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História

"Eu tinha medo do homem branco"

História de: Teodoro Pasiku
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2005

Sinopse

Pasiku nasceu na aldeia Xavante Baixa Funda, em Tocantins conta sobre os seus poucos anos de estudo, seu trabalho na roça de seu pai, sua primeira visita à cidade, o susto que levou ao ver um homem branco pela primeira vez, como se tornou agente comunitário de saúde, os seus desafios e conflitos no trabalho, a importância de seu trabalho nas aldeias, sua vocação para trabalhar na área de saúde e sobre a cultura indígena, como ocorrem as divisões das tribos, as pinturas e as festas de batizados para dar nome aos filhos.

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História completa

P/1 - Me diga onde você nasceu, Teodoro?

 

R - Eu nasci na Aldeia Baixa Funda, onde vocês passaram.

 

P/1 - Foi uma das primeiras que a gente passou?

 

R - Foi na segunda. Na primeira vocês passaram no Brejo Comprido, a segunda é a Baixa Funda. É lá que eu nasci.

 

P/1 - De lá pra cá quantos a gente passa?

 

R - Da Baixa Funda pra cá?

 

P/1 - Não. Lá de Tocantins, quando a gente entra, quantas aldeias tem no caminho?

 

R - Tem muito, mas é só uma, duas, três, quatro. Só quatro que uma pessoa encontra, mas tem muitas aldeias que entra. Se uma pessoa quiser conhecer tem que entrar pra conhecer as aldeia. Mas no caminho, mesmo que uma pessoa saia de Tocantins, chegando pra cá só conhece a do Brejo Comprido, Baixa Funda, e Rio Preto, onde vocês passaram, é bem ali, e aqui, essa aldeia aqui.

 

P/1 - Então você nasceu naquela. Quem morava lá? Seu pai, sua mãe?

 

R - É, meu pai e minha mãe também. Lá era uma aldeia, uma aldeia grande. Aí os povos se espalharam, até que ficou daquele bolinho de gente lá.

 

P/1 - Quando você nasceu?

 

R - Eu nasci em dezesseis de outubro de 1972.

 

P/1 - 72? Você é novinho! E você tinha irmãos? Como era o seu primeiro nome, que você tava me explicando?

 

R - Meu nome primeiro é Pasiku.

 

P/1 - E o nome do seu pai?

 

R - Da nossa língua?

 

P/1 - É.

 

R - Camon Ua Bi?

 

P/1 - E da sua mãe?

 

R - Sidu Pudi.

 

P/1 - E na nossa língua, no português?

 

R - Meu pai é Martins e da minha mãe é Evinha.

 

P/1 - E eles ainda estão vivos?

 

R - Não, todos dois... Primeiro morreu meu pai, daí depois foi a minha mãe.

 

P/1 - E eles sempre moraram nessa aldeia?

 

R - Não, eles mudaram pra cá quando eu cresci mesmo, quando eu cheguei a conclusão que eu cresci, eu cheguei aqui em 83, não sei se foi em 82. Foi em 83 que eu cheguei aqui.

 

P/1 - Nessa aldeia?

 

R - Nessa aldeia.

 

P/1 - Você tinha uns onze anos?

 

R - Por aí assim.

 

P/1 - Por que eles mudaram pra cá?

 

R - Porque eles agradaram do lugar daqui, da Aldeia do Sono. Aí eles mudaram pra cá.

 

P/1 - Era diferente o lugar de lá pra cá?

 

R - Muito.

 

P/1 - O que era diferente?

 

R - Porque lá a terra era dura, e aqui é arenoso, a terra aqui é arenosa.

 

P/1 - Então que diferença faz isso?

 

R - Eu acho que eles se abusaram, né?

 

P/1 - Lá?

 

R - Lá, então mudaram pra cá.

 

P/1 - Mas lá a terra é... Você diz que a terra era diferente por que? Pra plantar?

 

R - Não... Pra plantar, em termo de planta é uma coisa só, mas eu acho que é só pro lugar mesmo que eles mudaram pra cá, né?

 

P/1 - Mas o pessoal, o pessoal de lá conhece todo mundo do pessoal daqui?

 

R - Conhece.

 

P/1 - Aí você entrou na escola lá ou entrou na escola aqui? Tinha escola em cada aldeia nessa época?

 

R - Lá, na Baixa Funda tinha uma escola. Eu estudei um pouco, estudei quase um ano, aí depois esses povos mudaram, dali da Baixa Funda, onde vocês passaram na primeira aldeia, chama Brejo Comprido, e aqui, naquele tempo, eu acho que não tinha escola. Meu pai se esforçou, interessou de mim, aprendeu um… Pra escrever ao menos meu nome, né? Aí lá no Brejo Comprido tem a minha irmã que chama Benta, ela é casada. Meu pai me procurou se eu tinha interesse de estudar, eu falei que sim. Naquela época eu estava mais ou menos, com dez anos ou onze, por aí, eu fui lá. Fiquei com a minha irmã pra lá. Estudei um pouco, terminei lá mesmo no Brejo Comprido. Comecei na primeira, estudei lá até terceira, aí mudei pra cá. Cheguei aqui, estudei a quarta e pronto.

 

P/1 - Você gostava de ir pra escola estudar?

 

R - Eu gostava.

 

P/1 - Você estudava em que, em português...?

 

R - Português.

 

P/1 - O que você lembra que você mais gostava que tinha na escola?

 

R - Eu gostava de material.

 

P/1 - É.

 

R - Eu gostava mais de português.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Era.

 

P/1 - Por que?

 

R - Hum?

 

P/1 - Por que era bom?

 

R - Porque era bom pra mim, era fácil de eu me entender. Mas de matemática eu nunca gostei.

 

P/1 - Não? E história e essas coisas, você não precisava estudar? Como é que era?

 

R - Como?

 

P/1 - História, tinha essa matéria?

 

R - Tinha.

 

P/1 - História do Brasil?

 

R - Tinha.

 

P/1 - E aí, você gostava?

 

R - Eu gostava. Eu falo pra qualquer um, coisa que eu nunca aprendi, eu aprendendo, fico satisfeito. Coisa que eu nunca aprendi, eu me esforço pra aprender, ver se aprendo. Eu gosto mais é de aprender as coisas. Se eu tivesse condição eu tinha estudado bastante ainda. Meu pai não tinha condição, aí eu parei de estudar.

 

P/1 - E o que você fazia quando parou de estudar, quando você era criança, o que você lembra?

 

R - No tempo quando eu estudava?

