Busca avançada



Criar

História

Mudando o sertão

História de: Valéria Pereira Fagundes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/10/2012

Sinopse

Muito consciente dos problemas do sertão pernambucano, onde nasceu em 1987, Valéria Pereira Fagundes embutiu em cada trecho de seu depoimento um inspirador desejo de mudança. Ao contar sua história, em 2007, ela tinha 19 anos e mostrava nunca ter se contentado apenas com sonhos. Desde cedo, se engajou em melhorar a realidade de sua cidade natal, Manari, que chegou a ser tida como a de pior IDH do país. Trabalhou pela Secretaria de Educação, montou peça teatral, escreveu e leu em público uma bela carta reivindicando um transporte digno para levar estudantes, como ela, à única escola com ensino médio da região, na vizinha Inajá. Conseguiu. Na época em que falou dessa trajetória, fazia faculdade de Jornalismo no Recife e tinha a ideia de absorver novos conhecimentos para, então, voltar a Manari e continuar ali seu dedicado trabalho de transformação.

Tags

História completa

P1 – Bom, Valéria, para começar, eu queria que você dissesse o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.

R – Valéria Pereira Fagundes, cidade Manari, nasci em Manari.

P1 – Que dia e que ano?

R – 14 de dezembro de 1987.

P1 – Oitenta e sete. Tem quantos anos?

R – Dezenove.

P1 – E o nome dos seus avós, dos seus pais?

R – Josefa Maria da Conceição.

P1 – Quem é?

R – Minha avó. Manuel Honório Pereira, meu avô. Minha mãe, Madalena Pereira Fagundes, e o meu pai, José Melquíades Fagundes.

P1 – Os outros avós?

R – Os outros avós eu nem conheci.

P1 – Não chegou a conhecer. E eles são de Manari, os seus avós e seus pais?

R – São.

P1 – Também são de lá?

R – São, eu tenho uma avó, mas ela mora em Alagoas, o nome dela é Maria de Lourdes.

P1 – É mãe de quem?

R – Do meu pai.

P1 – Ele nasceu em Alagoas?

R – Não, em Manari mesmo.

P1 – Manari também. O que fazem os seus pais? O que faziam os seus avós e agora o que fazem os seus pais?

R – A maioria das pessoas que moram no interior geralmente faz as mesmas coisas. A grande maioria das pessoas que moram, a cidade é muito pequena, mas a grande maioria das pessoas trabalha na roça, na agricultura. Isso é passado de geração para geração, meus avós, meus pais também. Mas meu pai não vive só da agricultura porque, como lá é muito seco, você tem que esperar para poder a chuva cair e, sei lá, é muito complicado. Tem que arrumar outras formas de sobreviver. Aí, ele tem uma pequena padaria, o meu pai, e minha irmã trabalha lá com ele, ajuda ele. Minha mãe é dona de casa, e ele também é marchante, ele trabalha com boi, essas coisas, gado.

P1 – Venda de boi?

R – Sim.

P1 – Seus avós também faziam isso, trabalhavam na lavoura também?

R – Também, só a minha avó hoje é viva, que mora lá em Manari. Meu avô morreu faz dois anos, mais ou menos. Ela tem 80. Não, ela tem 95, eu acho, por aí, mas ela faz tudo.

P1 – Ah, é? Cuida da casa, está lúcida?

R – Varre casa, lava louça, sim. Se você perguntar coisas que aconteceram quando ela era novinha, ela conta de uma maneira que você fica...

P1 – Ela mora com vocês?

R – Ela mora bem próximo da minha casa. Todo dia, a gente está lá, minha mãe está lá.

P1 – E como é que foi sua infância em Manari? Do que você se lembra, o que você gostava de fazer, como é que era a sua casa?

R – Bom, minha casa sempre foi uma bagunça porque é muita gente, nove filhos.

P1 – Nove filhos, nove irmãos?

R – Sim, os meus pais tiveram nove filhos, têm eu e mais oito, são cinco homens e quatro mulheres (risos). E eu sempre gostei de jogar bola, passei minha infância quase toda jogando bola, quebrando perna, quebrando braço, essas coisas, e foi assim minha infância. Também, na minha época de infância, meus pais tinham um mercado e uma sorveteria. Eu também ajudava eles, depois ia para a escola, depois voltava, ajudava, depois ia para a escola e jogava bola (risos).

P1 – Você é a mais nova, a do meio?

R – Não, tem dois mais novos, eu sou a antepenúltima. A mais nova tem 16, e tem uma irmã que tem 17.

P1 – Você se lembra da sua casa, como é que era?

R – Lembro.

P1 – Quando você era bem pequenininha, como era?

R – Eu me lembro, eu tenho alguns relances da minha infância porque acho que, quando eu tinha uns, acho não, quando eu tinha uns três anos, meu irmão tinha quatro, e tinha dois mais novos. A única coisa de que eu me lembro, com um pouco de clareza, porque o meu irmão sofreu um acidente, a gente estava brincando na frente de casa, ele sofreu um acidente e acho que foi uma das coisas que ficou, que marcaram minha infância.

P1 – O que foi esse acidente?

R – A gente estava brincando normal, ele estava deitado na rua e um carro passou por cima dele (risos). Sério, sério. Mas ele se recuperou, ele tem a barriga toda costurada, toda ponteada até hoje, mas sobreviveu, né? Aí foi o fato que até hoje eu lembro e que sempre que a gente se encontra dá risada junto (risos).

P1 – Ele também dá risada?

R – Agora dá (risos). Depois que passou.

P1 – E como é que era a rotina de vocês em casa, com tantos irmãos, e os pais precisando cuidar disso, dar conta de nove filhos? Como é que era a rotina de vocês?

R – Era legal. Todo mundo sempre ajudou meus pais, meus irmãos também sempre trabalharam, todo mundo, desde criança, aprendeu a trabalhar cedo para justamente aprender cedo e para, quando chegar a vida adulta, não ter que passar por tanta coisa. Então, a gente já aprendeu desde cedo a trabalhar, e era assim, sempre muito animado em casa, sempre muita gente. Foi uma infância muito boa, apesar da vida em si no sertão ser muito árdua. Por exemplo, na minha infância, eu me lembro que, para a gente poder pegar água, lá não tinha água encanada, então, todo mundo tinha que pegar lata, colocar a lata na cabeça e buscar água em cisterna, em sei lá, alguma coisa do tipo. Apesar dessa vida árdua, houve muito espaço para se divertir. Como lá sempre foi muito tranquilo, e quando, na minha infância, ainda era mais tranquilo, hoje tem aproximadamente 16 mil habitantes, é pequena a cidade. Então, até hoje é muito calmo e, antigamente, é que era mesmo, a gente vivia brincando pelo meio da rua, era muito bom a questão da liberdade.

P1 – Quando você foi pra escola pela primeira vez, quantos anos você tinha?

R – Seis.

P1 – Seis anos. Você se alfabetizou na escola com seis anos, você tem que lembranças desse período?

R – (risos) Ah, eu tenho várias, eu lembro que o professor, quando eu estudava, acho que alfabetização, por aí, ele sempre levava um monte de brinquedo, que era tipo joguinhos pra gente juntar, e todo dia eu tentava fazer um castelo com os jogos e nunca conseguia, sempre vinha alguém e derrubava. Aí, até hoje, quando eu tento fazer alguma coisa que não consigo eu digo: “Derrubaram o meu castelo de novo.” Então, foi assim, uma coisa que ficou bem marcada na infância foi isso, a questão do castelo (risos).

P1 – Simbólico, né?

R – É, simbólico, tem certas coisas que marcam mesmo a vida da gente, o castelo foi uma delas.

P1 – Você tem a lembrança de como que foi o seu processo de alfabetização, do que você gostava?

R – Eu sempre fui muito arteira, muito mesmo, aluna de pular a janela da escola, pular o muro da escola, ir jogar bola (risos). Os professores sempre encontravam dificuldade de trabalhar comigo.

P1 – Por quê?

R – Por conta disso, porque eles não sabiam como prender minha atenção. Sempre foi muito difícil, principalmente no começo, no início, que ele ainda não, professor não tem como saber como é que o aluno aprende, de aluno para aluno, nem tem tempo para isso, né? Então, eles trabalham de uma forma muito geral e eles ainda não conseguiam compreender o que fazer para ter minha atenção.

P1 – O que te prendia a atenção?

R – Depois, eu vim a descobrir, foram os livros. Foi uma dessas formas porque, como eu era muito arteira, as professoras sempre procuravam alguma coisa para eu fazer, mandavam eu ir arrumar a secretaria, arrumar, sei lá, fazer um monte de coisa, conversavam e tudo, mas não conseguiam. Aí, mais na frente, foi que conseguiram, porque aí que vem a história do livro e tudo.

P1 – Tinha biblioteca a escola?

R – Não.

P1 – E como é que você teve contato com os livros?

R – Então, como eu era muito arteira, teve uma professora minha de Português que, todos os dias, ela me colocava de castigo na secretaria. Ela me colocava para ler um monte de livros. No início, eu odiava, odiava mesmo, mas depois eu fui...

P1 – Mas por que você odiava, por que era castigo, por que você não gostava dos livros?

R – Acho que era porque eu estava ali obrigada. Mas depois eu fui gostando, fui lendo e gostando, fui gostando até hoje.

P1 – Mas o castigo era ler livro na secretaria?

R – Era, não era um castigo, eu achava que era um castigo, mas era uma forma na verdade de elas tentarem prender minha atenção, alguma coisa do tipo.

P1 – De que livro que você lembra, os primeiros que você leu, que te prenderam a atenção?

R – O primeiro que eu li foi O Pequeno Príncipe, depois li O Mundo de Sofia, e depois...

P1 – Mas pequenininha?

R – Sim, não. Nessa época, eu gostava de ler cordel, os professores colocavam um monte de cordel, revistas interessantes de escola e tudo. Aí, depois que eu peguei o gosto pela leitura, comecei a ler O Pequeno Príncipe.

