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História

O canto do povo Kaxinawá

História de: Kixti Huni Kui (João Sereno Kaxinawa)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

João Sereno Kaxinawá - ou Kishin, nome que sua avó lhe deu - conta, em seu depoimento, sobre a cultura de seu povo. Aprendeu algumas rezas e danças observando o seu avô, além de ouvir muitas histórias de seu povo. Relembra dos rituais de seu batizado, das suas experiências tomando Nixi Pae e Rapé, que por serem sagrados e muito espirituais, acabaram mudando sua vida. Esse é um dos motivos dos seus alunos o chamarem de Pajé.

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História completa

P/1 – Boa tarde Kishin, bem-vindo. Vamos começar, então, se você puder fazer uma reza pra gente abrir essa entrevista maravilhosa, essa reza que o Cleiton tinha falado. Poderia, assim?

 

R – Sim.

 

[Reza]

 

Então, essa música é pra chegar no lugar desconhecido, agradecer a terra. Essa música é isso.

 

P/1 – Qual o seu nome, o local e a data que você nasceu?

 

R – Meu nome em língua materna é Kixti Huni Kui, em segunda língua sou João Sereno. Eu moro no Acre, no Município de Jordão, a terra de Kaxinawá da Seringa Independência, na aldeia Altamira.

 

P/1 – E você pode contar um pouco quem eram os seus avós, a história dos seus avós?

 

R – Meu vô, minha avó, eu vivia com eles junto. Eles são… O meu vô principalmente, ele são txana, faz batismo, se chama nixpupimá, ele faz outro ritual de festas de Katawa, chama ______, chamando o espírito dos legumes. Eles conheciam as plantas medicinais, curativo, perfumosa para banho. E também fazia outras dietas, cantoria das dietas, dieta da pimenta, dieta de papagaio estrelado. Ele tinha muitos filhos também, tinha dezoito filhos, o meu vô. Ele fazia as festas tradicional dentro do conhecimento dele, desde os ancestrais dele, então eu aprendi bastante coisa, pesquisei um pouco de alguns preparados de festa tradicional também, katxa.

 

P/1 – Você nasceu onde?

 

R – Eu nasci num Seringal, Fortaleza. Atualmente se chama Aldeia Três Fazendas.

 

P/1 – Mas era Seringal ou era uma Aldeia, na época?

 

R – Era um Seringal.

 

P/1 – E como foi o seu parto?

 

R – Meu parto, na hora que eu nasci, minha vó me pegou, diz que eu nasci cheio de melado, de sangue, aí me pegaram, me levaram lá, me embrulharam no paninho e depois, eu fui banhado em igarapé, se chama ______. Igarapé de _______.

 

P/1 – E aí você foi banhado?

 

R – Fui banhado.

 

P/1 –  E quem te deu esse nome de Kishin?

 

R – Esse nome de Kishin foi a minha vó que me deu, me deu o nome do irmão dela, ele é Kishin, então esse nome, a origem é desde os ancestrais mesmo do povo.

 

P/1 – E aí, você cresceu… O que você lembra da sua primeira infância, quando você era menino, bem menininho? Você cresceu onde? Você morava na casa que era da sua família, da sua mãe, do seu pai, eles moravam juntos? Como era?

 

R – A gente vinha mudando, eu nasci no Seringal Três Fazendas, depois, o meu pai me trouxe onde a gente criou mesmo, na Aldeia Xingu Curumin, então eu morei lá junto com o meu pai, fazendo roçado, cortando seringa, pescaria, caça. A gente morava no centro da mata mesmo.

 

P/1 – Você já caçava, pescava, fazia seringas, desde quantos anos?

 

R – Desde sete anos eu comecei a acompanhar o meu pai, cortando seringa, caçando na mata, andando na trilha, aprendizagem.

 

P/1 – E antes disso, o que você fazia?

 

R – Antes disso eu vivia com minha mãe, acompanhando minha mãe, esperando só ela, no centro da mata, às vezes, aparece algumas onças, então para ela não ficar com medo, acompanhava ela também.

 

P/1 – E o que você lembra desse período que você viveu com a sua mãe, você ajudava ela?

 

R – Sim, eu ajudava ela, ela me mandava pegar algumas coisas, algumas águas, algumas lenha que já tavam partidas pra ascender, então ajudei um pouco ela.

 

P/1 – E você brincava muito nessa época?

 

R – Nessa época, eu brinquei bastante com meu irmão, brincava de caçada, matando algum grilo…

 

P/1 – Brincava de matar grilo?

 

R – Fazendo tocaia, flecha.

 

P/1 – Você tinha quantos anos?

 

R – Eu tinha sete anos, mesmo.

 

P/1 – E tinha alguém que contava histórias para você?

 

R – A história... Eu ouvia o meu vô contando, alguns mitos dos surgimentos dos legumes, surgimento do fogo, transformação dos Ayahuasca, muitas histórias boas ele contava.

 

P/1 – E ele contava onde?

 

R – Ele contava na casa onde a gente morava e na hora que a gente queria ouvir, a gente pedia pra ele: “Vô, eu quero ouvir alguma história”, aí ele contava a história, os mitos _________.

 

P/1 – Quando fechar, a gente vai pedir pra você contar alguns mitos também pra deixar registrado, esse conhecimento maravilhoso. Você foi batizado com quantos anos?

 

R – Eu fui batizado na nossa tradição, nixpupimá, eu tinha doze anos de idade, já tava adulto.

 

P/1 – E você pode contar um pouco como foi esse batismo?

 

R – Esse batismo nixpupimá tem muitos processos, têm uma dieta forte para começar o trabalho espiritual, vem o batismo para conhecer, primeiro tem que ser batizado, depois para ver outras dietas, outros processos, então batismo nixpupimá, preparação de roçado, plantar a segurança alimentar, principalmente milho, milho verde e pamonha, e depois pintura, preparar tinta de jenipapo, urucum, faz a pintura. Depois da pintura tem o vestuário, farda pra pular, saia, colete, tiara…

 

P/1 – Você que preparava tudo?