 

P/1 - É, quando você era criança ?

 

R - Eu ajudava meu pai na roça.

 

P/1 - Seu pai tinha roça?

 

R - Tinha.

 

P/1 - Roça de quê?

 

R - Roça de toco mesmo.

 

P/1 - De quê?

 

R - Roça de toco, derruba o pau e queima.

 

P/1 - E plantava o quê?

 

R - Planta arroz, mandioca, milho, inhame também, batata doce. Minha mãe gostava de plantar, mas era de inhame, batata doce também, inhandú também ela gostava de plantar.

 

P/1 - Isso naquela vila de lá ou já nessa daqui?

 

R - Já daqui. Quando eu comecei a trabalhar, ajudar meu pai, foi aqui mesmo que eu comecei a ajudar ele.

 

P/1 - Você tinha quantos irmãos?

 

R - Eu tenho cinco irmãs e cinco irmãos também, comigo.

 

P/1 - Nossa, um monte...

 

R - É nada, pouquinho.

 

P/1 - Pouquinho? Eu só tenho um! (risos)

 

R - Se fosse uns quinze, por aí, era muito.

 

P/1 - Mentira, eu tenho seis irmãos.

 

R - Hã...?

 

P/1 - Eu tenho seis irmãos, é mentira.

 

R - Ah!

 

P/1 - Mas são quinze que você acha bom ter?

 

R - Uns vinte irmãos, por aí, irmãs que era bom.

 

P/1 - Coitada da sua mãe. Ia ter que ter muita, muita mulher diferente, porque vinte irmãs da mesma mulher...

 

R - (risos) Não, mas meu pai ia ter que se esforçar pra fazer nas outras, né?

 

P/1 - (risos) O que você lembra do seu pai? Como ele era?

 

R - Meu pai...

 

P/1 - Que tipo de pessoa?

 

R - Como?

 

P/1 - Que tipo de pessoa ele era?

 

R - Ele é alto e fino também. Um metro e oitenta, um  metro e sessenta, por aí, um metro e setenta, alguma coisa assim.

 

P/1 - E ele era muito calado, era mais...?

 

R - Ele é meio surdo, não é muito conversador também não. Ele é meio surdo. Mas ele era, pra mim... Eu gosto dele, gostava muito dele demais. Porque ele era muito esforçado no serviço, na roça mesmo. Sempre ele esforçava mais, era pra estudar e pra trabalhar também.

 

P/1 - Mas ele estudava também?

 

R - Ele estudou até a terceira.

 

P/1 - Desde quando começou a ter uma escola em cada aldeia aqui?

 

R - Não, isso foi a escola nas aldeias, o que eu me lembro foi, de oitenta pra cá que começou a ter...

 

P/1 - Começou a ter?

 

R - Foi.

 

P/1 - Então, por exemplo, seu pai estudou onde?

 

R - Acho que estudou aqui. Naquele tempo ele estudou porque tinha um cara chamado pastor, pastor… Eu esqueci o nome… Não, eu estou confundindo. Naquela época tinha um professor aqui, aqui mesmo.

 

P/1 - Um professor, ele era índio ou era...?

 

R - Uma professora, era uma professora. Não, era um branco. Aqui mesmo, aqui mesmo nessa aldeia. E daí ela foi embora e deixou abandonado os alunos. E aí, não tinha mais professora e eles ficaram parados.

 

P/1 - Seu pai que estudou com ela?

 

R - Foi. Ele disse que tinha vontade de terminar até a quarta série, mas não teve jeito, a professora mesmo decidiu sair e ir embora. Foi embora, e deixou abandonado.

 

P/1 - E em casa, vocês falavam que língua?

 

R - Hã...?

 

P/1 - Vocês falavam português em casa, não né?

 

R - Não, é difícil...

 

P/1 - Difícil?

 

R - Só da nossa língua mesmo.

 

P/1 - E o português só pra quando... Você, ou o seu pai,  costumavam frequentar a cidade quando você era criança?

 

R - Como?

 

P/1 - Você vai pra Tocantins?

 

R - Não, é difícil. Quando meu pai vai na cidade, mas só mesmo para tratar de algum negócio, algum problema. Dificilmente ele vai na cidade.

 

P/1 - E você?

 

R - Eu também.

 

P/1 - Quando foi a primeira vez que você foi à cidade?

 

R - Eu nem me lembro mais.

 

P/1 - (risos) Você não lembra?

 

R - Não.

 

P/1 - Nem lembra o que você foi fazer?

 

R - Não. Eu lembro, eu lembro que ele me levou lá pra cidade, era pra eu conhecer os brancos.

 

P/1 - Você já tinha visto branco?

 

R - Eu já tinha, mas não era muito não. Eu conheci ali na Baixa Funda, era um professor. Professor e as enfermeiras, mas não era muito não. Nossa, quando eu cheguei lá na cidade eu me espantei, eu fiquei nervoso de ver um tanto de branco. Eu fiquei com medo.

 

P/1 - (risos)

 

R - Aí meu pai falou: “Não sente medo não meu filho. Eles não mexem com ninguém, não”. Aí o medo passou.

 

P/1 - Mas você ficou com medo de quê?

 

R - Do branco mesmo. Porque eu tinha mesmo medo do branco. Eu não tinha pensado... O pensamento, assim, no máximo, né? Quando eu vi aquele montão de branco lá na cidade, eu fiquei com medo. Falei pro meu pai: “Vamos embora, papai”.

 

P/1 - Aí, nunca te deu vontade de morar na cidade, morar...?

 

R - É, nesses tempo, né? Tem dias que eu penso. Todo mundo, acho que todos nós, todo ser humano pensa assim.

 

P/1 - Hum?

 

R - Eu sou índio, né? Mas se eu tivesse uma condição eu morava na cidade.

 

P/1 - Você preferia morar na cidade?

 

R - Eu preferia.

 

P/1 - Por que?

 

R - Porque eu gostava mais, é só mesmo... Porque tem vezes, daqui mesmo eu vou fazer compras lá na cidade. Por isso eu comprava uma casa, pra ficar guardado lá. No dia que eu chegar eu não vou ocupar as casa dos outros. Eu penso assim. Se eu tivesse condição, mas eu não tenho condição, né? Só o pensamento mesmo que tem a vontade.

 

P/1 - Mas já saiu muita gente da sua aldeia pra morar na cidade?

 

R - Não.

 

P/1 - Não. O pessoal não saiu?

