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No comando de si mesma

História de: Gal Alves de Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Conforme Gal conta sua história, a personagem principal vai, aos poucos, se agigantando. Começa franzina, numa cidadezinha do Piauí, onde, aos 11 anos, já trabalhava de empregada doméstica – e tinha de subir na cama da patroa para conseguir dobrar o lençol sem arrastá-lo no chão. Passa pela mudança para São Paulo, cheia de sonhos que seriam logo transformados com a primeira gravidez e o casamento precoce. Emociona-se no momento da trágica morte do filho, em uma viagem de passeio à terra natal. Encara o sucesso no comando de um comércio de gás e de uma sorveteria e as dificuldades vindas com o machismo e as traições do marido. E chega ao presente, quando, divorciada e envolvida com o trabalho em uma delegacia de mulheres, Gal enfim se sente no poder, no controle de si mesma.

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História completa

Meu nome é Gracilene Alves de Lima. Nasci em Água Branca, Piauí. Eu vim de uma família de 11 irmãos, sete meninos e três meninas. E eu lembro que minha mãe falava que eu fui a caçula, a última, a raspa do tacho, como dizem. Até os meus dez anos, estudei. A partir dos dez anos, comecei a trabalhar de doméstica. Quando ia fazer 11 anos, comecei a trabalhar na casa de uma família que tinha quatro crianças. Eu era tão pequenininha. Eu chegava lá mais ou menos cinco e meia da manhã, e eles estavam dormindo. Eu fazia o café da manhã, já estava com a mesa posta pra ela tomar café e levar as crianças pra escola. Quando ela voltava, me dava instrução para fazer almoço para 11 pessoas trabalhando na roça. Eu tinha que varrer o terreiro. Já varria o quintal. Eu era magérrima, sequinha! Subia em cima da cama pra poder dobrar o lençol, porque eu não conseguia dobrar o lençol em pé.

 

E eu ganhava metade de um salário mínimo. E estava próximo do Dia das Mães, o que eu fiz com esse dinheiro? Eu saí de lá seis horas da tarde, peguei esse dinheirinho e falei: “Vou comprar um presente pra minha mãe, que eu nunca dei”. Aliás, minha mãe não ganhava nada, porque ninguém tinha condição. Eu fui numa mercearia, comprei um maço de cigarro Classic, que era o cigarro que ela fumava. E um joguinho de xícaras, com pires, porque, na minha casa, também não tinha isso. E, quando eu cheguei em casa, já eram mais de sete horas da noite, ela já estava preocupada. Já foi brigando. Eu falei: “Toma aqui, velha!” (risos). Aí, já viu, né? Ela deu mais valor para o cigarro que para as xícaras!

 

Eu vim para São Paulo com 12 para 13 anos. Aí que começa minha história, né? Vim para estudar, para ajudar meu irmão, que já estava aqui em São Paulo. Conheci o Gilberto. A gente começou a namorar e, no meu tempo, na minha cidade lá, quando tinha as festividades, meu irmão falava: “Quando você for namorar, quando alguém se aproximar de você, não deixe pegar naquilo ali, pegar lá” (risos).

 

Não tinha instrução igual hoje. Eu não conversava com minha mãe sobre sexo, nem mesmo sobre minha primeira menstruação. Quando aconteceu, eu tive que falar com ela porque acordei toda suja e não sabia o que era aquilo! Na minha época, também não tinha absorvente. Minha mãe me orientou: “Olha, filha, isso está acontecendo porque você está ficando mocinha. A gente usa isso daqui”, que era um pedaço de pano. Sabe pano de chão? Então, ela pegou aquele pedaço de saco de açúcar. Bem lavadinho, uns quadradinhos, e falou: “Você vai usando isso aí uns três dias. Você vai ter que ficar lavando, põe pra secar e fica trocando”. Não tinha diálogo para falar mais coisas.

 

E a gente transou pela primeira vez. Foi quando eu engravidei, e aí que vem a história da emoção. Eu engravidei com 17 anos, já ia para os 18. Eu fiquei grávida do meu filho. E a gente decidiu ficar noivo. O nosso noivado foi no supetão. E não fui aceita na família porque ele merecia coisa melhor.

 

Meu marido, então, saiu do Moinho Santista e foi trabalhar na Liquigás, distribuidora de gás. E a gente fez dois cômodos, passou a morar em dois cômodos. E, na época, o gás era muito barato. Nessa época teve um negócio de URV [Unidade Real de Valor]. Pegava o dinheiro e trocava por URV, e as pessoas ganhavam mais dinheiro. E o gás era assim. Aumentava praticamente todo dia. Então, a gente ganhava muito dinheiro.