P1 – E do que você brincava na escola, como é que era? Tinha bastante liberdade, você tinha bastante amigos, como é que era isso?

R – Naquele tempo, os professores faziam muito piqueniques, eu acho que não é normal em escola nenhuma, mas eles sempre, elas sempre levavam a gente, tiravam a gente da sala e levavam para campo. E aí a gente fazia piquenique, jogava bola, pulava amarelinha, era muito bom. Foi muito boa a minha infância. Eu sempre, minha infância, eu sempre, meus irmãos sempre estavam junto porque todo mundo estudava. A gente se via na escola, sempre aprontava junto, fazia tudo.

P1 – A família que era terrível.

R – (risos) Era, de certa forma. Mas meu pai sempre foi muito rígido, do modo dele, por ele ser evangélico, ele e minha mãe, aí tinha coisas que eles não aceitavam, mas que deixavam a gente fazer, tentavam não deixar, mas a gente sempre fazia. Ele levava a gente pra igreja, tinha uma menina que era muda na igreja. Aí ele levava, e a gente ficava beliscando ela, e ela começava a gritar. Aí, o meu pai nunca mais levou a gente pra igreja, eu achei bom (risos). A gente dormia na igreja. Quando acabava lá o culto, a minha mãe acordava a gente, e a gente ia pra casa. Até que enfim, o meu pai não levou mais, mas até hoje ele vai e até hoje o senhor que é pastor olha para mim assim, porque a muda era filha dele (risos). Ele não faz mais nem questão de eu ir (risos).

P1 – Mas a família toda era terrível assim ou era só você?

R – Não, eu, e tinha outro irmão que era assim também (risos).

P1 – Os oito eram conhecidos na cidade.

R – Tinha outro irmão que era assim também, só que o outro, ele tem fama de ter sete vidas porque ele já sofreu vários acidentes. Esse que o carro passou por cima dele.

P1 – Mas o carro não passou em cima dele assim.

R – Passou por cima da barriga dele, sério.

P2 – Quantos anos ele tinha?

R – Ele tinha uns quatro, ele tem a barriga toda ponteada, a barriga abriu, é incrível, e ele sobreviveu. Aí, pronto, a primeira vez que a gente veio em São Paulo, acho que foi em 93, por aí, veio a família toda, todo mundo pequeno, todo mundo.

P1 – Como vocês vieram?

R – Numa Sprinter, oito irmãos e meu pai e minha mãe (risos). Foi uma bagunça, claro.

P1 – Como foi essa viagem?

R – Foi uma bagunça total dentro do carro, porque, quando meu pai brigava com um, o outro começava, quando brigava com o outro, o outro começava, mas acho que foi por isso que foi tão divertida, porque você aguentar quatro dias dentro de um carro de Manari para São Paulo...

P1 – Vocês já tinham saído de Manari?

R – Não.

P1 – Não, primeira vez?

R – Foi. Aí que a euforia era grande, a gente veio para cá, para São Paulo, e, quando chegou aqui, esse meu irmão sofreu outro acidente (risos).

P1 – Um pouco mais leve, imagino?

R – Não sei se foi mais leve (risos).

P1 – O que aconteceu?

R – A gente estava soltando pipa, a casa que a gente estava aqui era o segundo andar, era bem alto. Ele soltou a pipa, eu brinquei com ele, arenguei com ele, ele soltou a pipa, e a pipa ficou presa num fio de alta tensão. Aí ele, a gente subiu até lá em cima, ele disse: “Valéria, pegue ali um pau pra eu tentar tirar a pipa.” Eu fui, dei um trilho de cortina. Quando o trilho pegou no fio de alta tensão, ele ia morrendo de novo (risos).

P1 – É de nervoso ou é de engraçado?

R – Não, agora é engraçado, eu ia matando ele duas vezes, porque eu dei o trilho e porque eu não deixei ele chorar (risos). O médico disse que ele tinha que ter chorado, sei lá, para soltar a emoção, sei lá o que era. Aí eu: “Saulo, se você chorar eu lhe mato.” Todo mundo se trancou dentro do banheiro, eu e meus outros irmãos, e minha mãe sentiu o fedor da fumaça do corpo dele de lá de baixo (risos). Subiu, levaram ele para o hospital. O médico pegou e disse assim à minha mãe: “Minha filha, já estou com não sei quantos anos de profissão e eu nunca vi um caso desses, porque as pessoas geralmente que levam um choque dessa intensidade morrem na hora.” (risos)

P1 – E, agora, ele é seu amigo, ou ele tem medo de você?

R – É, ele é meu amigo, eu vou ver hoje (risos). Mas teve vários outros.

P1 – Ele mora aqui?

R – Mora, hoje ele mora aqui em São Paulo, e aqui foi que ele já sofreu acidente mesmo, de moto principalmente. Ele é assim, todo mundo diz que ele tem sete vidas, mas acho que já passou as sete (risos). Mas ele tem 21 anos, trabalha aqui, tudo, mas a gente tem uma relação sadia (risos).

P1 – Mas, voltando lá pra viagem, então vocês ficaram quatro dias viajando?

R – Foi.

P1 – Por onde você passou, você se lembra que cidades? O que foi sair de Manari para o mundo, passar por Recife, imagino que vocês devem ter passado por Recife? Enfim, o que você lembra disso?

R – Uma passagem que eu me lembro bem foi quando a gente passou, acho que em Vitória da Conquista, eu acho que tinha um parque, tinha um monte de brinquedo lá, e a gente ficava brincando. Todo lugar, toda hora era tempo e era hora pra brincadeira. Minha mãe ficava irritada, e a gente lá pulando e minha mãe: “Entrem dentro do carro.” E um correndo para um lado, outro correndo para o outro (risos). Foi muito boa a viagem.

P1 – Vocês iam parando nas cidades, dormiam nas cidades ou acampavam, como é que era?

R – Dormia dentro do carro.

P1 – Dentro do carro?

R – Sim, na frente dos hotéis, nos hotéis. Foi boa a viagem.

P1 – E aqui em São Paulo, vocês conheceram algum lugar?

R – Sim, a gente sim, os irmãos. Agora, meu pai e minha mãe, coitados.

P1 – Por quê?

R – Eles ficavam muito preocupados, também, nove.

P1 – Não dava para desgrudar, né?

R – Não.

P2 – Por que vocês vieram para São Paulo, qual era o motivo da viagem?

R – Só passear mesmo.

P1 – Você tinha parentes aqui?

R – Tinha, naquela época já tinha, hoje é que tem mesmo. Porque quase todo mundo que mora no interior vem para cá, tentar a sorte aqui, isso é fato mesmo. Aí tem muita gente aqui ainda.

P1 – Lá de Manari, sua família, além de vocês nove, também é muito grande?

R – Sim, é muito grande.

P1 – São tios, são primos que vieram para cá, é isso?

R – É, foram poucos que continuaram lá, o resto, todos vieram embora e hoje estão bem. Hoje, se você perguntar se eles querem voltar para lá, nenhum quer, que já se habituaram aqui. Lá, as pessoas são muito, se contentam com muito pouco, a maioria acha que a vida só é aquilo, por nunca ter saído, por nunca ter outra visão das coisas, acho que por isso.

P1 – E aí você veio pra cá, umas férias, foram umas férias?

R – Foi.

P1 – E você tinha quantos anos mesmo?

R – Sei lá, em 94.

P1 – Treze, né?

R – É, por aí.

P1 – Você fez colegial lá em Manari também?

R – Só o ensino médio que eu tive que fazer em outra cidade, porque na época não tinha lá ainda ensino médio, mas até a oitava série eu fiz lá.

P1 – Como é que foi ser adolescente lá em Manari?

R – Ai, ai. Eu continuei fazendo as mesmas coisas que fazia na infância, só que aí eu já não aprontava, não. Foi quase tudo do mesmo jeito porque os professores quase não mudavam, porque, como a cidade é pequena, eram os mesmos professores. Minha turma foi a primeira da escola, do Estado, de Manari, a entrar para a quinta série e terminar a oitava e tudo. Aí foi aquela euforia, porque até então não tinha, só tinha até quarta série lá, porque, como a cidade é muito nova, a cidade só tem dez anos. Era isso, eu adorava os professores de lá, só não gostava de Matemática, mas da professora eu gostava, mas da matéria em si, eu nunca gostei de Exatas.

P1 – Ah, de Exatas. Você gostava do quê?

R – Português, História, essas coisas.

P1 – Você gosta de escrever, né?

R – Gosto.

P1 – O que você escreve?

R – Depende.

P1 – Desde aquela época você gostava de escrever, o que você escrevia naquela época?

R – Ah, eu sempre escrevi muitas coisas sobre o sertão, como era que eu via o sertão, essas coisas, como era que eu via que as pessoas viam o sertão. Geralmente, quando as pessoas perguntam de onde eu sou, que eu digo que sou do sertão, que venho do sertão, as pessoas sempre imaginam, sei lá, a cabeça de um boi na porteira, alguma coisa desse tipo, todo mundo passando fome. E aí eu sempre fui meio, sou muito constrangida por isso, porque o sertão não é só isso, e era isso que eu tentava passar através dos textos.

P1 – O que é o sertão?

R – Ah, o sertão é um lugar bom de se viver, muito bom mesmo, para quem gosta de calmaria e de correr no meio da rua, jogar bola no meio da rua atá tarde, dormir na rua se quiser, brincar de amarelinha. Lá, as crianças ainda brincam de elástico, amarelinha, coisas que a gente não vê em todos os lugares. Eu sinto falta disso, eu acho que as crianças de hoje não têm uma infância muito sadia. As formas de se divertir são outras, acho que mudou muito.

P1 – E os jovens lá, como é que se divertiam? O que tinha para fazer em Manari, para o jovem? Fazia o quê?

R – Lá em Manari tem um ginásio de esportes, é enorme. Lá, de vez em quando, tem cursos de teatro. As meninas também, a maioria joga bola, os meninos também. Lá tem muita festa, discoteca, tem um espaço que tem festa e tudo. Aí os jovens vão também.

