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História

Mulher do sertão

História de: Vanusia Assis Santos
Autor: Associação Cultural Cachuera!
Publicado em: 29/07/2017

Sinopse

Caetité era o destino das férias: a casa da vó, as frutas no quintal, as brincadeiras de roda e as contações de histórias à noite. A volta para São Paulo trazia o desafio de manter a ligação com o sertão. Com o tempo, Vanusia se conhece ao estudar a história dos seus. Os batuques da infância incentivavam a vontade de estudar dança, mas do que viveria? Escolhe, então, o jornalismo e encontra outros espaços onde poderia desenvolver a dança, como o Abaçaí e o Cupuaçu. Mais tarde, já no Cachuera!, realiza o sonho de se graduar em dança e, mesmo após se tornar mãe, consegue o equilíbrio entre as mamadas e os ensaios. A vida pessoal é construída em harmonia com o profissional, junto ao Cachuera!, onde entra em contato com suas raízes e fortalece seu autoconhecimento.

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História completa

Teve uma campanha virtual chamada “Meu professor racista” que me fez lembrar de situações que passei na escola. Não são boas lembranças. Você tá com oito, nove anos, né? Minha mãe penteava meu cabelo com um creme que tinha um cheiro enjoativo, lembro até que era da Avon. Ela passava para deixar meu cabelo ajeitado. Lembro que todas as vezes que eu tinha que tirar dúvida com a professora, ou levar lição pronta, ela gritava comigo: “Eu já te falei para você não passar perfume para vir para a escola!” Ela gritava muito alto e todo mundo ficava me olhando. Era uma situação muito constrangedora porque a classe toda ria. Isso me marcou muito. Ela sem nenhum tato para falar, sabe? Eu não conseguia responder para ela coisas do tipo: “Eu não passo perfume, é que eu uso um creme para pentear o cabelo”. Achava um absurdo ela gritar comigo daquele jeito e eu também não contava em casa. Não parei de usar, a professora continuou a gritar e eu continuei a estudar. Isso que é o mais importante, porque essas situações levam muitas meninas a parar. Hoje, essa coisa do cabelo é uma questão muito séria do racismo institucionalizado.

 

O meu nome é Vanusia Assis Santos. Nasci em 11 de janeiro de 1971, em Caetité, na Bahia. Viemos para São Paulo quando eu tinha três anos, mas minha mãe sempre manteve a Bahia dentro de casa. Eu lembro de um umbuzeiro que tinha na frente da casa da minha tia, então a gente podia comer fruta à vontade. Aqui, em São Paulo, a gente não podia comer muito fruta, porque já é caro. A gente voltava para a Bahia de férias. Então a gente se lambuzava de curau e lembro de banhar no rio, de situações de dar de cara com cobra, em Caetité não tinha TV quando a gente voltava, então, as noites eram de contação de histórias. Era gostoso e também meio pavoroso porque não tinha energia elétrica e tinha muito morcego na casa. Lembro que ficava com muito medo de estar lá, mas quando amanhecia, o dia era muito amplo, com muita terra…

 

Parei de alisar meu cabelo por volta dos 30 anos, foi um processo de tomar conhecimento da minha história ancestral, do racismo e de como ele faz com que a gente se anule. A gente vai se anulando e vai querendo chegar nesse padrão imposto pela sociedade, que é um padrão branco, magro, e olha que eu nem sou uma preta escura, isso inclusive leva muitas meninas a quererem ir mais para o lado branco, porque ninguém quer viver sofrendo isso. Já com sete ou oito anos, eu já tinha passado por isso e passei muitas outras vezes. Você acaba não querendo ter nenhuma ligação com essa história negra, né? Você precisa conhecer o que é o racismo pra poder enfrentá-lo, além de estudar e conhecer muito a sua história. Eu tentava esse embranquecimento, mas o que me movia sempre foram os batuques.

 

Eu sou muito religiosa. Isso é uma questão muito minha, nem tanto da minha família. Dentro da minha casa, por exemplo, dos irmãos, eu sou a que mais tive vontade de procurar esse lado. A minha mãe sempre foi católica e também frequentava os terreiros de umbanda. Quando eu tinha 15 anos, fiquei com muita vontade de ir para algum lugar onde eu pudesse pôr em prática meu lado espiritual. E eu, sozinha, fui numa igreja um pouco diferente, onde tinha imagens de São Cosme e Damião e Doum, além de um padre que era casado. Eu lembro que eu falei para o padre: “Eu gosto muito daqui, mas eu sinto falta do tambor”. Recordar isso foi bem forte. Essa frase, pra mim, é muito forte, porque é justamente esse tambor que vai me conectar novamente com tudo que me move. Daí ele falou: “Vai em busca da sua verdade”.

 

Passei a frequentar um centro de umbanda de segunda e sexta pra tomar passe. Uma vez, um preto velho me perguntou: “Você tá dançando?”, ele não sabia que eu dançava. Falei: “Não”, ele: “É muito importante que você volte”, quando ele foi me dar o passe, falou que minha aura saiu e rodopiou emitindo cores lindas! “Você precisa voltar a dançar!” Sinto isso muito forte. Sempre fui do movimento, quando criança era nas brincadeiras que tinham o movimento com o corpo: pular corda, bambolê, amava tudo que tinha movimento. Eu queria entrar num grupo, já tinha passado pelo Abaçaí, já fui muito próxima do Cupuaçu, mas me acheguei ao Cachuera!. Isso foi em 2000.

 

Tenho essa necessidade de manter a prática espiritual, então tinha que ter uma ligação de uma cultura afro-brasileira, que tivesse a ver com a minha história, com o universo de conhecimento que nos remete ao passado, a história da vinda dos negros para o Brasil, a prática popular de raizeiro, de benzimento que tem a ver comigo, com o sertão. No Cachuera!, a relação com a cultura foi ficando mais forte até porque eles tem o lado da pesquisa, que vai te levando a mais descobertas, né? Então, eu acho que essa foi uma coisa que me pegou, me fez assim, descobrir mais coisas sobre eu mesma.

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