Busca avançada



Criar

História

O abismo da falta de informação

História de: Carlos Magno Gomes de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2016

Sinopse

Carlos Magno Gomes de Souza nasceu na cidade de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, onde surgiu uma paixão pelo futebol que ele cultiva até os dias atuais. Aos 18 anos, mudou-se para São Bernardo do Campo, em São Paulo, cidade na qual ainda vive. Em 2008, Carlos descobriu que estava com diabetes tipo 2 e, apesar de ser uma doença bastante divulgada, ele relata diversas situações em que a falta de conhecimento ainda se mostra presente no dia a dia das pessoas.

Tags

História completa

Meu nome é Carlos Magno de Souza, eu sou nascido e criado em Volta Redonda, Estado do Rio de Janeiro, no dia três de janeiro de 1969. O nome do meu pai, Davi Alves de Souza e mãe, Terezinha Gomes de Souza e tenho duas irmãs, a mais velha é Adriana Maria Gomes Ferreira, eu sou o do meio e a mais nova que é a Simone.  Minha mãe é nascida em Ervália, Estado de Minas Gerais e vieram para Volta Redonda, e meu pai era de Quatis, Estado do Rio de Janeiro, também saiu da região de Quatis. Chegando em Volta Redonda, minha mãe era funcionária da Lojas Americanas e o meu pai saía da Siderúrgica para paquerar a minha mãe na Lojas Americanas. Os dois se encontraram, se conheceram e dali pra frente, surgiu a família Souza. Minha mãe faz aniversario em julho, uma pessoa calma, bonifica, mas eu a conheci muito pouco tempo. Quando eu tinha 11 anos, ela teve um AVC e faleceu. Meu pai era uma pessoa mais nervosa, mas eu acredito que era por causa do seu trabalho como mestre em caldeiraria pesada.

A nossa família sempre foi uma família muito humilde, pai metalúrgico, minha mãe não trabalhava depois que ela conheceu o meu pai e casou, ficava em casa pra cuidar dos três filhos. A nossa infância foi recheada de brincadeiras como escorregar nos barrancos da vida, tomar banho de enxurrada de chuva, jogar bolinha, pião, pipa, coisa que hoje em dia você não vê mais fazer isso. Nós também viajávamos muito para a roça, tinha um irmão da minha mãe que tinha sitio, então nós sempre íamos para o sitio dele e lá, ficava final de semana, quando não íamos para o sitio, nós íamos para Angra dos Reis, porque Volta Redonda é muito próxima do Rio de Janeiro e de vez em quando, a gente ia para o Rio de Janeiro também, porque tinha uma parte da família que permanecia na cidade do Rio de Janeiro.  Dentre essas viagens teve uma muito especial , que nós fizemos com sete anos de idade para Angra dos Reis de trem. Foi a primeira vez que eu andei de trem. O trem saía de Volta Redonda, descia a serra de Angra dos Reis e chegava no centro de Angra dos Reis que chama Praia das Gordas e Praia Jardim. Essa viagem foi uma emoção danada, porque andar de trem e ver aquela paisagem, a serra, naquela época era magnífico. É uma passagem da minha vida que me emociona até hoje.

Volta Redonda era uma área de segurança nacional e devido a isso eu estudava em escola militar. Isso tudo em época de ditadura militar aqui no Brasil. Volta Redonda na época da ditadura tinha mais ou menos 120 mil habitantes, era uma cidade referência naquela época, muito em ordem, porque os militares tomavam conta, assim, era muito austera em relação a questão de responsabilidade, limpeza e o bem estar da população. Era uma ótima cidade para morar. Dou graças a Deus de ter estudado nas escolas militares de Volta redonda, que o emblema lá era FEVRE – Fundação e Educação de Volta Redonda e o qual, você estudava e na escola, você tinha uma parte dos estudos chamava Artes Industriais, você tinha que entrar na oficina e se formar ou em marceneiro, ou tapeceiro ou eletricista. Você já se formava no segundo grau, naquela época era o ensino básico e já saía com uma pré formação da escola, já podendo ingressar numa profissão externa à escola.

Eu Gosto de futebol até hoje e desenvolvi essa paixão na época da escola. Eu e meus amigos íamos a um campo de Várzea que tinha no fundo da escola, um terreno, campo de futebol de terra magnifico vermelho, quando chovia, melhor ainda, chegava em casa, já olhavam pra você: “Cara, da onde você veio?” “Vim da lama”. Aquilo era sensacional. Quando não era jogar bola, era empinar pipa, era muito bom. Aos 15 anos, eu comecei a trabalhar numa serralheria que existe até hoje em Volta Redonda, chama B. Guimarães. Uma serralheria de esquadria de ferro e alumínio. Eu entrei como auxiliar e permaneci lá até os 17 anos. Nessa época era uma vida corrida porque eu fazia um curso de técnico de edificações na Fundação Getúlio Vargas e sai para trabalhar de casa as seis horas da manhã e só voltava para descansar  meia noite e meia ou uma hora da manhã.  Depois da serralheria, com 17 anos ainda, eu prestei um processo seletivo em uma empresa de engenharia chamada CR Couto Engenharia em Barra Mansa. Barra Mansa e Volta Redonda é muito próximo e eu fui trabalhar como auxiliar de desenho e mexia com construção civil.