P1 – E você aproveitou o quê disso tudo?

R – Tudo (risos).

P1 – Tudo?

R – Tudo.

P1 – Você ia pra baile?

R – Ia, escondido, mas ia (risos). Porque, como os meus pais eram evangélicos, eles não deixavam ir. E eu levava, eu ia com minha irmã, a gente ia para a festa. Quando chegava no começo da rua, tirava a sandália para meu pai não ouvir o barulho. Entrava em casa na ponta do pé, ia dormir e ele nem sonhava, só se hoje ele descobriu, mas já passou.

P2 – Como eram as festas e os bailes? O que tocava, como vocês se arrumavam para ir?

R – Lá é muito forró. Pernambuco, forró, mas tem de tudo. O ruim é que eram sempre as mesmas pessoas (risos). Você nunca via gente nova, mas ia só para se divertir, só para dançar. Sei lá, era isso.

P1 – Você já namorava?

R – (risos) Ficava, né? Ai, ai, ai.

P1 – E os seus pais também não sabiam?

R – Não (risos). Os pais não sabem de muita coisa (risos). Ai, ai.

P1 – E programas culturais? Você fez teatro, você aproveitou o curso de teatro? Você falou que aproveitou tudo que tinha lá, né?

R – Foi, eu fiz um curso, o primeiro curso de teatro que eu fiz, tinha 16 anos, eu acho, 15. E nós conseguimos montar uma peça de teatro que foi, na verdade, um resgate histórico da cidade. Nós pegamos depoimentos das pessoas mais idosas, e elas nos disseram como era que tinha se formado o município, primeiros habitantes. A história da cidade em si é muito interessante. Porque hoje o nome da cidade é Manari, só que antigamente era Mariana, porque era o nome de uma índia, uma escrava que foi para lá, para Manari, junto com a primeira família que habitou lá em Manari. E lá em Manari, ainda hoje, tem uma lagoa, só que antigamente essa lagoa era cercada de muito mato e tinha muito porco-espinho, porcos selvagens. E conta-se que essa índia, que o nome dela era Mariana, foi buscar água na lagoa e os porcos a devoraram. O nome da vila ficou Vila Mariana, e depois não sei porque mudaram para Manari, não tem nem lógica. Era melhor ter deixado Mariana.

P1 – Mas é um nome indígena Manari? Qual é a origem?

R – Dizem que é indígena, até hoje ninguém nem sabe porque colocaram, mas todo mundo, as pessoas até hoje falam que querem mudar, querem colocar de novo Mariana, pelo menos é uma homenagem, né? A coitada da índia que morreu devorada (risos).

P1 – E do que você gostava? Por que você fazia teatro, como é que você se sentia?

R – Eu gostava porque, nas aulas de desenvolvimento pessoal, o teatro trabalha muito isso, a questão do desenvolvimento pessoal, e eu comecei a me conhecer, a saber do que eu gostava, do que eu não gostava, através do teatro. E é uma forma também de expressar o que você sente, seus anseios, seus medos, suas expectativas, seus sonhos. O teatro abriu as portas para mim para tudo. Aí, eu não parei mais.

P1 – Por quê? O que você passou a fazer depois?

R – Então, nós passamos muito tempo fazendo, apresentando essa peça que nós fizemos. O nome da peça é Em Busca da Cidade Esquecida, porque ninguém, até pouco tempo atrás, ninguém nem lembrava que Manari existia. Então, a gente conta os sonhos do povo de lá, as expectativas, como é a vida lá, assim por diante.

P1 – E você, o que você descobriu?

R – Eu descobri a missão que eu tinha, enquanto ser humano, enquanto pessoa, que é de tentar mudar o entorno que eu vivo, tentar melhorar, porque hoje eu sei que as pessoas não têm uma visão muito ampla sobre o que são as coisas, sobre o que são direitos. Porque as pessoas que moram no interior acham que o governo, ou quem é ali de política, faz as coisas, que é um favor que eles fazem para a comunidade, mas não é. É uma obrigação, só que eles ainda não têm essa visão, por isso se contentam com tudo. E eu nunca me contentei, acho que por isso que eu sou assim, sei lá, diferente.

P1 – Como é que você vivia essa missão, o que você fazia? Quando você descobriu isso, o que você passou a fazer?

R – Com 14 anos, 15, por aí, eu já ia para Recife sozinha. Saía de Manari, de Manari para Recife são seis horas, participar de conferências sobre educação, eventos, eu, sozinha. E aí, quando eu chegava nesses eventos, o pessoal da organização queria me barrar porque diziam que eu era muito nova e que eu estava sozinha, não sei o quê. Mas eu sempre ia. No começo, meus pais ficavam com medo, porque sair sozinha... E eu ia, passava semanas, depois chegava em Manari, repassava o que eu tinha aprendido, tentava fazer alguma coisa para lá. Era isso. Depois comecei a trabalhar para a Secretaria de Educação, novinha também.

P1 – Com quantos anos você começou a trabalhar?

R – Dezesseis, eu já trabalhava com isso. Ia pra escola, ajudava lá no que precisava, depois passei a trabalhar na secretaria e depois fiz vários outros cursos.

P1 – Você ganhava um salário?

R – Ganhava (risos). Ganhava e ainda ajudava o povo, né?

P1 – Que povo, a sua família?

R – O povo de Manari.

P1 – O que você fez com o seu primeiro salário, você lembra?

R – Eu não lembro, não.

P1 – Não?

R – Acho que paguei o que devia (risos). Mas era isso, basicamente.

P2 – Você conhecia alguém em Recife? Quando você ia para Recife, você já conhecia alguém de lá ou não?

R – Não.

P2 – A primeira vez que você foi?

R – Não conhecia ninguém.

P1 – Mas como é que era isso, você chegava naquela cidade...

R – Eles sempre fazem, os Estados fazem conferência e tudo, e você pode se inscrever, por cidade, por região, e eu sempre me inscrevia.

P1 – Então, mas você ia com um grupo da escola?

R – Não, eu sempre ia sozinha.

P1 – Mas você ia lá, pegava o ônibus, chegava em Recife e aí?

R – Sim, e aí chegava, ia para o encontro, meu nome já estava lá, e o governo que pagava hotel, hospedagem e tudo, porque, como eram conferências estaduais, toda despesa era por conta do governo. Você só precisava se inscrever. Por exemplo, de cada região ou microrregião iam duas ou três pessoas, e eu sempre ia. Quando eu fui a primeira vez, nas outras já ficou mais fácil porque, quando eu entrava lá na conferência, todo mundo ficava olhando: “O que essa menina está fazendo aqui?” Quando eu começava a falar, o povo: “Ah, já sei o que ela está fazendo.” Aí, pronto, sempre que tinha, eu nem me inscrevia, o pessoal já chamava e eu ia.

P1 – E lá em Manari os seus amigos também te acompanhavam nisso?

R – Não, eu sempre fui muito solitária, por acreditar nessas questões sociais, nessa questão de mobilização. Porque os jovens de lá, assim como muitos, não se interessam, se interessam muito com si próprio. “O que é que eu vou vestir amanhã? Com quem eu vou namorar amanhã? Com quem é que eu vou sair amanhã?” Essas coisas fúteis. E eu não era assim. Às vezes, eu ficava lendo, levava livro para ler na escola, eu ficava lendo, não sei o quê, e todo mundo: “Tu vai endoidar, Valéria, tu só faz isso.” E não sei o quê. E também porque é muito difícil trabalhar em cidade do interior, porque as pessoas ainda têm a mente muito condicionada e, quando a gente, quando eu fazia projeto, fazia curso, era sempre muito difícil ter o apoio até da própria comunidade. Porque eles ainda não entendiam, era muito, sempre foi muito difícil, até hoje.

P1 – Como você sentia isso?

R – Eu ficava triste.

P1 – Ficava triste?

R – Porque, no meu ponto de vista, eu era vista como se fosse um ET, porque ninguém nunca fazia o que eu fazia, era triste na maioria das vezes. Eu me sentia só porque, muitas vezes, eu tinha necessidade de conversar sobre essas coisas, de ter mais opinião de outras pessoas e tudo, só que as pessoas não eram abertas para esse tipo de coisa. Agora, se dissesse: “Amanhã tem uma festa, vamos, vai todo mundo?” “Vamos!” (risos) É isso lá.

P1 – E aí você ficou em Manari até quando?

R – Só faz três meses que eu estou em Recife, pouquíssimo tempo. Já voltei lá em Manari umas três vezes para rever família.

P2 – Mas colegial você não fez em Manari?

R – Não, o ensino médio eu fiz em Inajá, eu fiz até a oitava série em Manari, lá ainda não, a escola ainda não disponibilizava o ensino médio. E aí todos os jovens que tinham que fazer o ensino médio tinham que sair de Manari, ir até a cidade vizinha, o nome da cidade é Inajá. E na época que eu comecei não tinha nem asfalto de Manari a Inajá. Então, era muito difícil. Além do transporte, a estrutura ser horrível, não tinha estrada, quando não era muita poeira, era muita chuva. Foi sempre assim. Foi asfaltado lá acho que ano passado.

P1 – Você ficou morando em Inajá ou você ia e voltava todo dia?

R – Não, todo mundo ia e voltava, eram 40 minutos, por aí, de ônibus.

P1 – Como é que foi? Inajá é uma cidade maior que Manari ou não?

R – É um pouquinho maior, mas lá já tem o ensino médio, todo mundo tinha que ir para lá. Foi muito difícil, não só pela questão de ter que sair de lá de Manari e ir para Inajá, mas acho que o que ficou mais forte foi porque a gente teve que deixar os antigos professores, amigos, que não se dispuseram a ter que estudar em outra cidade. E aí, a partir dessa época que todo mundo começou a se distanciar, uns não aguentaram a luta e desistiram, porque não é fácil, não. Era muito difícil mesmo, mas a gente sempre ia superanimado em cima do caminhão, chovendo, e a gente lá cantando.