 

R – Minha mãe, meu pai que preparava pra mim, preparou para mim pra eu me batizar. Então é o dono dos próprios filhos que tem que cuidar, tem que fazer para ele, organizar a farda e preparar a alimentação. E depois, a gente pulou, depois quando acabei de pintar, pintaram todo o meu corpo com jenipapo, eu comecei a pular. Alguém vai te guiando pulando, o dia inteiro, fica cansado sem tomar água e na hora que você quiser tomar água, com sede, toma caiçuma de milho e algum mingau de banana verde machucada, pode tomar. Água não toma, não. E no final da tarde, não pode dormir também. Tem que dormir assim mesmo, com muito sol que você teve o dia inteiro, pulando. E lá, quando você deita na rede, as mulheres vão rezar, trazer a reza, os cantos pra você receber balançando, a noite toda balançando, você tá ali, acordado, recebendo as energias, as forças, e bem reto para não ficar… Firmeza. Se você ficar torto, o seu jeito já vai ficando desse jeito, para não ser desse jeito tem que ficar ali quietinho, recebendo a reza das mulheres até amanhecer. Depois que amanheceu, vão pintar os dentes com a pimenta, pimenta longa que chama, tingir o seu dente. Quando fica no ponto, seu dente fica bem pretinho, o pajé, o padre já vai rezar levando na rede. rezando, cantando, levando e deixando a sua rede. E depois que receber essa reza do padre ou do pajé, no final, todo mundo já tá terminando as pinturas e vamos às guerras de coco na finalização. Todo mundo vai brincar com o coco, com algumas coisas já estragado.

 

P/1 – Joga um no outro?

 

R – É, uma pessoa dono de filho, esse é o encerramento. Daí depois que eu deitei, mais três dias na rede comendo pamonha, não come carne, sem sal, sem doce e depois de três dias, você vai se defumar, sair defumado com a pena de coruja, você vai receber as curas de banho com uma aruá que chama, chama nutchu essa… E no final mesmo, para finalizar, você tem que receber a vacina de kambô, para tirar tudo aquilo que… Você tem alguns problemas de saúde dentro do seu estômago, nosso corpo. Então, o kambô tira e limpa depois a sua saúde. Foi assim que eu fui batizado.  

 

P/1 – E o que você sentiu no batizado?

 

R – Quando eu batizei, eu fiquei feliz, eu senti já batizado, mas eu senti um pouco dor no meu corpo, me puxaram demais para crescer, então… E também receber o batismo, você já tá batizado ali, você já pode fazer algumas… Outros processos, dieta, qualquer dieta, dieta de muka, dieta de manaimbu, jiboia, então foi assim.

 

P/1 – Voltando um pouquinho, você contou que com sete anos você começou a trabalhar. Como que foi isso, como foi o seu primeiro dia de trabalho?

 

R – Meu primeiro dia de trabalho, eu acompanhava o meu pai, acompanhava alguma liderança que faz parte de trabalho na limpeza do roçado, na colheita de palha, construir as casas, bater a campo mesmo, limpar o quintal da casa, trocar roçado, derrubar árvores com machado, então primeiro eu vim conhecendo esses trabalhos maneiros.

 

P/1 – Você ainda não ia para a seringa? Era uma coisa mais de casa?

 

R – Sim, coisa mais de casa. Na seringa eu cortava algumas madeiras, só o meu pai que cortava, aí colhia o leite da seringa.

 

P/1 – Na época, você queria fazer isso, na época que ele te chamava?

 

R – Ele me chamava para fazer assim, tem direito sobre essas… Direito para poder comprar, negociar alguns objetos que a gente usa, sal, sabão, as coisas de manutenção da cozinha. Nessa época, tinha direito de cortar seringa mesmo.

 

P/1 – E aí, quando vocês iam cortar a seringa, você acordava que horas?

 

R – O meu pai sempre me chamava quatro horas da manhã, ainda tava de noite, levando poronga que se chama a lamparina com protetor. A gente partia à noite, quatro horas da manhã, madrugada.

 

P/1 – E como é o trabalho de cortar seringa?

 

R – Cortar seringa tem que levar faca de seringa, raspadeira e balde. Com a faca, você vai cortar lá na estrada de seringa já tem tigela pra embutir já, e depois cortar e ir colocando numa tigela, embute na tigela até terminar de fechar no fecho. Depois demorar um pouco e come algumas merendas, que já tava preparado, _______ assado, carne assada e depois, volta novamente, colhendo o leite da seringa no balde. Quando encher, tem que colocar num saco bem defumado, despeja lá e amarra com liga de soro. Depois coloca na corda e vem colhendo o resto de madeira que falta de colher. Chega à tarde e tem que tirar cavaco pra poder funcionar o defumador pra ascender, tira cavaco e traz no defumador e tem que botar um monte de cavaquinho dentro da fornalha.

 

P/1 – O que é cavaco?

 

R – Cavaco é pedaço de madeira mesmo que a pessoa tirava para poder queimar e quando funcionando a fumaça e defumava a sua borrachinha de pela. Eu vi dois tipos de produção de borracha, se chamava Pela e outro se chama Prensado assim. A prensado ficava mais fácil quando você já tá meio cansado e coloca só no vaso o leite da seringa e depois, mistura outro… Uma árvore, prepara, colhe bem rapidinho. Depois de três dias coalhado, você vai levando pra prensa e depois, prensar, tira toda a água e depois a sua borrachinha tá feita, tira da caixa e seca mais um pouco e tem pessoa que vem carregar, liderança…

 

P/1 – E aí, levava e dava pra…

 

R – Levava e trazia pra cidade do Jordão. Algumas pessoas que conheciam a cidade Jordão, negociavam.

 

P/1 – E ia como para a cidade do Jordão?

 

R – Ia de varejando, esses tempos, os meus parentes mais velhos viviam sofrendo mesmo, varejando as canoas, ou barco com vara, o dia inteiro, três dias gastando.

 

P/1 – E a canoa era construída também?

 

R – É, construído por eles, eles mesmos que sabem fazer, também.

 

P/1 – Aí, você lembra quanto dava de borracha um dia trabalhando?

 

R – A gente entregava a nossa borracha no final do mês. Final do mês, sessenta quilos, setenta quilos.

 

P/1 – E você sabe quanto que vocês ganhavam nos sessenta quilos?

 

R – Eu não lembro, mas a gente só trocava com alguma mercadoria que tinha na cidade, que a gente tava precisando do centro da mata. “Com esse dinheiro eu quero isso, quero sal, quero sabão, quero roupa”, assim que funcionava.

 

P/1 – Trocava por sal, sabão, roupa?

 

R – Só troca mesmo.

 

P/1 – E nessa história toda, vocês ainda praticavam a cultura?

