Busca avançada



Criar

História

Lauro e o Mercado

História de: Lauro Gilberto Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/03/2004

Sinopse

Infância e juventude em São José dos Campos. Comércio de torrefação de café do pai. Comércio de bar. Vendas na fase sanatorial. Mercado, descrição e tipo de comércios. Atividade política. Viagens. Casamentos e filhos. Avaliação do comércio antigo de São José dos Campos.

Tags

História completa



IDENTIFICAÇÃO
Eu sou Lauro Gilberto Pereira, nascido em São José dos Campos mesmo, 7 de julho de 1936.

FAMÍLIA
Meu pai é Antônio Sebastião Pereira; minha mãe, Maria Faquini Pereira, ambos falecidos. Talvez meu avô paterno, Benedito Pereira, e a mãe Aurora Maria Pereira. Da minha mãe, o avô talvez, não sei se é Benedito Faquini e chamava Maria Faquini também a mãe da minha mãe. Não estou bem certo, mas deve ser isso. Meu pai e minha mãe são nascidos em São José dos Campos. Os meus avôs, uns vieram da Itália e outros de Portugal. Só sei que eu tenho uns parentes tanto em Portugal como na Itália, ainda existe Pereira e existe Faquini também. Conheci uma avó, mãe da minha mãe, só. Porque os pais do meu pai faleceram quando ele era pequeno, meu pai ainda era pequeno, meus pais mesmo quase não conheceram eles, então não houve a possibilidade de eu conhecer. Meu pai, quando eu me senti por gente, tinha uma torrefação de café na rua Siqueira Campos. Torrefação de Café Aurora. Muitos anos ele militou nesse café. Só tinha duas torrefações de café em São José dos Campos: Torrefação de Café Aurora, e tinha a Café Bandeirantes, que era de um conhecido nosso. Depois ele vendeu essa torrefação de café e comprou o Bar Quinze, era um bar grande na rua Quinze de Novembro, um bar de muito movimento.

EDUCAÇÃO
Eu não quis estudar, não gostava de estudar. Tirei diploma do quarto ano. E aí já comecei a trabalhar numa carpintaria, noutra, assim. E aí meu pai resolveu fazer essa mercearia no Mercado Municipal, que estou até hoje, desde 9 de janeiro de 1950. Antigamente era o Grupo Escolar, então estudei até o quarto ano, tirei diploma, não quis mais. Minha paixão - parece impossível - mas era ficar atrás de um balcão. Estudei no Grupo Escolar Olímpio Catão.

FAMÍLIA
Minha mãe - eu lembro direitinho, como se fosse hoje - ela pesava o café. Hoje tudo é maquinário, mas antigamente pesava o pó de café num saquinho plástico. Eu lembro que ela tinha um avental grande e pesava de meio em meio quilo de café, aí ia para um outro e socava aquele café, selava. Então, o pó de café era um pacote de meio quilo. Não [como] hoje: era um quadrado assim. Então lembro bem que a minha mãe sempre trabalhou com o meu pai, sempre ajudou ele. Na mercearia não: ela trabalhou muito, muito pouquinho.

INFÂNCIA
Não cheguei a trabalhar na torrefação de café, porque eu era bem jovem, bem criança. Eu lembro quando meu pai tinha charrete - foi no tempo da guerra, se eu não me engano -, não existia quase carro a gasolina, era gasogênio que eles chamavam. E meu pai tinha carroça. Eu lembro do cavalo, lembro até o nome do cavalo. Meu pai tinha uma charrete, então ele levava em Santana, distrito de Santana, ele levava o café lá em Santana. Eu lembro que eu ia com ele. Eu ia buscar esse cavalo, quando soltava, eu ia buscar o cavalo para pôr na charrete para levar o pó. A única coisa que eu lembro. Mas trabalhar mesmo na torrefação, eu não trabalhava.

FAMÍLIA
Era um total de cinco irmãos. Um é falecido; um trabalha no CTA [Centro Tecnológico Aeroespacial], é aposentado, mas continua trabalhando; outro era motorista de táxi, aposentou, não trabalha mais; e tem uma irmã que é professora, mas aposentada também. Quando meu pai abriu totalmente a mercearia, era para eu e meu irmão trabalharmos. Fui eu e um irmão, esse que trabalha no CTA, trabalhar na mercearia. Só nós dois e meu pai. Mas com o tempo, ele viu que não gostava de ser comerciante e arrumou um serviço no CTA. Até hoje está lá, tanto que ele aposentou e continua trabalhando. Quem mais ficou com o meu pai mesmo fui eu. Até 1963, eu era uma espécie de empregado do meu pai, recebia ordenado, tinha ordenado, tinha tudo. Em 1963, ele passou a barraca para mim, aí eu fiquei como dono da barraca, até hoje.

COMÉRCIO
A rotina de trabalho antigamente era boa porque não existiam quase supermercados, eram só armazéns. Não existiam muitos bairros. Então, o movimento... A mercearia, quando meu pai montou, era uma coisa diferente dos armazéns, porque ele começou a trabalhar com queijo, queijo mozarela, que ninguém tinha. Existia em São José dos Campos uma Casa Diamante, na rua Quinze, dos judeus - era uma casa tradicional em São José dos Campos. Então não existia uma mercearia mais popular assim. Porque nessa Casa Diamante só entravam as pessoas de alta classe. Então, no mercado, foi uma boa coisa que o meu pai fez: começou a trabalhar com queijo, azeitona, salgados, vendia muito artigo de feijoada. Antigamente, um artigo de feijoada só ia no Mercado Municipal buscar com a gente, porque não existia, nos armazéns não existia. Aí depois com a vinda do supermercado, todos eles têm isso. Tanto que hoje quase nem trabalho com salgado de feijoada, porque muito supermercado, muito atacadista... E os atacadistas hoje, infelizmente, eles servem a gente, mas servem as pessoas para comprar miudezas, o que chega até a atrapalhar a gente. Porque se o supermercado, os grandes atacadistas de São José dos Campos, vendessem só para os comerciantes, claro que as pessoas iriam comprar da gente as coisas mais miúdas. Mas não: todos eles vendem a varejo quase, então prejudica um pouquinho a gente. Não é mais como era antigamente.

INFÃNCIA
Nos anos 1940, eu freqüentava o Grupo Escolar. Lembro que eu estava nesse Grupo e o meu pai era dono do Bar Quinze - era um bar que funcionava na Rua Quinze de Novembro. Eu lembro direitinho. E eu sempre tive em mente, eu gostava de ficar atrás do balcão para trabalhar. Meu pai até queria que eu fosse médico, que eu estudasse para médico. Eu falei: “Não, não quero ser médico, quero ficar atrás do balcão”. Vamos dizer, era a minha paixão, principalmente quando eu ia nesse Bar Quinze. Só que ele era uma espécie de uma sociedade, e quando eles fizeram essa sociedade, eles não admitiram que os filhos fossem trabalhar junto no bar. Então eu não tinha muito acesso de entrar, trabalhar, ajudar meu pai, que era o que eu tinha vontade. Não conseguia trabalhar com meu pai no Bar Quinze, porque eu já me sentia como gente, mais adulto, já sabia o que eu queria. Mas depois que ele abriu essa mercearia no Mercado Municipal, aí é que eu comecei a trabalhar.

COMÉRCIO
O Bar Quinze era bar com as mesas, as pessoas chegavam, pediam uma cerveja, sentavam. Tinha diversas mesas de snooker, essas mesas de bilhar. E era um movimento bom. Depois, com o tempo acabou essa mesa de snooker, aí veio a Pássaro Marrom, essa empresa de ônibus que existe até hoje em São José dos Campos. Foi feita ao lado na rua Quinze, então tinha essa empresa de ônibus Pássaro Marrom, que dava mais um movimento para o bar também. Depois meu pai vendeu o bar e ficou uns tempos parado, aí foi que ele montou a mercearia. Mas a minha fase de infância em São José dos Campos foi muito boa, eu conheci tudo em São José dos Campos.