P1 – Ia de caminhão?

R – Sim, porque na maioria das vezes não tinha ônibus. Como a estrada era muito ruim, os ônibus quebravam com muita frequência. Não era nem só culpa dos políticos, mas era muito difícil o acesso até lá. Os carros quebravam com muita frequência mesmo. Quando a gente descia de casa para ir para a escola, já descia sabendo que ia de caminhão ou que ia de ônibus velho e descia animada assim mesmo, porque não tinha mais o que fazer. Mas foi assim. E, quando chegou lá em Inajá, que era a outra escola, aí foi que foi difícil.

P1 – O que foi difícil?

R – Porque, como a gente saía de uma cidade para ir para outra, os alunos da cidade, que eram de Inajá, já olhavam a gente de outra forma. E, quando o caminhão parava na frente da escola, que todo mundo descia, imagina? Todo mundo rindo (risos). E aí a gente arengava, brigava, xingava, era assim. Eu não gostava dos professores, depois que passei a gostar, mas, no início, não. Não sei se era porque eu ainda era muito apegada com os antigos professores e eu que não era permissiva a isso.

P1 – E aí você ficou três anos em Inajá, é isso?

R – Quatro, porque lá, ensino, você pode optar, você pode fazer estudos gerais, que é EG, que acho que aqui chamam Científico, que só são três anos. Mas você pode optar por fazer Magistério, uma formação mais voltada para professor, para isso. Aí, minha mãe me obrigou a fazer.

P1 – A sua mãe te obrigou a fazer?

R – Sim, porque eu queria fazer Científico, eu não queria ser professora, mas lá, como...

P1 – Por que você queria fazer Científico?

R – Porque aí você tinha mais opção de escolher o que você queria fazer, mas, como Manari é uma cidade pequena, e quase todo mundo lá é professor, por isso a preocupação dela também de fazer.

P1 – E aí então você fez o Magistério?

R – Aí eu fiz, terminei o ano passado.

P1 – E que tal?

R – Não gostei, não.

P1 – Não gostou?

R – Não.

P1 – Por que você não gostou do magistério?

R – Porque eu acho que eu não dava para ser professora. Quando eu penso o que eu aprontava e o que elas tinham que aguentar, eu pensava: “E se fosse eu no lugar delas?” Depois que eu vim a pensar isso, né? E tinham muito piores que eu (risos). Para você ser professora, você tem que estar disposta a aguentar muita coisa, além do salário, que é insuficiente, ainda tem a questão do desrespeito que as pessoas têm, as pessoas não valorizam professor. Apesar que eu valorizo, porque meus antigos professores até hoje eu mantenho muito contato com eles, sempre que eu vou a Manari vou até a casa deles. Então, eles marcaram muito minha vida. O último dia de aula, vixe! Lá em Manari, na oitava série, foi quando a professora de História, Jozinha, disse que era o último ano, mas ninguém vai chorar e não sei o quê. Aí eu comecei: “Ah!” Todo mundo começou, mas foi uma fase muito difícil ter que deixar os professores de lá e ter que ir para Inajá. Mas depois eu me habituei aos professores de Inajá, eles eram legais, Denise, todo mundo.

P1 – Você queria fazer o Científico pensando em fazer o quê depois, que perspectiva você tinha?

R – Eu ainda não sabia o que eu queria fazer porque eu gostava de fazer muita coisa.

P1 – O quê?

R – Eu sempre trabalhei lá com mobilização social, com projeto. Aí eu pensei em fazer Assistência Social, já pensava também em fazer Jornalismo. Gostava de fazer teatro, queria fazer Artes Cênicas. Aí, eu tive que definir, tinha que ter uma escolha, tinha que fazer minha escolha. Ano passado, eu ainda cheguei a prestar vestibular para Pedagogia, passei, mas eu não fiz porque eu disse: “Não, eu quero fazer Jornalismo mesmo.” Decidi esperar mais um pouquinho e fiz. Minha irmã que é professora.

P1 – Ah, ela é professora lá em Manari mesmo?

R – Sim, ela é professora, ela tem 27 anos, já faz algum tempinho que ela estuda. Às vezes, ela chega estressada lá em casa, aí eu: “Quem mandou ser professora?” (risos) É engraçado porque ela chega muito estressada e, quando não tem aula, ela se estressa em casa. Aí: “Eu preferia estar na escola.” Disse: “Ninguém entende vocês, professores.” (risos) Eles gostam mesmo, é difícil, mas gostam, se não, não aguentariam o que aguentam também, o descaso.

P1 – E você, então, acabou o colegial. Aí, nesse período que você fazia colegial lá, você não trabalhava, né? Porque você estudava em Inajá, mas morava em Manari, ou você trabalhava em Manari?

R – Não, dava para trabalhar.

P1 – Dava, em Manari?

R – Sim, depois meu pai vendeu o mercado para a minha irmã. Minha irmã se casou, mas ela ainda continuou com o mercado. Aí, eu sempre ajudava lá, e eu estudava à noite. A gente saía de Manari cinco e meia da tarde, dava para fazer tudo, sempre ajudei minha mãe em casa, minha avó também, todo mundo me explorava um pouquinho (risos). Mas era bom (risos).

P2 – A escola mesmo em Inajá, o espaço, os alunos eram muito diferentes de Manari? Quando você chegou, você teve um estranhamento?

R – Não, eu não senti muito estranho porque eu sou muito cara de pau, eu vou na onda das pessoas. Se elas forem legais, eu sou, se não, paciência. Eles tiveram também que se habituar com isso, a respeitar, porque, como a gente vinha de Manari, de outra cidade, acho que eles se sentiam meio que ameaçados, sei lá o que era que existia. E sempre existia uma rivalidade entre Inajá e Manari, dos alunos: “Ah, a turma de Manari não sei o quê.” Aí, sempre existiu isso, mas depois isso foi ficando mais fácil, a convivência, até os professores mesmo.

P1 – Mas aí você sentia uma solidariedade entre o grupo de Manari?

R – Sim.

P1 – Você tinha dito que antes era a estranha, né?

R – É.

P1 – Mas lá foi mais...

R – Depois que eu comecei a trabalhar, que as pessoas ficaram conhecendo o meu trabalho, não diziam nada, mas também não apoiavam. Eu tentava chegar e conversar, eles: “Tá bom, Valéria, legal.” Só. Mas depois eles acostumaram. Hoje em dia, já tem mais jovem que participa de fórum lá, porque a gente sempre estava em cima para que eles fossem para as reuniões e optassem, dissessem o que era que estava errado, o que era que estava certo, para que cada um visse em que podia ajudar para tentar melhorar a cidade. Porque as pessoas também esperam muito pelos políticos, mas esquecem de fazer a parte. Eu acho que só esperar também não adianta, né?

P1 – Bom, e aí você acabou o colegial lá e como é que foi?

R – Pronto, aí acabei, fiz quatro anos de ensino médio em Inajá, esse ano já vim para Recife, terminei ano passado lá. Foi fácil, foi mais ou menos fácil em Inajá porque colocaram em minha turma só o pessoal de Manari, não juntaram com o pessoal de Inajá, não sei por quê até hoje. Eu acho que porque, como o ônibus quebrava com muita frequência, podia ser que a gente não chegasse até a escola, e aí os alunos de Inajá iam ter aula normal e a gente iria perder. Acho que a intenção deles foi essa em colocar todo mundo junto. O dia que todo mundo se ferrava, ferrava todo mundo (risos). Mas acontecia muita coisa durante o trajeto de Inajá a Manari, nos caminhões, nos ônibus, vixe!

P1 – O quê, por exemplo?

R – Quando quebravam, quando estava chovendo e o ônibus ficava atolado na lama, todo mundo pegava um monte de corda, grudavam uma na outra e saíam puxando. Quando caía, caía todo mundo, e o caminhão lá atolado, a gente tinha que esperar um outro carro vir para desatolar o caminhão. A gente ficava brincando de ciranda no meio da noite, um escuro, um frio, e a gente lá brincando. Chegava em casa todo melado de lama e assim foram os quatro anos. Até hoje não é assim, porque hoje já é asfaltado, mas os ônibus de vez em quando também quebram, que é normal.

P1 – Hoje já tem ônibus?

R – Tem, mas hoje já está mais tranquilo, mas antes era pau, mas era divertido. A gente já estava tão acostumado com aquilo, que para as pessoas que vinham de fora aquilo era surreal, mas para a gente que morava ali era corriqueiro até (risos). E era de certa forma até engraçado. Mas se você dissesse: “Ah, eu vou para a escola de caminhão.” Ixi, todo mundo já lhe olhava assim: “Mas como de caminhão?” Eu: “Sim, de caminhão.” E algumas pessoas também tinham vergonha de dizer que iam para a escola de caminhão. Quando a gente chegava lá, em Inajá, para descer do ônibus, tinha gente que se escondia, a gente empurrava para todo mundo ver.

P1 – Você tinha vergonha?

R – Não, não, de jeito nenhum, eu nunca tive vergonha de quase nada. Eu sou meio cara de pau nesse sentido. Quando eu quero, eu quero. Minha família até, no início, quando eu viajava, minha mãe até ficava muito preocupada, meu pai, porque ninguém de lá fazia o que eu fazia. E eles também nunca entendiam porque eu agia desse jeito, porque eu era diferente, aí era meio que um pouco difícil pra eles. Mas eles sempre me apoiaram da forma deles, às vezes, nem entendiam o que eu ia fazer, nem o que eu estava fazendo, mas eles viam que era aquilo que eu queria e apoiavam. Então, eu devo muito a eles, e eles também não... O meu pai só estudou até quarta série, minha mãe também, porque eles tinham que trabalhar, e meu pai também sempre disse que a gente nunca, todo mundo lá trabalha de roça, na agricultura, ninguém da minha casa nunca trabalhou, meus irmãos, porque meu pai disse que não queria o que ele passou para a gente. Então, ele sempre trabalhou duro, e minha mãe, para que a gente tivesse acesso à escola e não precisasse trabalhar tanto como eles trabalharam. O que eu sou hoje eu devo a eles, o esforço que eles tiveram, eu e todos os meus irmãos.

