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História

No quilombo com Dona Ducha

História de: Maria de Lourdes Pereira dos Santos (Dona Ducha)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2008

Sinopse

A mineira Maria de Lourdes, mais conhecida como Dona Ducha, não sabe ao certo o ano em que nasceu nem o porquê do apelido que apenas herdou de uma amiga de sua mãe. Domina, no entanto, outros muitos saberes, essenciais para a continuidade de sua comunidade, o Barreirinho, no Vale do Jequitinhonha, que se desenvolveu a partir do quilombo constituído por Rimoaldo, escravo fugido e ascendente direto da maioria dos moradores. Ali, ela vive em família, lavrando a terra, cultivando ervas medicinais, benzendo quem precisa, preparando galinha caipira ao molho pardo, reproduzindo os batuques e as cantigas que aprendeu com os avós. Em seu depoimento, Dona Ducha se lembra de histórias do passado e fala da luta da comunidade pelo direito ao território que seu antepassado há tanto tempo demarcou, em prol da liberdade.

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História completa

A minha mãe, a minha avó, as minhas tias contavam assim: quando um velho veio corrido da escravidão, que ele chegou, eles fizeram uma barraca na mata, na descida que desce para entrar nessa comunidade. Eles ficaram escondidos um bocado de tempo, ele tinha um bocado de filho, 12 filhos, três filhas mulheres e nove filhos homens, já tudo criado. Ela disse que eles pegavam, saíam para os matos caçando o que comer, porque eles não tinham o que comer.

Eu faço essa festa dos “batucos”, festa para os santos e essas batucadas. Aí, o povo batuca, o negócio dos batuques e de cantar folia também. Eu gosto de cantar folia, gosto também de cantar roda, jogar verso, a gente gosta disso, de umas rodas que fala: “Eh, mulher rendeira, eh, mulher rendá, me ensina a fazer roda que eu te ensino a namorar. A mulher do lampião tinha dois lampiãozinhos, um é grande e o outro pequeno, todos os dois engraçadinhos!”

Eu vou cantar outros que cantava, que é um negócio que eu cantava mais os meninos: “Ei, terra boa de pobre morar. Oi, terra boa de pobre viver. Eu não vou para o seu jardim, para o meu canto não ver descer. Falou morena: eu vou embora mais você!” Aí, eu falo: “Bate palma!” Para os meninos, os meninos batem palma e sapateiam. Isso, sabe como que é, mas eu gosto de fazer isso lá em casa, porque lá em casa eu já fico preparada mesmo, né?

Essas letras dessas músicas minhas são dos antigos de lá, que cantavam. Ajuntavam os mais velhos, cantavam esses tempos e outros, são tipo de um coco, chama isso, que eles falavam cantar. Cantavam esses trens e ajuntavam esse bando, aquela reunião, aquele grupo, dançavam e cantavam e tocavam na viola. Mas tinha um velho, esses tempos, que morava lá, ele cantava na viola, cantava mais ele esse trem. Ele cantava na viola, sapateava, e eu batia palma.

A pessoa está tudo precisando, eu benzo dor de cólica, dor de cabeça, dor de dente, quebranto, olho grande. Tudo eu sei benzer! Tanto faz a reza que você queira, porque o quebranto, a gente reza pela criança. Às vezes, a senhora está com dor no corpo, ruim ali, aquele corpo doendo, a gente reza tudo, põe o raminho e fala assim: “Vou te benzer, Fulano de Tal!” A gente chama tudo pelo nome: “Olha, Fulano, eu vou te benzer com os poderes de Deus, Virgem Maria, Padre Nosso, amém! Vai quebranto mau, olhado mau, as forças do mau, vai que tenha fé, a água da fonte, vai pra onde cachorro não late, boi não berra, menino não chora e galo não canta. Com os poderes de Deus, Virgem Maria, amém, Pai Nosso. Chagas abertas, coração ferido, sangue de Jesus Cristo derramou sobre seus filhos. Estou te benzendo, Fulano, com os poderes de Deus e Santíssima Trindade. Vem Maria Santíssima, curai da enfermidade, tirai esses quebrantos e levais pelas águas do mar. Vai todo esse quebranto mau, todos os olhares maus para as águas do mau, vai pra onde cachorro não late, boi não berra, menino não chora e galo não canta, água da fonte, pra onde cachorro não late, boi não berra, menino não chora e galo não canta. Com os poderes de Deus, Virgem Maria, amém, Pai Nosso.” Aí, reza um Padre Nosso.

Ela jejuava, ela fazia jejum toda a quarta-feira. A minha avó fazia. E nós jejuávamos toda a Sexta-Feira Maior. Mas tudo ela falava com a gente. Na Semana Santa, ela não deixava a gente comer carne de jeito nenhum, não deixava a gente comer carne: “Minha filha, não pode comer carne, não é que a gente come carne no dia de hoje!” Aí nós criamos tudo desse jeito, tudo que minha avó me ensinou eu aprendi. Agora, eu, o mal, não tenho maldade com ninguém, meu coração é bom demais da conta. Adoro todo mundo, eu não tenho maldade, eu não tenho agressão, não gosto de agressão, não gosto de maldade, gosto só de alegria. É disso que eu gosto.

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