CIDADES
São José dos Campos São José dos Campos, eu acho que era bom. Eu acho que era bom porque criança quase não pensa muito. E claro que meu pai sempre foi tido assim como, não rico, mas um homem de posses. Então as pessoas olhavam para gente como se [fôssemos] ricos, mas eu lembro que eu não era. E tinha diversas passagens assim, que meu pai ia para São Paulo. Meu pai ia para São Paulo, trazia uma maçã, ou duas maçãs, chegava em casa, cortava em quatro e dava um quarto para cada um. E meu pai era tido quase como uma pessoa de bem, rica. E [a gente] ficava satisfeito de comer um quarto de uma maçã. Hoje as pessoas levam quilos e mais quilos de maçã; um dá uma mordida e joga fora, não quer. Então, eu vivi uma infância boa. Sempre freqüentei cinemas. Baile não. Meus irmãos freqüentaram baile, aprenderam bem a dançar. Os bailes antigamente eram muito bons, muito bonitos. A rua Quinze tinha o footing, aquelas pessoas andando para lá e para cá. Era muito bonito. São José dos Campos era uma maravilha. Eles fechavam o trânsito perto da igreja Matriz, e lá perto do jardim só ficavam as pessoas. As mulheres passeando, os homens também ficavam passeando, naquela paquera. Era muito bom São José dos Campos. Aí comecei a trabalhar no Mercado. Mas gosto do que eu faço, conheço todo mundo: quem trabalhou no Mercado, que já foram, que já faleceram, os comerciantes de São José dos Campos.

TRABALHO
Minha ida para o Mercado foi uma decisão do meu pai, porque ele vendeu o bar Quinze, ficou uns tempos parado, então montou essa mercearia no Mercado Municipal, e acho que ele sentia que eu tinha vontade de trabalhar no comércio. Eu era o mais chegado ao meu pai; meu pai parecia que tinha mais conhecimento comigo. Então eu fui trabalhar com ele. Tanto que o meu irmão foi trabalhar também, mas trabalhou pouco tempo e foi embora.

COMÉRCIO
O Mercado era muito bom. Antigamente, as mulheres vinham fazer compra com essas cestinhas de vinil, cestinha de taquarinha, de vinil. Então, todas as mulheres vinham ali no Mercado fazer compra. E ficava, numa travessa Chico Luís, do lado, aqueles rapazes com carrinho, carrinhos de caixote. Então, as pessoas faziam compra e levavam para os rapazes ali porem no carrinho para levar a compra até a casa, para ganhar um trocadinho. E existiam muitas pessoas também no Mercado que perguntavam: “Quer que leve a compra, quer que leve a compra?”. E as pessoas ficavam; aquelas madames... O Mercado era um movimento, tinha bastante gente, o Mercado era freqüentado. Aos sábados era um colosso, muito, muito, muito movimento mesmo. Então, é claro, eu sempre adorei ficar atrás do balcão. E vendia de tudo no Mercado. Tinha muitas pessoas que vinham da roça vender aqueles produtos que eles mesmo colhiam. Mel de abelha, aqueles favos, vendia mel de abelha. Outros traziam abobrinha, pimentão, mesmo alface. E tudo era coisa fresquinha, coisa que a pessoa tinha na horta, então eles podiam vender no Mercado. Tinha até umas banquinhas ali, que era para as pessoas vender. Mas as pessoas vinham mais aos sábados, aos sábados que era o movimento. E nós sempre com aquela barraca vendendo queijo, salgado. Claro, cada vez foi melhorando um pouquinho mais, e queria até melhorar mais, mas está difícil. As mercadorias vinham da região mesmo. Laranja, eu lembro daquelas laranjas baianas, bonitas, todo mundo trazia. Aí depois, com o tempo, já foi existindo o Ceasa, foi existindo São Paulo, as pessoas já iam buscar maçã em São Paulo, laranja, pêra, uva. Eu lembro que vinha muita uva, vinha uva só da Espanha, da Itália, vinha umas barricas, umas barricas redondas assim, de tábua, de madeira, e vinha com cortiça dentro. Sabe cortiça, de fazer rolha? Então, vinha tudo quebradinho e vinha cheio de uva, essas uvas brancas, assim, bonitas. Então, uva só vinha da Itália quase. Então, eu lembro que a gente tirava aqueles cachos de uva do meio das cortiças para vender. Chegava de navio. Claro, alguma coisa ou outra não está chegando de navio mais, não digo castanha, que eles vendem no fim do ano, mas totalmente vinha de navio, essas uvas. Todas maçãs vinham da Argentina. Quer dizer, antigamente se abria uma caixa de maçã, era um sabor, um cheiro espetacular. Hoje você abre uma caixa de maçã e a maçã não tem mais cheiro, não tem mais gosto. Eu lembro que o papai pegava uma maçã, levava em casa e punha em cima do criado-mudo dele, sabe, então exalava aquele cheiro gostoso da maçã.

TRANSPORTE
Os produtos chegavam de São Paulo. Geralmente, meu pai, por um ano, dois anos, ele comprou uma caminhonete, mas aí não tinha a rodovia Presidente Dutra, ele ia pela estrada velha daqui a São Paulo, levava umas três horas, mais ou menos, de viagem para São Paulo. Era estrada de chão, que passava por Jacareí, passava por Mogi, até chegar em São Paulo. E estrada de chão mesmo. Os caminhoneiros passavam por essa estrada. Eu lembro que meu pai sempre falava que tinha visto a televisão, a primeira que apareceu, apareceu em São Paulo, claro, depois em Mogi. Então, ele parava lá num bar - sempre parava para tomar um café, qualquer coisa - e via a televisão. Não tinha televisão em São José dos Campos ainda. Mas São José dos Campos, antigamente, quando apareceu a televisão, tinha um posto de gasolina ali em frente às Lojas Americanas, ali existia um posto de gasolina chamado Mercadante. Ali foi a primeira televisão que apareceu em São José dos Campos. Eles puseram num lugar alto lá, então chegava à noite era fascinante, parecia uma reunião de igreja, enchia de gente para assistir essa televisão. Era muito bonito. Eu não ia muito porque logo o meu pai já comprou uma televisão branco e preto, eu lembro, então quase não ia. Passava por lá, mas não freqüentava. Eu passava de bicicleta, moleque, sempre estava andando de bicicleta, sempre passava lá [para] procurar uma namorada ou outra. Antigamente, era até gostoso namorar.

MORADIA
Morava perto do Mercado, morava na rua Siqueira Campos, perto do Mercado, número 486, a uns quinhentos metros do Mercado. Sempre, sempre morei ali. Meu pai tinha um terreno grande; cada filho foi casando, foi fazendo uma casa e os filhos foram morando tudo do lado do pai.

COMÉRCIO
Os açougueiros - que tinha bastante açougue - eu lembro que os açougueiros acordavam uma base de umas quatro ou cinco horas da manhã. Vinham aqueles bois, pedaços de bois, traseiro, que eles falam, e ele vinha e ficava serrando o bife, ele serrava a parte do patinho, que tem o osso. Então, ele serrava com a serra de mão, ele serrava porque ele cortava um pedaço de carne com osso e pendurava tudo nos tendais, para a hora que abrisse o Mercado, às sete horas, os fregueses vissem e já pedissem aquela carne; escolhia aqueles pedaços de carne e levava. Não existia carne sem osso. Hoje não, hoje é uma facilidade medonha: hoje a pessoa chega, descarna tudo, tira o osso tudo, então você compra uma alcatra sem osso, um patinho sem osso, coxão duro sem osso, coxão mole sem osso, o que antigamente não existia. Então os açougueiros eram os que chegavam mais cedo no Mercado: quatro hora da manhã, eu lembro. Eu ia na missa das seis - porque eu gostava de ir na missa das seis, freqüentava muito a missa, hoje estou em falta, até, com Deus, quase não vou na missa - e os açougueiros eram os primeiros que chegavam no Mercado. O Mercado era muito bom, eu gostava.

JUVENTUDE
Eu comecei a trabalhar com catorze anos, quase de moleque. Tudo que um moleque fazia eu queria fazer. Claro, eu trabalhava, era responsável, meu pai me dava uma espécie de ordenado por mês. Então eu começava a trabalhar, chegava no fim do mês, ganhava ordenado, freqüentava o cinema, a matinê - existia a matinê. À noite, no baile, eu não podia ir, porque naquela época, com catorze anos não entrava. Uma vez - eu já era meio crescidão - não entrava no baile da matinê porque era muito grande, não entrava à noite porque não tinha idade, então eu ficava nesse dilema. Mas eu perdi um pouquinho a minha mocidade porque eu comecei a namorar muito cedo; eu, com catorze anos, já arrumei uma namorada em Santana, e lá eu fiquei. Fiquei, casei.

