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História

Não quero ser esquecido

História de: Francisco Edmar Cialdine Arruda
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/07/2014

Sinopse

Francisco Arruda relembra sua infância, a casa de sua avó, a mudança para Fortaleza e sua carreira como professor.

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História completa

 Minha casa na infância era enorme, era aquela típica casa do interior que… sabe, enorme! A casa da minha vó, era um casarão grande, um quintal enorme, porque no quintal tinha criação de gado, tudo, eu não cheguei a ver a criação de gado, porque o meu avô faleceu antes de eu nascer, né, mas era uma casa enorme, com o teto bem alto, ah, toda vez que eu lembro dela eu só penso em uma mansão, de tão grande que ela era pra mim, sabe? E uma das coisas interessantes lá, é que tinha uma parte da casa, né, logo no inicio, que tinha uma escada e tinha uma espécie de segundo andar dentro da casa, andar de cima e os degraus eram bem pequenos e uma das minhas diversões de infância na época, era tentar subir escondido lá, que a minha avó não deixava, ela ficava louca, né? Ai, quando menos se esperava, estava eu lá, subia o primeiro degrau, conseguia subir o primeiro degrau, descia, ai outro dia, subia mais dois degraus, até que eu cresci, e tive autorização de ir até lá em cima, até porque casa antiga, de interior, geralmente tem morcego, essas coisas assim, e a minha avó tinha muito medo de morcego, ela me ensinou, inclusive, que uma das formas de você espantar morcego era batendo palma. Ai, quando aparecia um morcego de noite pela casa, eu corria pra debaixo da mesa, uma mesa enorme, toda de madeira, enorme e ficava batendo palma debaixo da mesa, pra ver se os morcegos iam embora. Ainda hoje, quando eu vejo um morcego assim, eu lembro disso e às vezes, ainda bato palma pra ver se espanto os morcegos.

Quando eu era pequeno, era a minha avó que exercia a autoridade lá em casa, ela sempre foi aquele estereotipo da sinhá, da senhora, a chefe de família, sabe? Ela sempre foi o elo principal da família, era uma pessoa rígida, firme, mas sempre fazia tudo por todo mundo. Era uma senhora assim, que era muito conhecida pela rua. O nome dela era Francisca Carneiro Vasconcelos Aguiar, só que todo mundo conhecia ela como Queridinha, a dona Queridinha. Ai todo mundo gostava dela, os vizinhos da frente, os vizinhos do lado... e o meu avô era conhecido como Coronel Juca, Juca Aguiar, eu acho que ele nunca foi coronel de verdade.

Eu não lembro quando eu entrei na escola mas uma das primeiras lembranças que eu tenho da escola e uma das coisas mais legais que eu lembro… hoje em dia, eu acho engraçado, né, mas era que a minha avó dizia que eu tinha muita preguiça de ir pro colégio, ai quando era a hora de acordar pra ir pro colégio: “Não, vó, tô com dor de cabeça” “Menino, criança lá tem dor de cabeça?” “Não, é porque eu tô com dor de barriga”, e tudo, ai… da minha primeira escola, essas eram as primeiras lembranças…

