Busca avançada



Criar

História

O alívio do compartilhar

História de: Carlos Eduardo Rahal Rebouças de Carvalho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2016

Sinopse

Carlos Eduardo Rahal Rebouças de Carvalho descobriu o diabetes ainda na infância após uma conversa com seu pai. Comenta como aprendeu a lidar com a doença, sua relação com a família e a dificuldade em contar sobre a doença para sua melhor amiga.

Tags

História completa

Meu nome completo é grande, Carlos Eduardo Rahal Rebouças de Carvalho. Nasci no dia 19 de fevereiro de 97 em São Paulo. Meu pai é Luís Eduardo Morato Rebouças de Carvalho e minha mãe é Adriana Rahal Rebouças de Carvalho, os dois também de São Paulo. Eles são da área de Saúde, o meu pai é médico, oftalmo, minha mãe é fonoaudióloga, eles se conheceram por amigos da faculdade e estão juntos a 25 anos de casamento. O meu pai é uma pessoa muito responsável, muito comprometida com as coisas, trabalha pra caramba, super engraçado também. Ele é muito inteligente, tem um humor que eu admiro muito, eu gosto muito das coisas que ele fala, da forma como ele enxerga a vida, ele tem um humor crítico muito legal. Minha mãe é uma pessoa mais leve, mais desligada, tem memória fraca. Ela é agitada, não para quieta um minuto, faz milhões de coisas, não tem muita paciência, é meio afobada, ri de tudo, mais otimista. Mas os dois são pessoas muito tranquilas, sempre me ensinaram a lidar muito bem com meu espaço, com minha liberdade, com minhas coisas. Mas sempre estiveram ali também. Meus pais são verdadeiros parceiros, eu devo muito a eles em termos de educação. Eu tenho um irmão mais novo, Gustavo, ele tem 15 anos. Eu acho que talvez ele não saiba disso, mas eu acredito que ele é a pessoa que mais me conhece no mundo. Nós somos muito diferente, ele gosta de bola, essas coisas, eu não sou dos esportes; ele não tem paciência pras coisas que eu gosto; eu gosto de música, toco piano, ele fica meio cheio, mas a gente se dá muito bem.

Sempre morei em São Paulo, aqui na mesma região, Alto de Pinheiros. Na minha infância eu lembro que tinha uma pracinha lá do lado de casa que eu ia muito, foi onde eu conheci meu primeiro grande amigo, na época eu tinha um ano, brincando de bola na pracinha. Eu gostava de brincar de fantasia, gostava de me sujar, brincar de lama, brincar de tinta. Gostava de me pendurar nos trepa-trepa, gira-gira, nos parquinhos. Eu estudei no Colégio Alfa, e eu gostava de brincar com a areia azul que tinha lá e os jabutis. Sempre gostei muito de bicho, meus avós têm uma fazenda que eu adorava ir pra ver os bichos. Eu não gostava muito de andar a cavalo, tinha um pouco de medo, não gostava de acordar cedo, mas eu gostava de ir lá no pomar, ver as galinhas, ver as coisas. Eu me lembro também de muitos passeios de bicicleta por toda cidade, Parque Ibirapuera, pela avenida Pedroso de Morais. Eu não sei por que, eu sempre tive um pouco de trauma de bicicleta, mas aí quando eu estava andando eu gostava. Então eu lembro muito de passeios pela cidade parando em museus, a gente foi ver uma exposição no Tomie Ohtake uma vez de bicicleta que foi muito legal. Então, uma coisa que me marcou foi a bicicleta. Outra coisa também é que eu faço teatro, sempre gostei, sempre adorei e eu lembro dos meus pais me levando pra ver teatro, pra ver musicais. Lembro de alguns espetáculos como o “Fantasma da Ópera, a Bela e a Fera, O Rei Leão que foram os que mais me marcaram. E aquelas peças mais infantis, tipos Pedro e o Lobo, peças de fantoche. Quando eu mudei de escola e fui para o colégio Santa Cruz eu entrei pro teatro também. Eu tinha feito circo uma época da vida, mas muito criança ainda. Mas quando eu entrei no Santa eu entrei no teatro e comecei a ter um professor por matéria, e então eu já comecei a perceber as matérias que eu gostava de estudar. Sempre fui independente em escola, nunca gostei de estudar com meus pais.