CIDADES
São José dos Campos A Casa Diamante era uma casa, eu lembro que bem... Os donos eram judeus, pessoas de posses, então era uma casa mais chique, uma casa de tradição em São José dos Campos. Mesmo os produtos de Natal: nozes, amêndoas, avelã, castanha, figo, passas, era só na Casa Diamante que vendia. Então, não era freqüentado por aquelas pessoas mais simples, mais humildes, não era freqüentado. Muitas vezes, a gente não tinha uma mercadoria e a gente indicava a Casa Diamante para as pessoas. E o mesmo: a Casa Diamante indicava para a gente algumas coisas, porque meu pai ia toda semana para São Paulo, então ficou bem conhecido no Mercado, a Mercearia do Toniquinho Pereira, que era chamado meu pai. Então, a Casa Diamante era uma casa de tradição em São José dos Campos. Claro, depois eles começaram a trabalhar, parece, até com móveis, com jóias, relógios, e tinha a parte da mercearia, que era a nossa parte também. Mas, eram excelentes donos, excelentes pessoas. Ah, cheguei a conhecer todos os donos lá, cheguei a conhecer todos eles. Até hoje ainda tem alguns descendentes deles, da família da Casa Diamante. Claro, depois começou a abrir algum comércio em São José dos Campos, os armazéns, como tinha a Fortaleza, que era uma casa que tinha na rua Quinze, na Siqueira Campos mesmo, um armazém grande. Mas era daqueles armazéns que as pessoas chegavam - tanto os donos como os empregados atendiam as pessoas - e pediam uma lata, qualquer coisa, a pessoa ia lá e pegava a lata e trazia no balcão, ou queria farinha, um pedaço de mortadela. Então, todas pessoas, tanto o comerciante como os empregados, vinham servir a pessoa e punha no balcão, e as pessoas iam marcando ali no papel a conta e pagavam, punha na cesta ou no carrinho e levava. Na rua Sete tinha os Irmãos Friggi. O Mário Friggi até era expedicionário, parece. E eles vendiam muito para as pessoas que trabalhavam na cerâmica, Cerâmica Paulo Becker, que existia antigamente: fazia telhas. Vinham esses caminhões, aqui de perto de Paraibuna mais ou menos, esses caminhões que vinham, traziam as pessoas, parava ali e as pessoas iam comprar nesse armazém que ficava na rua Sete, ao lado do Mercado. Então, o que as pessoas faziam? - eu lembro bem direitinho das pessoas -, eles traziam já os bornais, os saquinhos deles, de pano, e as pessoas, por exemplo, precisava, pesava dez quilos de arroz, cinco quilos de feijão, cinco quilos de açúcar, e punha naqueles recipientes que eles traziam. E aí todas aquelas pessoas, funcionários, principalmente, da Paulo Becker, eu lembro muito bem, que era trabalhando de servente da Paulo Becker, da Cerâmica Paulo Becker, faziam aquelas compras, aí o caminhão já estava esperando. Aí o caminhão pegava aquelas pessoas, punha - cada pessoa carregando mercadoria no caminhão - e levava para onde eles moravam, que era para o lado de Paraibuna. E eu aproveitava desse tempo: eles não vendiam, por exemplo, queijo, salsicha, azeitona, salgado, e sempre sobrava um pouco para a gente dessas pessoas que iam fazer compra lá e vinham no Mercado também, para gastar da gente. Então, o movimento da gente era bom, como esses Friggi também, vendia muito bem. No Mercado também tinha uma banca de um Friggi. Eu lembro que chegavam a vender assim, cinco, seis caixas de banha. Antigamente, a banha vinha em caixa de madeira, vinha quinze quilos de banha, esses pacotes de banha de um quilo, essa banha de porco. Então, eles vendiam de cinco, dez caixas de banha - as pessoas cozinhavam muito com banha. E eu lembro que uma das filhas desse Friggi punha o dinheiro até numa caixa de madeira. Porque todo mundo só pagava com dinheiro. Quase não existia cheque - cartão então, nem se fala - era mais dinheiro. Eu lembro que essa menina, filha do Friggi, punha o dinheiro nessa caixa de banha que ficava vazia, essa caixa de madeira, então ela ia pondo todo dinheiro na caixa de banha. Aí, quando ia chegando quase na hora de fechar, principalmente aos sábados, que as pessoas vinham fazer compra - sexta e sábado eram os dias de mais movimento -, então essa menina, depois que fechava o mercado, ela ficava contando toda aquela dinheirada. Cheque então, era muito difícil de ver o cheque. Eu acho que levava no banco ou dava para o pai dela. Na segunda-feira, ele ia para São Paulo fazer compra. E levava o dinheiro. Antigamente era tudo pago com dinheiro. Ele fazia compra em São Paulo, como meu pai também. Meu pai sempre, sempre foi fazer compra em São Paulo. Meu pai deve ter ido uns 25, trinta anos em São Paulo, e sempre levou dinheiro. Eu, depois que eu comecei, porque abri conta no banco, porque era mais facilidade fazer cheque. Mas hoje não, infelizmente - eu não sei se os gerentes do banco vão ficar até com raiva de mim - mas não trabalho com banco nenhum. Porque são muitos encargos dos bancos, então só trabalho com dinheiro. Vou em São Paulo fazer compra com dinheiro. Não trabalho mais com banco, encerrei todas as minhas contas no banco, não sei se o gerente do banco não gosta da idéia.

