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História

Medo de ver tanto branco

História de: Teodoro Pasiku
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2005

Sinopse

Teodoro Pasiku Pereira Xerente nasceu em 16 de outubro de 1972, na aldeia Xavante Baixa Funda (TO). É agente comunitário e chegou a atender 55 famílias das aldeias indígenas da região.

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História completa

Sou índio da tribo dos Xerentes, nasci em 16 de outubro de 1972 na Aldeia Baixa Funda. Meu pai e minha mãe também nasceram lá. Era uma aldeia grande, mas aí os povos se espalharam, até que ficou só aquele bolinho de gente... Quando eu nasci, o meu pai botou o nome Pasiku, como se fosse um apelido. Um dia fizeram uma festa e me levaram pra batizar. Meu pai falou pro índio velho: “Esse aqui vai ter o nome de Pasiku.” Então eles gritaram o meu nome: Pasiku. Daí ficou aprovado e todos souberam que meu nome era Pasiku.O nome do meu pai, na nossa língua, é Kmowamr~e, e da minha mãe Sdupudi; no português, é Martinho e Evinha. Eles já morreram, primeiro meu pai, depois minha mãe...

Nós mudamos aqui pra Aldeia do Rio do Sono em 1983. Eles se agradaram daqui porque a terra é diferente: lá a terra era dura, aqui é mais arenosa. Lá na Baixa Funda, onde eu nasci, tinha uma escola onde estudei quase um ano. Aqui no Rio do Sono, naquele tempo, não tinha escola. Mas meu pai se esforçou pra eu escrever ao menos meu nome. Me procurou, queria saber se eu tinha interesse de estudar; eu falei que sim. Então, lá no Brejo Comprido tem uma irmã minha que se chama Benta, casada. Fui para lá e fiquei com ela, estudei lá até a terceira. Depois, mudei de volta para cá, porque desde 1980 começou a ter escola na aldeia e então estudei aqui mesmo a quarta. Eu gostava de português, porque era fácil entender; de matemática nunca gostei. Coisa que eu nunca aprendi, eu esforço pra ver se aprendo, gosto muito de aprender as coisas. Se tivesse condição, tinha estudado bastante. Mas meu pai não tinha e então parei pra ajudar na roça; roça de toco mesmo: derrubava os paus e queimava, depois plantava arroz, mandioca, milho. Minha mãe gostava de plantar inhame, batata doce, inhambu.

Eu tenho cinco irmãs e, comigo, cinco irmãos. Meu pai era alto e fino; não era muito conversador porque era meio surdo. Eu gostava muito dele, porque era esforçado no serviço da roça. Estudou até a terceira série. Em casa, nós falávamos só nossa língua mesmo, português é muito difícil. Meu pai dificilmente ia na cidade, só mesmo para tratar de algum negócio, algum problema. Lembro que um dia ele me levou pra cidade pra eu conhecer os brancos. Eu já tinha visto branco ali, na Baixa Funda: um professor e as enfermeiras, mas não era muito. Nossa, quando cheguei lá na cidade me espantei, fiquei nervoso de ver um tanto de branco. Eu tinha mesmo medo do branco, porque ainda não tinha pensado o pensamento assim no máximo. Quando vi aquele montão de branco, falei pro meu pai: “Vamos embora, papai.” Meu pai falou: “Não sente medo não, meu filho. Eles não mexem com ninguém”. Aí o medo passou.

Agora tem dias que eu penso em morar na cidade. Eu acho que todo ser humano pensa assim. Eu sou índio, mas se eu tivesse uma condição morava na cidade. Tem vezes que vou fazer compras na cidade e então, se eu tivesse uma casa lá, pra ficar tudo lá guardado, no dia que eu fosse não ocupava a casa dos outros. Mas eu não tenho condição, só o pensamento tem a vontade... Em 1985, parei de estudar e em 1989 me interessei em casar. Não tinha nada o que fazer mesmo, então resolvi casar e me casei. Ela é daqui mesmo dessa aldeia, se agradou de mim e eu também: deu certo.