Me mudei para Fortaleza com cinco anos mais ou menos, muita coisa mudou porque lá, a gente tinha sempre aqueles rituais de interior, né, dava determinada hora, mais ou menos umas seis horas, cinco horas, alguma coisa mais ou menos, ai era pra tomar o café, ai a minha avó pegava, me dava café, com pão, manteiga, tudo, ai eu comia, tomava banho, né, ai me arrumava pra ir passear na praça, praticamente todo dia assim. E lá na casa dela era uns três quarteirões… dois quarteirões da praça da igreja da matriz e ai, tinham sempre esses rituais lá. Eu saia com o meu amigo de infância, que morava em frente, ai a gente ia pra praça lá, né, e ficava, era aquela típica praça do interior, né, que tem uma televisão no centro e que os caboclo no final do dia, os cara do armazém, comercio, tudo lá, sentava lá pra assistir novela, assistir os trapalhões, assistir jornal, era de vez em quando, eu ficava lá sentado, pra me sentir assim, mais importante, né, junto com eles assistindo televisão, lá na praça. E também que na praça tinha uma espécie de laguinho pequeno, artificial, tudo, com um monte de patinhos, né? Um monte de patinhos, ai era a diversão da garotada, a gente se juntava, né, era pra tentar espantar os patos pra dentro d’água e também tinha sempre aquela mais danado que tentava pular uma gradezinha mais ou menos dessa altura assim, né, e sempre tinha mais algum que tentava pular e entrar dentro do cercado, no espaço, pra tentar intimar com os patos. Teve uma vez que um amigo meu fez isso, ai um pato maior, um ganso, acho, saiu correndo atrás dele, ele tentou pular de uma vez que caiu pra fora. Foi muito engraçado, passou um mês sem querer andar pra essa praça de novo, no meio dos patos. Ai aqui, não, quando a gente veio pra cá, não. a rotina era mais… a vida era mais rápida, a vida era mais frenética, não dá para ter essas rotinas de todo dia.

Eu sempre quis muita coisa da vida! Eu era o tipo da pessoa que cada mês pensava uma coisa diferente pra fazer. Eu já quis ser desenhista, já quis ser psicólogo, já quis ser padre, já quis ser jogador de voleibol. Atualmente, eu sou professor, eu comecei fazendo uma faculdade de veterinária mas eu não gostava muito, química não era muito o meu forte, ai aconteceu de na época, um cachorro meu morrer, e ai, eu fiquei chateado: ‘tô fazendo veterinária e o meu cachorro morreu’, ai eu desisti da veterinária e passei um tempo trabalhando depois eu entrei no curso de Letras, eu sempre digo muito pros meus alunos: uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida, foi eu ter feito esses um ano e meio de veterinária, porque quando eu entrei na Letras, eu entrei, eu sabia exatamente o que eu queria fazer. Entrei na Letras, antes de começarem as aulas, peguei todas as disciplinas do curso e organizei: esse semestre vou fazer esse, no próximo semestre… no primeiro dia de aula, eu já tava com todo curso já planejado. E ai, eu me formei em Letras aqui na Estadual de Fortaleza.

Comecei a dar aula… a dar aula em algumas universidades particulares, aqui e acolá e tudo, e ai, eu entrei no Mestrado, fiz especialização também, e ai, quando eu estava no finalzinho do Mestrado, foi uma loucura, eu estava no final do Mestrado, escrevendo a dissertação, e ai, eu resolvi começar a fazer uma especialização. Era escrevendo a dissertação e estudando a especialização, mas foi uma experiência muito boa, muito boa mesmo. Depois que eu terminei o Mestrado, apareceu uma oportunidade de concurso lá na universidade do interior, ai eu fui, passei primeiro pra professor temporário, ai teve o concurso pra professor efetivo e eu passei, agora eu dou aula lá, eu gosto muito.

Hoje, o meu principal sonho não é um sonho palpável, porque é uma coisa que é mais um desejo do que um sonho, eu não quero ser esquecido, sabe? Eu gostaria muito de mesmo quando eu não estivesse mais aqui, eu continuasse sendo lembrado, de alguma forma, eu gostaria muito de construir alguma coisa que fizesse com que a minha presença se perpetuasse. Eu procuro muito lembrar das pessoas que passaram pela minha vida e que já não estão mais aqui nesse mundo, né, que já foram pra um outro plano, pra um outro nível de existência. Eu gostaria muito, muito mesmo de que daqui a alguns anos, alguém chegasse e dissesse assim: “Você já leu aquele livro do Edmar Cialdine?”, ou então: “Esse prédio aqui foi construído… teve financiamento da Fundação Edmar Cialdine”, ou então: “Esse personagem de historia em quadrinho que esta indo para o cinema foi criado por Edmar Cialdine”. Claro que esse é um sonho bem grande, mas também tenho outros sonhos um pouco menores, tipo, escrever um livro, ter um filho, plantar arvore...eu já plantei, né?

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