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História

Língua presa, língua solta?

História de: Kátia Aparecida Pereira Moraes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/09/2015

Sinopse

Kátia nos conta a respeito das origens de sua família e sua infância no Planalto Paulista e no bairro da Saúde. Fala da relação com seus pais e irmão e as mudanças ocorridas no bairro ao longo do tempo. Em um outro momento, sabemos mais sobre suas brincadeiras de criança e de como foi sua experiência escolar. Kátia nos fala de sua primeira experiência com o basquete e a sua passagem da infância para a juventude, com todas as responsabilidades que vem com a escolha do vestibular. A partir daí vemos a história de sua entrada na Escola de Educação Física e Esporte, sua experiência no esporte universitário e a entrada no Projeto Esporte Talento. Kátia também nos conta várias histórias comoventes do cotidiano do PET, a respeito do trato com os alunos e os casos mais emblemáticos para ela. Ouvimos muito sobre as mudanças do PET para o PRODHE (Programa de Desenvolvimento Humano pelo Esporte). Por fim, Kátia nos fala sobre a banca de jornal de seu pai, seu casamento com Eduardo e como foi ser mãe após o nascimento de Lorena.

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História completa

Meu nome é Katia Aparecida Pereira Moraes, nasci em São Paulo, em março de 73. O nome do meu pai é Pedro Pereira Moraes, ele nasceu na Bahia, o município ao certo eu não sei, acho que nem ele sabe muito bem. Era uma época em que essas coisas eram meio confusas. Ele nasceu em janeiro de... em 1929. Minha mãe nasceu em 39, no interior de São Paulo, numa cidade chamada Padre Nóbrega, ela se chama Niedine Sica Moraes. Eu tenho três irmãos. Então tem o Pedro, que é o mais velho, depois veio eu, aí tem a Márcia, dois anos mais nova e o Edgar, que foi a raspo do tacho que minha mãe fala, que já é sete anos mais novo que eu, ele é o mais novo. Crescemos no Planalto Paulista e na Saúde. Era uma casa barulhenta, com bastante bagunça, brincadeira o tempo todo. A gente sempre brincou muito dentro de casa, né, na época de menorzinho mesmo, de fazer bagunça, de brigar por brinquedo, de inventar brincadeira, né. Acho que eu muito a do faz-de-conta, que brincava com bonequinha, fazia roupinha e pintava a boneca, fazia bagunça. E muito ligada com a minha irmã nesse tipo de brincadeira, né. A brincadeira com meu irmão já era uma coisa mais power, né, aquela coisa de lutinha, né, de correr um atrás do outro. E aí ele foi ficando maior e foi indo mais pra rua, aquela coisa de brincar com os moleques da rua; e eu e a minha irmã a gente já ficava mais em casa mesmo, brincadeirinha de boneca, debaixo do olho da mãe, que a mãe segurava mais. Menino já era mais difícil, aí já ia pra rua com os moleques da rua, os vizinhos. Era um bairro muito tranquilo, que a gente podia sentar na calçada, brincar de amarelinha, podia andar de bicicleta, passear com o cachorro, muito tranquilo. Eu estudava em colégio que era na rua, então conhecia a maior parte das pessoas que moravam ali perto. Aí a coisa vai se transformando, né, com o tempo. Ah, conheci o basquete logo depois né, foi na escola, nessa pequenininha do bairro, porque a culpa também é da escola, né, por eu gostar. Era uma escola que tinha pouco material, era uma escola com uma quadra pequena, pouco material e um professor que, pelo jeito, ele só sabia ensinar basquete. Na escola só tinha bola de basquete, então toda aula era basquete, não tinha jeito. Então, três vezes por semana, na educação física, era basquete. Então, assim, não tinha como, né, não gostar. Ou tinha e aí faltava, mas eu ia sempre porque eu gostava, conseguia jogar legal. Era uma educação física que era separada ainda, meninos num dia e meninas no outro, então era... se você gostasse era fácil você se destacar. Aí você tinha um status: “Ah, todo mundo quer jogar comigo. Ah, que legal.” Então era gostoso. Aí, quando foi pra escola maior, aí já tinha outras práticas, o basquete era só uma delas. Só que aí você vai aprendendo também, quando tem o basquete: “Opa, aqui eu sei. Aqui eu jogo bem.” Então, também tinha a possibilidade de ter o mesmo destaque. Aí, quando tinha os campeonatos, né, era uma escola que já fazia aquelas olimpíadas internas, aí: “Opa, quem quer fazer parte da equipe?” Eu sempre queria. Sempre queria, chamava as amigas, convencia. Tranquilo pra mim. Puts, o período do vestibular foi meio assim: “Ah, todo mundo está fazendo, vou fazer também, né.” Não tinha grandes ambições porque eu achava que eu ia... “Ah, vai rolar um cursinho, pra todo mundo rola.” E eu gostava da Educação Física, já tinha essa vontade e falei: “Ah, vou prestar.” E aí foi... meu pai e minha mãe assim: “Putz, Educação Física, Katia? Tanta coisa boa pra você fazer, né. Sempre tive um sonho de ter uma filha doutora, poxa, você faz Educação Física? Ah, mas faz, né, você não vai passar mesmo, né?” Aí fui lá fazer. Fiz a inscrição, fiz só pra Fuvest: “Bom, vamos lá, vamos fazer. Minhas amigas estão indo, vamo todo mundo junta.” Aquela festa. Ai passei na primeira fase: “Ah, tudo bem, na segunda ninguém passa mesmo, né? Difícil.” E aí eu passei. Quem me deu a notícia foi uma colega da escola: “Ai, Katia, eu vi seu nome no jornal! Vai lá, vai lá.” E eu, como eu achava que eu não ia passar, nem tinha ido ver, né. Meu pai jornaleiro e eu nem tinha pedido pro meu pai olhar, né, aquela coisa bizarra. Aí liga pro meu pai: “Pai, você tem o jornal?” “Não, já acabou, já era. Meio-dia todo mundo já comprou o jornal.” E eu desesperada: “Onde é que eu vejo isso, onde é que eu vejo?” Não era a época de internet, né. Eu lembro que eu tive que pegar o ônibus e fui até o Objetivo da Paulista, que tinha a lista lá. Aí eu vi e meio que demorou uma semana pra cair a ficha, né, de entender o que era. E aí foi interessante quando eu falei pros meus pais, né: “Ô, passei, passei.” Eles ficaram contentes, né: “Ah, que bom, né. Ano que vem você faz de novo, né, Katia? Aí você tenta de novo, né?” (risos) “Como assim, né?” E aí era legal que o meu pai falava: “Minha filha passou na USP.”, com a boca cheia. “Em Educação Física.”, falava baixinho (risos) E durou um tempo isso ainda, eu comecei a cursar e eles ainda nessa expectativa. Durante um ano: “Ah, ano que vem, final do ano você vai prestar de novo, né?” E eu: “Não, eu gostei, é isso que eu quero.” Então demorou um tempo, foi um negócio engraçado em casa. E muita gente na família também: “Mas com o que você vai trabalhar?” “Como você vai ganhar dinheiro com isso?” Aquela coisa: “Ah, mais uma professora no mundo.” A minha mãe, depois de um tempo ainda, ela falava: “Ah, mas quando você acabar essa você vai fazer outra, né?” Então tinha essa expectativa, né. Acho que melhorou um pouco essa cobrança quando a minha irmã entrou na faculdade, porque aí a minha irmã foi fazer odonto, então aí ia ter uma doutora na família, entendeu? Ah, entrei na equipe da faculdade desde o primeiro ano, que eu acho que é... “Ah, quem joga isso? Quem joga aquilo?” Aí você já fala o que você gosta, já vai na primeira experiência, lá no primeiro treino, começa a jogar, e aí: “Ó, dá pra fazer parte. Vamos lá, vamos jogar.” E aí fui até o quarto ano jogando e sempre participando das competições que tinham aqui, que tinham fora. Às vezes tinham os encontros, né, de... entre as faculdades de educação física, aí você ia viajar, aí tinham os torneios, mas nada muito: “Uau!”, né. Era o esporte universitário mesmo. A Educação Física tinha a tradição, né, então sempre beliscava o primeiro, segundo, terceiro lugar nos campeonatos, a gente sempre estava beliscando alguma coisinha, sempre ganhando alguma coisa. Eu tinha feito já, durante bastante tempo, uma monitoria lá na faculdade de Educação Física, de asmáticos, atividade física pra asmáticos. Fiquei lá acho que um ano e meio trabalhando. O Maykell acho que trabalhava comigo, né, ele fazia estágio junto comigo. E quem era o coordenador desse programa era o professor Luzimar, que depois virou diretor aqui do CEPEUSP, que foi bem na época em que o instituto firmou a parceria. E aí, né, o Maykell foi chamado pra... o Maykell tinha experiência com o futebol