 

R – Nessa história toda, eram só os velho que ensinava, no tempo de seringa, no seringalista, é aí que os meus parentes perderam mais um pouco os conhecimentos deles, cortando seringa não podia fazer as festas tradicionais, não tinha tempo, não tinha terra demarcada. Nesses tempos, só os seringalistas que estavam comandando o povo, não deixava sair de outros seringais, só segurando ali mesmo seu freguês, não compra nenhum objeto no outro patrão. Se for comprando isso, se for vendendo, o patrão já manda embora os freguês. Tudo os Huni Kuin saía com débito, com divida por causa disso.

 

P/1 – Sempre tinha dívida?

 

R – Tinha dívida, sempre tinha dívida saindo e tem que ir pagando, por isso que não tinha condição de sair.

 

P/1 – Quando você nasceu ainda tava assim ou já tinha acabado?

 

R – Quando eu nasci já tinha acabado esses seringalistas do povo branco e já morando Huni Kuin mesmo. Até 95, até 2004, a gente ainda cortou um pouco, fazendo sobre trabalho de couro vegetal. Nesse tempo, no tempo de seringa só funcionava alguns aposentados, aposentadas.

 

P/1 – E conseguia aposentar?

 

R – Conseguia. Conseguia aposentar.

 

P/1 – E aí, eles que tipo…

 

R – Aí eles que são mais fortes, eles que negociam na cidade. Eles que tem força, eles que tem dinheiro.

 

P/1 – Mas nessa época, você já morava em aldeia?

 

R – Nessa época, eu tinha doze anos de idade, eu morava em aldeia, se chama seringal, vem mudando os nomes. Primeiro seringal, segundo nome foi chamado Aldeia.

 

P/1 – E lá morava só Huni Kuin ou morava branco?

 

R – Lá morava branco também. Aí em 1975, chegou um __________ chamado de antropólogo, ele que começou a conquista, batalhar a terra pra seringalista, para conseguir a terra para o povo Huni Kuin. E começou essa batalha, todos os brancos saíram do seringal e depois que os Huni Kuin começaram sentir feliz, começaram a demarcação da terra e foi demarcado, foi demarcada a terra através da FUNAI, antropólogo.

 

P/1 – Mas aí, quando você nasceu, era só Huni Kuin?

 

R – Só Huni Kuin, quando eu nasci tinha só Huni Kuin, Nawa não tinha mais. Tinha alguns seringalistas… sS seringueiro também, tinha mais no seringal, assim.

 

P/1 – E nessas outras atividades, você lembra de alguma história que aconteceu com você quando você foi caçar ou foi plantar?

 

R – Outras histórias, quando na plantação de segurança alimentar, eu acho muito interessante plantar, você tá plantando é para própria gente, pra viver, pra alimentar. Se um dia algumas pessoas, se os parentes não têm, pode vim atrás também, planta também. Nesses tempos, não tinha… Muitos índios não é muito trabalhador também, índio é devagar no trabalho. Alguns faziam roçado, quando não fazia roçado passava fome também, buscando alguns legumes no centro, outro no seringal.

 

P/1 – Tinha uns que fazia e uns que não fazia roçado?

 

R – Sim, tinha os que fazia e tinha os que não fazia o seu roçado.

 

P/1 – Você fazia?

 

R – Nós fazia.

 

P/1 – E quem não fazia, o que acontecia?

 

R – Quem não fazia é que não deu tempo para ele fazer, né?

 

P/1 – Mas aí, o que ele comia?

 

R – Vai atrás onde tem.

 

P/1 – Vai com os outros parentes?

 

R – Com os outros parentes.

 

P/1 – E aí, pra fazer roçado tem uma festa específica, né?

 

R – É, pra fazer roçado, pra inventar algum festival tem festa específica e tem as rezas de fazer roçado, tem que agradecer a terra, pedir a licença à terra, pedir, rezar mesmo e depois, na hora de brocar os matinhos, as florestinhas, tem que pedir a licença também, tem que rezar também para ele. Brocar. E derrubar também, na hora de derrubar árvore sagrada, Cumaru, Samaúma, Copaíba e tem reza também para agradecer a árvore sagrada, o espírito tem que se sentir feliz, também.

 

P/1 – E quem fazia essas rezas assim?

 

R – Essas rezas assim, meu vô sabia, rezava nos trabalhos, na hora de fazer festival de katxa, ensinando os seus netos e os seus filhos, também. E depois que reza as… Na hora de derrubar e na hora de queimada também, tem reza. Na hora de queimada, você tá rezando ali no meio do roçado queimando, as mulher tem que rezar também na casa, chamando muito cogumelo, pra ter muito cogumelo no roçado. Depois tem as rezas também na hora de plantação, na plantação de inhame, mandioca, banana, amendoim, algodão, todas as plantas têm a sua reza também. Depois de terminar de plantar, pode deixar, ele vai crescer bem, vai dar semente, vai dar fruta, e depois, quando tá amadurecendo, você pode cuidar dos seus cunhados, próximos cunhados, seus próximos parentes pra fazer festival de katxa, chamar mais espírito dos legumes. Depois que chamar os cunhados, fazer abertura do katxa, faz abertura para caçada, rezar, cantar na roda e rezar, cantar também pra pescaria, fazendo roda e na hora de tirar o útero de __________ tem que fazer abertura pra essa festa, para ser alegria. E quando tira o útero do _________ deixa no maloca e agora, você já pode ir caçar junto com os seus cunhados, marcar a data durante uma semana e quando chegar, já recepção do seu cunhado, primeiro a música _________. A segunda música é hora de parar para se alimentar, tomar caiçuma para recepção das pessoas que chegaram, ter essa cantoria e depois que recebe, nesse dia, nessa hora, o seu tio, sua tia, seu primo, seu pai, seu ________ seu cunhado, chegou a hora de chamar o cunhado para receber, chama todo mundo: _________. Dentro do katxa isso. Aí depois que receber, trazer as comidas, tem que entregar com alegria, gritando: “_________, presente umas cabeças de veado, cabeça de porquinho, cabeça de tatu, paca. As mulheres também, todo mundo vai ficar feliz nessa hora, ganhando esse presente, muita carne e depois que come junto, aí começam as festas, começam as cantorias, danças, alegria também e vem dentro das katxas vem vários tipos de animação, tipo de reza pra sonhar bem, se chama namacutã _________, festa de morcego, dança de jabuti ________. Então são esses que tem a reza para fazer o roçado.