 

R - Tem um, o pai desse rapaz ali que chama... O Ângelo morou um bocado de tempo lá na cidade, em Miracema. Ele botou os filhos pra estudar. Ele comprou uma casa lá, ele tem casa lá. Só ele que saiu daqui pra lá, mas ele não tá morando na cidade não, ele tá morando aqui na fazenda dele.

 

P/1 - É uma fazenda?

 

R - Ele tem uma fazenda. Só ele. Tem os índios que casaram de outras aldeias, tem muitos índios lá, morando na cidade, na rua.

 

P/1 - Na rua?

 

R - É, na cidade mesmo, no meio dos brancos.

 

P/1 - Mas você acha que esse jeito de morar lá na cidade é melhor que morar aqui?

 

R - Eu acho melhor morar aqui mesmo.

 

P/1 - Aqui?

 

R - É.

 

P/1 - Bom, aí você mudou pra cá. Com quantos anos você tinha?

 

R - Hum?

 

P/1 - Com quantos anos você tinha?

 

R - Quantos anos? Eu nasci em...

 

P/1 - 72.

 

R - 72. Em 81 parece, não sei se foi em oitenta e... Foi em 81 que eu fui, não sei se foi em 79, alguma coisa assim que eu fui no Brejo Comprido pra estudar. Lá eu estudei a primeira, a segunda e a até terceira. Fiquei lá três anos, lá no Brejo Comprido. Lá por 83, por aí que eu cheguei pra cá.

 

P/1 - E aí você terminou aqui e continuou morando aqui?

 

R - É.

 

P/1 - E daí, quando que você casou?

 

R - Quando? Em 85 eu parei de estudar, 85 até uns 89, 89 por aí que eu me casei.  Me interessei de casar e casei, não tinha nada o que fazer mesmo. Estudar era a única esperança que eu tinha, eu não tinha condição. Aí eu resolvi me casar e me casei. (risos)

 

P/1 - Ela é daqui dessa aldeia?

 

R - Ela é daqui mesmo.

 

P/1 - Mas como foi que você casou? Você começou a gostar dela, como é que é, conta pra mim?

 

R - Eu cheguei a conhecer, aí ela se agradou de mim e eu também, aí deu certo.

 

P/1 - Você estava fazendo o quê? Como que era seu dia-a-dia aqui? O que você fazia antes de começar a trabalhar?

 

R - Eu trabalhava na roça.

 

P/1 - Trabalhava na roça?

 

R - É.

 

P/1 - E ela trabalhava com você, ajudava?

 

R - Tinha dias que ela ajudava, ela sempre gostou de me ajudar na roça.

 

P/1 - Conta, como foi que você ouviu falar desse programa de agentes comunitários? Já tinha vindo algum agente aqui?

 

R - Já tinha, um agente que chama, um agente de saúde… Deixa eu ver como é o nome dele, é o Pedro, e ele veio aqui fazendo um cadastramento do pessoal, das pessoas, aí ele me informou, disse que teria um, como é que chama, como é que é? Ah, um concurso, não pra fazer uma inscrição, aí ele falou pra mim, me informou, aí ele me procurou se eu tinha interesse.

 

P/1 - Mas só você ou outras pessoas daqui? Ele informou só pra você?

 

R - Primeiro ele informou só pra mim mesmo, só ele que sabia. Aí eu falei assim: “Rapaz, eu não tenho interesse não, porque eu não tenho estudo”. “Não carece de ter um estudo tão grande não. Se você estiver interessado, é só você fazer uma inscrição, aí talvez, quem sabe você passa”. Passou dias e dias, passou dias e dias, aí chegou o dia de fazer a inscrição, eu não queria. Ele falou pra mim: “Teodoro...”

 

P/1 - Você não queria por que, Teodoro?

 

R - Era de besta.

 

P/1 - (risos)

 

R - Aí eu falei assim: “Não, eu não posso, não.” “Mas rapaz, Teodoro, vai tentar rapaz, isso é bom. É melhor do que você ficar parado. Faz uma tentativa, talvez você consegue”. Eu falei assim: “Rapaz, eu vou tentar mesmo”. Aí eu fui lá na rua fazer a inscrição, eu fiz a inscrição. Depois deu fazer a inscrição, a instrutora, Maria Helena, veio até aqui, pra fazer a inscrição de quem quisesse, disse que era pra fazer, ninguém quis, entrou, veio aqui...

 

P/1 - Ela veio convidar outras pessoas?

 

R - Foi, era pra fazer a inscrição. Aí ninguém quis, só eu mesmo que quis.

 

P/1 - Ninguém quis?

 

R - Ninguém quis.

 

P/1 - Por que ninguém quis? Você sabe?

 

R - Eu acho que é por causa do estudo mesmo. Todos nós daqui estudamos, só que  estudamos até a quarta série. Acho que é por isso.

 

P/1 - Mas ficou todo mundo com medo de não passar?

 

R - Eu acho que sim. Aí eu tentei e deu certo.

 

P/1 - E aí, o que você começou a fazer nesse trabalho?

 

R - Hum?

 

P/1 - Qual foi o seu primeiro treinamento desse trabalho?

 

R - Aqui ou lá na cidade?

 

P/1 - Você ficou lá na cidade?

 

R - Foi, eu fiz um treinamento lá, nós fizemos um treinamento. O instrutor ensinou como é pra nós frequentar as comunidade, como é que a gente faz, ensinou tudo pra nós. Deu treinamento.

 

P/1 - E aí você começou a fazer o trabalho?

 

R - Comecei. Quando eu cheguei aqui fui logo num cacique, avisei pra comunidade, passei o que a instrutora passou pra mim pros cacique e pra comunidade também.

 

P/1 - Foi toda a aldeia... Toda a comunidade tem um cacique?

 

R - Tem, aqui tem. Nas aldeias tem. Ali no Brejinho tem, no Rio Preto, lá na Baixa Funda e assim nas outras também.

 

P/1 - E como é que é? O que o cacique fala todo mundo respeita?

 

R - Aí conforme, também. Se o cacique tiver com toda razão e dizer pra comunidade, tem que aceitar, tem que acreditar no cacique. Mas o que ele mandar a comunidade concorda. O que ele disser, faz. A comunidade faz, concorda.

 

P/1 - Aí você foi no cacique e disse que queria fazer isso. Aí você foi na casa das pessoas?

 

R - É, foi. Visitando.

 

P/1 - E aí?

 

R - Pesando as criança. Foi duro demais o serviço.

 

P/1 - Foi duro?

 

R - Foi duro, na primeira vez, né?