e aí sempre tinha aquele movimento: “Ah, quem vocês conhecem, quem vocês indicam?” Aí ele me indicou pra fazer a entrevista e aí eu vim, fiz a entrevista, fui aprovada e comecei a trabalhar. Uma amiga minha também, que era da faculdade, que gostava muito do basquete também veio e começou a trabalhar também, junto comigo. A Paula também era da... jogava basquete com a gente, tinha uma outra amiga também, a Marisa, que era da equipe de basquete. Porque quando a gente entrou, a gente entrou como monitor, então ia ter alguém que era o coordenador, o técnico e a gente ia ser meio que auxiliar, o monitor, um pouco mais que um estagiário, né. Então, pra experiência que a gente tinha, dava conta do trabalho. A gente sabia que era um projeto do instituto Ayrton Senna, a gente sabia que era com crianças da escola pública. E aí a gente participou de todo o planejamento inicial, dos primeiros testes. Então foi bem tranquilo, meio caiu no colo. Acho que o PET mudou quando a gente começou a se incomodar, né, com isso de: “Poxa, e o restante? Essas crianças vão ficar com esse sonho de talento, talento. Não rola, não acontece, e aí? O que gente faz? O que a gente fala?” A gente começou a se incomodar: “O que mais que a gente ensina, além de jogar bola? O que mais a gente tem pra ensinar?” E aí a gente começou a ver que a gente precisa a aprender mais coisas também, né. Foi logo que apareceu essa parceria também, depois, com o CENPEC. Aí a gente teve vários encontros de formação, vinha pra cá no final de semana e fazia uma imersão mesmo, né, e enteder um pouquinho mais quais eram esses valores que o esporte era capaz de trazer, quais eram essas aprendizagens, o que que uma criança ou um adolescente precisa pra contribuir na formação dela, o que é essa criança que a gente tem agora. E aí: “Vamos entender melhor isso pra poder atuar de uma forma melhor, pra que o projeto seja positivo pra todo mundo. Pra aquele que vai ser encaminhado pro clube e pra aquele que não vai.” E aí que a gente começou a entender que tinha que ensinar cidadania, tinha que ensinar valores, o que que era a educação, então, através do esporte, como é que se dava isso. O meu marido, o Eduardo, a gente... eu conheci ele através de um amigo, conheci um amigo dele primeiro e aí depois eu... aí a gente foi sair e juntou os amigos dele e aí eu fui apresentada, e aí eu falei: “Uau! Gostei.” (risos) “Não gostei do amigo não, eu gostei mais desse aqui.” (risos) E aí logo a gente começou a namorar, tal, e aí depois de um ano e meio pra dois que a gente foi morar junto, casou e aí já veio a Lorena. Aí tá a Loreninha aí. Poxa vida, o meu sonho... acho que tem tudo a ver com essa coisa de ser mãe, né, acho que isso dá pra gente uma assentada maior e muda a vida inteira, né. Acho que, assim, se a gente for bem simplista, eu diria que o meu sonho é ver a minha filhinha se tornar uma pessoa bacana. Aí bacana eu não falo assim: “Ah, ela tem que estudar, ela tem que ter uma profissão x, y, z.” Não, acho que é mais básico, eu quero que seja feliz, não me importa se vai vender água de côco na praia, sabe? “Vai ser feliz?” Acho que pra mim isso que é importante. Tem que ser uma pessoa honesta, justa, sabe? Que saiba amar os outros, respeitar que são diferentes. Porque a gente passa tanto tempo vendo tanta coisa, né, as pessoas querendo ser feliz tendo isso, tendo aquilo, tendo aquilo outro. E não é por aí, né. Então... e eu vejo já com dois aninhos, já é difícil. E a minha responsabilidade na frente disso, né. Então tá desde a escolha da escola que eu vou colocá-la. A escolha da escola já está falando que valores que eu acredito que eu tenho... que eu tô buscando pra ela, né. Então eu acho que o meu maior sonho é conseguir ter saúde pra criá-la e mostrar pra ela que o importante é ser feliz, fazendo escolhas boas que não vão prejudicá-la. Porque a gente pode ser feliz de diversas formas, né, e às vezes é fazendo o mal pra gente mesmo, fazendo coisas que não são legais. Então, se eu conseguir dar esse rumozinho pra ela eu já estou contente.

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