 

P/1 – E você, na época, ia aprendendo? Como era pra você ir nessas festas tradicionais?

 

R – Nessas festas tradicionais, eu gostava muito de entrar no meio também para poder aprender. Eu tenho vontade de aprender nessa festa bonita, essas cantorias sagradas, bonito, né? Eu tenho interesse também.

 

P/1 – E aí, você aprendia… Era o seu vô que ensinava?

 

R – Sim, era o meu vô que fazia nessa aldeia, nessa comunidade.

 

P/1 – Como as pessoas aprendiam com ele?

 

R – Aprendia na hora de festa, convida, próximo a aldeia, os cunhado, os parentes. Todos os parentes dele tem que aproximar, aí nas danças vai aprendendo, ouvindo, cantando e dançando.

 

P/1 – E as crianças sem ser neto dele, ou era todo mundo neto dele aí?

 

R – Na aldeia, todo mundo é neto dele.

 

P/1 – Todo mundo é neto dele?

 

R – Todo mundo é filho, todo mundo é genro… Cada pessoa morava junto com a sua família, mesmo. Sua família própria, mesmo.

 

P/1 – E tinha escola nesse lugar?

 

R – Nesse lugarm escola, só escola da floresta mesmo. Funcionava assim, na casa mesmo, não tinha escola.

 

P/1 – Não tinha escola?

 

R – Não tinha escola.

 

P/1 – E como a pessoa te ensinava?

 

R – A pessoa ensinava assim mesmo, na voz e nas danças. Então talvez, na hora de dormir você tem que estar lá perto do velho pra ouvir e perguntar. Aí o velho é profissional, ele não para não, canta ou conta a história.

 

P/1 – E todas as crianças iam?

 

R – Todas as crianças iam numa casa, casa do liderança, só uma pessoa que pode ir lá junto para… Na hora de refeição, na hora de refeição pode contar as histórias, pode cantar. É assim que a gente gostava. E a gente vê os adulto fazendo e a gente criança, também começamos a fazer, só as crianças mesmo, disputando com outras crianças com quem já tá aprendendo a dança, as cantorias, é assim que vem praticando.

 

P/1 – E na época, todas as crianças gostavam disso?

 

R – Gostava disso, gostava muito disso.

 

P/1 – Não tinha nenhuma criança que queria ir embora?

 

R – Não tinha nem forró, só por isso, não tinha nem forró, nesse tempo, não tinha contato com o povo branco. Alguns que já conhecia. Alguns que não conheciam ficavam com medo quando vinha nawá, então é só por isso que a pessoa se desenvolveu mais na festa, nessas cantorias, nas rezas.

 

P/1 – E qual foi a primeira reza que você aprendeu?

 

R – A primeira reza que eu aprendi foi sobre chamar espírito dos legumes, mesmo, uma música. E depois, aprendi a música do Ayahuasca, Nixi Pae. Cada parte eu consegui ir aprendendo também.

 

P/1 – Você bebeu o Nixi Pae, com quantos anos?

 

R – Eu comecei beber Nixi Pae com doze anos também. Com doze anos, eu já tomava um pouquinho, agora eu encontrei a força, ________, todos os meus parentes estavam lá, todas as lideranças na reunião, no final da reunião tomaram, eu vou tomar também. Eu acompanhei o meu pai, a gente tomou, eu tava com sono e voltei para casa. E deitei lá, quando eu acordei, a força já tá em cima de mim, tudo jiboiado, aí eu comecei a tremer, rapaz, é força, agora eu sou jibóia. Outra jiboia vem me agarrando mesmo, será só eu que tô vendo assim, aí pra eu melhorar, eu queria tomar água, eu desci, tomei água e não melhorou. Quando eu tomava, chegava mais força. Até que depois a força foi abaixando, aí o resto, as crianças de menos idade sofreram bastante, chorando, gritando mesmo. Aí eu comecei a acreditar, eu vi jiboia, eu vi lagarta, eu não vi muitas coisas, eu vi isso primeiro, minha miração, senti muita força. Aí eu comecei a gostar também, aí eu vi as cantorias e aprendi bastante cantos.

 

P/1 – E eles falavam o motivo que eles tomavam Nixi Pae?

 

R – Os motivos que eles falava, pra ver os seus trabalhos, pra onde seguir, o que pode fazer, a melhoria, fazendo as curas também dentro da miração, é assim que falava e tomava.

 

P/1 – E aí, depois dessa vez que você tomou, como foi a sua relação com o Nixi Pae?

 

R – Depois que eu comecei a tomar, agora esses tempos, Nixi Pae tá me mostrando. Quando eu tomo, eu consigo ver onde que eu vou seguir no meu caminho, me mostra na hora de gravação, até me mostrou o meu casamento. E o Nixi Pae também traz as coisas passadas, o que você já passou, ele mostra, o que você vai pensar no futuro também ele mostra, e o presente também. Então, Nixi Pae é sagrado, não é brincadeira, é coisa sagrada, é segredo e espiritual, trabalho forte. Eu sei quando conecta e acreditando, ele é professor, ele que traz parte da cura. Pra mim, Nixi Pae acho que não posso deixar, não. É muito medicina sagrada. Ano passado, ele me mostrou, eu tava ali cantando na roda, no terreirão, eu tava cheio de negrafone, aí eu me concentrei: “Rapaz, eu tô vendo muio negrafone”.

 

P/1 – O que é negrafone?

 

R – Negrafone é para falar.

 

P/1 – Ah, megafone.

 

R – Aí eu vi isso aqui nessa capital, São Paulo, eu vi uma gravação também, Nixi Pae me mostrou e eu vi o presente também. A gente estava gravando no estúdio e eu vi isso também. Megafone cantando, fazendo gravação de CD. Então é assim que eu tô vendo na hora da gente tomar o nosso Ayahuasca no trabalho espiritual, Nixi Pae.

 

P/1 – Você já viu alguma cura acontecendo, com uma pessoa? Alguma cura física mesmo, com o Nixi Pae?

 

R – Com o Nixi Pae? Com o Nixi Pae, você pode curar também. Se alguém tá com problema de saúde, através de Nixi Pae, você tá vendo, você pode curar, assoprar, botar alinhamento no pensamento dele. Nessa hora, você tá na força, você tá vendo, você tá melhorando, aí você tá conectado. Então, faz essa parte de cura através de Ayahuasca.

 

P/1 – Acho que dá para fazer mais um canto para deixar registrada pra essa volta?

