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História

Não tenho o direito de me entregar

História de: Maria Sylvia Farina Matos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/09/2011

Sinopse

Maria Matos conta sobre a origem italiana de seu avô, as lembranças que tem de sua família, as brincadeiras de criança na cidade de São Paulo, sua dedicação pelo Serviço Social, como conheceu seu marido, o nascimento de seu filho e a batalha contra o câncer.

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História completa

Nasci em São Paulo, capital, dia 9 de dezembro de 1952. Meus pais são da capital também. Na verdade, no registro diz 10 de dezembro. Dizia-se naquela época que, para toda criança que nascesse a partir de 10 de dezembro, os pais ganhariam um salário mínimo, era lei. Então, acho que ele se enganou. Não que fizesse de propósito; na hora que o papai foi registrar, registrou como dia 10.


Eu já comecei dando lucro, ajudei a pagar um pouco da maternidade. Meu avô paterno veio da Itália, era barbeiro. Meu pai e os irmãos dele já nasceram no Brasil, e a minha avó paterna também era brasileira. Do lado da mamãe, meus avós têm ascendência portuguesa, mas são todos nascidos no Brasil, em Sorocaba. O papai não teve tanto estudo, mas ele era muito inteligente. Fez Contabilidade, que na época não era um curso universitário. Por muitos anos foi funcionário do Moinho Santista, onde acabou se aposentando. Quando nasci, eles falam que nós fomos morar na Granja Julieta, mas que era uma casa muito fria, não batia sol.

 

Diz que o papai quase deu a casa de graça porque ele dizia que queria sol. Hoje ele tem 87 anos e quando qualquer um, algum neto, vai comprar alguma coisa, ele diz: “Olha a face, porque casa fria é uma coisa horrorosa! Tem que comprar face norte”. E nós viemos pra rua João Cachoeira, que era no Itaim, e eu me lembro que a minha vida inteira eu morei na região do Itaim, Vila Nova Conceição.

 

A gente brincava de pega-pega à noite. Não tinha medo. Tenho um irmão cinco anos mais velho do que eu, homem, e sempre nos demos muito bem. O lado italiano da família é um pouco forte. A mamãe vem de uma época em que poucas mulheres trabalhavam fora. Eu estudava no Grupo Escolar Martim Francisco, que até hoje existe, na Vila Nova Conceição. O papai era menos rígido que ela, tinha aquele jeitão italiano, de muita superproteção. Meu irmão tinha um conjunto a la Beatles.

 

E a minha garagem era o estúdio. Eu me sentia o máximo por ser irmã do cara do conjunto. A minha casa sempre foi muito cheia de jovens. O Ronnie Von, que morava na avenida Santo Amaro, foi ensaiar lá; a Rita Lee também. A minha família é católica. Mas não sou uma pessoa enfronhada no Evangelho, porque acho que pra você discutir qualquer coisa tem que ter um pouco de conhecimento. Acredito em Deus. Entrei no Serviço Social. Não me arrependo nem um pouco, fiz um curso lindo de Serviço Social. Fui ao Hospital Antonio Prudente e conheci a dona Carmem Prudente – tenho um orgulho muito grande de tê-la conhecido.

 

E daí, queria ser voluntária do Antonio Prudente, que era o hospital do câncer. E ela também era assistente social e acabou me animando para isso. Eu tinha 18 anos. A pessoa que for bem treinada, não precisa ter formação acadêmica fantástica, mas que tenha paciência e saiba lidar com idoso, é uma profissão que vai dar dinheiro também. Porque você não consegue encontrar pessoas que sejam companheiras do idoso.

 

A profissão do futuro é a dos cuidadores de pessoas da terceira idade. A longevidade está indo muito para frente; as pessoas precisam de alguém junto com elas, pelas dificuldades que têm. Fiz uma reunião na minha casa com umas primas da minha mãe, porque eu achei que a mamãe estava triste. Deu mais de 400 anos no encontro. Lógico, se a pessoa depende de tomar alimentação parenteral, tem que ter enfermeira; mas se não, o bom é o acompanhante, o cuidador, aquele que conta história, que ouve as histórias do idoso. O meu marido é onze anos mais velho do que eu, e também vem de uma criação de muito respeito. Tenho 58, ele vai fazer 70.

 

Conheci o meu marido numa viagem de navio. Eu tinha 27 anos; queria casar não porque queria perder a virgindade, mas porque queria ter um filho. E a virgem pura e casta só poderia ter um filho se se casasse. Casamos, logo fiquei grávida, porque o meu sonho era engravidar, ter um filho. Não vou dizer que casei a mulher mais apaixonada do mundo, mas hoje eu sou muito apaixonada pelo meu marido, pelo companheiro que ele tem sido nesses 31 anos. Quando tive o meu primeiro câncer estava com 48 anos. Descobri no dia 11 de setembro, no dia do ataque às torres gêmeas. Estava com um febrão, nunca mais vou me esquecer do dia 11 de setembro. Estava deitada, com febre, esperando o horário para ir ao médico. E fui tratada como se tivesse pneumonia.

