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Japão, Brasil e poesia

História de: Teruo Makio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Embora fosse o único a ter “amizade” com o touro bravo da família, o menino Teruo, caçula de dez irmãos, sempre se sentiu sozinho, sem amigos. Filho de imigrantes que haviam deixado o Japão para lidar com café no interior de São Paulo, ele perdeu a mãe muito cedo e viu a maioria dos irmãos seguir suas próprias vidas longe da casa paterna. Sua história, no entanto, se transformou completamente com a mudança para São Paulo, para estudar no colégio Mackenzie. Na capital, cultivou muitas amizades, fez a vida como advogado e, enfim, encontrou um lar, ao lado da mulher e dos dois filhos. Chegou a participar da fundação de clubes e de um salão de baile, e foi diretor, secretário geral e presidente da Aliança Cultural Brasil-Japão. Depois de ter domado vários “touros” em sua trajetória, não é sem melancolia que Teruo se recorda de algo que ainda lhe faltou: ser declamador de poesias.

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História completa

Meu nome é Teruo Makio, eu nasci em 13 de janeiro de 1936, registrado na comarca de Lins, embora eu tenha nascido na pequena vila próxima à atual cidade de Getulina. Sou filho de japoneses. Meu pai veio de Okayama, em 1913, já casado, com um filho e uma filha Era agricultor no Japão. Naquela época, uma propaganda que o Brasil fazia para atrair os japoneses é que aqui era tudo fácil, dava até dinheiro no pé de café. Com essa propaganda, meu pai resolveu vir para o Brasil.

 

Minha curiosidade era a seguinte: saber o que eles comeram no primeiro dia que entraram no Brasil. Ninguém me explicou isso até hoje. Lá só tinha arroz japonês, tinha missô, tinha shoyu. Aqui não tinha nada disso. Não sei como eles viveram.

 

Aqui, a casa da fazenda era de sapé batido com bambu cortado. E era pregado com barro misturado com palha de arroz picada. Juntava tudo e passava para fechar o buraco. Se você deixar junto com coqueiro, entra percevejo, entra tudo. Então, fez tudo coberto com cal, branquinho. Quem olhava falava: “Casa bonita de tijolo!”. Não era tijolo, era coqueiro e bambu. Meu pai que fez. Tinha banho dentro, não era chuveiro. Ofurô. Você tira a água, lava e depois entra dentro. E na frente ficava o poço. Porque tinha mais ou menos umas 12,13 casas de colonos ali. Uma ou outra era de tijolo, mas algumas eram de tábua e outras de coqueiro também. E no meio de duas casas tinha um poço para os caras tirarem água. Tudo bem feitinho.

 

Minha mãe veio para São Paulo e ficou hospitalizada três ou quatro anos. Quando ela voltou, voltou ao hospital de Getulina para morrer. Não tinha mais salvação. Eu só tenho uma lembrança da minha mãe, quando ela voltou uns tempos e ficou em casa. Ela corria o quintal, e a primeira manga que caía ela trazia pra mim. Só isso que me lembro dela. Eu sempre gostei de manga, e em casa tinha bastante fruta. Tinha uns 12 pés de manga já com essa grossura, laranja, abacate, monte de coisas. O chiqueiro tinha quase dois alqueires de porcos.

 

Como brincava? A mãe não estava mais em casa, eu estava sozinho, com nove anos, oito anos. Meu cunhado devolveu o terreno para o meu pai e veio para o Rio de Janeiro, junto da minha irmã. Outra irmã foi pra Rancharia e casou lá. E eu fiquei. Eu, meu irmão e meu pai, sozinhos. O único amigo meu era um touro, que a gente chamava de Gir. Era um touro bonito! Eu encostava ele no portão, subia e andava nas costas dele. Meu irmão foi fazer isso e levou uma chifrada. O único que fazia isso com o touro Gir era eu.

 

Eu não tinha amigo nenhum. Tudo era filho de empregado. Tinha 12 ou 13 famílias de colonos, quer dizer, eu ficava na casa de colono. Então, aprendi a comer arroz, feijão, farofa e jabá junto com alagoano, um pernambucano e outro cearense. Fiquei amigo deles! Minha vida, no sábado e domingo, era na casa deles. E em dia de semana o que eu fazia? Eu corria o pasto, ficava brincando no meio do gado ou ia pra floresta, catar fruta silvestre. Catava uns negócios de vagem grande, que era gostoso, e pindaíba. Sabe o que é pindaíba? É parecida com fruta-do-conde, só que fica vermelhinha e é doce pra chuchu.

