução eu estava aqui em São Paulo. Achei o Getúlio Vargas um grande presidente! Para a classe operária, não teve melhor. Ele foi muito bom. Depois, começou a se corromper. Com a revolução, para a minha maneira de pensar, muita gente perdeu a bocanha, aquela pouca vergonha que tinha antes do Getúlio, ele abafou tudo. Tinha o Fanfulla, aquele jornal italiano. Fanfulla não se metia na política, mas tinha outro jornal, Il Piccolo, se metia muito. Tanto é que depois empastelaram ele. O Fanfulla continuou até ter o Getúlio. Aqui tinha escola italiana, escola alemã, tudo estrangeiro! Não eram brasileiros. O Getúlio acabou com tudo isso. Chamava os "Grilos". Eu, por exemplo, morava na Rua Ipanema, que era solteiro ainda. Em frente de casa tinha uma senhora, uma professora italiana. Ela alugou uma sala, o cônsul italiano arrumou uma meia dúzia de banquinhos, abriu uma escola, mas ela dava aula de italiano, ela dava aula da história italiana, ela nem sabia falar português. O Getúlio acabou. Brasil é Brasil.Para mim a Revolução de 1932 foi uma revolução errada. A gente tinha liberdade, tinha tudo, tinha trabalho.

RELAÇÃO COM OS FUNCIONÁRIOS

Tinha uns três funcionários que aprenderam lá na oficina quando estava ainda na Rua Hipódromo. Tive muitos espanhóis, italianos, tem até húngaros, que eles já sabiam. Vieram da Europa, já sabiam trabalhar. Eles sabiam fazer sapato, mas não sabiam fazer desenho, não sabiam fazer uma forma. Eu preparava para eles. Por exemplo, que nem o engenheiro. O engenheiro projeta um prédio, mas o operário não sabe projetar um prédio. Assim era o sapato. Parece uma coisa muito fácil, mas não é.

SONHOS

Está tudo tão bem assim. Se ficar melhor, fica ruim depois. Não me falta nada. Levanto de manhã, tem a empregada que me prepara o cafezinho, eu tomo tudo, como dois ovos crus e uma laranjada. Depois tomo meu café com leite. Seria um pecado exigir mais do que isso! As minhas filhas todas me querem bem. Todas fazem o máximo para me fazer contente.

REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA

Foi uma coisa muito boa para mim, porque eu lutei muito. Talvez eu dou um exemplo para a próxima humanidade ou para alguém. Comecei de fazer meias-solas, sempre procurei me aperfeiçoar para chegar a um ponto máximo do tipo de calçado. Às vezes, eu passava noites inteiras estudando, vendo o livro lá que não sabia, aprendi sozinho, só de observar, só de lutar, só de experimentar. A gente luta e vai melhor, mas as coisas não vêm sozinhas nas mãos da gente. Se um engenheiro tem que fazer uma ponte, construir uma casa, ele vai primeiro ver o terreno, ver como é, estuda. Porque, se eu não conheço bem o pé, como é que eu posso fazer um sapato cômodo? Eu estudei o pé. Eu ficava olhando como é que andava, como é que pisava. Por exemplo, minha botina. Ela tem uns 14 anos, eu usei pouco, mas vê como ela fica no pé, tudo justinha, encaixada. Sapato de mulher é pior ainda. Pra fazer um sapato que fique bem no pé, que não cai, que não dói, não é muito fácil. Os fabricantes pegam uma forma, vai no formeiro, pega a moda, faz o sapato, e vende. Cada cem pés, capaz que um serve! O resto não é cômodo. Por isso que lutei para fazer um sapato bonito e cômodo ao mesmo tempo. Consegui uma freguesia muito boa, criei cinco filhos, tudo formado, tudo de um "bricholeiro" como chama aqui o sapateiro. Um "bricholeiro". Por isso que me sinto orgulhoso.

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