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História

Lidando com a rotina

História de: Natalia Theil
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2016

Sinopse

Natalia Theil viveu sua infância no bairro Vila Romana, em São Paulo, e conta como foi criar e manter uma rotina de tratamento e controle do diabetes, bem como o surgimento das dificuldades durante sua adolescência e vida adulta. Com uma vida agitada e sem horários fixos, Natalia descreve como é viver e gerenciar o diabetes em meio à correria do seu dia a dia.

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História completa

“Oi, eu sou a Natalia, tenho uma irmã gêmea e sou diabética”, eu utilizava muito essa frase na minha infância e na escola como um álibi para conseguir novos amigos.

Meu nome é Natalia Teil, eu nasci em São Paulo, no dia 29 de agosto de 1987. Minha mãe é mãe solteira e bem nova, ela engravidou novinha quando morava com os pais. Trabalhadora, maravilhosa, difícil, ela é bem difícil, mas é mãe né? Toda mãe tem aquele lado mais sério. Ela é bem ativa, adora sair, adora me ligar todo dia, gosta que eu vá visitar e gosta de vim na minha casa porque eu moro na Frei Caneca e ela gosta de uns barzinhos que tem na minha rua.

Eu tenho uma irmã gêmea que chama Priscila e teve uma época, na infância que a minha mãe vestia eu e minha irmã iguais e não tinha problema, mas depois que cresce, aí vai falando: “Não, mas a gente já é igual, você já tem o mesmo tênis, já tem as mesmas coisas” e começa a questionar o porque a gente teve sempre muitas coisas parecidas. Teve uma época que a gente andava tudo junto, dividia a roupa e teve a hora que começou a se separar, porque nós duas quisermos. A gente fazia tudo junto e aí, quando você vai crescendo, você fala: “Não quero mais, chega. Eu já vejo você todo dia, já durmo com você, praticamente”, porque a gente tinha um beliche, então a gente fazia muita coisa junta. Aí quando mudamos para a escola pública, lá pela quinta série, pedimos para ficar em salas separadas e a gente foi se separando, cada uma seguiu o caminho de uma personalidade. Eu brincava de Barbie com ela, mas eu também tive a época do Power Ranger, que ela não teve, ela não gostava do Power Ranger, então já foi daí que começou a se separar. Eu queria ficar jogando bola e ela não queria ficar jogando bola comigo. Quando começou a criar mais a personalidade, eu comecei a ter os meus brinquedos que eram totalmente diferentes. E depois, começou a acrescentar umas coisas novas como o clube. Íamos juntas para o clube, mas ela fazia vôlei e eu fazia futebol e handebol. Então, a gente começou a se separar com o tempo, mesmo.

Eu morei a maior parte da vida, até os 24 anos na casa onde a minha vó morava. Na época morava a minha vó, meu vô, eu, minha irmã e minha mãe. Ela fica na Rua Caio Gracco, é Vila Romana, entre a Lapa e a Pompeia. E tinha o meu tio também, ele morreu quando eu tinha uns quatro anos, então, eu não lembro de muita coisa dele, mas eu lembro dele buscar a gente na escolinha de moto, uma lembrança gostosa. Depois disso, meu avô morreu quando eu tinha uns sete anos, então não lembro também muita coisa, ele lembro que ele era bem sério, falavam que ele era um típico alemão. A minha vó sempre foi mais presente. Ela era dura também, mas ela bajulava, coisa de vó. Meus avós eram muito ativos, a maior parte do tempo eu e minha irmã ficávamos com eles, porque a minha mãe trabalhava.

Antes da primeira série e depois da creche a gente estudou num parquinho que tem na esquina da casa da minha mãe e da minha vó, onde eu morava. Ficamos lá até a idade para ir para a primeira série. Falavamos que era um parquinho, porque a maior parte dele era um parque mesmo. Depois disso, fomos para uma escola particular, minha mãe conseguiu uma bolsa nessa escola e era uma escola pequenininha, ficava bem na Pompeia, o nome era Externado 15 de Outubro e ficamos 04 anos lá, da primeira até a quarta série. Depois teve um período que minha mãe não pode mais pagar a escola e eu e minha irmã fomos para a escola pública que ficava na Rua Faustolo com a Tibério. E no começo foi bem diferente, porque saímos de uma escola pequena para a escola pública que tinham muitas salas, era outro mundo. Era uma escola muito legal e quando eu estava no meio da quinta série, quase pra sexta foi quando eu descobri a diabetes. Eu comecei a ter muitas câimbras, não conseguia voltar da escola mais, mas eu não fazia ideia do que era, minha vó era diabética já, e o meu vô também era, só que o meu vô já tinha morrido. Eu ajudava já a minha vó, já sabia de algumas coisas, ajudava ela a pegar insulina, às vezes, aplicava insulina nela, enfim, fazia ponta de dedo nela, só que na hora que começa a acontecer, você não assimila, porque começou do nada, eu estava bem em um dia e no outro, eu comecei a acordar três vezes de noite para ir ao banheiro, comecei a ter câimbras, e em um período de uma semana, emagreci dez quilos. Nesse mesmo período, eu tive um problema de vermes com uma lombriga, então a gente ficou preocupada com isso, em nenhum momento chegamos a pensar que era diabetes, mesmo com o contexto todo da minha vó e do meu vô. Fomos ao médico fazer exames e ele pediu de sangue e de fezes. No exame de fezes não deu nada, só que no exame de sangue deu uma alteração. Fui encaminhada para um endócrino e no dia da consulta fizemos uma ponta de dedo e deu 495. E eu já saí do consultório com uma receita pra comprar insulina. Como eu já ajudava a minha avó, no contexto geral, quando você é nova, você fala: “Ah tá bom, vou fazer só o que a minha vó faz, que é tomar insulina”. Você não entende que tem uma questão séria por trás, você só acha que é legal.