P1 – Todos estudaram?

R – Todos estudaram.

P1 – E aí você, acabou o colegial, os quatro anos. Você voltou para Manari e aí?

R – Continuei fazendo curso, eu fiz um curso de um ano e meio, Direito e Cidadania.

P1 – Onde?

R – Lá em Ibimirim, porque lá, o Governo do Estado, o governo passado tinha um, ele sempre trabalhava, era um programa que tinha o que eles chamavam de PIDL, que era Plano Integrado de Desenvolvimento Local. O Governo do Estado trabalhava com os 11 municípios de menor IDH [Índice de Desenvolvimento Humano], então, os projetos eram quase os mesmos para os 11 municípios, que as necessidades eram basicamente as mesmas. Aí, eles sempre traziam cursos e tudo. Eu fiquei fazendo curso, participando de fórum, de tudo. Eu era integrante do Fórum Municipal e, quando tinha reunião para discutir certo tema, a gente passava nas casas convidando todo mundo para ir, convidava as entidades, montava peça de teatro e levava todo mundo para a Câmara de Vereadores, obrigava o povo a ficar lá sentado (risos). Depois, eles se habituaram e iam.

P1 – Sem precisar puxar.

R – É, sem precisar puxar. Mas era assim. Hoje já mudou muita coisa, por exemplo, desde que Manari ficou conhecida como a cidade de menor IDH, quando isso saiu no jornal, foi um choque, porque as pessoas...

P1 – Foi um choque para quem?

R – Para todo mundo que mora lá.

P1 – De Manari.

R – Porque ninguém até então tinha percebido que morava num lugar tão ruim assim, pelo menos que as pessoas enxergavam, mas que isso era fato porque foi considerado pela ONU [Organização das Nações Unidas] a cidade de menor IDH do país. Então, foi nessa hora que a gente parou para pensar: “Alguma coisa está errada e precisa melhorar.” Foi onde todo mundo ficou, quando a gente dizia: “Ah, eu moro em Manari.” Aí, todo mundo: “Ah, Manari, a pior cidade do mundo e não sei o quê.” “É, essa mesmo.” Foi um choque muito grande porque as pessoas não tinham essa noção que moravam num lugar tão ruim, porque não é assim que a gente vê lá, quem nasce, cresce e vive lá não é assim que vê. Porque geralmente a mídia e a maioria dos veículos de comunicação mostram o sertão de uma forma muito ruim, até muito árdua, mas ninguém vê o outro lado, que é o lado bom, que existe também. Como em todos os lugares, existe a vida árdua e existe a outra parte também. Eu acho, eu acho não, eu tenho certeza que uma das coisas que existem lá que não existem muito nos outros lugares é a questão do calor humano. Não sei se por a cidade ser muito pequena, e que eu senti falta quando eu vim para Recife, fiquei assim, meio que pensando. Porque, quando eu saía de casa, lá em Manari, todo mundo que eu encontrava cumprimentava. “Bom dia, boa tarde, como é que está?” Porque a gente já se conhecia. Em Recife não, ninguém lhe olha para lhe dar bom dia, ninguém nem sorri para você. Foi isso que chocou quando eu cheguei em Recife, mas agora eu já conheci mais pessoas, já dá para dar bom dia a alguns, mas ainda é estranho (risos). Se você chegar lá em Manari, todo mundo vai lhe receber com abraço, com afeto, porque as pessoas já lhe conhecem e têm essa questão também. Lá, todo mundo se ajuda. Numa cidade grande, se você estiver passando por alguma necessidade, ou passando qualquer problema, se você cair no meio da rua aqui em São Paulo, em qualquer outro lugar, ninguém vai parar e ver pelo menos se você está vivo. Lá não, se você chegar, as pessoas querem lhe levar para dentro de casa, que é assim que a gente faz mesmo, quer levar, fazer tudo. Então, eu acho que isso é um ponto muito forte, muito positivo do sertão e de Manari, as pessoas. Eu não consigo me distanciar de lá muito tempo, porque eu sinto falta disso, dos colegas, dos antigos colegas, dos professores também. Sempre que bate uma saudade, eu vou lá.

P1 – Como foi a decisão de sair de lá e ir para Recife?

R – Quando eu decidi o que queria fazer, eu sabia que eu tinha que sair de lá, porque todas as pessoas que fazem faculdade lá fazem em Arcoverde. Em Arcoverde, a única faculdade que tem só é para professor, então, todo mundo que quer fazer faculdade em Manari tem que ir para Arcoverde, que são duas horas de viagem. Então, duas horas para ir, duas para voltar, isso toda noite, todo dia. E eu não queria ser professora. Então, eu tinha que sair de lá para poder fazer, entrar na universidade. Aí foi quando eu decidi vir, e um dos objetivos também era tentar colher mais informação, mais aprendizagem, depois voltar para lá e tentar mostrar que a vida é muito mais além daquilo. Por exemplo, agora, eu estou trabalhando com mídia e educação, aí eu já estou bolando uma oficina de mídia e educação para levar para lá, para as pessoas verem como é, como não é. Eu queria que todos os alunos ou todos os professores visitassem a escola que eu estou trabalhando para ver como é a diferença. É uma coisa que me constrange também, que me deixa feliz por eu estar trabalhando lá, que é um centro de ensino muito bom, excelente, mas eu fico pensando: todos os jovens não poderiam estudar numa escola dessa? Aí eu fico pensando no povo lá de Manari, que tem que pegar ônibus, caminhão, não sei o quê. Aí é que me dá mais vontade de tentar fazer alguma coisa por lá.

P1 – O que você quer levar para eles?

R – Então, eu estava querendo levar para lá uma oficina de mídia e educação para eles aprenderem a trabalhar com equipamentos, com a mídia, com a informação, com tudo. Uma maneira de tirar os alunos de dentro da sala e possibilitar um acesso a outras coisas, além da sala, que você também pode aprender, sair da sala e aprender. Criar mecanismos de aprendizagem, coisas desse tipo, que fazem muita diferença, levar cursos de teatro para as escolas de lá. Muita gente tem vontade de fazer, mas lá não tem professor.

P1 – Mas na sua época de criança tinha.

R – Então, na minha época, tinha porque eram projetos. Quando o projeto passava... E aí, como mudou gestão e mudou tudo, os projetos não acontecem mais com tanta frequência. Eu tive que partir para outras coisas também.

P1 – Quando você teve contato com esse mundo novo, o que você sentiu, o que aconteceu com você, o que te abriu, o que você descobriu?

R – Foi como se eu tivesse saído do casulo, que era lá Manari, e ter conhecido o mundo. Foi uma experiência muito boa e que eu tive a certeza de que era isso que eu queria mesmo, que Manari é meu lugar, que eu me sinto muito bem lá, me sinto feliz, lá é onde estão as pessoas que eu amo, mas que eu preciso de mais. É uma necessidade minha e eu tinha que sair de lá para encontrar, para suprir essas necessidades. Talvez, as pessoas venham a ter também essa mesma necessidade, necessidades similares de buscar outras formas de desenvolvimento para lá e que precisem sair também. Talvez, se elas saíssem, já tivessem uma visão melhor sobre as coisas. O mundo possibilita nessa questão de visão. É vivendo e aprendendo.

P2 – Como você foi para Recife? Você decidiu ir e aí você tinha conhecidos lá? Tinha casa de alguém, procurou alguém, como você realizou, viabilizou sua ida para lá?

R – Quando eu decidi ir para o Recife, já tinha uma proposta de emprego, que nesse centro de ensino que eu já trabalho, que eu consegui também através dos contatos do filme, e eles me convidaram para trabalhar nesse centro de ensino. E aí o emprego já estava certo. Já tinha algumas amigas minhas que moram lá em Recife, que moravam lá, e que me convidaram para morar com elas. Aí eu fui. Deu tudo certo porque onde eu moro é bem próximo da escola onde eu trabalho, eu vou a pé, volto, é muito, Deus me ajudou muito. Acho que foi muito bom. Eu imaginei que seria bem mais difícil, pode ser que fique difícil agora, ou daqui para frente, que alguma coisa mude, mas até agora eu sempre tive muita sorte.

P1 – Você mora sozinha?

R – Não, moro com amigas.

P1 – Da faculdade ou da escola?

R – Não, elas moravam em Manari, elas nasceram em Manari, mas sempre moraram em cidades, em outras cidades, mas a gente sempre era muito amiga. E elas já estudavam em Recife, já fazem Direito. Já tem uma que está se formando agora esse ano, tem outra que se forma ano que vem. Aí eu estou com elas.

P1 – Você se sente bem com elas, elas te compreendem?

R – Me sinto, me compreendem porque elas já me conheciam, já sabiam o meu jeito, mas elas também não são muito ligadas nessas questões, não. O que penso sobre essas questões, eu meio que guardo para mim ou divido com alguém que se interesse também. Elas são ligadas mais nessa questão de Direito, não sei o quê. Essas questões muito formais, que não é minha área também. Aí, cada um com suas escolhas, né?

P2 – E na faculdade, como foi a entrada na faculdade?

R – O primeiro dia foi estranho, porque eu pensei que ia ter mais jovem e não.

P1 – E não tem jovem?

R – Eu acho que, porque eu optei por estudar à noite, e as pessoas que estudam à noite são as pessoas que trabalham. Acho que, se eu tivesse optado por estudar de manhã ou à tarde, sim, ia ter muito jovem, que a maioria não trabalha. Mas depois eu acostumei, porque é um pessoal que tem uma bagagem de experiência muito maior que eu tenho e que muitos já trabalham na área e tudo e aí já me auxiliam. A troca de experiência é muito boa. É nessas horas que a gente vê que não tem nada a ver a idade, nem nada. Acho que o conhecimento é sem fronteiras, a experiência também.