 

P/1 - Por quê?

 

R - Muita gente se estranhou do meu serviço.

 

P/1 - Você já vivia aqui?

 

R - Hum, hum.

 

P/1 - Aí você começou a frequentar a casa de todo mundo que você já conhecia?

 

R - É.

 

P/1 - E o pessoal falava o quê? Achava que você estava fazendo o quê?

 

R - O pessoal procurava assim: “Por que que você pesa as crianças? Por que você fala daquilo e daquilo?” Eu explicava também o que eles queriam saber.

 

P/1 - Mas alguém falou que não queria que você pesasse as crianças?

 

R - Muita gente falou pra mim, disse que não carecia, disse que não tinha que encontrar uma forma de melhorar a vida deles, do pai. Expliquei, tentei mesmo. Aí muita gente acreditou nas minhas palavras, muitas também duvidaram. Até hoje mesmo, eu já estou com dois anos de trabalho, muitas, muitos ainda dizem pra mim, não na minha vista, mas tem os que ainda falam na minha vista mesmo.

 

P/1 - Falam o quê?

 

R - Disse que não precisa pesar as criança. Aí eu explico o porque que pesa.

 

P/1 - Que outra coisa você faz na casa?

 

R - Visito, peso as criança, tem que acompanhar as gestantes, também acompanhar o cartão das crianças de vacina.

 

P/1 - Você acha que isso era mesmo preciso? Você mudou alguma coisa fazendo isso? Tinha algum problema antes? Não fazia pré natal na gestante, mas isso dava problema?

 

R -  Antes que eu comecei?

 

P/1 - Antes que você começou ninguém fazia, né?

 

R - Não, não tinha, não. Tinha uns povos da Funai, mas era difícil com gestante.

 

P/1 - Mas isso dava algum problema na gestante, por não fazer o pré natal?

 

R - Não, é difícil. Quer dizer que alguém... Tem alguns que davam problema no dia de ganhar o nenê.

 

P/1 - E quando dava problema o que se fazia?

 

R - Dava remédio, ou então tem parteiro que mexe só com isso mesmo, que conhece as gestante, que sabe trabalhar com as mulheres. É só convidar, eles conhecem se o bebê está normal. Conhece. Se não está normal também conhece. Mas sempre, desde lá quem a gente acompanha é a Funai. Aí é só o parteiro avisar pra Funai, pros funcionários da Funai, aí leva pra cidade. Era operado.

 

P/1 - Então isso que você tá fazendo não mudou muito.

 

R - Mudou.

 

P/1 - Mudou?

 

R - Eu acho que pra mim mudou.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Porque naquela época, antes de eu começar o meu trabalho, não era assim como é hoje. Agora eu levo as gestantes pra fazerem pré natal lá no posto de saúde, e antes não levava, não. Só na hora que dava um problema, aí levava. Mas depois que eu comecei a trabalhar eu levo pra fazer pré natal.

 

P/1 - Você que leva?

 

R - Sim.

 

P/1 - Como você faz?

 

R - Eu convido as gestante e marco o dia pra gente ir pra cidade. Mas quem arruma o carro é a Funai, pra nós, porque nós não temos carro suficiente pra isso. Ainda temos, só que deu um problema.

 

P/1 - O que aconteceu com o carro?

 

R - Tombou.

 

P/1 - Caiu na estrada?

 

R - Tombou por aí na estrada, quebrou tudo, estragou tudo. Mas agora disse que ficou bom. Carro da Funai.

 

P/1 -  Teodoro, me explica uma coisa. Como você faz pra trabalhar? Em quantas aldeias você vai?

 

R - Quatro. Eram cinco, mas uma passou pra mão do Pedro, um agente de lá da aldeia Novo Horizonte.

 

P/1 - Mas a cada dia você vai numa aldeia? Como você faz?

 

R - Não, eu vou duas vezes por mês visitar eles lá nas aldeias. Duas vezes, três vezes. Tem mês que eu vou até quatro vezes pra visitar eles.

 

P/1 - Quando você chegou, você teve que falar com o cacique? Como o pessoal te recebeu?

 

R - Eu avisei os caciques.

 

P/1 - Você conhece todo mundo?

 

R - Conheço, conheço todo mundo. E eles me conhecem também. O importante é só avisar. Eu mesmo avisei só pros caciques. O cacique que reúne a turma pra contar a história do meu trabalho.

 

P/1 - E você chegou a reunir todo mundo na aldeia pra fazer uma palestra ou alguma coisa assim?

 

R - Foi preciso fazer isso. Tive que explicar como é que eu trabalho, pra que eu trabalho. Tudo isso eu expliquei quando eu cheguei na primeira vez pra começar o meu trabalho.

 

P/1 - E você usa a bicicleta para visitar alguma aldeia?

 

R - Nós ganhamos a bicicleta. Eu tinha bicicleta, mas só que agora eu não tenho. Estragou tudo.

 

P/1 - Estragou também?

 

R - Tá lá na oficina.

 

P/1 - Por que ela estragou?

 

R - Porque eu ando demais, e a estrada por aí é todo cheia de buraco. Quebrou o quadro.

 

P/1 - Quebrou o quadro?

 

R - Quadro.

 

P/1 - E agora você faz a pé?

 

R - Não, meu irmão tinha a bicicleta aí eu pedi emprestada a dele.

 

P/1 - Você gosta de fazer esse trabalho?

 

R - Eu gostei, mas na primeira eu não gostava, não.

 

P/1 - Não?

 

R - De jeito nenhum. Porque era muita coisa. O outro falava de mim, o outro falava que não aceitava. É por isso que eu não gostava. Mas agora eu tô começando a gostar.

 

P/1 - Você brigou com alguém por causa disso?

 

R - Não, ninguém. É, quer dizer, tem uma aldeia ali que chama Brejinho. Me chutaram uma vez.

 

P/1 - É mesmo?

 

R - Foi.

 

P/1 - Me conta como foi isso.

 

R - No dia que a vacina veio aqui, foi em quatorze de fevereiro, uma coisa assim. Parece que foi em fevereiro mesmo, não sei se foi em março. Por causa do leite também. O povo, tem muita gente, até os brancos mesmo, eu acho que é difícil entender todas as coisa que uma pessoa passa pra eles. Disse que é por causa de leite. Disse que eu pesava as criança e disse que os meninos, as crianças, nunca ganharam o leite. E aí procuraram... A inveja também.

 

P/1 - Procuraram e fizeram o quê?