 

R – Eu vou trazer um canto aqui, o jacaré serviu de ponte nas histórias.

 

[Canto]

 

P/1 – O que é essa jiboia que você sentiu? Todo mundo lá sente assim, essa jiboia?

 

R – Essa jiboia na força, quando primeira sua miração, você tem que concentrar a jiboia, então é ele que é o dono do Ayahuasca.

 

P/1 – O que você acredita? Porque aqui a espiritualidade é Jesus, tem umas… Como é espiritualidade assim Huni Kuin? O que falaram pra você, como é que funciona o mundo, porquê que a gente tá aqui. Seu vô te falava essas coisas?

 

R – Porque nós estamos aqui é através das forças das florestas, nós estamos vivendo na floresta, através de conhecimentos das dietas, da jibóia, dos muka, ervas poderosas. E estamos vivendo através dessa força, o que nós estamos acreditando, força da lua, lua nova. Então são esses que nós estamos acreditando e nós estamos aqui vivendo.

 

P/1 – Chama espírito? São espíritos?

 

R – Esses são espíritos, encanto…

 

P/1 – Encantado?

 

R – Encantado.

 

P/1 – Quais são os encantados que você teve contato?

 

R – A gente pode… Na hora da dieta, pode fazer dieta de jiboia, _______ e a erva poderosa, chama ________. Então, são esses dois, você pode acreditar, a gente acredita pra receber as forças e faz dieta direitinho pra ser como você quer ser. Então essas duas são pontos mais interessantes para fazer dieta do conhecimento.

 

P/1 – Qual foi a primeira dieta que você fez?

 

R – A primeira dieta que eu fiz foi no batismo, eu entrei na dieta, não comer sal, sem beber água, sem dormir muito, então a primeira dieta que eu recebi foi do batismo, aí depois eu fiz dieta de papagaio estrelado.

 

P/1 – E pra quê? Como que é essa do papagaio?

 

R – Essa do papagaio estrelado é uma planta, pega as folhas e a reza, curando e rezando pra poder ser bom de memória, pra aprendizagem, melhoramento da língua, então só por isso que a gente faz essa parte, com essa planta.

 

P/1 – E quem que fez em você?

 

R – Quem me fez foi o meu vô tava fazendo no meu tio, aí eu me interessei também. “Eu vou querer também”, aí ele me rezou.

 

P/1 – E você sentiu que melhorou mesmo o seu canto depois disso?

 

R – Melhora. O que você não consegue falar bem na sua língua, às vezes, falar normal assim, e dá para desenvolver mais, eu senti isso, minha língua e aprendizagem, abrindo a minha memória e ouvindo as cantigas e tem que cantar junto, sem parar, onde você for, se você quer dormir, canta um pouco, na hora de acordar, canta um pouquinho, aí já vai treinando, vai praticando.

 

P/1 – E você disse que tinha muitas coisas pra fazer, era roçado, caçar, plantar, e você sabia fazer tudo bem? Você aprendeu tudo?

 

R – Eu via que estavam fazendo, eu fazia também. Acompanhando o meu pai, o meu pai me ensinava. Você pode fazer… Plantar, na hora de plantar a mandioca, tem que tampar bem para não pegar muito sol, para não ficar seco e o milho também, o milho tem que cavar bem depois, plantando.

 

P/1 – E como vocês faziam depois com quem não era bom? Tinha gente que não aprendia a caçar, ou todo mundo aprendia?

 

R – A caçar e a pescar todo mundo aprendia.

 

P/1 – Todo mundo aprendia?

 

R – Aprendia. Só alguns que não aprendiam os cantos, as rezas. Algumas pessoas não sabem, pode perguntar sobre os meus parentes lá no Jordão, tem algumas pessoas que: “Eu não aprendi a cantor, não. Eu não sei contar história”, não sei porquê tem pessoas que faz isso. Tantos velhos, tantas velhas que vivia contando essas histórias, esses mitos, essas cantorias.

 

P/1 – Lá todo mundo respeita mais os velhos?

 

R – É, tem que respeitar mais os velhos, porque ele é mais velho, ele tem mais conhecimento. Qualquer velho pode acreditar, conhecimento mais profundo.

 

P/1 – Mas eles ainda tinham o conhecimento, mesmo? Porque os velhos da sua época eram os velhos que tinham passado pela seringa, né?

 

R – Sim, pela seringa.

 

P/1 – E aí eles mantinham o conhecimento?

 

R – No tempo de seringa, alguns velhos aprendiam com seus pais, com os seus parentes fazendo, não são muitos velhos, principalmente, família Sales são famíliaa do ______, que é parente do meu vô. Família do Pereira são ______ também. Essas duas famílias são _______, família do Sereno, tem três famílias, principalmente, o povo Huni Kuin, do tronco mesmo são esses _______. O resto das famílias estão aprendendo com eles.

 

P/1 – E além da família, tem uma coisa de clãs também, não tem?

 

R – De clãs? Tem.

 

P/1 – Como é que é isso? De clãs?

 

R – Esse de clãs tem de duas partes, da onça e da jiboia, se chama _______ da onça, família da onça e ________ é a família da jiboia.

 

P/1 – E você é de qual?

 

R – Eu sou do _______, da jiboia.

 

P/1 – E o que muda de um clã para o outro?

 

R – De um clã para o outro, você mesmo pode perceber na pessoa, pessoa que tem mais seguro, você vê na cara, também. Na própria pessoa mesmo você percebe, o jeito, as conversas, o que ele sente. É assim que você vai perceber as funções, o clã ________.

 

P/1 – E de habilidade também muda?

 

R – Como…

 

P/1 – De saber fazer as coisas?

 

R – Muda também de saber fazer as coisas.

 

P/1 – Tipo, você e jiboia, né?

 

R – Jiboia.

 

P/1 – Jiboia faz mais o quê? Como que se percebe que alguém é jiboia?

 

R – Alguém jiboia… Jiboia é pessoal tranquilo, pessoa calmo, faz qualquer coisa boa, o clã ________ é um pouco mais seguro, não deixa algumas coisas abertas. Pessoa pouco segura, então __________ são coisa seguro.

 

P/1 – Como assim seguro?

 

R – Seguro, não pode explicar melhor, não pode rezar algumas cantorias sagradas deles, então tem pessoa que é seguro é assim, não libera o conhecimento deles, então é assim.

 

P/1 – E o jiboia casa com… Pode casar jiboia com jiboia?