P1 – E lá você já produziu alguma coisa nessa área de mídia, o que você já fez?

R – Então, agora, os alunos estão com um projeto para apresentar no final do ano, que é no último dia que vai ter de aula, que os alunos vão ter que produzir vídeo. Eles que vão optar: fazer vídeo ou jornal, tem a rádio também que funciona na escola. E aí estão querendo fazer um megaprojeto com a questão do meio ambiente. Os alunos estão sendo divididos por turma, quem quiser fazer vídeo vai fazer vídeo, quem quiser fazer jornal vai fazer jornal, e aí montar uma produção grande para ser apresentada no último dia de aula que vai ter lá. A primeira reunião já teve para definir as equipes, quem ia coordenar as equipes, e os meninos estão superanimados. Aí, agora, a gente está trabalhando com isso. No que eu posso, eu auxilio os meninos.

P1 – Mas isso você está falando da escola?

R – É.

P1 – Mas e você, na faculdade?

R – Então, porque eu comecei a faculdade semana passada.

P1 – Ah.

R – Foi.

P1 – Ah, você entrou no meio do ano então?

R – Foi. Aí, por enquanto, tem que primeiro conhecer mais a turma, conhecer a faculdade, como é que a faculdade trabalha, a questão social também, se eles têm lá algum projeto, como é, que eu vou tentar ver agora.

P1 – Valéria, não tem como a gente não falar da sua participação no filme. E até você já citou, que inclusive o filme te pôs em contato com essa escola onde você está trabalhando. Então, como é que foi isso? Como é que te acharam lá em Manari?

R – Acho que o objetivo do filme era tentar fazer um retrato do sistema educacional no país e aí, como não dava para filmar todos os Estados, o diretor teve que optar. Então, ele filmou escolas de São Paulo, do Rio, e foi mesmo na época que saiu que Manari era a pior cidade para se viver. Eu acho que foi isso que o levou para lá, eu acho não, eu tenho quase certeza, para ver como era e tudo. Quando eles chegaram lá, foi aquele tumulto, porque ninguém até então tinha visto uma equipe chegar lá e filmar, entrevistar as pessoas. Todo mundo ficou com medo porque foi mesmo a época de política. Todo mundo pensou que tivesse alguma coisa a ver com política, em cidade do interior, todo mundo tem medo de falar sobre política porque é tudo muito influente lá. Aí, pronto.

P1 – Mas como é que foi, eles chegaram na praça? Tem uma praça?

R – Eles chegaram na praça, eles filmaram os estudantes esperando o ônibus para ir para Inajá, inclusive, eles passaram uma semana lá. O ônibus foi dois dias para Inajá, eles já viram por aí como era que funcionava. Filmaram algumas coisas, escolheram algumas imagens, depoimentos, e viram a necessidade de voltar de novo. Com o tempo, eles voltaram, filmaram mais, pegaram mais depoimentos. Aí, pronto. O diretor dizia que era um filme, só que ninguém tinha nem noção. Não era um filme, ninguém sabia o que era na verdade, e também demorou muito para ficar pronto. A gente estava quase sem, não tinha muita expectativa sobre o que era, nem que ia ter essa relevância toda o filme. E aí a gente foi tocando a vida do jeito que...

P1 – Mas como é que te acharam? Você foi atrás, como?

R – Não, então, acho que foi por conta... A gente estava lá esperando o ônibus, e a casa do prefeito ficava em frente onde ficam os ônibus (risos). E aí a gente subia lá na casa do prefeito, ele estava almoçando ou comendo, tirava ele da mesa para ele tentar resolver. Ele era acessível a isso, nas possibilidades dele, ele tentava ajudar. E aí era muito barulho na frente da casa dele, na frente do ônibus. E a gente sempre discutia, questionava sobre a questão do ônibus. E aí o diretor começou a conversar com algumas amigas minhas, só que, quando ele estava conversando com elas, ele não estava com câmera. Eu não sabia nem quem era ele, nada. Eu ia passando, minha amiga me convidou para sentar com eles, eu sentei. Aí, pronto. No outro dia, eles já foram filmar e tudo. Foi assim.

P2 – Mas como foi a conversa com ele?

R – Eles perguntavam o que era que eu gostava de fazer lá, como era que eu fazia para ir para a escola, basicamente essas coisas de escola mesmo. O que era que eu fazia, o que era que eu gostava de fazer na escola. E eu acho que, também, uma das coisas que me levou a ter a participação no filme foi a questão da poesia, porque acho que, quando eles chegaram lá, eles mesmos não imaginaram que, apesar das pessoas viverem naquela situação, naquela vida árdua, as pessoas ainda tinham tanta esperança como têm, né? Acho que foi isso uma das coisas que chamaram a atenção, e que ele colocou no filme e que é bem evidente. A questão da garra que todas as pessoas que moram lá têm (risos). Depois, ele foi embora, depois, a equipe foi embora, e a gente, quando tinha ônibus, a gente ia (risos). Quando não tinha caminhão, como eu já fazia teatro nessa época, eu disse: “Não, eu tenho que fazer alguma coisa.” Aí, teve um dia que teve a inauguração do Conselho Tutelar, eu digo: “Vai ser hoje.” Eles me convidaram para apresentar a peça que a gente já tinha feito sobre Manari, não sei o quê. Estavam o juiz, promotor e tudo. Aí eu: “Eita, meu Deus, é hoje.” (risos) Porque eu sempre chamava as pessoas para ir conversar com o prefeito, ir até a secretaria para ver se resolvia esse descaso do ônibus. Só que não é todo mundo que tem coragem, porque todo mundo tem emprego, todo mundo tem isso, todo mundo tem aquilo e tem medo de perder emprego e tudo. Porque a política é uma questão muito influente em cidade pequena. Aí eu, todo mundo apresentou a peça, o grupo de teatro apresentou a peça, eu disse: “Eu tenho uma cartinha para ler.” (risos) Eu disse rindo, todo mundo pensou que era agradecimento, alguma coisa. Aí, todo mundo: “Pode ler.” Peguei, disse: “Vai ser hoje.” Daí os meninos da própria peça que estavam comigo: “Valéria, tu não lê.” Aí: “Eu vou ler.” “Valéria, tu não lê.”

P1 – Mas você fez a carta sozinha?

R – Fiz. Depois da apresentação, estava lotada a escola, e o promotor e o juiz ainda estavam lá, e eu de olho neles. Eu disse: “Eu vou ler a carta.” Peguei e comecei. A carta era assim: “Ah, esqueci de me apresentar, me chamo garra, perseverança, me chamam de fé, e, quanto aos senhores, me chamem do que quiserem. Eu sou aqui do sertão, cidade do interior, e venho por meio desta para lhes pedir um favor, não escrevi por acaso, só estou representando, eu vim em nome do meu povo, que de vocês estão precisando. Só escrevo para pedir, se preciso implorar, pedir que transporte novo aqui se possa chegar. Os senhores não imaginam o sofrimento que é, no carro vai tanta gente, uns sentados, outros em pé, e a estrada é tão ruim, tem perigo de montão, e quando o carro se quebra logo vem a aflição. Eu quero pedir desculpas pela minha intromissão, mas que esse desabafo possa servir de lição para que o mundo veja a nossa situação e, quando alguém decidir vir aqui para o sertão, eu agora orgulhosa lhes mostro a direção. Sigam o mandacaru, o forró e o baião e então ao seu destino certamente chegarão. Mas ao chegarem aqui, podem vir me procurar, quando virem um caminhão seguindo para Inajá, vocês podem ter certeza de que lá eu vou estar, pois é naquela peleja que nós vamos estudar. Mas, se a luta continua, ninguém para de estudar. O homem já foi à lua e por que não vem pra cá? Pois se viessem teriam muito o que observar.” Quando eu terminei de ler a carta, todo mundo chorando (risos). O promotor, o juiz, todo mundo chorando. O promotor pegou o microfone, aí eu: “Ixi, é agora.” Ele pegou e pediu que o prefeito tomasse alguma providência cabível e deu um prazo, visse? Aí o prefeito falou que comprou um ônibus novo (risos). Pronto, hoje, quando as pessoas me veem lá, dizem: “Valéria vem aí, cuidado.” (risos) Foi assim, até hoje é assim. Porque em cidade pequena você trabalha com teatro porque você gosta e mais pela questão de mobilização, porque você não tem nenhum recurso. Então, o teatro foi muito importante também nesse sentido de mobilização social. E foi aí que as pessoas começaram a conhecer também mais o que eu fazia, qual era a minha intenção, e foi bom que conseguiu suprir as necessidades de todos os jovens, e foram de ônibus novo (risos). E depois o ônibus começou a quebrar, mas aí é de praxe (risos).

P1 – Aguarde outra carta (risos).

R – É (risos). Pois é, mas é assim que funcionam as coisas. Acho que tem que cobrar, saber cobrar. Não chegar na ignorância, mas de forma sutil dá para você sensibilizar as pessoas e conseguir o que quer. Eu acho que isso é muito importante. A questão não só de mobilizar, porque você pode só mobilizar, mas se você sensibilizar para depois mobilizar é melhor, que as pessoas já, né?

P1 – Já?

R – Já se sentem realmente interessadas em tentar mudar também, não só mudar por mudar, mas mudar porque sabem que é certo e que têm que mudar, sim. As pessoas não estão acostumadas a cobrar muito, a gente vê isso em todas as áreas, principalmente na educação, ninguém cobra nada de ninguém, nem os pais vão na escola. Meu pai e minha mãe nunca foram na escola saber como era que a gente estava se comportando. E ainda, quando a gente aprontava e os professores iam lá em casa, eles levavam ruim. Diziam: “Não, por que?” Mas é assim mesmo, para os pais, os filhos sempre estão certos, mas ninguém nunca vai lá saber como é que está o desenvolvimento do filho, se o filho está tendo alguma dificuldade em tal matéria, não. Aí o professor também acaba não cobrando muito em relação a salário, em relação a estrutura, às condições de trabalho. E aí ninguém cobra nada, por isso que nunca muda nada.