 

R - Pra dona Lourdes, procuraram porque eu nunca dei o leite pra lá e ela nunca mandou pra lá também. Aí ela contou o caso de que o leite era só pras crianças desnutridas, de peso baixo. Eles não queria aceitar de nada.  E eles preferiram deu não ir mais pra lá.

 

P/1 - Aí você parou de ir?

 

R - Não, eu conversei com a Lourdes, e ela falou pra mim: “Teodoro, eu não vou mandar você pra lá, não. Você que pense. Se eles não querem que você vá lá...” Falavam na minha vista. Naquele dia que aconteceu isso, foi na vista dela mesmo. O cacique falou, não foi o cacique, foi a mulher dele, mas foi ele que começou. O cacique e um homem lá que mora junto com ele. É a comunidade do cacique. Ele falou que se fosse ele mesmo, se o cacique dependesse dele mesmo, não aceitava eu trabalhar mais, não. Ele falou na vista do cacique e na vista da Lourdes também.

 

P/1 - E aí, o que aconteceu? Você parou de ir?

 

R - Não, não parei, não. E aí eu tava querendo dizer uma coisa pra eles, explicar melhor. A dona Lourdes reconheceu que eles tavam a fim de bagunçar mesmo, aí a Lourdes falou pra mim: “Teodoro, vamos embora, eu já sei o que eles querem”. Aí nós fomos.

 

P/1 - Hoje o dia aqui é quente ou é frio?

 

R - Quente.

 

P/1 - Tá quente? Aí o que aconteceu?

 

R - Aí o cacique veio aqui e falou pra mim, pediu desculpa. Disse que não era pra eu ficar magoado por causa da conversa que deu lá, aí: “Tá bom, eu não vou me esquentar, não. Meu trabalho tem que ser livre mesmo. Sem um motivo de desejar de outro. Eu não posso desejar vocês de mal. Eu não posso deixar discriminar as crianças de vocês. Vocês não querem que eu vá lá”. O que eles querem é que a Lourdes arrumasse outro agente lá na aldeia do Brejinho. Mas a Lourdes não tem condição, e o Prefeito pior. E o Estado não tinha condição mais de contratar nenhum agente.

 

P/1 - Eles queriam era tirar sua vaga?

 

R - É, eles queriam me derrubar mesmo. Mas eu não fiz nada mal pra eles, não briguei com alguém.

 

P/1 - Agora você acha que se viesse alguém aqui falar que tem inscrição, outras pessoas iam se inscrever?

 

R - Como?

 

P/1 - Quando abriram as vagas para agente, ninguém quis se inscrever?

 

R - Não.

 

P/1 - E agora você acha que alguém quereria?

 

R - Eu acho que quer, por causa disso que eles queriam ocupar.

 

P/1 - Mas por que você acha que eles querem isso?

 

R - Eu não sei explicar.

 

P/1 - É pelo dinheiro ou pelo trabalho? O que você acha?

 

R - Eu acho que, não sei, eu acho que é por dinheiro. Não sei se é por trabalho. Não sei disso, não.

 

P/1 - Eu tava falando com o seu Sebastião, e ele me contou que ganha aposentadoria.

 

R - Ganha.

 

P/1 - Tem muito índio que ganha aposentadoria aqui na aldeia?

 

R - Deixa eu ver, são quantos? Tem certo de aposentadoria.

 

P/1 - Mas o pessoal acha que o seu trabalho é um bom trabalho?

 

R - Eles tão começando a gostar. Os daqui mesmo nunca falaram nada de ruim na minha frente, desde que eu comecei trabalhar. Ninguém, nenhuma dessas pessoas daqui me ofenderam.

 

P/1 - Tem alguma coisa que você orienta que o pessoal não fazia antes de você falar?

 

R - De lavar bem os prato, cozinhar bem a comida.

 

P/1 - Isso não fazia antes?

 

R - Tem alguns que faziam, mas nem todos, não. Aí eu chegava na casa e orientava pra limpar, porque através de lixo podre que chega a doença, que causa a doença também.

 

P/1 - Tinha criança aqui com diarréia?

 

R - Aqui tem.

 

P/1 - Tem?

 

R - Até hoje ainda tem.

 

P/1 - E a diarréia é por causa de quê?

 

R - Eu não sei, por causa de água eu acho que não. Porque na minha casa bebe de filtro e, tem vezes, muitas vezes, deu diarréia no meu filho. Não sei porquê.

 

P/1 - Mas o seu trabalho não muda isso?

 

R - É, quando eu chego lá na casa de uma pessoa, se um menino tiver com diarréia eu dou só soro. Dou soro pra eles.

 

P/1 - Teodoro, se você pudesse mudar de trabalho, você mudaria? Que trabalho você gostaria de ter fora esse?

 

R - Como assim?

 

P/1 - Que outro trabalho você gostaria de fazer?

 

R - Não, eu não mudava, não.

 

P/1 - Não?

 

R - Eu gostei desse serviço. Depois que eu me entendi, depois que eu conheci o meu trabalho, depois que eu peguei prática no meu trabalho, eu acho que esse trabalho, eu gostei demais. Gostei! Teve uma vez aqui, eu já lecionei nessa sala, mas eu não gostei, não.

 

P/1 - Não?

 

R - De jeito nenhum. Aí larguei.

 

P/1 - (riso) Por quê?

 

R - Porque não era pra mim mesmo, não. É duro demais. Esse negócio de professor, as crianças, é pior do que o meu trabalho. Eu acho, né? Pra uma pessoa ser professor tem que ter paciência.

 

P/1 - Com as crianças?

 

R - É, com as crianças. As criança abusam demais. E eu nunca gostei.

 

P/1 - Você ficava irritado?

 

R - Eu ficava. Mandava fazer uma coisa e eles faziam de outra maneira. Eu mandava de um jeito e eles faziam de outro. Eu tentava fazer, mas... Só isso. Eu nunca gostei muito, não.

 

P/1 - Mas esse você pegou jeito e passou a gostar?

 

R - Eu gostei do serviço do multi agente.

 

P/1 - O que você gostou?

 

R - De andar mesmo, andar orientando, pesar as criança, levar as mulheres gestante pra fazer pré natal. Gostei. Sair daqui, ir pra outras aldeias. Eu gostei.


P/1 - Você quer continuar com esse trabalho por muito tempo? Ou você quer fazer mais alguma coisa?