 

R – Os primeiros… Os velhos vinham casando certinho, jiboia tem que casar com onça. A onça tem que casar com a jiboia, agora esses tempos, todo mundo já tá misturado, até casa com a prima, com parente próximo, não casa mais onça com jiboia. Casa onça com onça, jiboia com jiboia. É assim que tá acontecendo, tá muito misturado a vida de casamento.

 

P/1 – Você casou como?

 

R – Eu casei com mesma família, com jiboia.

 

P/1 – Da sua família?

 

R – Da minha família.

 

P/1 – E por que foi da sua família?

 

R – Porque eu não escolhi, principalmente os pais da menina que me levou nas nossas famílias, na hora de juntar a família, casamento, por causa, se o meu filho… Alguém vem atrás dele, ele vai morar lá no sogro dele, ele vai sustentar o sogro e a sogra, trabalha pra eles, caçar, pescar. Agora a menina, a minha filha vai morar comigo, eu que vou atrás de homem pra ela, homem trabalhador, que sabe fazer alguma coisa melhor, coisa forte para… Você fica forte também, né? Então, é assim que… E também não casa tão fácil, não, tem que casar, tem que trazer todas as famílias deles pra ele ficar sabendo, reunir um pouco, discutir pra casar, para fazer isso, na hora do casamento tem que ter isso para viver bem com o seu esposo.

 

P/1 – E como foi o seu casamento?

 

R – O meu casamento em 2007… Não, 97, foi em 97 eu me casei. Em 97 me levaram, eu tava visita também, acompanhado do meu vô, tava batizando outras turmas lá do Seringal Independência. Aí eu acompanhei ele, passamos uma semana lá no Seringal Independência, quando a gente voltou na cidade do Rio Jordão, pra subir o Rio Jordão, uma pessoa conversou comigo: “Eu queria te levar na minha aldeia, eu queria dar a minha filha, entregar mesmo”, aí eu confirmei com ele, o homem não pode: “Eu não vou não, não vou casar, não”, não pode ser isso. Tem que ir lá, ver se vai dar certo. Se não vai dar certo, tudo bem, volta para a sua aldeia, também. Aí, eu fui lá e casei em 97.

 

P/1 – Quem que te chamou?

 

R – Foi o pai do Ixan, se chama Maiá, Francisco Pinheiro em português.

 

P/1 – Ah, o Maiá, né?

 

R – O Maiá.

 

P/1 – Ele tem quantos filhos, esse Maiá?

 

R – Esse Maiá tem o Ixan, _________. Tem doze filhos no geral.

 

P/1 – A aldeia inteira ali é descendente dele, não é?

 

R – É, só família dele. Genro, filho…

 

P/1 – E teve uma festa de casamento?

 

R – Não tem festa, mas tem reunião, reuniram ali.

 

P/1 – E o que mudou na sua vida depois que você casou?

 

R – Depois que eu casei, minha vida, eu senti coisa séria para trabalhar, porque quando você casou, você já chegou… Se você mesmo que pensa, você já tá casado, é você que tem que sustentar sua família, caçar, pescar, tirar lenha, fazer roçado, trabalhar algumas diárias para poder comprar algumas vestimentas para ela, roupa, fazer a casa. Agora você vai ter mais trabalho na hora do casamento.

 

P/1 – E como é que faz casa lá no Huni Kuin?

 

R – O Huni Kuin faz casa, primeiro tem que procurar uma madeira que tem âmago, madeira boa e tirar as ________, depois de tirar _______, tirar as _______ da casa, primeiro tem que preparar na madeira todinha o ________ que precisa, tira tudo, depois começa a montar, começa a armar, cavar, colocar ________, depois montar ________.

 

P/1 – E você trabalha sozinho construindo a sua casa ou…

 

R – Trabalha. Trabalha com outras pessoas, com seus cunhados, tem que ajudar.

 

P/1 – Eles te ajudam?

 

R – Eles ajudam.

 

P/1 – Aí depois você ajuda eles?

 

R – Depois você ajuda ele, na hora que ele tá fazendo. Depois de armar, amarrar, tem que entrar num outro processo, tirar a palha, se tá baixo, tem que manejar e depois arrastar da mata e trazer perto da casa. Depois ______, bater, deixar no cantinho perto, passar três dias e vai tirar, envira pra poder começar a cobertura. Depois tira a envira e amarra nos ________ e começa a cobertura, amarrando com palha.

 

P/1 – Mas pra isso você usa machado?

 

R – Usa machado, facão…

 

P/1 – Facão, o que mais?

 

R – A lima pra amolar a faca.

 

P/1 – E os antigos faziam como?

 

R – Os antigos não tinha isso, não tinha isso, mas sofria bastante, só ocupava algumas pessoas que tinha _______, que é como se fosse um traçado de pupunha. Se for brocando, ele… Brocava perto de uma árvore grande, depois queimava a árvore quando, árvore grande queimando, aí cai, e lá já pode plantar. E na hora de fazer a casa, como eu informei também, primeiro pessoal que já conheceu o povo nawá, ele que já tinha, aí o pessoal já vai lá atrás pra ele vir trabalhar para ele, atrás de algumas pessoas que já sabe. Primeiro vinha desse jeito, um vai atrás do outro de quem sabe, quem ensina, aprendizagem assim.

 

P/1 – E assim, todo mundo do povo sabe fazer casa?

 

R – Todo mundo do povo sabe fazer casa nesses tempo, já. Já conhece, já aprenderam. E depois de cobertura, você tem que ir atrás pra fazer assoalho, derruba paxibão, partir, tira a bucha, carregar, trazer, bater com o machado e faz assoalho. Paxibão, palmeira.

 

P/1 – E aí acaba?

 

R – Aí acaba. Depois faz fogão pra poder funcionar, fazer alguns quartos para colocar o seu material.

 

P/1 – Em quanto tempo você faz uma casa, assim?

 

R – Uma casa pode terminar com dois meses.

 

P/1 – E aí, quando você casou, você já teve que fazer uma casa?

 

R – Quando eu casei, passou um ano e eu comecei a fazer a minha casa, minha própria casa mesmo pra morar.

 

P/1 – E você teve filho logo no primeiro ano?

 

R – No segundo ano eu tive filho. Me casei, passei um ano, segundo ano tive filho.

 

P/1 – E como foi que você educou o seu filho?