 

Em casa, sabe aquela vitrolinha que você dá corda? Aprendi cinco ou seis músicas em japonês que até hoje eu não esqueci. É música de antes da guerra! Então, fala da existência do Japão. O tipo do romance japonês está nas palavras de muitos cantores. Tinha uma cantora chinesa, que falava bem japonês, que era boa cantora no Japão. Eu apenas ouvia.

 

Eu vim para São Paulo para fazer o colegial, no Mackenzie. Tinha seis salas de estudante, com quase 40 alunos. Sabe quantos japoneses? Três! E dois chamados Teruo. E outro que não sei o nome dele. Só tinha três!

 

Lá no “coiso” [pensão] tinha um negão. Ele falava bem alemão. E me levava só pra gafieira. Aprendi samba indo na gafieira. Eu sempre gostei de dançar. Aí, meus amigos eram pernambucanos, cearenses, baianos. Por isso que até hoje eu gosto de jabá, feijão e farofa, comida melhor que tem.

 

Eu tinha dois tipos de vida: com os colegas de faculdade de Direito era ambiente chique. Com os colegas de pensão, era gafieira e jogatina! Jogava cacheta em muitos clubes. Um dia, entrou um tal de Airton dos Santos, era gigolô. Ele vivia à custa de... Homens! Ele dançava bem. Ali, na Avenida Ipiranga, perto da Rio Branco, tinha uma boate, táxi-dancing, que ele ia lá. Todo mundo que ia lá pagava uma taxa – é táxi-dancing, então, por hora paga tanto. Ele não. Ele cobrava pra dançar porque todo mundo queria vê-lo dançar. Ele dançava muito bem rumba, mambo, tango. E cobrava das meninas pra dançar. Depois ele saiu, foi embora. “Vou para os Estados Unidos e não sei se eu volto.” Depois de um ano, ele mandou uma caneta Parker 61 de ouro, até hoje está comigo, não enferrujou de jeito nenhum, está como ouro ainda. E nunca mais voltou.

 

Já no começo da faculdade de Direito, eu adquiri muita experiência em fazer estatuto de clube. Na Boate Itapuã, que tinha na Vieira de Carvalho, eu aprendi a fazer um estatuto de um clube. E, quando nós montamos o BeBop Moto Clube, eu fiz o estatuto e a turma disse: “Não, o Makio sabe fazer!”, e eu fiz. Nós fomos nos estabelecer onde mais tarde entrou o Som de Cristal, mas o primeiro salão de baile fomos nós que fizemos lá.

 

Com essa experiência, meu tio me convidou pra fazer um clube pra ele, de japoneses. E, aí, eu comecei a entrar no meio dos japoneses. Eu achei que devia porque eu namorava a minha futura esposa, e a mãe dela virava as costas e ia embora. De japonês eu tinha só cara, não sabia nem cumprimentar! Então, falei: “Vou ter que aprender um pouco de japonês”.

 

Tive que aprender na marra. Depois que entrei na Aliança Cultural Brasil-Japão: “O que ele falou? O que é isso, o que é isso?”, ia anotando. E foi assim que fui aprendendo japonês. Fiquei amigo de quase todos os cônsules do Brasil, de vários presidentes de empresas japonesas. Fiquei amigo de todos. Comecei a pegar empresas japonesas, como advogado.

 

Eu entrei na Aliança e fui eleito, em 76, parece. Primeira coisa, eu sugeri que a Aliança se unisse com outra associação que ensinava japonês também. Reuni os dois. E ficamos três meses debatendo, mas a bronca toda sobrou pra mim, porque eu que batia toda minuta, fazia correção. E, na hora de apresentar, fui eu quem apresentou no estatuto. Fiquei um ano como diretor e, durante 15 anos, fui secretário geral da Aliança. Depois, 8, 9 anos como vice-presidente, e depois assumi a presidência.

 

Como tinha muita amizade com vários cônsules, eu recebi um convite pra visitar o Japão. Já viajei duas, três vezes para o Japão. Fui para os Estados Unidos, fui para a China.

 

Mas eu queria ter feito mais alguma coisa. Se eu tivesse alguém pra me aconselhar, eu teria lido muito mais livros, adquirido mais conhecimento pra me alavancar. A minha vontade era ser declamador de poesia só. Eu gosto de declamar poesia. Mas onde tinha dinheiro pra comprar livro? Biblioteca onde? Tinha tanta vontade, mas hoje já não tenho mais, porque hoje ninguém liga mais pra isso.


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