P1 – Você acha que tem que cobrar de quem?

R – Todo mundo tem que cobrar.

P1 – Quem é o responsável?

R – Então, os pais podem cobrar da escola, a escola pode cobrar do governo, o governo pode cobrar de um órgão maior e assim vai. Eu acho que o que falta é a questão de cobrança mesmo, mas de saber como cobrar. Não existe espaço, não existe muito espaço onde as pessoas se sentam para conversar e para questionar sobre as problematizações que norteiam a educação. Ninguém nunca leva a sério isso. Acho que, se houvesse mais espaço para debater sobre questões como essa, talvez a gente tivesse mais perspectiva de melhoria para a educação.

P1 – E você acha então que é pela reflexão, pela conversa, pelo debate?

R – É, pela questão da conversa mesmo, do diálogo, da questão de saber planejar, o que eu posso fazer certo, que isso não depende só de mim, mas o que eu posso fazer diante do problema. O problema pode ser local, pode ter um problema na minha cidade que possa ser resolvido lá em relação à educação, mas ninguém nunca parou para pensar e para questionar sobre isso. E às vezes é um problema muito pequeno, que pode ser resolvido até pela sociedade civil, sem a ajuda do poder público, mas que ninguém nunca senta para conversar. Existe também um distanciamento muito grande do poder público e da sociedade civil. Ninguém nunca bate de frente para debater isso.

P1 – Diz uma coisa: o que foi para você ter participado desse filme, para sua família, para os seus amigos? Como é que você ficou com isso?

R – Para a cidade, porque todo mundo passou a conhecer Manari depois do filme, então, não mudou só a minha vida, mas a vida de todo mundo daquela cidade, porque, hoje, se perguntar às pessoas se elas sabem onde é Manari, todo mundo sabe: “Ah, é aquela cidade que passa no documentário.” Então, mudou a vida das pessoas, até a questão de pensar também, de eles terem visto a cidade deles no filme, de o povo ter visto a cidade no filme, que as dificuldades também, porque eles estavam dentro do entorno, eles estavam no entorno das dificuldades, mas, quando você vê o impacto, é muito grande. E foi muito grande. Tanto é que, quando o diretor voltou lá em Manari para exibir o filme, exibir na escola, teve que fazer duas sessões, porque não coube o povo lá dentro da escola. E aí foi, a mídia também estava lá. Foi muito bom, mexeu com a cidade totalmente, foi muito bom o impacto.

P1 – Você falou o que aconteceu em Manari, o que aconteceu na cidade, para as pessoas de lá. Mas volto a perguntar: e para você, dentro dessa sua cabeça, na sua relação com a sua família?

R – Então, quando o filme começou a ser exibido, eu tive que viajar também para participar de debates, e aí foi que eu tive mais certeza do que eu queria, porque, a partir do filme, eu comecei a conversar com outras pessoas, e as pessoas também, na maioria das vezes, tinham as mesmas angústias que eu. Tinham necessidade de conversar sobre os problemas, sobre as dificuldades. E aí eu tive a certeza do que eu queria fazer. Eu disse: “Eu quero fazer Jornalismo porque eu tenho que encontrar um jeito de voltar para Manari e tentar ver como é que está lá e tentar fazer que a mudança realmente aconteça.” Então, a visão, que eu já tinha uma visão sobre o que eu queria, mas muito pequena ainda, mas, quando eu saí e vi que o mundo era mais que tudo aquilo que eu vivia, foi que eu tive mais certeza. Minha cabeça, a forma de pensar, tudo mudou de uma forma muito grande. Hoje, eu encontro pessoas que falam sobre o que eu gosto de falar, que gostam de poesia, que gostam dessa questão social, e isso é muito bom porque eu vi que eu não estava sozinha, que existem muito mais pessoas que se interessam também por essas questões. E aí a gente vê que a esperança ainda perdura, ainda continua perdurando. Então, é isso.

P2 – Quando você assistiu o filme, tem duas coisas: uma que é de vocês se verem, que você contou para a gente que a cidade se viu, e é diferente quando você se vê sob o ponto de vista de outra pessoa, porque foi um diretor que foi lá entrevistar, falar sobre vocês. Mas como você acha que foi ver Manari e outros locais, como foi essa comparação? Porque o filme vai mostrando realidades, algumas parecidas, mas em locais muito distantes, outras muito diferentes, né? Por exemplo, uma é do colégio de São Paulo, o Santa Cruz. O que passou na cabeça de vocês, como foi perceber como existem realidades muito diferentes?

R – Então, foi a questão do impacto de você saber que você está aparecendo ali porque você mora na cidade de menor IDH e porque as dificuldades que você encontra para estudar são enormes. Mas você, por exemplo, no Rio de Janeiro, que as escolas são muito violentas, no caso, tem uma menina que mata a outra dentro da sala. Aí tem o colégio daqui de São Paulo, que é uma escola de nível superior, mas que existe também uma angústia, que é muito gritante também dentro dos jovens que estudam lá. Então, a questão da angústia do adolescente acho que é muito similar. A menina do Colégio Santa Cruz se vê angustiada porque era uma sobrecarga que ela tinha por pertencer a uma classe social favorável, por estudar numa escola de renome. A angústia que a gente tinha lá em Manari era pela questão das dificuldades. Aí, os adolescentes do Rio vivem angustiados pela questão da violência. Então, acho que uma coisa que fica muito evidente é a questão da angústia mesmo que a gente sente, que o adolescente sente. São perguntas que surgem e que na maioria das vezes ninguém tem respostas. Então, eu acho que o filme é muito isso, a questão de mostrar a angústia também que a gente sente e que ninguém dá ouvidos. É isso.

P2 – Foi uma exibição em tela grande?

R – Foi.

P1 – Tem cinema próximo de Manari? Qual é o cinema mais próximo?

R – A duas horas (risos). Mas aí teve a exibição na escola, nós montamos lá uma estrutura com pano, mas deu para assistir. Todo mundo saiu perplexo, porque eles viam como era, eles sabiam que viviam aquilo, mas não sabiam. Eles sabiam que viviam naquele entorno, naquelas dificuldades, mas acho que, quando eles se viram, eles perceberam: “Meu Deus, é isso aí mesmo onde a gente mora? É isso mesmo a escola e tudo.” Acho que foi um impacto muito grande, até hoje as pessoas comentam.

P1 – Quando você se viu, o que você sentiu?

R – A primeira vez que eu me vi foi em Recife.

P1 – Você já tinha visto antes dessa apresentação em Manari?

R – Tinha, várias outras vezes. A primeira vez que eu me vi foi no Cine-PE, que houve em Pernambuco, que o filme ganhou o prêmio especial de cinema lá. Então, quando eu me vi, eu não consigo descrever, nem falar o que eu senti, mas foi uma sensação muito estranha, de ver que as pessoas estão vendo e percebendo o que você sente. É muito complexa essa questão de como se ver, mas foi muito boa depois. Já as pessoas também, depois, vêm e lhe abraçam e dizem que também gostam de poesia e que também acreditam que as coisas um dia podem ser melhores e que também têm esperança. Então, foi muito bom também por isso me ver. Porque, a partir do momento que passaram as imagens, acho que muita gente também se viu, muitos adolescentes também se viram, porque aquela foi uma realidade onde eu estava, mas ali o filme só mostrou aquela. Mas quantos interiores não existem no mundo e quantas situações similares ou parecidas ou até iguais aquelas, de transporte, de estrutura, de tudo? Então, acho que a angústia foi passada de uma forma muito geral até, muitas pessoas se viram, não só no meu caso, mas no caso das outras adolescentes também. Acho que foi muito bom também por isso, foi um retrato na verdade, de como é.

P1 – E, hoje, por que você acha, como é para você ser chamada para falar em vários lugares? As pessoas vão atrás de você, te convidam, como é que você sente, como é que você vê isso? Como é isso para você? Você gosta, você continua dando o recado, você não quer mais falar, cansa de falar, como é que é isso?

R – Então, a primeira vez, eu fiquei um pouco apreensiva, mas não porque eu tinha vergonha de falar, mas porque, como eu sou de Manari, a partir do momento que eu falo de lá, eu não estou falando só de mim, não é? Eu estou falando também, de uma forma, de todas as pessoas que moram lá, e eu tinha medo de magoar as pessoas. Porque, como Manari aparece como a cidade de menor IDH, eu tinha medo que as pessoas só enxergassem Manari e as pessoas que moram lá como ponto negativo, por ser a pior cidade. Mas, depois que o filme passou e depois que eu fui para os debates, não era isso que as pessoas pensavam. Elas viram que existe muita dificuldade, mas o que elas realmente viram foi a questão da esperança, que as pessoas que vivem lá até hoje têm, de tentar mudar o entorno em que vivem. Então, eu fiquei muito feliz depois que eu comprovei isso. Aí é que eu gosto de falar mesmo, de participar de debates, porque a gente vê que a esperança não é só nossa, não é só de quem mora no interior, mas é a questão de buscar melhoria de qualidade até de vida mesmo. Porque, se você não tem educação de qualidade, você não pode dizer que tem uma vida digna de se viver. Porque, se a educação é a base, se você não tem ela, você não tem a base. Então, você não tem estrutura para fazer quase nada.

P1 – E, hoje, o que você faz além de trabalhar e dar palestra?

R – Me divirto também, porque ninguém é de ferro (risos). Não, porque Recife tem muita opção, para todos os gostos e tudo. Então, quando você tiver a fim de sair para uma festa, você sai. Se você quiser assistir uma peça, você tem como ir ao teatro. Se você quiser ir para um show, você pode ir. Se quiser visitar algum museu, você pode ir. Então, é muita diversidade que se tem lá, se faz de tudo, o que você gostar de fazer você vai encontrar mais alguém que gosta de fazer o que você faz.

P1 – O que você gosta de fazer lá?