 

R – A mulher que fala, se você já namora com ela muito tempo, aí quando ela sente, ela fala, fala pra mãe, avisa que já fez menstruação, ela que entende, a mulher… Parte delas que entendem também, então homem só fica sabendo e quando a mulher… As barriguinha crescendo, depois quando tem nove meses, aí ganha neném, aí começa a cuidar, mas o mais complicado, você não pode mais dormir também, no nascimento dos seus filhos, tem que estar lá, acordado, fazendo comida, tirando brasa pra ele não sentir frio.

 

P/1 – Aí você não dormia mais?

 

R – Não dormia mais, um pouquinho, quando chora, você tem que já acordar pra atender. Já é mais difícil. E aí, o que mais que você fazia assim, pra…

 

P/1 – O que você ensinava pro seu filho?

 

R – Pro meu filho, eu ensinava o que eu sabia, fazer alguns artesanatos, arco, flecha, ia na mata, andar, caminhar, ensinar os nomes das árvores, nome do igarapé, ensinar algumas músicas, algumas danças como funciona.

 

P/1 – Pra você, pros Huni Kuin, tem certo e errado? Tem algum jeito que a pessoa tem que ser, valores? Alguma coisa que, além de você ensinar a pessoa, fazer coisas assim, vocês ensinam… Ela tem que agir de algum jeito? Ou como é que é?

 

R – Ele tem que se esforçar também para poder aprender. Aprender para conhecer, ele tem que estar lá acompanhando você, principalmente, o seu filho homem tem que acompanhar o pai, aprendizagem do pai, conhecer o conhecimento do pai, a menina vai ficar na parte da mãe, conhecer os trabalhos da mãe, artesanato, tecelagem, algodão ou então miçanga, ou então cerâmica, ou então fazendo cestos com a palha.

 

P/1 – Agora tem um povo que bebe, não tem?

 

R – Que não bebe…

 

P/1 – Por exemplo, como é que a criança faz se o pai dela não trabalha, ou se o pai dela já morreu, sei lá, foi comido por uma onça?

 

R – Assim, no caso, família tem que sustentar, tem que caçar, tem que pescar pra ele ou pra ela.

 

P/1 – Vai aprender com o outro?

 

R – Vai aprender com o outro, com o tio, ou com tia ou com primo ou com cunhado.

 

P/1 – E você começou a trabalhar de professor, também?

 

R – Sim, eu comecei a trabalhar de professor em 2005, também.

 

P/1 – E como foi que você quis ser professor?

 

R – Eu quis ser professor, eu já trabalhei bastante, trabalhei como agricultor, pescador, seringueiro e participar festa em outras aldeias, até que me casei e fiquei junto, meu primeiro trabalho eu trabalhei no fornecimento, fornecedor das escolas, fornecia pra escola alguns legumes, mandioca, entregar os merendeiros que chama. depois de fornecedor, eu trabalhei um pouco na UNI FUNASA, da prefeitura, trabalhava no saneamento básico, informação da comunidade sobre alimentação, da água, higiene mesmo. Então trabalhei dois anos também. Aí, na política, me botaram desemprego, UNI FUNASA gastou todo o dinheiro das prefeituras que eles estavam ganhando, aí eu fiquei sem recebimento, e em 2005, o Exan me convidou…

 

P/1 – Quem?

 

R – Exan, ele é já nesse tempo, já trabalhou… Assumiu vereador, a gente votou nele e ele conseguiu ganhar, aí ele foi trabalhar no município, tem direito de trabalhar na câmara dos vereadores, aí ele me entregou esse trabalho de professor: “Olha, você tem que trabalhar, eu tô vendo que você dá para trabalhar, você mesmo que tem que ir lá e reunir a comunidade, se a comunidade entrar de acordo, você vai trabalhar”, aí eu voltei do município, ele já tava no curso, o Exan, em Rio Branco. Aí fiquei lá, conversei com o pessoal lá: “Olha, o Exan falou isso pra mim, não sei se vocês vão entrar num acordo comigo”, aí o pessoal entrou em acordo, “Então vamos trabalhar, não tem mais outro professor, então você tem que trabalhar, nós estamos deixando a confiança com você, com os nossos filhos”, aí me aprontaram e eu comecei a trabalhar em 2005. Eu comecei a trabalhar numa casa, não tinha escola, dando aula na casa mesmo, casa de moradia e conseguimos chegar a escola da prefeitura com o material, com algumas kits de ________. Daí comecei a trabalhar, dando aula na prática, teórica…

 

P/1 – Prática, como é que são as aulas?

 

R – As aulas práticas, você vai levar no campo, mesmo, os alunos para eles conhecer, para eles saberem. Na hora de aula de Ciências, você tem que ir andando na mata e ensinando as espécies de planta, pra que serve, identificando também, mostrando com o que cura, com folha ou com raiz, o chá e o banho.  

 

P/1 – Aproveita que você falou disso, da Medicina, que a gente não falou, não perguntei ainda sobre a Medicina. Como é a Medicina de vocês? Você já se curou de alguma coisa? Como que as pessoas fazem pra se curar quando ficam doentes lá?

 

R – Quando fica doente lá, se as crianças… Por exemplo, sai mal de boca, boqueira assim, tem Medicina, tira Medicina, se chama ________ e depois faz ________, numa sororoca, tira duas folhas, mistura urucum, semente de urucum, fica bem vermelho, machuca um pouco e pode passar onde tá na boca. Se alguém tá com tumor, tem outras espécies também pra tumor para desaparecer e tumor para espocar, furúnculo que chama. É furúnculo. E também trata, também, fraqueza, quando alguém, a pessoa anda e fica cansativo e tá vendo ali, no seu olho, preto assim. Tem planta para proteger, para curar, esse é pra banho. Algumas perebas em criança tem outras espécies também para cauá e fazer curativo, também.

 

P/1 – O que é cauá?

 

R – Cauá é pegar uma folha de sororoca e colocar algumas… As Medicinas e faz a cauá, eu não sei no português, cauá.

 

P/1 – E você já curou alguma coisa em você?

 

R – Comigo? Já. Já me curou, já. Já me curou fraqueza e já me curaram… Eu tava com tumor e é bom, ajuda mesmo. Quando você não vai ser curado com a planta, você tem que ir atrás de outro rezador que sabe rezar com oração, mesmo, rezando mesmo. Se não tem cura a reza, você tem que ir na cidade, no polo base.

 

P/1 – Tem gente que cura rezando, mesmo?