 

R - Eu tenho vontade de trabalhar em termo de saúde, mesmo. O que eu gostei, e a minha natureza sempre pede, é de trabalhar mesmo nessa profissão, eu gosto de trabalhar mesmo. Em termos de saúde. Mexer com as doenças, levar pro hospital, dar remédio, sempre gostei. Eu dava, eu já dei muito remédio aqui também.

 

P/1 - Ah, é? Você sabia fazer isso antes de começar esse trabalho?

 

R - Eu sabia.

 

P/1 - Você aprendeu com quem?

 

R - Uma enfermeira que morou aqui, ela me ensinou várias coisas.

 

P/1 - E fora remédio de branco, tem remédio de índio que você usa aqui?

 

R - Tem.

 

P/1 - Qual?

 

R - Um remédio que chama tatarema. Não sei se a senhora conhece.

 

P/1 - Pode me chamar de você. Qual é o nome do remédio?

 

R - É tatarema.

 

P/1 - Tatarema? Serve pra quê?

 

R - Serve pra (obração?) de sangue, e também serve pra... Não tem... Eu acho que, não sei se a senhora tem debaixo do umbigo, não tem aquela pressão?

 

P/1 - Quando você aperta o umbigo?

 

R - Não é em toda gente que dá, não.

 

P/1 - Em mim dá. Parece que dá um choque.

 

R - Dá uma pressão ali. Aí quando ri, parece que tira uma veia por dentro da barriga de alguém, pra isso é bom, também. Se a pessoa tirar a casca do tatarema e cozinhar e tomar.

 

P/1 - O que é? Uma fruta?

 

R - É um pau. Tipo um... É um pau mesmo, do mato.

 

P/1 - Tem mais algum outro?

 

R - Tem, tem muito remédio do mato.

 

P/1 - Por exemplo, tinha algum remédio de índio que a gestante tomava? Pra dor, pro leite ficar forte.

 

R - Tem.

 

P/1 - Que remédio tomava se sentia dor?

 

R - Na hora de ganhar o menino?

 

P/1 - Toma alguma coisa?

 

R - Toma.

 

P/1 - O quê?

 

R - Toma folha. Eles fazem um saco com folha de algodão. Aí eles tiram e cozinham, bota um pouquinho no sal pra aguentar até...

 

P/1 - E toma isso?

 

R - Toma. Aí desce o nenê.

 

P/1 - Ajuda a descer?

 

R - Disse que é. E também depois de ganhar o nenê fica um bolo aqui na barriga, o resto de sangue. Sempre eles faz um suco de... Como é que chama? Eu não lembro. Mas só sal mesmo com água disse que é bom também. E o algodão também. Disse que desmancha e loguinho acaba.

 

P/1 - E o que a mulher toma para o leite ficar forte?

 

R - O leite ficar forte, disse que é... Eles tiram um coco, e quebra. Eles fazem uma paçoca, aí eles tomam.

 

P/1 - Paçoca com a carne do coco ou com a casca?

 

R - Não, é... Como é que chama, Manuel? Bambu?

 

P/1 - Você sabe tudo, Manuel? (riso) Como é que pode? Aí elas tomam.

 

R - Tomam.

 

P/1 - E você usa multimistura também? Tem aqui?

 

R - O quê?

 

P/1 - Um pozinho que faz, que eu vi em outra cidade, faz parte do programa indicado para criança que está com o peso baixo, ou o pessoal daqui não precisa tomar isso?

 

R - Não, teve num mês que passou, a Maria Helena dava pra nós, pros menino desnutrido. É tipo uma paçoca pra misturar com a comida. Ou então misturar com o leite também, pra tomar.

 

P/1 - Mas quando você começou trabalhar tinha muita criança doente, desnutrida?

 

R - Tinha muita.

 

P/1 - Tinha?

 

R - Tinha desnutrida.

 

P/1 - Por quê?

 

R - É porque eles não sabiam pra frequentar as crianças deles. Depois é que eles souberam mexer. Eles labutaram com as crianças, [ficaram sabendo] como é que faz, como é que se trata, né?

 

P/1 - Mas não sabiam o quê? As crianças não andavam bem?

 

R - É, as índias, desde lá mesmo, não [se] importam muito com filho, não.

 

P/1 - Ah, não?

 

R - Não. Trabalho, faz uma coisa. E não se alimentam bem também, a mãe não se alimenta muito bem. Pra uma mulher criar um filho, ou a filha, a mãe tem que se alimentar bem, pro leite ficar forte pra criança. Tem que ser assim.

 

P/1 - E a índia, você acha que ela não se cuidava muito?

 

R - Não.

 

P/1 - Mas sempre foi assim? Ou começou há pouco tempo? Quando você nasceu já era assim?

 

R - Era desde que eu me entendo.

 

P/1 - O que você acha que mudou na vida da aldeia?

 

R - Depois que eu comecei a trabalhar?

 

P/1 - Isso.

 

R - Mudou muita coisa.

 

P/1 - Mudou muita coisa?

 

R - Mudou.

 

P/1 - O que que mudou?

 

R - As casas. Depois que eu comecei a trabalhar, você pode chegar nas casas e as casas tão todas limpas.

 

P/1 - Não era limpa?

 

R - Era não. Não era, não. E agora tudo é limpo. As coisas vem limpas, as vasilha também. Eu falo pra eles coarem a água que vem da torneira, botar no filtro. Mudou muita coisa depois que eu comecei trabalhar.

 

P/1 - E o pessoal também acha que mudou?

 

R - Acho que muitos acham que sim. Pelo jeito que eles dizem.

 

P/1 - Hoje eles são mais seus amigos?

 

R - É, eles gostam muito de mim, agora.

 

P/1 - Tá bom. Você quer dizer mais alguma coisa?

 

R - Não, por enquanto. A única coisa... Eu quero.

 

P/1 - Fala.

 

R - A única coisa que pra nós, no meu pensamento, é de ter um carro. É suficiente, mesmo, pra saúde.

 

P/1 - Um carro?

 

R - Um carro. Suficiente mesmo pra saúde.

 

P/1 - Só pra isso.

 

R - É. Aí é que melhorava pra mim. Bastante!

 

P/1 - Por quê? Você queria ir nas aldeias de carro, fazer as visitas?

 

R - Não, porque acontece muita coisa. Tem problema que acontece, por exemplo: se um índio adoecer ali no Brejinho, eu vou lá, eu vejo um doente e eu fico com dó. Passa mal, mal, mal, e eu fico com dó. Me dá vontade de levar pra rua, pra examinar, ou então tomar remédio. Mas não tem carro. Isso aí que eu sinto.