COMÉRCIO
Feijão, arroz, banha, principalmente, essas mercadorias que esses armazéns do lado da rua Sete - e outro armazém grande que era pegado à minha barraca -, eu via que eles punham o dinheiro na caixa. [Os produtos] vinham muito de São Paulo, eles iam comprar arroz, feijão, açúcar, todos eles iam buscar em São Paulo. Não tinha atacadista em São José dos Campos, nenhum, e em São Paulo tinha aqueles grandes atacadistas. Sal, sal antigamente era tudo solto, a turma pesava o sal. Na rua Siqueira Campos, onde eu morava, tinha um armazém que se chamava José Bonifácio; a pessoa pedia um quilo de açúcar para ele, ele punha num papel - eu faço isso hoje -, sabe, embrulhava aquele quilo assim e dava para a pessoa. A pessoa se virava, punha num saco que ele trazia. Então, não existia saquinho de papel. Então, antigamente, as pessoas pediam um quilo de feijão e ele fazia assim, sabe, pega com a mão, assim, põe aquele papel branco, assim, você põe um quilo de alimento ali. Eu faço até hoje, eu sei fazer. Então, não existia saquinho, não existia nada. Sal, a pessoa comprava um quilo de sal - ele fazia assim também, ninguém tinha saquinho para pôr. Claro, depois foi melhorando, depois o sal já veio tudo em pacote. Arroz e feijão, que eles vendiam muito, descarregava um caminhão de feijão e de arroz nesse Friggi, e vendia tudo, tudo solto, e eles punham nas vasilhas que a pessoa trazia de fora. De fora, quer dizer, adjacente aqui a São José. E as pessoas depois pegavam o caminhão e iam embora. Mas, quer dizer, não sei se há mais facilidade hoje do que naquele tempo. Aquele tempo, graças a Deus, a gente vendia bastante, dava para a gente... Toda semana todo mundo ia a São Paulo. Meu pai ia comprar queijo, ia buscar em São Paulo azeitona, salgado. Claro, depois já começaram os viajantes a vir e a trazer aqui em São José: a Sadia, Perdigão, esses grandes atacadistas já vieram trazer em São José. Mas antigamente, sempre, sempre ia buscar em São Paulo, e buscando em São Paulo o preço sempre já era melhor. Eu sempre tive geladeiras. Eu até lembro que a geladeira que o meu pai comprou foi do João Batista Peneluppi. Tinha uma casa ali na esquina, ali perto do Cine Paratodos. Antigamente era João Batista Peneluppi. Ele vendia geladeira, e a geladeira era importada, vinha tudo da Itália. Tanto que o mármore da minha geladeira era tudo mármore de Carrara, que eles falam, que era da Itália, um lugar lá que tinha mármore. Aqui não tinha. Eu lembro que o meu pai comprou essa geladeira, logo que ele abriu a barraca ele já pôs essa geladeira, que a gente conservava salsicha, mortadela, porque a gente vendia bastante. Eu lembro que meu pai trazia salsicha de bastante de São Paulo. Hoje eu não vendo mais salsicha, não trabalho com salsicha mais. [O balcão era] já refrigerado. E os armazéns geralmente não vendiam o produto que a gente vendia, eles vendiam arroz, feijão, óleo. Óleo, eles compravam óleo de tambor, esses tambores de cinqüenta litros, tambor de gasolina. Antigamente, o óleo só vinha no tambor; aí eles tinham uma espécie de uma maquininha em cima do tambor, e tirava uma tampinha assim, botava esse negócio lá, virava assim e a pessoa punha um litro, tinha um caninho, ele virava assim e enchia o litro. As pessoas vinham e compravam dois, três litros de óleo, não tinha essas latas de óleo. Era envasado na hora que a pessoa pedia: “Eu quero dois litros de óleo”. Aí vinham aqueles tambores de óleo de cinqüenta litros, e enchia o litro. Não tinha essa lata de óleo. As mercadorias que vinham - arroz e feijão - vinham em saco de sessenta quilos. Eu lembro que o caminhão parava, as pessoas descarregavam no armazém, no fundo. Aí abria, punha nos caixotes na frente - existiam os caixotes que eles punham arroz, feijão. Um arroz de diversas qualidades, porque um já era mais quebradinho, outro era melhor, então de diversos preços. Tanto como tinha feijão. Açúcar eles punham também. E as pessoas iam pesando tudo na hora. O Mercado, antigamente, tinha bastante açougue. A parte da frente da minha barraca era açougue de carne de vaca. Então, desde o começo - hoje não, hoje já fizeram uma porção de coisa - tinha uns... acho que um, dois, três, quatro, acho que tinha uns dez açougues só de carne de vaca, assim, na frente. Ao lado, que fica na travessa Chico Luís, era tudo açougue. Hoje não, hoje tem umas mulheres japonesas que vendem frango, frango picado, e outro rapaz vende frango vivo, tem os peixes. Então, o que acontecia? Na frente da minha barraca, do lado da minha barraca era só carne de vaca. As pessoas chegavam cedo para cortar esses pedaços de carne de vaca porque já vendia com osso. Nenhuma pessoa levava um quilo de carne para casa em bife. Em bife então, não existia: a pessoa levava em casa, depois que eles cortavam em bife. E a parte de trás era só açougue suíno, só de porco. Esses quase não vinham cedo, por quê? Eles traziam aqueles pedaços grandes de toucinho de porco, punham em cima do balcão - que era de mármore -, então as pessoas chegavam e queriam um quilo de toucinho. Então, o que eles faziam? Eles cortavam assim, saía aquela lasca, assim, de toucinho, pesava, e ficava aqueles pedaços, a parte inteirinha do porco, eles punham em cima do balcão. O pernil, serrava o pernil com essa serra. Hoje é moderno, hoje tudo tem serra nos açougues. Então as pessoas vinham e queriam um quilo de toucinho; eles cortavam um quilo de toucinho. Saía bonito, sabe, umas fatia de toucinho, assim, bem carnudo. Carnudo não: toucinho só é a gordura só. Então, ali na parte de trás era só açougue de carne de porco. Tinha açougue na cidade. Tinha, eu lembro que tinha na Vila Ema, tinha um açougue na Vila Ema, e na rua Humaitá tinha um açougue. Não existia na Vila Maria, onde eu conheço bem, que eu vivi a vida inteira ali. No centro da cidade não tinha. Só tinha na Vila Ema, um bairro já bem antigo aqui em São José dos Campos. Então, eu lembro que tinha um açougue na Vila Ema e tinha um açougue na rua Humaitá também; perto da delegacia mais ou menos, tinha um açougue também. Só. O resto a pessoa tinha que vir no Mercado Municipal para comprar, tanto seja arroz, feijão, essas coisas. O armazém era muito pouco, não tinha quitanda, não tinha nada. Todo mundo vendia porque só tinha aqueles açougues ali. Então o povo de São José... Tinha Vila Maria, que era grande; Santana, já existia Santana. Santana tinha açougue também. Não tinha muito, mas um açougue tinha, que eu lembro, tinha em Santana, tinha na Vila Ema e tinha na rua Humaitá. Então, as pessoas da cidade só se abasteciam no Mercado Municipal, tanto como carne. E tinha do lado, onde hoje é o bar, existia o peixe. Então, o peixe, antigamente, era muito bonito, era fascinante. Os pescadores pescavam no Paraíba. E eu lembro que sempre minha mãe ficava na porta de casa esperando o pescador passar. Eles tinham uma espécie de um pau grande, assim, finos assim, mais ou menos, bem grande, com uns dois, três metros, e fazia uma feira de peixe. Ele cortava uma taquarinha bem fininha, enfiava na goela do peixe, então se fazia uma espécie de rodinha, uma rodinha, e virava essa taquarinha, assim, então fazia uma espécie de um colar, cheio de peixe. Então existia traíra, bagre, dourado. Eles iam pescar no Paraíba e vinham a pé. Eles vinham cedinho para vender no Mercado Municipal. Eu lembro que muitos passavam em frente de casa e minha mãe ficava esperando, porque ali eles vendiam também. Então minha mãe escolhia aquelas traíras mais bonitas. Era peixe fresquinho, era peixe só do Paraíba - do litoral era só peixe salgado, não tinha nada - era só peixe do Paraíba. Esse Paraíba que hoje, infelizmente, está poluído. Era traíra, muita traíra, bagre. Que eu lembro bastante, eram esses dois peixes. Dourado, tinha piapaba, piabanha. Hoje não existe. Principalmente depois que eles soltaram os dourados no Paraíba, os dourados andaram comendo todos esses peixes. Mas existia muita piapaba e piabanha. Era um peixe bonito, um peixe grande, branquinho. E a turma comprava muito traíra e bagre. Mas era um peixe que você podia comer, não tinha o gosto que tem hoje. Você pega um peixe hoje, tem o gosto dessa descarga, dessas grandes indústrias que poluem.

FAMÍLIA
Até hoje eu tentei falar para minha mulher fazer um peixe que eu adorava quando a minha mãe fazia, aí já é o peixe do mar. Com esses bagres, eu lembro que ela fazia muito cuscuz. Ela fazia esses pedaços de cuscuz, punha farinha, ovo e esses pedaços de peixe. Depois punha no forno com água e formava aquele cuscuz, uma espécie de um bolo. Você cortava, tinha aqueles pedaços de peixe ali. Era muito gostoso, demais. Fazia peixe frito, tanto o bagre como a traíra. Eu gostava, sempre gostei da cabeça da traíra porque não tinha muito espinha - e a traíra é um peixe que geralmente tem muita espinha. Mas a minha mãe, eu lembro que ela fazia de vez em quando, quando eu descia para Caraguá, ela trazia tainha, e a minha mãe fazia uma tainha ao scabesh, sabe? Até esses dias eu comprei tainha, mandei minha mulher fazer, mas infelizmente..., nada, nada do que ela fazia. Até vou falar do jeito que ela fazia essa tainha: ela cozinhava essa tainha, cortava as postas, cozinhava; depois ela punha num recipiente de louça, de louça grande, aquelas camadas de tainha com bastante alho, cebola e depois punha na geladeira. Mas ficava branquinho, ficava aquelas partes separadinhas. Então a gente tirava aquilo da geladeira - eu lembro direitinho da geladeira, eu não me lembro o nome da geladeira, era uma geladeira grande que a gente tinha. Porque a gente sempre foi mais ou menos bem de vida, então a gente tinha essas condições. Então, a minha mãe fazia essa tainha, que era peixe da água salgada. Então, ela fazia isso, deixava lá, e ela sempre tirava essa tainha para a gente comer, era uma delícia. E o peixe que vinha do Paraíba aqui, todos os peixes eram uma delícia. Se você pega um peixe no Paraíba hoje, infelizmente, tem gosto de óleo, tem gosto de uma coisa ou outra.