Eu trabalhava na roça, até que um dia passou um agente de saúde que chama Pedro, veio aqui fazer a inscrição do pessoal para o PACS e perguntou se eu tinha interesse. Eu falei assim: “Rapaz, não tenho interesse, porque não tenho estudo”. Ele disse: “Não carece de ter um estudo tão grande. Se você estiver interessado é só fazer uma inscrição, talvez você passe”. Falei assim: “Eu vou tentar mesmo”. Fui fazer a inscrição e depois a instrutora, que chama Maria Helena, veio até aqui na aldeia para ver se tinha mais quem quisesse fazer a inscrição. Ninguém mais quis, eu acho que é falta de estudo mesmo. Todos nós daqui estudamos até a quarta série. Depois do treinamento, fui logo nos caciques e avisei pras comunidades o que a instrutora passou pra mim. Aí fui visitar, pesar as crianças, acompanhar as gestantes, também, fazer o cartão das crianças, ver a vacina. Foi duro demais, porque muita gente se estranhou do meu serviço. O pessoal perguntava: “Por que você pesa as crianças? Por que fala daquilo?” Muita gente disse que não carecia, mas muitos também acreditaram nas minhas palavras. Até hoje, já estou com dois anos de trabalho, muitos dizem não na minha vista. Antes de eu começar o meu trabalho, não era como hoje. Agora eu levo as gestantes pra fazer pré-natal lá no Posto de Saúde. Antes, só iam na hora que dava um problema. Tinha muita criança desnutrida, porque eles não sabiam como é que se trata, e ainda tem diarréia, não sei por quê. Quando eu chego na casa de uma pessoa e tem diarréia, dou só soro pra eles. Tem índia que não importa muito com filho e não se alimenta bem também. Pra uma mulher criar um filho, tem que se alimentar bem, pro leite ficar forte.

Depois que eu comecei a trabalhar, você pode chegar nas casas que são limpas. As vasilhas também. Eu falo pra coar a água e botar no filtro. Eles gostam muito de mim, conheço todo mundo. Trabalho em quatro aldeias, duas vezes por mês vou visitar todos. O importante é avisar pros caciques; tive que explicar para eles como é que eu trabalhava. Aí o cacique reúne a turma pra contar a história do meu trabalho. Na primeira vez que comecei a fazer esse trabalho eu não gostava, porque era muita coisa difícil. Os outros falavam de mim, falavam que não aceitavam que eu pesava as crianças, mas eles nunca ganhavam leite. Eles não queriam aceitar que o leite era só pras crianças desnutridas, de peso baixo. É difícil pra eles entender todas as coisas que uma pessoa passa. Tem uma aldeia, que chama Brejinho, onde me chutaram uma vez. O cacique falou que se dependesse dele não aceitava eu trabalhar mais lá. Mas eu não parei de ir, estava querendo explicar melhor. Depois o cacique veio aqui, pediu desculpa, disse pra eu não ficar magoado. Eu disse: “Tá bom, não vou me esquentar. Meu trabalho tem que ser livre, não posso discriminar as crianças de vocês.” Eles queriam me derrubar, mas eu não fiz mal pra eles, não briguei. Agora eles estão começando a gostar do meu trabalho. Depois que eu me entendi, acho que gostei demais desse serviço. Pesar as crianças, levar as mulheres gestantes pra fazer pré-natal, sair pra outras aldeias orientando pra lavar bem os pratos, cozinhar bem a comida, limpar o lixo porque através de lixo podre chega a doença.

Eu gosto e a minha natureza pede é mesmo essa profissão: mexer com as doenças, levar pro hospital, dar remédio. Já fazia isso antes, aprendi com uma enfermeira que morou aqui na aldeia e me ensinou várias coisas. Tem muito remédio do mato também que o índio usa. Para gestante descer o neném, o índio faz um saco com folha de algodão, cozinha, bota um pouquinho no sal e toma. Para o leite da mulher ficar forte, faz uma paçoca de coco. Hoje, aqui na aldeia, para melhorar o trabalho a gente precisa só de um carro pra comunidade. Porque se um índio adoecer ali no Brejinho, eu fico com dó. Me dá vontade de levar pra examinar no Posto de Saúde ou pra tomar remédio, mas não tem carro. Então eles fazem um remédio do mato. Teve uma vez que quebrou o pé de um rapaz lá do Brejinho e não tinha carro; eu tive que arriscar levar ele na bicicleta mesmo, pra socorrer. Peguei o cara e levei pro hospital. De outra vez, uma velha ficou doente e morreu, às 3 horas da tarde. Naquele dia eu também estava doente, não agüentei, não deu para fazer nada.

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