Só que nessa época, era super atrativo, eu utilizava como álibi para conseguir novos amigos. Eu chegava à escola, tirava meus medicamentos e aparelho e as pessoas já faziam assim: “Nossa, o quê que você vai fazer?”, aí furava o dedo, falava: “Agora vou tomar insulina, aí tomava insulina e todo mundo queria ser meu amigo. Antes eu tinha a desculpa: “Oi, eu sou a Natalia, tenho uma irmã gêmea”, aí todo mundo já faz: “Nossa, que legal que você tem uma irmã gêmea”, aí passou a ser: “Oi, eu sou a Natalia, tenho uma irmã gêmea e sou diabética”, aí: “Nossa, mas como que você faz? Você tem que tomar isso?”. Era muito engraçado.

Depois de um tempo eu conheci a ADJ e ficou mais fácil quando eu fui até lá, porque eu encontrei um monte de gente tão nova quanto eu, da mesma idade ou mais velha, que tinha acabado de descobrir ou já sabiam, mas que estavam na mesma situação que eu. Eu comecei a frequentar, tem acompanhamento de uma médica ou enfermeiro para dar orientação de como ensinar o melhor lugar para aplicar a insulina, como é que você vai furar o dedo, coisas básicas. Eles te recebem para te explicar que o seu mundo não tá perdido, você vai continuar, mas só que vai ser um pouquinho diferente. E me falaram que eles faziam um acampamento só para criança diabética, de nove a 16 anos. Você ia, ficava sete dias num acampamento super conhecido, chamado Nosso Recanto, com acompanhamento de médico, psicólogo se precisar, enfermeiro, monitores, professor de Educação Física, dentista e tudo. E aí, eles vão te mostrar como o seu dia a dia pode ser, mostrando que você pode ter um dia normal com a diabetes, comendo normal, fazendo controle normal e o acampamento funciona mais como educacional mesmo. Informações que você não faz ideia e que fazem toda a diferença. E eu fui, paguei um valor simbólico que era a ajuda de custo pra tudo, porque você vai fazer exame, você não leva a sua insulina, tem a insulina lá, comida e outros fatores. Nesse primeiro ano que eu fui, eu não fiz muitos amigos, eu conversei com todo mundo, mas eu não fiquei com alguém marcado, sabe? Eu participava dos grupos na Associação, de sábado, fiz vários amigos, virei monitora do acampamento, eu fui dois, três anos como monitora, aí foi quando eu comecei a fazer ativamente o trabalho de voluntária, passava o dia inteiro lá na Associação. A Associação era perto do palmeiras, que era onde eu frequentava também, então eu ia na Associação, ficava um pouco lá, depois, ia para o Palmeiras e depois para casa.

Sobre a escolha da minha faculdade, teve uma época na escola que eu gostava muito de desenhar. Eu tive uma fase no terceiro colegial que eu cheguei a ter um pouco de complicação na reta final do terceiro ano do colegial, de pegar nota vermelha e nessa época, minha irmã já fazia cursinho, porque a minha irmã queria Medicina e a minha mãe não conseguia pagar o meu cursinho e o cursinho dela. Então eu falei pra minha mãe: “Paga o da Priscila e quando eu terminar o colégio, no ano seguinte do colégio, eu fico só com o cursinho, ela já vai ter feito um ano de cursinho”. Foi então que eu arranjei um emprego de telemarketing e comecei a conhecer as faculdades, não fazia ideia do que eu ia prestar. E naquelas revistas que tem as profissões eu achei um curso de Desenho Industrial e lembrei de uma visita na escola que eu fiz na FAAP, uma exposição na FAAP e no andar de baixo da FAAP, era onde ficavam as salas de desenho industrial. Eu lembrei desse dia e comecei a pesquisar, só que descobri que o curso da FAAP era muito caro e que a chance de bolsa era muito pequena. Por isso, comecei a pesquisar onde eu poderia fazer o tal do Desenho Industrial e encontrei o curso do Mackenzie, que eu sabia que era caro também, mas que tinha mais chance de bolsa. E enquanto eu trabalhava no telemarketing, comecei a fazer cursinho e pagar o meu cursinho por causa do telemarketing. Com quatro meses de cursinho, veio a segunda chamada no vestibular do Mackenzie, porque eles têm um vestibular no começo do ano e no meio do ano e eu me inscrevi no vestibular. Saiu os resultados, na primeira chamada, não tinha o meu nome, aí um dia, eu cheguei lá no etapa e falei: “Moço, pode ver onde tá o meu nome?” ”Parabéns, você passou”, eu: “Hã?” “Você passou na segunda chamada. Aí, liguei em casa, falei: “Oi gente, parece que eu passei no vestibular”. Aí foi quando eu comecei. Fiquei quatro anos e meio lá e hoje trabalho com isso e gosto muito.

Hoje meus sonhos são de viajar, estudar inglês, porque eu não tive a oportunidade de estudar até então, casar, ter um cachorro e seguir a vida. 

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