CIDADES
Litoral Eu tive um tio em Caraguá, irmão da minha mãe. Chamava Toniquinho Faquini, tinha até uma pensãozinha lá. Eu desde criança conheço Caraguá. Chegava lá pela estrada velha. Levava três horas de viagem daqui para Caraguá. Eu lembro que o pai tinha um Fordinho 1929. A gente ia para lá, e nessa pensão do meu tio lá a gente ficava dez dias, vinte dias, um mês. Não sei como meu pai pagava, mas a gente sempre descia lá. Eu lembro que a minha tia lá, vinha com aqueles palmitos grandes; ela cortava aqueles palmitos para fazer - antigamente podia vender palmito, hoje nem vender palmito pode. E quando mamãe vinha, ela trazia essa tainha para fazer ao scabesh. Até hoje tenho vontade de comer e não consigo ver quem faça para mim.

COMÉRCIO
Nos açougues era o mesmo preço cada um, não existia essa concorrência, não existia. A parte da frente era só carne de vaca e a parte de trás da minha barraca era só carne de porco, mas geralmente quase que a turma não vendia carne de porco. Quer dizer, vendia toucinho. Era bonito aquele balcão grande, de mármore, uma largura mais ou menos assim, então punha aquelas metades do porco inteirinho em cima do balcão. E as pessoas chegavam e pediam: “Quero um quilo de toucinho”. Então pegava a faca e cortava e ficava aquela fatia grande de toucinho, bem larga, pesava. Não existia papel impermeável. Usava o papel, passava o toucinho no papel, para impermeabilizar um pouquinho. O mesmo para pôr a carne moída, antigamente. A pessoa pedia a carne moída, o que acontecia? Eles pegavam aquele papel, passava o toucinho para deixar um pouco..., não lisa, assim, para não quebrar o papel, para o papel não rasgar, para depois pôr a carne moída. Naquele tempo, só embrulhava em jornal. Jornal, jornal. Não existia o impermeável, o plástico, não existia mesmo, não tinha.

INFÂNCIA
Eu acho que eu tinha o quê? Uns cinco, seis anos. Eu lembro que o meu pai tinha essa torrefação, eu lembro que eu brincava em cima daqueles sacos de café, aquelas coisas. Pedia a ele [para] fazer escrita à noite. Fazer escrita à noite: eu ia ajudar a fazer escrita à noite. Eu pedia um dinheiro para ele, me dava duzentos réis, que chamava antigamente. Tinha um vagãozinho, era moeda de duzentos. Uma espécie de contabilidade; a gente falava “escrita”. Então eu falava para a minha mãe que eu queria fazer a escrita com meu pai. E eu sempre era o xodozinho do meu pai, assim, eu sei que eu era. Apesar de ele gostar de todos os irmãos, mas eu sempre... Ele tinha mais simpatia comigo. Não é que ele maltratou os outros irmãos. Até uma vez, eu lembro que dois irmãos meus apanharam dele de cinta, e eu fui ver o que tinha acontecido e entrei na cinta também.

COMÉRCIO
O resto no Mercado era verdura. Verdura e tinha essa banca do Friggi. Era muita gente comprando, fazia fila, essas pessoas de roça, principalmente de sábado e domingo, que era o maior movimento. Até hoje nós pagamos uma taxa de locação na prefeitura, até hoje a gente paga o aluguel. E antigamente, todas as mercadorias que você entrava para vender no Mercado, você pagava. Tinha um tiquezinho que você pagava uma quantia. Depois que eles aboliram isso, não existe mais. E só tinha um portão também para entrar com a mercadoria, não podia entrar no outro portão, sempre aquele mesmo portão que você tinha que entrar. No mercado, hoje, são pessoas novas. Ninguém quis, só esse rapaz que eu conheço, que tem um açougue de porco, só vende carne de porco, que era filho de um homem que já tinha açougue, lá do [meu] tempo. Mas ele começou a trabalhar agora, há pouco tempo. Eu não: eu entrei a trabalhar com meu pai, fizemos a barraca, meu pai construiu a barraca. Porque antigamente, nesse lugar que é feito nossa barraca, existia uma espécie de um coreto. Era uma parte de baixo, tinha um arco que as pessoas vendiam debaixo desse arco, e em cima ficava a administração, que ficava a pessoa que tomava conta, fazia, recebia aquelas coisas. E tinha um arco assim, e em frente da minha barraca existiam três árvores, árvores grandes mesmo, dentro do Mercado. E o papai teve que cortar essas árvores, até para fazer a barraca dele. Aí meu pai fez a barraca, o outro fez um barzinho atrás e outro fez o armazém. Mas existiu o armazém do Tomé - era um português, veio de Portugal, montou esse armazém - mas quando eu fui trabalhar lá, ele já tinha. O Xerxes era um outro comerciante também, que vendia essa mesma coisa que o Friggi vendia: arroz, feijão. Ao lado meu, onde está um bar grande hoje, era a Cooperativa de Cotia. Não sei se ainda existe. Antigamente tinha a Cooperativa de Cotia, era um japonês até que... Ele tinha ali na - onde é a Cooper Rhodia, a Cooper Rhodia em Santana - existia uma espécie de uma sede deles ali. Cooperativa de Cotia. Eu lembro mais ou menos, era de japonês. E ele tinha no Mercado uma grande área ali, que ele trazia essa mercadoria e vendia para os outros, no atacado, para revender, e ele também vendia ali, solto ali. Do lado meu era uma banca de verdura, era de uma espanhola, chamava dona Rafaela, trabalhava com os filhos dela. Fora do Mercado, eles tentaram uma vez fazer uma espécie de Ceasa. As pessoas iam a São Paulo buscar mercadorias e punham na calçada, como existe em Taubaté, hoje existe em Taubaté. Tem um mercadão ali à noite e funciona com essas verduras, que eles vendem fora do mercado. Então, tentaram, começaram até, o negócio foi longe até: eles iam a São Paulo, compravam um caminhão de mercadoria, punham do lado do Mercado, depois que o Mercado fechava. Aí que vinham as pessoas, compravam ali, uns levavam para dentro para vender no outro dia, outros já estavam abrindo quitanda aqui em São José, alguma pensão - existiam muitas pensões aqui - e o Mercado era freqüentado por muitas pessoas que vinham se tratar de tuberculose.