Nessa época eu fazia o teatro na Casa do Teatro que é da Lígia Cortez, fiz dos meus dez aos meus 16 anos, sete anos. E é um dos lugares que eu mais gosto no mundo porque, além de eu ter feito muitos amigos lá e muita gente parecida comigo, mais até do que na escola, era uma relação sempre muito horizontal, muito de parceria. Era um momento que eu ia pra lá e me libertava. Eu acho que o teatro sempre foi o momento do desafogo, do respiro. Eu tinha aulas de teatro, aula de circo, aula de dança, aula de música, tinha aula de artes que era a que menos tinha, aula de capoeira, então eu ia pra lá pra fazer milhões de coisas. Eu me lembro de várias peças, a gente montou O Mágico de Oz, Hamlet. No último ano a gente adaptou textos de um escritor que eu adoro que é o Caio Fernando Abreu, que é um escritor brasileiro. Então além de me trazer repertório, de me trazer companhia, professores incríveis e possibilidades de brincar, de experimentar um milhão de coisas, brincar de circo, brincar de trapézio, brincar de lira ou música, batucar umas coisas. Era sempre um momento muito de alívio, e quando chegava no fim do ano o que eu mais queria eram as peças, chamar as pessoas pra ver, e era sempre aquele frio na barriga, mas frio na barriga bom, o teatro me ajudou muito, em vários aspectos. Eu fiz teatro na escola também. Eram ambientes bem diferentes, mas se complementavam. Teatro na escola foi muito bom porque além de serem amigos na escola eram amigos no teatro também, então me aproximei ainda mais desse pessoal. Um momento marcante foi quando montamos Hamlet que foi uma peça divisor de águas. Foi um ano em que a turma diminuiu muito e quem ficou eram as pessoas que queriam mesmo e a relação que se criou entre a gente foi muito diferente, muito de intimidade. E foi o ano que eu descobri que eu era diabético, eu descobri faltando 15 dias para a peça. Isso foi um baque no dia, na hora, mas eu fui conversar com a minha professora, conversar com meus amigos e o astral virou. Tinha sido já um ano incrível, era o meu primeiro colegial, então as coisas estavam mudando na escola, estavam começando a mudar porque o colegial é outra vida, é quando você começa de fato fazer seus amigos que vão durar pela vida toda. Eu acho que eu descobri num bom momento de vida porque eu soube canalizar tudo isso e a peça foi um sucesso. Foi um momento que eu falei: “Não vou perder a positividade porque eu descobri que eu tenho uma doença, porque se amanhã eu descobrir que eu tenho outra, então, tenho que lidar com isso”. Então me ajudou muito a seguir em frente, a não ficar remoendo as coisas e deixar pra trás tudo o que a gente já tinha feito. Faltavam 15 dias para a peça e eu não podia deixar que uma notícia, por pior que fosse, me abalasse totalmente e me fizesse perder a vontade de estar lá e fazer uma das coisas que eu mais gostava, que é estar no palco.

Eu sempre fui mais reservado com relação ao diabetes então eu não saio contando pra todo mundo as coisas. Na faculdade contei para os meus amigos mais próximos, que são poucos. Um momento que eu me lembro como difícil ao conviver com a diabetes foi quando eu contei pro primeiro amigo, minha amiga na verdade. Foi um momento difícil, mas foi um momento ao mesmo tempo de grande alívio depois que eu consegui contar. Foi um ano depois do diagnóstico, já tinha um tempo de doença, eu falei: “Alguém precisa saber. Está na hora de eu contar para alguém”. E esse “tá na hora” que foi muito difícil, foi uma luta interna, sabe? Foi uma batalha mesmo, devo, não devo. Eu sabia, sim, devo, mas aquela coisa de como é que eu  vou falar na hora, como é que eu vou sair. E pensando agora, é tão simples, é só falar: “Eu tenho diabetes”, três palavras. Mas na hora aquilo tudo era o fim do mundo e mesmo ela sendo uma das minhas melhores amigas de todas, eu não conseguia contar. Eu contei pra ela no parque, a gente foi um dia passear e aí eu sentei e a gente contou, ela contou uma coisa dela também pra fazer uma troca. Mas foi muito difícil falar, sabe, por pra fora. Eu não sei se isso é um momento específico, mas era sempre muito complicado quando eu tinha que admitir pra alguém, chegar e falar: “Olha, eu sou diabético”. E quando eu contei foi bom porque me aliviou, porque eu consegui. E foi bom porque ela reagiu bem também. Eu lembro que ela ficou meio assustada achando que era uma coisa pior do que é e aí depois ela falou: “Não, mas durante um ano eu convivi com você e eu não sabia que você tinha isso e nada mudou, então não vai mais mudar, se não mudou até aqui não vai mudar mais, porque eu não sabia que você tinha. Então eu não notei nada de diferente em você. Agora eu vou notar que você toma Coca zero em vez de Coca normal, coisas assim”. Mas em mim ela disse que não tinha abalado, então isso foi muito bom pra mim porque foi tudo de uma hora pra outra esse momento difícil que foi alívio que foi, puxa. Isso me deu forças pra contar pra outras pessoas, sabe, sabendo que não ia alterar grande coisa e que eu não precisava ficar tão encanado assim em chegar e falar, chegar e contar pra alguém.

Hoje eu faço Direito, estudo na GV. Gosto bastante, tenho uma relação de amor e ódio, digamos assim, mas eu acho que no final das contas vai acabar sendo saudável. Acho que é uma faculdade muito boa, tem coisas incríveis pra me acrescentar. Espero levar coisas muito boas dela, assim como eu levo da escola, do Santa Cruz, que é um dos lugares que eu tenho mais carinho no mundo.

Hoje eu sonho em me formar, porque eu já tive umas crises com Direito de pensar se era mesmo isso que eu quero. Porque não quero ser advogado de escritório, ficar trabalhando coisa de honorário, não é muito a minha praia. Mas eu acho que tem espaço no Direito pra outras coisas além disso. Eu espero conseguir um espaço que me satisfaça, seja uma área mais de pesquisa ou de dar aulas, então pode ser que tenha uma espacinho ali. Mas eu tenho um sonho, um grande sonho, que é trabalhar com Artes em geral, principalmente teatro que é uma coisa que eu sempre gostei, desde pequeno, fiz desde os meus dez anos mas gostei desde pequeno mesmo. Agora voltei, estou fazendo Célia Helena também, que é o curso técnico, não é faculdade, mas é uma pegada de faculdade, então por mais que esteja competindo com a GV, eu espero que eu consiga, além de encontrar espaço pro Direito, consiga também abrir mais espaço pra isso que agora atualmente não é 100% da minha rotina, que é só 30, mas que sempre me fez muito bem.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional