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História

Maria Antonucci Straccia, minha mãe

História de: Carlos Straccia
Autor: Carlos Straccia
Publicado em: 25/05/2004

Sinopse

  Meu nome é Carlos Straccia. Nasci em Santo André, município da Grande São Paulo, em 10 de junho de 1954. Meus pais eram italianos. Mario Straccia, nasceu em 1925, veio para o Brasil em 1950. Casou-se, por procuração, com Maria Antonucci, minha mãe, que veio para o Brasil em 1953. Ele faleceu em janeiro de 1992. Já minha mãe, faleceu em setembro de 1999. Um ano antes de falecer, minha mãe escreveu suas memórias. No seu aniversário de 70 anos, em 08 de dezembro de 1998, fizemos um pequeno livro de suas memórias e entregamos a cada família convidada. É este livro que gostaria de colocar aqui nestas páginas do Museu da Pessoa

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História completa

 Órfã

Órfã Ainda criança, com nove anos de idade, eu perdi minha mãe, Adele. Com quatorze, perdi também meu pai, Fortunato. Minha mãe morreu pouco antes de começar a Segunda Guerra Mundial – 1938, a guerra começou em 1939. Meus três irmãos – Leonardo, Giuseppe e Silvio – ficaram no combate. Eu e minhas irmãs – Gaetana, Addolorata, Fiora –, ficamos em casa, cuidando da lavoura e também da criação de vacas, carneiros, galinhas, porcos, etc. e, muitas vezes, enfrentando os perigos dos aviões e canhões de artilharia, pois os bombardeios eram mais freqüentes nas cidades e nas pontes para impedir os inimigos de passar.

 

Milagre ou coincidência?

Milagre ou coincidência? Na época da guerra, meu pai ficou doente por alguns anos e depois morreu. Meus irmãos estavam na guerra e meu pai faleceu no pôr-do-sol. Mandaram telegrama para eles voltarem para casa e ver o pai antes de ser enterrado. Mas, não sei se por milagre ou coincidência, de manhã, os meus irmãos Giuseppe e Silvio, sem ter recebido os telegramas, chegaram em casa. Os dois ficaram na sala de espera da estação, vieram com o mesmo trem, mas não se viram. No trajeto que fizeram a pé para chegar em casa, se encontraram e conversaram com muita alegria. Chegando em casa, encontraram nosso pai morto, eles sabiam que ele estava doente Enfim, num instante terminou a alegria e passou para muita tristeza. Os meus dois irmãos estavam voltando para casa porque o governo dava uma licença de quinze dias para que os homens ajudassem a semear o trigo.

 

 Mussolini

Era a época de Mussolini, era o Fascismo. A lei dele era muito severa. E em todas as casas, existia a figura de Mussolini. Passavam os homens dos municípios com a estampa de Mussolini e com uma latinha de tinta preta. Estampavam a figura na parede, no lugar mais visível da casa e cobravam. Não era de graça, não A figura seria só o rosto. Depois que perdeu a guerra, que Mussolini foi morto, foram obrigados a tirar a figura da parede das casas. Todo mundo pegou a latinha da tinta e cobriu o rosto do Mussolini. A diferença na parede era a cor da tinta branca, era a cal.

 

Cobre para as bombas

Mussolini deixou triste lembrança. Mandou recolher, em todas as famílias, os caldeirões de cobre fora de uso. Ele dizia que era para dar, mas pegava os bons. Para mostrar que estava fora de uso, levava um martelo de ferro grosso. Se o caldeirão estava bom, ele, com aquele ferro, dava uma martelada, furava o caldeirão e mostrava que estava fora de uso. E levava tudo sem pagar nada. O governo retirava para fabricar as bombas para a guerra.