 

Tratei da pneumonia, voltei a trabalhar, tive outra pneumonia. Eu tinha uma amiga que era pneumologista; ela pediu uma tomografia, deu nódulo no pulmão, pequenininho, e ela falava: “É do tamanho de um feijão”. Daí, não queria enxergar, sempre gostei muito de pipoca, falei: “Será que não aspirei um milho de pipoca?” Eu comia pipoca toda noite vendo televisão. No dia 27 de novembro, e essa data tem muito a ver com toda a minha história e a minha fé, fui fazer uma biópsia. Era uma broncoscopia, e deu que eu tinha um nódulo no pulmão direito, e que era um câncer. Daí, me mandaram para o cirurgião torácico, um espetáculo de médico, jamais vou me esquecer dele. Fui com uma lista imensa de coisas para perguntar. Quando fiz a broncoscopia, deixei o médico marcado para o mesmo dia. Mas sou muito ansiosa. No carro, abri o resultado. E disse ao meu marido: “Estou com câncer”. Vi a notícia pelo exame. Na hora, as pernas balançaram. Eu disse: “Nós vamos ao médico, vou tirar isso de letra. O câncer não vai me pegar, eu vou pegar o câncer”. E fomos a esse médico. Ele foi bárbaro, me disse tudo: o risco de morte, o tamanho da cirurgia, a gravidade da cirurgia. Não sabia que o pulmão é uma coisa tão grande, não sei quantas camadas.

 

E para você chegar ao tumor tem que abrir as camadas do pulmão. Ficaria na UTI por oito dias, corria risco de morte, uma cirurgia muito delicada. Marcamos para o dia 6 de dezembro. E meu aniversário é no dia 9 de dezembro. A cirurgia demorou 14 horas, ele tirou um lóbulo do meu pulmão e foi conversar com a minha família – ele estava querendo tirar o segundo. A gente começa a ler coisas dessa área, que um pulmão tem três lóbulos e o outro tem dois. Esse meu, com câncer, tinha três. Ele queria tirar o segundo porque estava muito na margem do primeiro e podia ter passado alguma coisinha. Por prevenção, ele já ia tirar. Graças a Deus na biópsia deu no primeiro sim, mas no segundo não deu, e deixei. Será que eu vou respirar direito? Quando terminou a cirurgia fiquei muito feliz. Doeu muito, mas já esqueci. Durante três meses dormi de barriga para cima, o corte é muito profundo. Foi difícil? Foi. Mas tive outros momentos. E tem gente que passa por coisas muito piores do que isso.

 

Tive uma recuperação razoavelmente boa, superou minhas expectativas. Na ocasião nós estávamos vivendo um momento financeiro não dos melhores, a mamãe botou uma enfermeira pra me ajudar, porque tinha aquelas coisas que eles chamam de cachorrinho, que é dreno. E meu marido vê sangue e desmaia. Fiquei dezessete dias no Hospital São Luiz. Esse médico se chama Eduardo Werebe. É judeu, de uma humanidade tremenda. Depois saiu do meu convênio e até hoje ele não me cobra uma consulta. Tornou-se amigo pessoal. E me indicou onde faço tratamento até hoje, o Centro Paulista de Oncologia. Um ano e meio depois, fazendo exames de rotina, descobri um nódulo na mama direita. Como pegou em 2001, no final, eu falo assim: “2001, 2003, 2005, 2007, 2009”. Em 2003 descobri esse câncer na mama. Fui atendida novamente no São Luiz. Tenho três moradias: a minha, em São Paulo, a de Socorro, e o São Luiz do Morumbi, porque semana sim e outra também, ultimamente, passo pelo São Luiz, porque ando com a saúde fragilizada. Fiz a retirada da mama. Doloridinho também. Um dia antes da operação, eles deixavam delimitado no peito onde era. Então, na hora da cirurgia, ia ao “chefe” dos gânglios. Se o chefe estivesse contaminado, tinha que fazer o esvaziamento da axila. Fui aprendendo isso por conta da doença, então não precisei fazer quimioterapia. Tirei a mama toda, tirei o bico, a auréola, a mama.