CIDADES
São José dos Campos Eu lembro bastante dessa época, quando abriu o Mercado que começou a vender artigo de feijoada, todas essas pensões de doentes, doentes de tuberculose... Eu não lembro quando eles vinham, porque meu pai contava para mim que era - e é verdade mesmo, isso meu pai contava -, era uma luta. Quando chegava o trem de São Paulo, parava na estação, era uma briga dos funcionários das pensões, dos sanatórios, para pegar aqueles doentes para levar para o sanatório. A turma catava no braço, assim, aqueles doentes que vinham. Tudo doente tuberculoso, geralmente já era bem fraco. Então, eles pegavam e faziam o quê? Punha na charrete. Alguns já tinham os carros, aí punha nos carros e levava. Tinha o sanatório Vicentina Aranha, que ainda existe até hoje, tinha o sanatório Ademar de Barros. Ali na rua Vilaça tinha mais ou menos umas cinco ou seis pensões de doentes. Em frente à caixa d’água existia uma pensão - a gente falava pensão, porque sanatório tinha esses grandes - só de doentes. Eu lembro que eu passava lá, ia levar artigo de feijoada lá, então, o que acontecia? Vendia bem. Ali onde é aquela escola, no comecinho da rua Paraibuna, do lado esquerdo, parece que tem uma escola ali, Nivaldo. Do lado esquerdo ali era o sanatório Esdras. As pessoas eram israelitas. Judeus que era donos de lá. A gente gostava porque vendia bastante artigo de feijoada. Então eles vinham lá buscar artigos de feijoada. Compravam bastante artigo de feijoada para dar para os doentes. Porque, antigamente, a única pessoa que vendia artigo de feijoada aqui em São José dos Campos éramos só nós. Eu lembro que eles compravam bastante; eu punha na bicicleta, no caixão, e levava lá para entregar. Eu levei muito artigo de feijoada, tanto nesse sanatório Esdras como no sanatório Ademar de Barros. Só não no Vicentina Aranha, que o Vicentina Aranha já era do governo, então já era abastecido por São Paulo, que trazia para cá. Mas essas pensões que existiam na rua Vilaça, essas pensões de doente, tinha muito mesmo, infelizmente tinha muitos doentes em São José dos Campos. Nossa Senhora Tinha gente de fora que tinha medo de vir em São José dos Campos, com medo de pegar essa doença, tuberculose, porque antigamente era duro de se curar. Eu lembro que o meu pai contava essa história do trem que chegava e parava ali, e era uma luta para as pessoas poderem vir ganhar e tirar aqueles doentes do trem. Diz que trazia no braço mesmo as pessoas; punha na charrete, nos carros para levar para as pensões. Claro, quanto mais doentes eles tinham na pensão era melhor para eles. E, graças a Deus, nunca fiquei doente. Dessa doença eu nunca fiquei. E eu tinha bastante contato, não contato com os doentes, mas eu tinha bastante fregueses que vinham comprar no Mercado. Aqueles fregueses bem doentes mesmo, de tuberculose. E até hoje ainda tem alguns daquela geração. Tem um amigo meu, que conserta geladeiras e foi doente, mas hoje está firme. Muitos e muitos morreram, claro, muitos e muitos morreram. Morria muita gente aqui em São José. Mas eles vinham muito no Mercado comprar, principalmente essas pessoas que moravam em São Paulo. Quer dizer, antigamente, ninguém vendia queijo mozarela. Antigamente existia o queijo mozarela, quando a gente começou trazer, chamado de cabacinha: era um queijo compridinho, ele tinha até um pescocinho, um compridinho. Então, se vendia demais aquilo. E a gente trazia, trazia na folha de bananeira e punha. Nossa Senhora, as pessoas de São Paulo, principalmente esses doentes que estavam internados nas pensões, eles chegavam a comprar horrores. A gente vendia muita mozarela. Depois começou a aparecer essa mozarela para cortar para fazer pizza. Mas, antigamente, ninguém quase aqui em São José fazia pizza, depois começou a aparecer essas mozarelas maiores, forma maior, que a turma começou já fatiar. E sempre eu tive cortador de frios, mas nunca cortava essas mozarelas grandes porque não existiam, era só essa cabacinha. Era muito gostoso. Já viu essa mozarela em nozinho? É a mesma coisa. Eu até vendo lá esse nozinho. Mas, antigamente, era compridinha e vinha numas folhas de banana, não sei se para conservar. Então, vendia muito. E esses doentes que vinham ficar internados aqui em São José dos Campos, claro, de São Paulo ou de alguma outra região, tinham mais posses, porque as firmas, as fábricas, mandavam eles se tratar aqui em São José. Então, quando eles estavam bons, que eles podiam sair da pensão, eles vinham no Mercado e gastavam bastante com a gente. Eu sempre tive contato com os doentes. Eram bem recebidos. Antigamente, principalmente no cafezinho, quando o meu pai tinha o Bar Quinze, era muito freqüentado pelos doentes, eu falo, pelos tuberculosos mesmo. O cafezinho você tomava só na xicrinha, não tinha esse negócio de tomar em copo grande. Então, existia uma xicrinha branquinha e sempre do lado tinha um aquecedor - hoje quase não se vê -, e tirava aquela xicrinha, com uma espécie de uma espátula, um negocinho cromado, pegava aquela xicrinha bem no quente, punha no pires, a pessoa punha açúcar, então ele servia o café. Mas justamente por causa dos doentes que tinha. Os doentes freqüentavam e não queriam ser repugnados pelos outros. Mas os copos, essas coisas, eram bem lavados. E alguma vez que os doentes vinham comprar qualquer coisa de mim, as pessoas achavam ruim, achavam mesmo. Mas os doentes tinham dinheiro, os doentes geralmente tinham dinheiro. Alguma vez era gente muito rica que ficava nesses sanatórios por aqui. Eu lembro que o meu irmão enchia um caixão de mercadoria e ia lá nessas pensões e vendia tudo, vendia, vendia bem mesmo. Depois que foi acabando, acabando, acabando. Acho que São José nem deve ter mais isso. Tinha o Vicentina Aranha, acabou, agora só tem em Campos de Jordão, que deve ter lá algum sanatório. Mas eu convivi bastante com os doentes.

TRANSPORTE
Com a Dutra, São José dos Campos mudou demais, mudou demais. Principalmente com o CTA. Eu lembro quando estava fazendo o CTA, quando o CTA começou a receber aqueles professores. Porque antigamente, os professores do CTA era tudo americano. Então, o que acontecia com os americanos? Eu lembro que o americano não chegava lá e pedia uma lata de qualquer coisa, ele pedia três, quatro, cinco latas de alguma coisa e levava para casa. Então era muito bom para você vender. Quando vinham os americanos do CTA, aqueles professores, quando vinham fazer compra na barraca era uma maravilha, todo mundo gostava porque vendia bastante. Eles não pechinchavam, pagava aquilo. Não sei se já ganhava em dólar nesse tempo, mas ganhavam bem. Era americano tudo contratado. Hoje os professores são brasileiros, só não digo algum cientista que existe no ITA, que são indianos. Mas, antigamente, todos professores do CTA eram americanos, mas todos. Eu conhecia todos eles; tanto eles quanto as mulheres deles. Então, era fascinante, era muito bom. E vendia bastante, nunca achava ruim de preço e se comprava bastante. Aí o que aconteceu? Aí o CTA já abriu o Rebocado, onde as pessoas começaram a comprar e já não vinham mais no Mercado. Rebocado é lá dentro do CTA. É a espécie de um supermercado. Então, todos esse americanos, as pessoas que já começaram a morar lá dentro do CTA, começaram a comprar lá. Aí já tinha os caixas ali, como é o supermercado hoje, a turma comprava lá, vinha e passava no caixa. Aí depois parece que as pessoas já tinham senha, já descontava todo mês. Já começou a piorar para a gente.

COMÉRCIO
Não tenho uma idéia precisa de quando vieram os supermercados. 1970? O prefeito Sobral foi um dos melhores prefeitos que nós tivemos, abriu muito para essas empresas se instalarem aqui em São José. Como esse terreno da Phillips - esse terreno, eu gosto de falar isso porque de fato é uma verdade - eu ajudei a doar esse terreno da Phillips. Porque na época do Sobral, e ele queria doar esse terreno para Phillips vir se instalar. Claro, uma fábrica instalar em São José dos Campos era uma maravilha, ia dar muito emprego. E ajudamos. Nessa época, eu era vereador e eu ajudei a doar, com o meu voto, para doar esse terreno para a Phillips.

POLÍTICA
Entrei na política porque meu pai era vereador, meu pai sempre gostou de política. Ele era amigo dos vereadores e uma vez se candidatou a vereador e conseguiu se eleger. Se elegeu três vezes, foi doze anos vereador. Aí no último ano ele não quis mais e me pôs. Eu trabalhava junto com ele, eu era mais chegado a ele: “Ah, vou botar você como vereador”. Claro, eu nem pensava um dia ficar em frente de uma câmera de televisão, mesmo de um microfone, eu tinha um pavor. Não que eu tinha pavor, eu achava que eu não tinha um gabarito assim de falar. Eu tive diploma de quarto ano, não tinha mais estudo, meu estudo eu sei que é pouco. Mas meu pai queria que eu fosse vereador, eu falei: “Se é para ser vereador, vamos tentar se candidatar”. E me elegi. Não me elegi na hora, assim, porque faltaram uns sete votos, mais ou menos, mas aí um dos vereadores saiu porque ele ia ser secretário do governo e deixou a vaga para mim. Eu assumi na vereança. Fui quatro anos vereador aqui, depois me candidatei, fui mais um ano suplente, já assumi um pouco também.

CIDADES
São José dos Campos Acho que foi em 1977, mais ou menos. Foi a época que São José começou a dar essa evolução de supermercado, a Dutra, o Satélite. O Satélite, eu lembro, meu irmão tinha uma chacrinha ali no Satélite, ali naquela baixada, ali no São Bento. Aquele Satélite ali era uma mata virgem, cheia daquelas árvores grandes. Eu conheço aquilo ali tudo, tudo, tudo. Não tinha uma casa, não tinha nada. E bem embaixo ali, tem uma baixada que sai no Satélite; e bem naquela baixada, meu irmão tinha uma chacrinha. E o resto lá para cima era uma mata virgem, o Satélite era uma mata virgem. Aí o que aconteceu? Começou a derrubar as árvores, lotear aquilo ali, e foi: hoje o Satélite tem mais movimento do que o centro da cidade. Aquela avenida Andrômeda ali parece que tem, ontem o rapaz ainda falou, parece que tem dez bancos no Satélite. E quem que vem do Satélite para comprar alguma coisa ali? Hoje todo mundo abre quitanda, abre um mercadinho.