 

P/1 - E como você faz?

 

R - Eles fazem um remédio do mato.

 

P/1 - O quê?

 

R - Faz um remédio do mato, ou então vem pra cá, que aqui tem a farmácia. Vem pra cá.

 

P/1 - Mas vem andando pra cá?

 

R - Não, tem alguém que vem, pega o remédio e leva pra lá. Isso aí é que eu me sinto. Tem um carro aqui, mas é da comunidade, né? Leva, faz uma carreata na volta, com três viagens, o carro não presta mais pra andar. Acontece alguma coisa, quebra uma coisa, aí fica na mão. O que eu sinto mais é só isso. Depois que eu conheci o meu trabalho, se tivesse era bom. Vou falar porque teve uma vez que quebrou o pé de um rapaz lá do Brejinho, e não tinha carro. Aí eu tive que arriscar na bicicleta mesmo pra socorrer o rapaz.

 

P/1 - E o que você fez?

 

R - Eu peguei o cara e voltei levando pro hospital. Teve uma vez aqui, morreu uma velha às três horas da tarde, por aí. E naquele dia eu tava doente, não podia andar, não aguentei. Aí o cacique falou pros dois rapazes... Esses dois rapazes saíram onze horas da noite pra buscar o carro. E eles foram. Então é por isso que eu penso. E eu sinto, também.

 

P/1 - Melhorava bem, né?

 

R - É. Eu queria dizer só isso.

 

P/1 - Tá bom.

 

R - É o seguinte: nós, eu mesmo, sou de um parte que são Doí. E tem outro, o rapaz que tava aqui, ele é da outra parte, que é de Crosaquê. E tem outro que é o Arriri. E assim por diante.

 

P/1 - A parte é o que, de onde você vem, o seu antepassado?

 

R - É de lá mesmo. Desde lá, do começo do mundo, já existia isso.

 

P/1 - O que, a divisão? Explica de novo que eu não entendi.

 

R - E acho que nem vai entender (riso).

 

P/1 - (riso) Mas tenta, porque eu não sou tão burra assim.

 

R - É porque eu não sei explicar isso não.

 

P/1 - Mais ou menos, vai? Você é o quê?

 

R - Eu sou Doí. De lá mesmo, meu pai e meus parente são Doí. E de lá já existia essa divisão. Um rapaz que tava aqui, ele é de outra parte, é Crosaquê, que nós somos, né? Eles também falam Crosaquê. E quando a gente fala deles, de Crosaquê, eles já sabem que são eles. E se eles disserem: “Nós somos Doí”, nós já sabemos que eles tão de nós, que nós somos Doí.

 

P/1 - Mas qual é a diferença entre vocês?

 

R - No dia da festa, a nossa pintura é assim.

 

P/1 - Essa é a sua, com bolinha?

 

R - E a deles é assim. Assim pintado, no dia da festa. Os velhos pintam porque nós temos a nossa divisão. Isso aqui, se eu ver um...

 

P/1 - Mas você é assim como nascimento, você não escolhe?

 

R - Não, isso aqui vem de lá mesmo. Porque o meu pai usou dessa. E eu sou assim desde... Eu tenho que ser assim mesmo.

 

P/1 - E quando começou isso?

 

R - Eu acho que desde o começo do índio mesmo.

 

P/1 - Você conhece a história do começo do índio?

 

R - Não.

 

P/1 - Não?

 

R - Os mais velhos...

 

P/1 - Eles não contaram pra você? Como começou? Você não prestou atenção ou não quer me contar? (riso)

 

R - Eu não prestei atenção, eu me esqueci. E tem outro também - esse aqui são ______. A pintura eles fazem, tiram uma coisa do mato e pintam.

 

P/1 - Antigamente tinha briga nessa região?

 

R - Não, não tinha, não. São respeitados. Principalmente os mais velhos. Esse aqui não fala mal pra esse. É pra se respeitar. Parece que Deus mesmo que criou esse tipo de coisa. É pra se respeitar.

 

P/1 - E outro índio que não é xerente também tem essa divisão?

 

R - Não tem não, só tem o xavante.O xavante usa dessas, dessas coisa assim, o xavante.

 

P/1 - Mas é a mesma coisa, não? Não é parente, se o xavante tiver usando isso é seu parente?

 

R - Tem, precisa ter isso. Se eu pintar o meu corpo com essa, com essa aqui, eles conhecem que eu sou parente dele. E se eu encontrar algum xavante com isso aqui, eu posso dizer que ele não... Xavante eles falam também a mesma língua...

 

P/1 - Tem a mesma língua sua?

 

R - Eles falam, mas só mesmo uma coisinha que ...

 

P/1 - Xavante não olha pra rua, pra baixo, pra cima...?

 

R - É, Brasília...

 

P/1 - Ah, pra Brasília. Você já conviveu com algum índio da tribo xavante? Vocês foram visitar...?

 

R - Tem um, um… Em 95 por aí, que chegou um xavante aqui. Sempre eles vem, sempre eles gostam de vir pra cá pra visitar o xerente.

 

P/1 - Ah, é? Vem te visitar?

 

R - Hum, hum.

 

P/1 - Mas pra resolver algum problema comum ou...?

 

R - Não, é só mesmo pra visitar.

 

P/1 - E de alguma outra tribo, alguma outra etnia, guarani, por exemplo lá do sul, alguma coisa?

 

R - Tem vezes que vem pra conhecer também. Mas não é como o xavante.

 

P/1 - Não é tão próximo.

 

R - É, como o xavante.

 

P/1 - Mas esses que vem de mais longe não falam a mesma língua não?

 

R - (diz “não” estalando com a boca).

 

P/1 - E nem a mesma religião?

 

R - É outra, daí é outra coisa.

 

P/1 - Mas isso, você tem descendência dessa... Não tem nenhuma coisa que acompanha isso, uma festa? Em que festa que você usa isso, que você se pinta assim? Qual o nome dessa festa?

 

R - Como assim que você quer...?

 

P/1 - Você diz: “Na festa quem é de cada um se pinta dessa maneira”.

 

R - Não é só na festa que usa isso aí, qualquer hora...

 

P/1 - Mas que festa?

 

R - Festa de batizar ou não.  Porque nós fazemos uma festa, e os mais velhos fazem uma festa. Por exemplo, se eu tenho meu filho, não tem, aí se eu quiser dar o nome ou então pra ter o nome, eles tem que batizar, os velhos tem que... É como se fosse um batizado mesmo.

 

P/1 - E aí tem uma festa?