 

Foi quando apareceu a oportunidade dele. A Liquigás queria terceirizar o gás. Ele pediu a conta, e a gente conseguiu montar um depósito. Eu parei de trabalhar de faxineira diarista e fui morar nesse depósito na Cidade Tiradentes. Dois cômodos, chão rústico, aquela telha Brasilit, as paredes não tinham reboco. Não tinha nada. Eu, ele e meu filho.

 

Meu sonho também era ter uma bombonière. Como eu já tinha visto lá o local, era passagem de muito pedestre, tinha uma escola na rua de cima. E ele fez, ele mesmo. De bloco, levantou. Foi ao Brás, comprou 150 reais de doce, salgadinho. A gente fez um balcão, colocou os doces ali e a roleta do gás do lado. Se aparecesse um cliente para comprar o gás, eu atendia.

 

E foi crescendo o negócio: minha bombonière estava dando mais que o gás. A gente comprou freezer, enchemos mais de coisas. E, quando a gente passou para esse salão, não dava mais conta de atender sozinha, tinha que contratar uma pessoa. Acho que era a melhor sorveteria da região. Nós que começamos na região com o self-service, que não tinha antigamente. A minha sorveteria! Fazia filas e filas. Eu vendia, por dia, dez baldes de sorvete. Tinha o self-service, que foi novidade na Cidade Tiradentes. Quem começou lá foi a gente. Então, fazia fila na rua.

 

Meu filho já com 11 anos, a Nani ia fazer dois anos e meio, e tinha uma sobrinha minha que estava morando comigo. Ela decidiu ir embora. E meu marido, por não conhecer a minha terra, o Piauí, falou assim: “Agora é a oportunidade que a gente tem para conhecer a sua terra”. Ele tinha um Gol, vendeu e comprou uma caminhonete. A gente foi. Só ele dirigindo, foram quatro dias de viagem. E lá é uma cidadezinha assim: bem no centro, tem uma praça e a rádio, e as caixas de som na rua. O meu filho ficou brincando com um monte de criança, sentado. E nisso a Elaine não parava de chorar um minuto. Não sei o que deu nessa menina que ela não parava de chorar. Chorava, chorava. E o moleque brincando lá na rua.

 

Na frente da casa da minha cunhada, tinha uma funerária. Eu atravessei a rua, com ela no colo. Entrei lá com ela no colo, e ela chorando. Entramos, querendo fazer alguma coisa para ela parar de chorar. Nisso, meu filho sai correndo e entra na funerária. Ele olhou para todo o lugar e falou: “Ah, mãe, esse é bonito” (choro). A minha cunhada chamou: “Vamos lá na casa do meu pai?”. E o meu sobrinho era menor, só que já dirigia. Fomos eu e ela na frente, e a criançada atrás. E meu filho usava, na época, chamava bombeta, hoje chama boné. Era essa bombeta e uma camiseta do Corinthians. Ele pôs a cabeça para fora da janela e a bombeta voou. Olhei para trás, ele só falava: “Minha bombeta, minha bombeta”. E não esperou parar o carro. Eu só vi ele rolar assim. Eu olhei para a frente (choro), eu lembro como se fosse hoje, o mundo parou. Parece que o céu parou. Do jeito que ele estava, agonizando, morreu nos meus braços e nos braços da minha cunhada. A gente entrou no hospital, e o médico falou: “Não está mais vivo”. A gente chegou lá na quarta-feira, isso aconteceu na quinta durante o dia. Quando foi meia-noite, a gente voltou para São Paulo.

 

Hoje, faço um curso: Promotoras Legais Populares. É um curso que fala sobre violência doméstica, racismo, com orientação. Nesse curso, eu descobri quanta violência doméstica eu passei, dentro da minha casa, com o meu próprio marido. Um dia, eu estava em casa, uma sainha curta. “Tira essa saia aí!” “Por que tirar a saia? Eu ando do jeito que eu quero.” “Não vai tirar, não?” Pegou a tesoura e cortou a saia. Jogou fora. Só depois de 25 anos de casada, separada, já há três anos, que eu descobri quanta violência doméstica eu passei dentro da minha própria casa, com o meu próprio marido. O quanto ele é machista. Descobri muita coisa.

 

E a gente está fazendo um centro. Chama-se Centro Tereza de Benguela, para a gente ajudar as pessoas, contra racismo, contra violência doméstica. A gente faz trabalho nas delegacias. A gente tem uma sala, chamada “sala rosa”, nas delegacias, para orientar essas pessoas. Também fiz um curso de manicure. Eu tenho uma bela de uma clientela, mais de 200 esmaltes, atendo a domicílio. E estou vivendo a vida. Eu faço unha e ajudo. Quem me conheceu antes e me vê agora fala: “Essa é a Gal empoderada”.


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