 

E eles me convenceram que eu tinha que fazer a reconstrução da mama. Eu falei: “Gente, eu não sou vaidosa”. Fiz duas cesarianas, e a proposta era tirar a gordura da barriga e colocar no peito. Acabei fazendo, mas não fiz bico nem auréola, mas fiz na hora. Então, talvez seja isso que encarei bem. E tem tanta mulher que encara tão mal a história de tirar o peito... Já saí com o meu peito feito. Na hora que terminou a cirurgia eles fizeram a reconstrução da minha mama. Uma cirurgia de 16 horas, entre tirar e colocar. Naqueles dias estava no auge a história do Zagallo, “vocês vão ter que me engolir”. Quando cheguei ao quarto, a família inteira esperando, eu falei: “Vocês pensam que foi dessa vez? Vocês ainda vão ter que me engolir”. E fiz a cirurgia. Não fiz quimioterapia. Mas deveria consultar outro médico? Tive no pulmão, não fiz quimioterapia, vai ver por isso tive na mama. E pelo oncologista eram considerados dois cânceres primários, não tinha nada a ver o do pulmão com o da mama. Passei por uma hormonoterapia. Quase todas as mulheres que tiram a mama, depois da quimio, tomam essa medicação durante cinco anos. Um ano e meio depois tive câncer na outra mama. Eu falei, “caramba, está começando...”. Ah, e não contei uma coisa engraçadinha, posso contar? Quando fui operada do pulmão, tinha um cargo importante na prefeitura, era assistente da Alda Marco Antônio, que hoje é vice-prefeita, mas não a conhecia.

 

Ela me convidou porque eu era funcionária de carreira. O Hospital São Luiz não tem maternidade no Morumbi, e era tanta flor que eu recebia no hospital, que dava volta no corredor. Agora, na última internação, nem uma rosinha eu recebi, porque o pessoal já não aguenta mais me ver no hospital. Então, aquela vez foi uma novidade, o hospital se encheu de flores, o pessoal mandava levar embora pra casa, de tanta flor que tinha. E acho que o povo estava achando que eu ia morrer, né? Mas sou osso duro de roer. Muita gente me ajuda nessa luta de ser guerreira. A pergunta mais comum para quem tem câncer é esta: “O que mudou em sua vida depois que teve câncer?” Geralmente a pessoa fala assim: “Eu melhorei, fui melhor para os outros, ajudei mais pessoas, revi minha vida”. Para mim, hoje, neste último câncer que estou, é ser mais humilde. Viver uma vida legal eu sempre vivi, ter amigos sempre tive, mas depender dos outros como agora comecei a depender, para mim está sendo muito triste. Não conseguir subir uma escada porque estou com metástase óssea, metástase no fígado, que é gerado pela segunda mama, que foi outro câncer primário. Então, tive um carcenoide, um carcinoma ductal, um carcinoma lobular.

 

As metástases vêm desse, que correu pelo gânglio sentinela. Eu tive que fazer esvaziamento da axila e daí ele correu. Ele pegou, sempre a cada dois anos, ossos, fígado e agora a meninge. São cinco cânceres. E olha, sou abençoada. Dor nos ossos é raro que eu tenha, porque quem tem câncer nos ossos diz que é uma coisa pavorosa. Eu não vou dizer que eu nunca tenho, mas nada ainda que um corticoide, um Lisador, não resolva. Então eu tenho em toda a bacia, em toda a coluna, no ombro, no joelho e no ilíaco, na parte óssea. Estou com um nódulo no fígado de quatro centímetros. E esse ano descobri o da meninge, que pensei que era no cérebro. Daí, foi a hora que caí um pouquinho, “agora não dá mais”. Os médicos acabaram ficando muito amigos; estou cheia de médicos amigos. Agora, dessa vez caí porque uma médica bárbara, amiga, havia me falado: “Enquanto não for no fígado está bom”. Daí, pegou no fígado. “Agora o fígado está superado, o negócio é se pegar a cabeça”.

 

E quando falaram da meninge, eu falei: “Agora estou ferrada!” Não estou com a boca torta, mas parte de mim está paralisada. Graças a Deus não paralisou o nariz, porque consigo respirar. Pois bem: venho lutando com ele há dez anos. Ele querendo me pegar e eu tentando dar uma driblada no bichinho aí. Nesse período tive infecção generalizada e choque anafilático, sobrevivi às duas coisas. A médica da UTI do São Luiz disse assim: “Não sabia de quem cuidava primeiro, de você ou do seu médico”. Porque ele foi na ambulância comigo e chegou muito mal, porque para esses médicos não deve ser fácil ter um paciente que eles acompanham e ver as coisas acontecendo. Este ano achei, pela primeira vez, que as minhas forças estavam acabando. Não estou mais com a mesma força para ajudar as pessoas. Mas a vida é tão linda, a vida é tão bonita, não tenho o direito de me entregar. Tenho que continuar lutando, temos metas na vida para seguir. A-do-ro meu Roberto Carlos, tenho disco e vitrola lá em Socorro.

 

Coloco meu disco e fico olhando meus passarinhos lá, as minhas plantinhas, me trazem uma energia maravilhosa quando posso ir lá. Mandei uma cartinha para a minha neta, escrevi que a vida é linda e que ela viva essa vida intensamente, que ela tenha pelos pais dela o mesmo amor que nós tivemos por ela, que ela os respeite muito, porque ela também foi muito bem-vinda neste mundo, ela foi muito bem amada durante a gravidez pela mãe e o pai dela, e que ela conte com eles como os melhores amigos que ela pode ter, mas que ela deixe um lugar no coraçãozinho dela para a avó dela, porque a avó dela também a ama muito.

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