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História

Lampião, lamparina e vagalume

História de: Neusa Ramos Ferraz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/01/2019

Sinopse

Nascida em 1937, Neusa testemunhou as mudanças por que São Paulo, sua cidade natal, passou ao longo do século XX. Da infância, guarda lembranças de endereços que se transformaram completamente, como a região da casa dos avós paternos, de onde ela e a prima fugiam para brincar no Parque Trianon, atravessando uma pacata Avenida Paulista que ainda tinha bondinhos e casarões “chiques”; e o sítio dos avós maternos, que não tinha nem luz elétrica – apenas “lampião, lamparina e vagalume” –, e acabou se tornando, hoje, um bairro movimentado da Zona Norte da cidade. Da casa da Vila Mariana, onde vivia com os pais e a irmã, ela também fala com carinho. Ali, os dias pareciam mais longos e se dividiam entre as horas dos estudos de piano, das lições de casa e das brincadeiras no imenso quintal. Neusa nunca se casou e sempre soube ser sua melhor companhia. Em 1970, embarcou, sozinha, em uma viagem de dois meses pela Europa – desde então, conhecer o mundo é uma de suas grandes paixões.

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História completa

Nasci em São Paulo, capital, na Maternidade São Paulo, no dia 19 de novembro de 1937. Meus avós maternos eram de Portugal, minha avó de Trás-os-Montes e meu avô de Figueira da Foz. Minha avó veio grávida e, no meio da viagem, ela teve o filho, que é o meu tio mais velho, Antônio, mesmo nome do meu avô. O meu tio nasceu em alto mar e tinha dupla nacionalidade.


Todo sábado e domingo, a gente estava lá, no sítio dos meus avós. A gente tinha que tomar um trem na estação da Luz, uma maria-fumaça, para chegar lá onde eles moravam. E era uma festa! Lá era muito grande, muito aberto, juntava com a floresta, que vinha lá da Cantareira até ali. Meu avô tinha esse sítio enorme porque, enquanto minha mãe era solteira, ele fornecia frutas e verduras para o mercadão aqui da Cantareira. Ele tinha muita fruta, muita fruta gostosa. E, quando a gente chegava, ele já vinha trazer para a gente o que tinha colhido do pé. Ele ia pegar ovo da galinha enquanto estava quente, fazia um furinho em cima e embaixo e fazia a gente chupar quentinho, que ele dizia que fazia bem para a saúde. Comi muito ovo cru. E não tinha perigo de salmonela porque as aves eram criadas ali no pasto, na frente de casa, andavam por lá. Tinha uma vaca também, que ele tirava leite quente e dava pra gente tomar. A gente era saudável, viu? Tinha fruta, verdura, legume... A gente comia tudo de lá.


Tinha um caqui que já não existe mais, que era desse tamanho assim! Chamava caqui “coração de boi”. Ele era imenso e era doce, doce. Uma delícia! E meu avô sempre pegava os mais bonitos e guardava para a gente. E a minha avó fazia batata-doce assada no forno a lenha porque eu gostava. Sempre que eu chegava lá tinha batata-doce assada para eu comer. E a gente brincava no meio dos bichos: tinha pato, tinha galinha, tinha porquinho, tinha boi, tinha cavalo. A gente andava a cavalo, era uma delícia! Eu tive uma infância bem gostosa, bem livre, bem no campo.
Lá no sítio, não tinha luz. Era lampião, lamparina e vagalume. Tinha vagalume que você nem imagina! À noite, era muito bonito se ver também. Agora, onde era o sítio do meu avô é um bairro, Vila Amélia. Para chegar lá, a estrada tinha mato dos dois lados e, quando vinha a boiada, tinha que parar o carro. É hoje a Estrada de Santa Inês, que sai daqui da Rua Voluntários da Pátria.


Meus avós paternos moravam na Rua Frei Caneca. E minha avó fazia bala de coco e, de vez em quando, ela fazia a gente puxar aquilo, que era quente, um horror. A gente tinha pavor. Quando ela começava a fazer aquilo, a gente saía correndo. A gente subia e ia brincar no Trianon. Porque a Avenida Paulista não era o que é hoje. Você podia atravessar a rua tranquilamente. Só passava bonde lá. Carro era um ou outro. Então, a gente ia brincar no Trianon.