COMÉRCIO
Então, a gente vive de recordações, um pouco dos amigos. Vou fazer um pouco de propaganda agora do meu queijo: eu vendo muito é um queijo Minas meia cura, eu faço bastante propaganda dele; é um queijo que eu procuro sempre manter a linha do queijo bom, porque a freguesia gosta, e tem gente de longe que vem até comprar esse queijo meu que é muito bom. Vem de Araxá. Vem de caminhão para São Paulo, descarrega, e eu levanto segunda-feira, às três e meia da manhã, pego meu carro - porque com o carro dá para eu trazer - pego a Dutra, chego lá dez para as cinco, eu chego nesse depósito de queijo em São Paulo, ali perto, na Cantareira, rua São Caetano, rua das noivas. Aí, carrego os queijos e venho, trago e vendo. Graças a Deus é o que eu estou mais sobrevivendo, é a venda desse queijo meia cura que eu vendo. Vendo, desde quando comecei a vender no Mercado, sempre vendi desse queijo. Quer dizer, claro que agora as outras mercadorias, que nem artigo de feijoada, eu vendia para pensão, para esses doentes, vendia, vendia bastante, vendia bastante mesmo esses artigos de feijoada. Pé de porco, orelha de porco, rabo de porco, costela, paio, lingüiça, comprava bastante e vendia-se bastante. Mas hoje não vende mais nada, hoje você vai num Carrefour. Você olha lá tem certos artigos de feijoada, até bonito, aquela quantidade. Já vai comprar alguma coisa no Carrefour já pega e já compra um pezinho de porco, uma orelha para fazer uma feijoada... Então pouca gente vai na minha barraca. Mas esse queijo, graças a Deus, esses grandes supermercados não têm e eu tenho.

CASAMENTO
Casei com dezenove anos. Com dezenove anos já nasceu minha filha. Eu acabei de fazer o tiro-de-guerra. Namorava em Santana, arrumei minha namorada em Santana, mas antigamente era muito difícil você arrumar uma namorada. Não existia tanta mulher como existe hoje. Antigamente, era muito difícil arrumar uma namorada. Arrumei uma namorada em Santana, eu namorei o quê, uns quatro anos com ela, mais ou menos, depois eu achei uma outra, da cidade, perto da minha casa, desisti dessa. Namorei uma semana, ela me deu um fora e eu voltei correndo para Santana com essa que eu me casei. Me casei com dezenove. Fiz o tiro-de-guerra e casei. Acabei o tiro-de-guerra em 1956, parece, eu já me casei em janeiro, em outubro nasceu minha primeira filha.

JUVENTUDE
Fiz o tiro-de-guerra. Era ali perto, na conhecida rua Paraibuna. Ali era a sede do tiro-de-guerra 45. Em Taubaté não tinha; em Jacareí, não me lembro, parece que tinha; em Caçapava tinha o Exército - que muitas pessoas gostavam de servir o Exército, não gostavam de servir o tiro-de-guerra. Mas como eu trabalhava e não queria servir o Exército, fiz o tiro-de-guerra. Todo mundo que trabalhava fazia o tiro-de-guerra, e muitos, por exemplo, que não trabalhavam ou queria seguir uma carreira ou ficar engajado no Exército, iam para Caçapava, que até hoje tem o Exército lá.

CASAMENTO
Então, eu acabei de fazer o tiro-de-guerra e já me casei. Papai já fez uma casa para mim, em outubro já nasceu uma filha, que trabalha até na prefeitura. Trabalha no memorial da Helena Calil. Tem uma filha lá que toma conta, é minha filha, já tem 46 anos. A minha ex-esposa trabalhava na Rhodosa. Rhodosa era uma fábrica que tinha em Santana, até hoje tem, a Rhodia. Então, ela sempre trabalhou. E eu, uns dias antes de casar, mandei ela pedir a conta, que dava para mim; ela pediu a conta, saiu, me casei, e aí ela não trabalhou mais.

LAZER
Nunca tive auxiliares. Sempre eu e meu pai, só. Só, só eu e meu pai, só. Nunca me ausentei do Mercado, a não ser tempos atrás aí, que o Mercado estava bom, deu para eu ganhar um bom dinheiro, eu fui para a Europa passear, fiquei uns 23 dias. Foi a única vez que eu fiquei longe do Mercado. Ficou um amigo meu. Meu pai já tinha falecido e tinha um amigo meu que eu confiava muito nele, e falei: “Olha Nelson, você fica aí e faça o que você quiser”. Peguei a minha esposa e fomos. A nova esposa, porque eu separei da primeira e moro com uma outra. Tenho um filho com ela até. Aí fui para Europa e fiquei 23 dias passeando na Europa. Conheci bastante, deu para conhecer bastante.

FAMÍLIA
Mesmo quando meu pai passou a banca para mim, ele trabalhou. Ele fazia tudo, tudo, tudo para mim. É curioso, mas eu vou falar. Ele chegava alguns dias, ele pegava uma lata de goiabada [da barraca] - que antigamente tinha muita goiabada Cica, goiabada Peixe, vinha muita goiabada - então, ele pegava e perguntava para mim: “Quanto é que é?”. Eu falei: “Pai, pelo amor de Deus, eu vou cobrar uma...?”. Ele ia fazer compra para mim em São Paulo, ele trabalhava a semana inteira e eu não dava um tostão para ele. Ele já estava aposentado, recebia uma mixaria, tinha alguns aluguéis de casa, de algumas casas que ele fez lá, dava um aluguel de casa. E ele sempre foi mais seguro assim. Então, ele queria pagar a lata de goiabada. E falei: “Pai, não é possível cobrar uma lata de goiabada do senhor”. Eu lembro que ele falava: “Então não levo”. Eu falei: “Então, tá bom, então o senhor paga o custo”. Então, ele pagava o custo: “Quanto é?”. “Tanto.” Se era um e trinta, fazia um real, ele pagava e levava a lata de goiabada para casa. E sempre me ajudou, até os últimos dias da vida dele. Deve ter feito uns 23 anos que ele faleceu. A minha mãe, infelizmente, faleceu e eu não estava no Brasil, estava na Chile passeando.

VALE DO PARAÍBA
Pelo Vale eu não passeava, não. Ia muito em Jacareí. Jacareí é a terra que tinha mais mulheres do que aqui São José dos Campos. Porque antigamente existia muita pensão aqui em São José, dos doentes de tuberculose. Então, não existiam essas mulheres da vida. Prostituta aqui em São José era muito difícil, não existia mesmo aqui em São José. Por causa disso parece que não deixava. Em Jacareí já tinha, porque Jacareí - não sei se o clima não era bom para ter pensão e sanatório lá -, então Jacareí não tinha doente. Então, lá existia a casas das mulheres que a gente ia. E, muitas vezes, a gente ia até de bicicleta lá. Geralmente, a gente ia, como era moleque novo, a gente ia lá. E de vez em quando a gente ia até de carro. Antigamente, tinha aqueles carros da praça, mas aqueles carros velhos, importados, não tinha carro novo. Então, a gente sempre fazia uma lotação. Então, já tinha aqueles homens que conheciam tudo em Jacareí, os lugares lá. Então, a gente pegava quatro, cinco, e ficava em tanto, dava tanto para cada um. Então, ele chegava em Jacareí, levava a gente, e cada um ia para os lugares lá. Então, Jacareí, até é chato falar, mas é a terra dos “três bês”: era bicicleta, biscoito e o outro que... Mas eu passeei bastante. No Nordeste, eu ia todo ano com a minha esposa passear. Um lugar muito bonito que eu fui é Cancun. Lindo, muito lindo. Pelo Vale eu conheci todas as cidades. Aparecida, claro, é um lugar que eu gosto de ir; assistir missa em Aparecida, sempre eu vou. Taubaté, Pinda, Jacareí - a gente ia lá por causa disso. Hoje eu vou em Jacareí, mas vou dançar. A mulher deixa eu dançar, então vou muito em Jacareí dançar. Jacareí, Taubaté. Não gosto de dançar aqui porque aqui tem muito fofoqueiro demais.