R – Eu gosto de dançar, gosto de sair, gosto de ir para o cinema com os amigos, gosto de ir à praia também. Gosto de fazer muita coisa, gosto de jogar bola ainda (risos).

P1 – Você joga futebol?

R – Jogo, brinco (risos). Mas futebol já deixou algumas marcas, já desloquei perna, quebrei braço, tudo jogando bola. Já quebrei dedo de outra pessoa, fui chutar a bola, chutei o dedo (risos). Então, e ainda insiste em jogar bola, um dia eu aprendo (risos). Mas eu brinco, eu gosto de brincar. Eu vivo rindo assim, então, a pessoa que está comigo tem que estar, tem que ser alegre também, se não, gosto de falar. Se não mandarem eu calar a boca, eu falo até (risos).

P1 – Você continua escrevendo?

R – Continuo.

P1 – Sobre o que você escreve mais?

R – Ainda sobre o sertão, mais sobre o sertão, sobre o que já mudou. Porque de certa forma mudaram algumas coisas, a escola mudou, a escola hoje é outra. Na época do filme, há três anos, o filme mostra a escola numa condição muito precária e, depois que o filme foi exibido, causou tanto impacto lá em Pernambuco que o Governo reformou a escola toda. Então, foi muito bom também o filme nesse sentido. O filme beneficiou Manari em peso, toda a comunidade hoje é beneficiada também graças ao filme, porque ele expôs o problema e alguém, até que enfim, resolveu fazer alguma coisa. E acho que tem que ser assim, tem que se mostrar mesmo.

P1 – É sempre poesia que você escreve?

R – É.

P1 – E poesia de amor, você escreve?

R – Não, nunca escrevi, não (risos). É engraçado, aqui as pessoas sempre me pedem, amigos: “Ah, Valéria, faça um poema para eu dar não sei a quem, para eu dar a um namorado.” Eu: “Faço não.” Eu não gosto (risos). Eu não consigo, não sei o que é.

P1 – Mas você já se apaixonou?

R – Já.

P1 – E para ele você escrevia?

R – Não (risos). Acho que eles não merecem tanto (risos). Pelo menos o que eu já conheci não. Depois que a gente vê, porque, quando eu me apaixonei, eu tinha 16 anos.

P1 – Ah, foi lá, então?

R – Foi, é assim, uma coisa muito fulminante, mas depois você vê que era tudo muito exagerado (risos). Mas eu nunca escrevi não, nada assim. As pessoas até me pedem, mas eu não sei, eu não consigo. Você tem que estar inspirado para escrever. Eu gosto de ler, adoro Fernando Pessoa, Vinicius, Carlos Drummond. Agora, para eu escrever sobre isso não. Não consigo, não. Também eu nunca tentei, talvez se eu escrever... (risos)

P1 – Está esperando uma inspiração?

R – É (risos). Quem sabe, né?

P1 – Você se lembra de uma última coisa que você escreveu?

R – Lembro.

P1 – Quer falar?

R – É porque eu não sei de cor, mas está ali naquele caderninho.

P1 – Está lá?

R – Está.

P1 – Você quer pegar?

R – Se vocês quiserem que eu leia, pode pegar aí a bolsa.

P1 – Que horas você escreve, em que momento?

R – Não tem hora, não.

P1 – Não?

R – Quando dá uma doida (risos), quando bate uma inspiração, eu escrevo, mas é sempre sobre o sertão. Pronto, é isso. Quando eu puder, posso?

P1 – Pode.

R – Então, a última coisa que eu escrevi foi essa: “Era uma vez uma história em um lugar chamado sertão, era um povo forte, a seca, o mandacaru e o sonho no coração. Era ainda um cenário, personagem, figurino, era a dureza de um homem e a ternura de um menino. A criança que não ia pra escola estudar, porque na roça ficava pra família ajudar. Era o idoso morrendo sem ter ninguém pra ajudar, nem remédio, nem socorro, nem hospital pra levar. Por muito tempo, essa luta ainda perdurou, até que mais sofrimento o povo não aguentou. E um dia, graças a Deus, o sertanejo acordou, e agora esse povo não vive mais de esmola, tem comida, tem saúde e tem até escola, tem muita gente envolvida, tem governo trabalhando, temos ONGs e projetos nesse sonho acreditando. E eu tenho tanta coisa, tanta loucura em mim. Quando começo a falar parece que não tem fim, desculpem esse meu jeito, o sertão me fez assim e olhem pra essa história, nem final eu escrevi. Eu fiquei tão empolgada que até disso eu esqueci. Só me lembro do começo, acho que era uma vez, parecia até um conto, um romance ou coisa igual, mas é a história da vida, insanamente real. Nossa história continua enquanto luta existir, sempre que há desigualdade nesse mundo se expandir. Temos ainda a esperança e o sonho no coração, temos ainda a loucura de mudar esse sertão, me desculpem se essa história não teve muita beleza, não houve muito lirismo. Nem Cinderela ou princesa, é que desde criancinha eu vivo lá no sertão, só ouço falar no homem cujo nome é Lampião.”

P1 – Quando você escreveu isso?

R – Faz pouco tempo, eu escrevi.

P1 – Onde você estava?

R – Estava num encontro.

P1 – De?

R – De, quer dizer, era minha formatura de um curso que eu tinha feito, Direito e Cidadania, que durou um ano e meio. Terminei ano passado, foi minha formatura, e eu escrevi lá e li e tudo.

P1 – Você leu?

R – Li, foi muito bom, porque nesse curso de Direito e Cidadania os jovens aprendiam a trabalhar junto com as secretarias de educação. Trabalhava também a questão de desenvolvimento sustentável, trabalhava a questão de meio ambiente. Foi um ano e meio, o curso foi muito bom. Eu sinto muita falta disso, dos professores também, das pessoas que também faziam o curso, porque eu fazia o curso em outra cidade, então, os jovens de Manari, Inajá e a outra cidade, que era Ibimirim, que era onde aconteciam os cursos, as três cidades faziam o curso juntas. Então, eram jovens de três cidades, era muito boa a experiência. Todo mundo trocando ideia, era muito bom.

P1 – Era um encontro de jovens?

R – Era um curso, e os jovens sempre se encontravam para debater também questões sociais, fazer mobilização nas cidades. A gente então aprendia lá e fazia devolução na cidade, organizava evento dentro das escolas, falando sobre meio ambiente, sobre tudo.

P2 – Eu queria saber de hoje, enfim, você contou pra gente a sua trajetória. Hoje, como é que você está, o que você espera, qual é o seu sonho agora, quais são suas expectativas pra sua vida daqui pra frente?

R – Então, agora eu estou numa fase, eu estou bem, estou numa fase muito bem, muito boa porque já estou fazendo faculdade de Jornalismo, que era o que eu queria, consegui entrar na faculdade, estou trabalhando no que eu gosto. E onde eu trabalho eu tenho espaço pra fazer, pra trabalhar do jeito que eu quero, da forma que eu quero. Eles me dão espaço pra isso, as pessoas também lá têm um interesse muito grande em tentar melhorar a questão da educação também. Então, agora eu estou me sentindo realizada, muito feliz, porque agora, mais do que nunca, eu tenho certeza que é isso que eu quero. Meu sonho ainda continua sendo tentar amadurecer mais aqui em Recife, tentar terminar minha faculdade e fazer algum projeto grande lá para Manari, para tentar mudar o entorno de lá ainda. Eu posso ir para o lugar que for, mas minha missão é lá. Mas, se eu continuasse lá, eu não teria essa bagagem de conhecimento que hoje eu tenho. Então, se hoje, eu abri mão de muita coisa lá, de minha família, dos meus amigos e tudo, mas para um bem maior. Eu abri mão de muita coisa, mas por um objetivo que futuramente vai favorecer a todos e que vai me contemplar também enquanto ser humano, e não é um sonho só meu. Eu estou em Recife, mas meu coração está lá, minha família está lá, meus amigos, meus professores também, as lembranças continuam lá, minhas memórias são todas de lá, a memória que eu tenho, a lembrança. São coisas que, por mais que passem de certa forma, mas que ficam guardadas no coração e que ninguém pode tirar. E é isso que eu guardo, o sorriso das pessoas lá, a vida lá, a forma como as pessoas vivem, e é por eles também que eu estou aqui, que eu estou em Recife. Às vezes, eu passo por alguma dificuldade, tem vezes que a gente até pensa em desistir, mas, quando eu lembro que eu tive que lutar para estar onde eu estou, e que é também por as pessoas que estão lá que eu estou fazendo o que eu faço, então, eu consigo arrumar mais estímulo para me manter de pé e tentar realizar o meu sonho, que é voltar para lá e tentar mudar a realidade. É isso (risos).

P1 – Então, você, que já deu tantas entrevistas, já falou tanto, como é que foi hoje? Isso que você falou, de voltar, de falar das suas lembranças, das suas coisas, como é que foi?

R – Então, foi um momento único, porque ninguém nunca, a gente nunca para pra conversar sobre isso, é tanta correria a vida em si, é uma correria danada e ninguém... E isso passa muito despercebido, e são coisas tão importantes, que nos fazem tão felizes, que foi muito bom. Foi um momento único, muito bom mesmo, ter que dividir essas passagens da minha vida com mais alguém, é muito bom isso, lembrar também. Que fica passando um filme na sua cabeça. Então, às vezes, você até volta para lá e sente como se estivesse lá ainda. Foi muito bom. A única vez que alguém, que eu tive espaço de falar tão abertamente sobre isso, sobre como foi minha vida, desde a infância até agora. Então, é um momento que vai ficar guardado também, que eu nunca vou esquecer, que eu vou passar para os meus filhos, para os netos, a lembrança. É uma coisa que vai ficar.

P1 – Para nós também.

R – É isso (risos).

P1 – Então tá, obrigada.

R – Meu nome é Valéria Pereira Fagundes, nasci dia 14 de dezembro de 1987, participei de um documentário, Pro Dia Nascer Feliz. Hoje, moro em Recife, trabalho na área de mídia e educação e faço Jornalismo.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+