A casa da minha infância ficava na Rua Capitão Macedo, 196. Era uma casa com dois quartos. Lá em cima, tinha dois quartos só. Embaixo, tinha uma sala, cozinha e banheiro. Mas o quintal era enorme. E meu pai, que gostava de marcenaria artística e tinha feito um curso, fez balanço, escorregador pra gente. E comprou a bicicleta para a gente se exercitar um pouquinho. Ele sempre foi muito atleta, fazia sempre ginástica. Quando a gente ganhou a bicicleta, dava volta em volta da casa ou ia para o Ibirapuera, que era mato. Não tinha estrada, não tinha nada. Tinha caminho só. Eu sempre gostei de andar de bicicleta. E eu tinha patim naquela época, que era de carrinho de rolimã, quatro rodas. Pesava uma tonelada. Mas eu punha no pé aquilo, saía pela rua, ia andar, passear, de tanto que eu gostava.


Na frente da minha casa, na Vila Mariana, tinha uma chácara. Descia a rua, depois da Sena Madureira, e não existia avenida. Era uma rua em que passava bonde, e embaixo eram só chácaras. E tinha um chacareiro lá que consertava pescoço. Até o meu pai me levou uma vez lá, quando tive torcicolo. E São Paulo era um nevoeiro só. Nessa época, à noite, se você saísse na rua, não enxergava gente andando à sua frente por causa da garoa e da névoa. Era um nevoeiro só e fazia muito frio. Todo mundo tinha jardim em casa, as ruas eram totalmente arborizadas, o clima era diferente do que é hoje. Agora, São Paulo só tem prédios, de 20, 22 andares! Foi uma mudança drástica. A gente podia andar, passear à vontade, andar à noite, que não tinha problema nenhum. Hoje, você não pode sair de casa. 


Com sete anos, eu comecei a estudar, e minha mãe me pôs para estudar piano. Naquela época, as moças tinham que estudar alguma coisa de música. Era a prática das famílias. Era obrigado a fazer, não é que você quisesse. E a professora morava ali em frente, a Concheta. Era brava, que você nem imagina! Depois, eu ganhei o piano que eu tenho até hoje. E me formei no conservatório.
Naquela época, eu estudava piano, fazia as lições de casa e, depois, brincava, tinha tempo para brincar. Eu acho que os dias eram mais longos, com certeza. Porque dava para estudar duas horas de piano por dia, dava tempo de fazer lição e dava tempo de brincar. Depois jantava. E, depois do jantar, era cama, porque não tinha televisão, não tinha celular, não tinha nada. 


Nunca me casei. Foi uma opção minha. Eu namorei, tive decepção, mas poderia ter casado. Eu quis viajar, quis conhecer o mundo e pensei: “Se eu me casar, não vou poder fazer nada disso porque vou ter uma obrigação na minha casa, com o meu marido, com os meus filhos”. E não me sinto frustrada por não ter me casado. Tem gente que sente, né? 


Sempre quis muito viajar e viajei muito. Queria conhecer uma boa parte do mundo. Eu conheci. Sempre tive vontade de conhecer outros povos, outras formas de viver. Minha primeira grande viagem foi para a Europa em 1970. Eu fiquei dois meses lá. Não tinha ninguém que fosse comigo, uma trabalhava, outra estudava, outra era casada. Então, eu comprei o pacote de excursão, e fui embora, fui passear, me enturmei. Depois disso, já fui para os Estados Unidos, para Israel, Argentina, México. 


Eu já estava na hora de me aposentar, me aposentei. E fui fazer desenho, pintura, pintura em tecido. Eu fui para o Liceu de Artes e Ofícios. Saía da minha casa, pegava o metrô, com umas pastas enormes. Lá ia eu para o Liceu aprender a desenhar, pintar. Fiz três anos isso. Foi muito bom. Mas viajar é sempre um sonho que eu tenho. E um sonho que eu tenho é de conhecer a Croácia. Não sei por que, mas eu tenho vontade de conhecer a Croácia e voltar pela Costa Amalfitana da Itália, que eu já conheço, que é muito bonita. Fazer isso eu acho que vale a pena.

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