 

R - Tem. A dança também, a comida...

 

P/1 - Tudo dentro dessa festa?

 

R - É.

 

P/1 - E o nome é qualquer nome, ou você tem esse nome...

 

R - Não, esse nome também não. É porque...

 

P/1 - Só me explica mas isso, que eu já te deixo em paz (riso).

 

R - Não, eu não estou com preguiça não, é só porque é complicado demais.

 

P/1 - Eu sei, é difícil, eu...

 

R - É complicado. Isso aí ó, essa bolinha aí que é da nossa parte, essa a outra. Eles tem nome. O nosso...

 

P/1 - Quando você nasceu você já ia ser Pasiku?

 

R - Quando eu nasci o meu pai botou como se fosse um apelido, o Pasiku. Depois eles fizeram uma festa, quando eu era pequenininho. No braço, eles levaram pra batizar. Eles fizeram uma festa, aí falou pro velho: “Esse aqui vai ser o nome de Pasiku.” “Tá bom.” Eles gritam, com o nome de “Pasiku Montusamon Ehe Ehe”. Pronto, isso tá batizado agora, meu nome é pra sempre.

 

P/1 - Mas esse...

 

R - Aprovado também.

 

P/1 - Por exemplo, uma pessoa que é de outra descendência, ela pode ter o mesmo nome que você?

 

R - Não.

 

P/1 - Pasiku é o nome de algum avô seu, alguma coisa assim?

 

R - É. Sempre...

 

P/1 - Tem que ser o nome do mais velho?

 

R - É o nome do mais velho, porque tem muitos nomes. É como vocês. Você é a Karen...

 

P/1 - Karen

 

R - Não é só a senhora que tem o nome de Karen.

 

P/1 - Na minha família?

 

R - Tem a… Tem outros ,se não for a família, mas tem outro que tem o nome da mesma, o nome que a senhora tem.

 

P/1 - É, tem uma coisa que a minha família...

 

R - Mas só que você, eu acho que vocês brancos, eu acho que não tem divisão, como nós temos, não.

 

P/1 - Tem muito mais, porque nós… (risos)

 

R - É porque eu falo assim, ó, vocês na escola. Mas o nosso nome não, o nosso nome é só pra esses aí e os que estão mais pra cá não usam o nosso nome.

 

P/1 - Pasiku, por exemplo, quem pinta o corpo assim que é dessa outra linha, não pode chamar Pasiku ?

 

R - Não pode, é respeitado. Se botar o nome pros filho, ele está desrespeitando a nossa lei.

 

P/1 - É como se ele estivesse o que, roubando um nome?

 

R - Roubando um nome, é. Os mais velhos não aceitam, loguinho, logo eles...

 

P/1 - Então na hora que alguém te conhece, mesmo que não seja numa festa, ele já sabe qual a sua descendência?

 

R - É.

 

P/1 - Só pelo seu nome?

 

R - Só pelo nome eles conhecem.

 

P/1 - É como se eu chamar José de uma linha, se eu chamar Ricardo de outra...

 

R - Vocês tem um jeito de se conhecer também, por causa de sobrenome, não tem?

 

P/1 - É, sobrenome. Meu sobrenome por exemplo, é Worckman.

 

R - Worckman.

 

P/1 - Aí, alguém ouve, fala: “Você não é… Seu pai vem da onde, da Polônia, da Alemanha?” Não veio do Brasil, porque pelo nome já sabe que… Eu acho que é assim.

 

R - Pelo...

 

P/1 - Pelo sobrenome.

 

R - Pelo sobrenome, ah!

 

P/1 - Não, mas se bem que na minha família, agora acabou isso, mas tinha que por o nome do avô que morreu ou bisavô.

 

R - Hum...

 

P/1 - Mas agora acabou.

 

R - Acabou, hum...

 

P/1 - Mas no seu aqui não? Seu filho chamou, qual o nome dos seus filhos?

 

R - Tem muito nome que nós usamos, tem muito nome. Pasiku, Sakuringauê, tem muito nome.

 

P/1 - E seus filhos chamam como?

 

R - Meu filho chama Soraminê, que é mais velho, a segunda chama Oainê, a terceira não tem ainda não.

 

P/1 - Ela tá com, é muito novinha?

 

R - É, porque eu não tive ainda uma oportunidade de encontrar uma festa pra batizar.

 

P/1 - Só ganha o nome na festa?

 

R - Só ganha o nome na festa. Pode ser também sem festa, como eu contei ainda agora a pouco pra senhora. Na hora que eu nasci meu pai deu o nome de Pasiku.  Mas depois eles me levaram pra festa pra batizar com o nome de Pasiku, daí ficou aprovado, daí aprovou mesmo, aí não tem... Foi aprovado e todo mundo soube que meu nome é Pasiku.

 

P/1 - Tem que aprovar, né?

 

R - É, tem que ir... Só na festa mesmo. Os mais velhos que sabem fazer...

 

P/1 - E aqui, toda vez que nasce uma criança ganha nome, faz a festa?

 

R - Faz um ano, aí passo o outro aí faz ...

 

P/1 - Uma por ano?

 

R - É por aí assim.

 

P/1 - E aí batiza logo um monte de criança?

 

R - É muito, é muito, é muito mesmo. Porque tem criança que passa três, quatro anos, até cinco anos sem batizar, ou não.

 

P/1 - Ah, é? E chama ela como?

 

R - O pai que escolhe, né?

 

P/1 - Mas isso não significa...

 

R - Mas não é seguro, só é seguro depois que os mais velhos batizarem. Aí é o nome mesmo.

 

P/1 - Eu fiquei impressionada com uma coisa, sempre me disseram que… Eu sempre li que índio tem pouco filho. Mas você me falou que tem dez, dez irmãos, nove irmãos...

 

R - (risos)

 

P/1 - Todas as casas que nós fomos, todo mundo tem um monte de filho. Então não é verdade, vocês tem muito filhos?

 

R - É mentira. Como assim, como é que você falou?

 

R - Antigamente. Deve ser dos antigamente, né? Antigamente, diz que mais de cinco não

 

P/1 - Sempre disseram pra mim que índio tem um filho, dois filhos, que não tem dez filhos… Tinha não. Antigamente, mas agora não.

 

P/1 - Agora tem muito filho? Todo mundo tem muito filho?

 

R - Todo mundo. Não é todo mundo não, são alguns. Mas tem filho, por exemplo, que já tem três, o  meu pai teve dez.

 

P/1 - E você vai ter quantos?


 

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