FAMÍLIA
Infelizmente, não adquiri, assim, meu pé-de-meia. O que meu pai deixou para mim foi uma casa muito boa, onde ele tinha uma casa muito boa, das melhores até, ele deu para mim. O que eu fiz? Separei da minha mulher, dei a casa para minha mulher e isso pode ser até que fique para os filhos. São quatro filhos. Moram dois no Rio, graças a Deus, estão muito bem. Um é professor na faculdade no Rio. Até esses dias o dono nomeou ele como diretor na faculdade do Rio. Solteiro, muito bom. A outra ensina flauta lá, essa flauta doce. Apareceu também no Jô Soares, há uns tempos atrás. Então está muito bem. Vai passar o Natal esse ano na Áustria. Pagaram a passagem. Uma outra filha que eu tenho aqui, que é cantora das noites. Então, pagaram até passagem para ela. Então, vão os três passar o Natal em Paris e vão passar lá em Viena. Conheço Viena muito bem, fiquei doze dias em Viena, muito bonita. Então, eu passeei enquanto pude passear. Comprar, não comprei nada. O que eu comprei? Comprei uma chácara para mim. Estou desesperado para vender, quero vender porque me dá prejuízo, não dá lucro, e a situação está muito ruim. Minha mulher é aposentada da prefeitura. Ganha bem, mas já viu mulher: mulher gasta demais.

AVALIAÇÃO
Trajetória de vida Eu vivo como vive um trabalhador. Eu acho que hoje, claro, eu adoro ficar atrás do balcão, eu amo meu serviço, não vendo minha barraca por preço nenhum. Quero morrer, e se puder até enterrar lá dentro, pode enterrar. Eu amo meu serviço, mas eu trabalho... e vendo só para se manter, não se ganha mais dinheiro. Uma que no Mercado não tinha jeito de você desenvolver, de botar um supermercado dentro da minha barraca, ali não ia ter jeito. Então, fiquei naquilo ali mesmo. Não sei se acomodei. Os filhos, claro, tudo estudaram, uns, graças a Deus, estão bem, estão tocando sua vida. O dinheiro que eu peguei, que sobrou para mim, eu passeei. Fui na Europa três vezes passear, conheço bem a Europa. E adoro andar de avião, gosto demais de andar de avião. E todo ano ia passear com a minha esposa: Porto Seguro, fui umas duas, três vezes; Rio Grande do Norte; Bahia; Maceió. Todo ano eu ia passear, no mínimo uma semana eu ficava. Quer dizer, tinha dinheiro, hoje já não posso fazer isso. Não viajo mais. Não viajo. De vez em quando quero ir no Rio ver a filha e o filho lá: não. Uma que não dá, é que o meu secretário, que trabalha junto comigo, coitado, já é uma pessoa mais idosa do que eu, e não tem desenvoltura de trabalhar sozinho. Então não posso ficar ausente do meu serviço. A época mais feliz quando eu fui dono, aí você [se] torna o dono. Então todo aquele dinheiro que entra ali você pode pôr no bolso, pode gastar. Quando era do meu pai, seu pegasse um real... Eu lembro que se eu pegasse cinco reais de fim de semana - de sexta-feira, eu vinha fazer compra para a mulher, de verdura, “Vai pegar cinco reais” -, mas eu pegava e já marcava, tinha um lugar que eu marcava e no fim do mês descontava e me dava aquele resto de dinheiro. É claro, um ordenado bom que me dava, que dava para eu sustentar a minha casa, mulher e os quatro filhos que estavam estudando. Apesar de que os estudos antigamente não eram tão caros como são hoje; então deu para estudar. Claro, os filhos, depois de certa idade, depois que eu separei, cada um se virou. Foram três morar na Áustria. Todos eles, eu comprei uma passagem de avião e foram para lá. Mas eu só comprava passagem de ida. Se viraram, todos eles aprenderam a falar alemão corretamente, falam muito bem. E esse filho, principalmente, que voltou, que fez doutorado, está muito bem no Rio, é diretor de uma faculdade no Rio. Carro: todo ano ele troca de carro. Porque os meus filhos, duas filhas minhas gostavam muito de música, então a primeira que foi lá sempre gostou de música, e a Áustria é o país da música, então ela foi lá - eu morava com a mulher - e começou a aprender. Eu mesmo fui na Áustria lá, ver umas óperas, umas coisas de música, era muito bonito mesmo. Quando eu morava em casa, tinha muita música, as meninas sempre gostavam, principalmente essa uma que é professora de flauta, que foi no Jô Soares - um dia ela foi no Jô Soares fazer apresentação dela. Mas ela começou tocar flauta e já gostava. Tem uma pequenininha, a mais nova, a caçula, até vai com eles, ganhou a passagem, os irmãos vão para a Áustria também. Essa canta, e modéstia à parte, canta muito bem. Fiz uma casinha para ela na Ilhabela, ela tem uma casinha lá. De vez em quando, ela fica lá e à noite canta naqueles bares e restaurantes. De vez em quando, canta por aqui também. Modéstia à parte, canta até bem, até. Eu não sei, de mim não foi que ela puxou, mas à mãe. Não sei, porque a mãe, eu lembro que a mãe nunca tocou para mim, mas diz que quando ela era pequena ela tocava cavaquinho, sabe? Mas graças a Deus meus filhos foram bem inteligentes.

AVALIAÇÃO
Comércio Olha, eu não sei porque eu adoro tanto o comércio, gosto tanto de ficar atrás de um balcão. Eu não acho ruim de não ter ficado rico, não fiquei rico, tanto que hoje está muito difícil, está muito difícil mesmo. Tanto que eu comprei uma chácara com uma piscina, muito boa, espetacular a minha chácara, mas estou desesperado para vender, porque ali dá um gasto por mês e esse gasto está me fazendo falta. E eu não gosto de fazer uma coisa sem a pessoa usufruir da coisa. Por exemplo: tem uma piscina na minha chácara lá, que é bem cuidada, é linda a minha piscina, mas não vai ninguém tomar banho lá. Então, eu acho ruim, eu queria que a minha mulher fosse lá, que não fizesse conta que os meus filhos fossem lá tomar banho. Minha mulher não gosta que os outros filhos, da outra, vão tomar banho lá. Não gosta, e eu fico chateado, porque os filhos meus são a minha adoração. Então, nesses cinqüenta anos de comércio adorei, apesar de ser um comerciante simples, não digo pobre, simples, mas adorei e adoro até hoje. Tanto que, a não ser o seu José Elhage lá da loja, acho que sou um dos comerciantes mais antigos de São José dos Campos, em atividade. E quero trabalhar muito mais ainda. Mas só trabalhar para me manter, porque aquele dinheiro que você ganhava não se ganha mais, como ganhava no tempo do meu pai, que era muito movimento, principalmente essas pensões que vinham, compravam, que aumentavam a venda da gente. Hoje, hoje não. Hoje só vende aquele queijinho que eu vendo lá e só isso.

AVALIAÇÃO
Entrevista Ah, fico alegre, tanto que para vocês eu estou contando com a maior alegria, porque para mim é uma satisfação, que nunca houve essa possibilidade de eu contar isso para alguém. Está sendo gravado em vídeo, para mim é uma satisfação imensa mesmo. Vocês não sabem a alegria que eu estou tendo de falar isso para vocês. Só pena que eu não sou muito bom de português e posso até ter dado alguma rateada, falado alguma coisa que não devia ter falado. Vocês insistiram, eu falei, né?

AVALIAÇÃO
Comércio Sinto aqueles amigos da gente, aqueles antigos... Claro, quando eu comecei trabalhar todos já eram senhores e hoje já quase que foram todos, quase todos morreram. Então não é mais daquela idade da gente, não são daqueles colegas da gente, aqueles companheiros. Claro, a gente adquire com os novos, mas acho que não é a mesma coisa. A gente fica relembrando. Tem os colegas que não trabalham no Mercado, mas sempre estão lá batendo papo, contando como é que foi, como é que é, como que não é. Isso é muito bom. Mas eu adoro o meu serviço, gosto. Se pudesse ficar mais cinqüenta anos lá, eu ficaria mais cinqüenta anos lá.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+