Com 18 para 19 anos, eu vim embora para São Paulo porque não gostava do sistema carioca de trabalhar. Eu sou uma pessoa um pouco agitada, capricorniano e gosto de trabalhar. E os cariocas são um pouco mais lerdos, mais tranquilos, trabalhavam menos e eu não gostava disso. E teve um tio por parte de mãe que morava aqui em São Bernardo do Campo, o Antônio Gomes , me chamou para vir, que tinha uma empresa de engenharia que estava precisando de pessoas para trabalhar e eu vim para São Bernardo do Campo com 18 pra 19 anos. O nome da empresa era BWS Engenharia e fiquei trabalhando com ele durante dois anos aqui em São Bernardo do Campo. E quando eu cheguei eu fui morar com o meu tio, ele tinha uma loja que consertava eletrodomésticos, tudo que faz parte de eletrodomésticos e fazia manutenção de eletricidade. Então, durante a semana, eu trabalhava na BWS Engenharia e de sábado e domingo, eu trabalhava com ele fazendo manutenções em apartamentos, lojas, comércios. A minha adaptação foi boa. Eu gostava da cidade, gosto da cidade até hoje e São Bernardo do Campo tem um atrativo também que me chamou muito a atenção que é a Represa Billings, eu ia pescar muito lá. Pescaria também é um dos meus hobbies.

E foi trabalhando na empresa BWS Engenharia que eu conheci a minha esposa. O meu sogro estava fechando um negócio com a BWS, comprou um terreno e ia construir a casa. Eu conheci o meu sogro, porque fiquei responsável pela obra da casa dele e começamos uma amizade e quando tinha construção de final de semana uma vez ele falou “Vamos comer uma feijoada?”, aí foi quando eu conheci minha esposa. Ele me apresentou a filha dele, a patrícia e daí pra frente começamos  a namorar e namoramos durante quatro anos, pedi ela em casamento e casei em 21 de dezembro de 1996. Ficamos quatro anos sem ter filho pra gente aproveitar, se conhecer, viajar. Depois ela engravidou do meu primeiro filho que é o Pedro, hoje ele tem 15 anos. Depois de um ano e pouquinho, veio a Sarah, e a minha caçula, Lívia, agora em 2013.

Em 2008 teve um episódio de estresse com um funcionário de uma empresa na qual eu trabalhava e depois da discussão eu senti uma dor abdominal muito forte, tive algumas fases de vômitos e aí, desmaiei. Fiquei 48 horas em coma e quando eu acordei, eu estava dentro do hospital. Eu tive uma pancreatite aguda, grave e os meus anticorpos combateram minha insulina como se fosse maligna, por causa do nervoso. Eu já tinha princípio de diabetes, mas eu controlava apenas com medicação via oral. Porém após esse acontecimento, meu pâncreas parou de produzir insulina e eu virei diabético. E eu não sou uma pessoa muito melancólica não, sou mais de encarar a realidade do jeito que ela é. Se é diabetes, eu sou diabético. Se vou ter que passar por isso, eu vou passar por isso. A Adaptação demorou um ano e meio, Para eu cair na real, mesmo, do que eu podia fazer e do que eu não podia fazer. O corpo pede. Eu estava acostumado a comer carne de porco, pernil, leitão a pururuca. Então é uma fase de adaptação normal do corpo. Hoje eu enxergo que o controle da diabetes depende muito de você. Se for uma pessoa muito relaxada, não faz o controle, não coloca insulina, o corpo vai se minando e os problemas virão. Mas se você for uma pessoa que acompanha e segue as recomendações você terá uma vida normal, como qualquer outra pessoa. E acho extremamente importante a disseminação de informações referente a diabetes, porque muitas dúvidas surgem para nós e não temos a informação exata e a falta de informação leva uma pessoa na beira do abismo e só falta alguém falar assim: “Cai”. Se tivesse informação, essa pessoa ficaria a uns dez passos do abismo e tinha como fazer um viaduto para ele atravessar para o outro lado.

Hoje sou engenheiro formado, trabalho em uma empresa familiar e tenho como sonhos acompanhar a minha família, saber curtir meus filhos e fazer as coisas que gosto como viajar, pescar, ir a praia e viver da melhor forma possível, sem muita extravagancia, sem muito espetáculo e continuar com os meus trabalhos, porque amo trabalhar. 27/07/2016

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+