 

Aliança fajuta

E mais ainda. As senhoras que tinham aliança de ouro nos dedos, Mussolini as obrigava a doá-las para o governo. Me lembro que passaram dois homens da nossa cidade responsáveis por aquele serviço. Passavam casa por casa e pediam a aliança. Era obrigatório entregá-la a eles, que seria como entregar para o governo. Não sei para quê. Sei que minha mãe queria dar-lhes um anel de ouro em vez da aliança, mas não aceitaram. A resposta foi esta: “Se você quiser, me dá o anel e a aliança também” Assim levaram a aliança, prometendo que davam outra em troca. Só que era de outro material, uma espécie de alumínio resistente. Minha mãe teve que buscá-la na cidade, mas ela não quis usá-la e ficou muito revoltada. Onde se viu Trocar uma aliança de ouro por uma de alumínio fajuta

 

 Medo de si mesmo

Na Itália, durante a guerra, tivemos uma época de “coprifuoco”. Era assim. Depois de uma determinada hora, ninguém mais podia sair à rua. Também não se podia acender qualquer tipo de luz. Por exemplo, vela, fósforo, cigarro aceso. Enfim, tudo que fizesse uma pequena luz ou clarão de luz nos vidros das janelas. Qualquer tipo de clarão, à noite, era muito perigoso. Deveria evitar luz na cozinha que pudesse ser vista pela chaminé. Quando os aviões passavam, se avistassem qualquer tipo de luz, jogavam bomba, pensando que fosse o acampamento dos inimigos. Nós, só de escutar o barulho dos aviões, retirávamos tudo que era luz – na época não tinha luz elétrica. Os americanos quebravam todas as pontes para que os alemães não pudessem passar. Os alemães pegavam os homens que encontravam na rua e os levavam para trabalhar e reconstruir as pontes que os americanos derrubavam. Assim, os homens não podiam nunca sair às ruas, porque os alemães os pegavam para reconstruir as pontes.

 

O irmão severo

Leonardo, meu irmão mais velho, falecido há 27 anos, era muito severo, até demais com as quatro irmãs. Depois de nosso pai ter falecido, ele se tornou o mandão de nós todos. Nós tínhamos muito medo dele. O que ele mandava, nós obedecíamos e com muita rapidez. Ele gritava e olhava feio, especialmente para mim que era a mais nova. Eu, perto dele, tremia de medo. Quase sempre era eu que ele chamava a toda hora. Por exemplo: “Maria, dá uma corrida Me vai buscar a água” Ou cigarros ou alguma ferramenta. “Me traz vinho” E, muitas vezes estávamos a trabalhar na roça, eu precisava ir em casa ou talvez até um pouco mais longe para buscar o que ele queria. Nós morávamos em Corropoli, perto da praia. Um domingo, eu, Giuseppina (minha cunhada), minhas irmãs Addolorata e Fiora e Conceto (seu namorado) resolvemos ir a pé até a praia. Mas nós não pedimos para ele se nós podíamos ir à praia naquele dia. Na hora em que nós estávamos nos aprontando, ele perguntou: “Para onde vocês vão?” Nós dissemos: “Para a praia.”. A resposta dele foi esta: “Sem a minha ordem vocês não vão para a praia” Mas depois matei a vontade de ver o mar, pois viajei 16 dias de navio para vir ao Brasil. Ele sempre procurava deixar os outros ocupados com trabalho, mas para ele sempre tinha um jeitinho de sair com a sua bicicleta e arranjar um motivo para sair. Ele gostava muito de passear, jogar baralho. Mas trabalhar na roça, pouco Mesmo assim nós gostávamos quando ele saía de casa. Ficávamos mais à vontade. Nós trabalhávamos com mais tranqüilidade.

 

Mutirão

Na época da colheita, se fazia o mutirão, especialmente, quando era para apanhar trigo, milho e uva. Se juntava com os vizinhos, se combinava um dia cada lugar para fazer a colheita. Se juntava bastante gente e a família dava a comida e bebida – água e vinho. Se aprontava a comida sempre na hora certa se fosse possível, de manhã e no almoço. Era assim: conforme a quantidade das pessoas, se pegava um cesto meio grande e redondo. Ali dentro eram colocados a comida, o pão, garfos, facas, colheres, um copo e uma garrafa de vinho. Se cobria o cesto com uma toalha branca e comprida. Se colocava o cesto na cabeça e, com uma moringa de água na mão – que era sempre carregada por uma mulher – partia-se para o campo onde o pessoal estava trabalhando. Chegando no lugar, tirava-se com cuidado o cesto da cabeça para não derramar e colocava no chão. Esticava-se a toalha e colocava-se a comida nos pratos colocados sobre aquela toalha, com talheres e pão. Chamavam-se as pessoas que ali estavam trabalhando e todo mundo se sentava em volta da toalha e todos começavam a comer. A mulher que tinha levado a comida vinha servindo as pessoas que estavam comendo, cortava o pão conforme alguém pedia ou passava a água que era tomada na própria moringa, direto do bico. O vinho, as mulheres com a garrafa e o copo na mão passavam sempre em volta para servir as pessoas que eram servidas com tanta cortesia. Não importava a quantidade das pessoas, todo o mundo bebia no mesmo copo sem ter condição de ser lavado. E assim, todo mundo sentado no chão, comendo, bebendo, falando com a maior tranqüilidade. Quando se terminava de comer, todos voltavam para o trabalho.

 

Vinho

Todas as famílias faziam o vinho em casa e todo mundo tinha vinhedo que era a base principal das famílias. Se tomava vinho como se fosse uma espécie de fortificante, ou seja, o café de hoje, na hora do almoço ou no jantar se tomava vinho. Chegava uma visita, se oferecia vinho, algumas tomavam até ficar de pileque, principalmente, as pessoas um pouco idosas. Se tinha de sobra, o vinho era vendido para ajudar no orçamento da família. Agora vou contar como se fazia o vinho na Itália Se apanhava toda a uva e se levava para casa. Se pegava um tonel bem grande, sobre o qual era colocado uma espécie de caixote quadrado cujo fundo era feito com ripas colocadas um pouco longe umas das outras. Se enchia de uva e um homem descalço entrava lá para esmagar a uva. O suco escorria dentro do tonel que estava por baixo. Depois de terminado, se pegava o suco e o bagaço, se juntava tudo para fermentar por alguns dias e assim por diante. Tinha ainda muito trabalho para o suco chegar ser vinho. Para esmagar a uva com os pés, era sempre escolhido um homem com os pés grandes...

 

Por eu ser baixinha

Me lembro que na época eu tinha em média quatro anos. Numa tarde, minhas irmãs, minha mãe e eu resolvemos requentar uma sopa que havia sobrado do almoço. Fui pegar a colher para nós todas juntas comermos direto na panela. Dado o caso que a colher estava dentro de uma caixinha pendurada na parede, tive que subir numa cadeira. A cadeira escorregou e eu caí justo dentro de um caldeirão com farelo e água fervendo – a comida dos porcos. Queimei o pé esquerdo. Minha mãe deu uma bronca em Gaetana, pois ela tinha deixado o caldeirão no chão. O lugar certo seria no alto e assim seria evitado o perigo. Por isso é que se diz: quem não tem cabeça, o corpo padece. Só que, quem fez coisa errada, foi a minha irmã Gaetana, e quem sofreu fui eu. Até hoje eu tenho a marca da queimadura no meu pé.

 

Baffó, o cachorro fedido

Agora vou falar do meu tio Beniamino era um velho alto e magro, meio poeta e de bom coração, então algumas vezes nós íamos visitá-lo, junto com meu irmão – Giuseppe ou Silvio, não me lembro. Na casa do meu tio tinha um cachorro que se chamava Baffó (que significa bigodudo) e vivia solto. Na hora que nós saíamos da casa de nosso tio Beniamino, Baffó estava ali. Depois de estarmos longe, ele nos alcançava. Só que Baffó, em todas as casas por onde passava, ficava fuçando. Quando tinha outro cachorro, que avançava nele, ficava com medo e corria disparado para perto de nós. Baffó era valente para procurar os outros cachorros, mas, na hora da briga, se escondia nas pernas da gente. Enfim sobrava para nós. Quando nós chegávamos em casa, nossa mãe reclamava de ter trazido aquele cachorro fedido. Ela não gostava de cachorro e dizia não gostar, pois, quando ele entrava debaixo da mesa, esbarrava o rabo na toalha da mesa e isso lhe dava nojo. E com toda a razão...

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