 

R – É, tem três tipos de doença, também tem três tipos para curativo, para melhorar. Se você for atrás do rezador, se rezar e não curar, se você vai na cidade, comprar medicamentos e faz a consulta, se não cura, tem direito de curar com plantas medicinais. Se a planta não cura, a reza não cura, você vai na cidade e cura.

 

P/1 – Mas primeiro tenta planta e reza?

 

R – É, tenta planta e reza.

 

P/1 – E quem que reza?

 

R – A reza, alguns velhos aprenderam com alguns povos brancos que sabem o rezador, né?

 

P/1 – Ah, aprendeu com o povo branco?

 

R – Sim, aprendeu com o povo branco que sabe rezar de peito aberto. Você que tem peito aberto, você sente que tá sentindo como uma pessoa que tá enfeitiçando você, tá sentindo ruim, dor de peito, dor nas costas, sonhando mal, não consegue mais comer. Então, tem a própria reza pra peito aberto.

 

P/1 – E quando a pessoa tá doente, mas não é do corpo, ela tá muito triste ou a pessoa muito raivosa ou sem vontade de trabalhar, como é?

 

R – Aí se tem planta também, pra esfriar o coração, para sentir, ficar feliz, ficar firmeza, acalmar, isso tem.

 

P/1 – É planta?

 

R – É planta. Uma espécie que se chama _______. Outro se chama _______. Com essas duas tratam esses problemas. Pessoa que tá estressada, pessoa que  sente raiva, é problema do coração, mesmo. Coração que tá muito quente, ali então tem que esfriar.

 

P/1 – E todas as plantas são preparadas do mesmo jeito? Ou são de jeitos diferentes?

 

R – São jeitos diferentes. Um faz cauá, outro faz preparo só sumo, outro é pra banho e outro é chá. Tem vários preparos.

 

P/1 – E na aldeia de vocês já foi antropólogo?

 

R – Na nossa aldeia já, anda muito antropólogo. O _______, mas outros visitantes e também conheci vocês também.

 

P/1 – E quando é para a aldeia, quando vai alguém de fora?

 

R – Na minha observação, quem vem lá de fora eu sinto sempre muito feliz, porque é uma ajuda, troca de artesanato, dinheiro e aprendizagem junto, trocando a ideia, falando. Muito importante na hora de festival, no festival ajuda muitas pessoas, a mestra que sabe fazer a tecelagem, que sabe fazer a arte, todos os _________ daqui que vão pra lá, pra mim é um apoio, uma ajuda, sai alguns pacotes da comunidade, todo mundo da comunidade sente feliz, acreditando. É assim que estamos vendo. Ajuda alguns projetos, o projeto de água já tá tendo captação de água e poço artesiano, então tá chegando mais apoio lá dentro da comunidade, tá melhorando cada vez mais com o apoio dos _______ e projeto da prefeitura não tem nada, nosso povo não está vendo nada. Como o nosso governo, como nosso deputado, é pessoa daqui que vai pra lá, ajuda bastante.

 

P/1 – E como é que o povo Huni Kuin faz para não machucar a natureza? Como que você consegue viver a sua vida na floresta sem machucar a floresta?

 

R – Sem machucar a floresta… Agora tem que machucar um pouco, né, na hora de fazer o roçado, isso você tem direito para machucar, pra brocar, para derrubar, queimar. Depois é cooperar. Cooperar plantando.

 

P/1 – Mas para lavar, vocês estão fazendo alguma coisa com… Porque entram alguns produtos, né?

 

R – Como assim?

 

P/1 – Tipo pra lavar roupa?

 

R – Ah, sim! Pra lavar roupa, o Huni Kuin lava no rio mesmo. No rio.

 

P/1 – E o rio tá dando peixe ainda?

 

R – Tá dando peixe. Alguns cantos têm peixe, alguns canto por causa da desmatação do povo branco não tem mais poço, não tem mais peixe. Alguns canto onde tá preservado, onde tem poço tem peixe.

 

P/1 – E as aulas - continuando o que eu tinha perguntado dos professores - o que você ensina?

 

R – As aulas, pra poder começar a dar aula, eu participei de duas oficinas na aldeia, a oficina dos professores e participei de dois cursos de formação continuada ______, Município Plácido de Castro, e é interessante, é pra levar esse conhecimento do mundo branco e o nosso mundo, Huni Kuin, nosso conhecimento. Escrever, preparar, planejamento, disciplina, tema, objetivo, isso tudo que tem que preparar para poder entrar na escola e dar aula. E estamos dando aula em nove disciplinas: Língua Indígena, Língua Portuguesa, Matemática, Geografia, Ciências, Educação Física, Arte, Religião…

 

P/1 – Religião? Você dá aula?

 

R – Sim, Religião, a gente fala sobre Religião mesmo que a gente já conheça as dietas também, nossa Religião.

 

P/1 – Ensina as dietas?

 

R – Ensinas sobre as dietas, fala sobre as dietas, quando faz dieta pra não utilizar o que não pode utilizar, o que pode utilizar, né?

 

P/1 – E você já viveu alguma história, alguma coisa que te marcou de todo esse tempo que deu aula? Teve alguma coisa que você ficou muito feliz que aconteceu?

 

R – Eu cada vez eu tô ficando mais velho, eu tô conhecendo mais coisas importantes, mais sabedoria, encontrando mais pessoas, trocando ideia, escrevendo também algum projeto para buscar. Com o _______ também a gente trabalhou um pouco pra fazer os projetos do nosso festival de katxa.

 

P/1 – Conta um pouco mais, como assim trabalhou? Que tipo de projeto foi esse aí que você participou?

 

R – O tipo de projeto que a gente tá participando na aldeia, primeiro projeto foi o festival de batismo, nixpupimá, que sempre tá fazendo todo ano, todo ano, no mês de janeiro tem esse evento para quem quiser batizar. E outros projetos que estamos vendo também edital que o Exan preencheu deu certo também, das mulheres, levamos muitas miçangas pra fazer encontro das próprias artesãs, as mulheres que sabem tecer pra conhecer mais e foi bom esse projeto tecendo algodão, miçanga e vendendo a produção delas que eles já têm e pedindo mais outros projetos que tá faltando material delas tear, algum material principal delas porque tá precisando. E estamos atraindo mais projeto, captação de água, projeto de poço artesiano, esse já tá aprovado, já tá melhorando bastante a aldeia. Começamos a escrever também projeto pro festival e para a Kaxinawá com o guerreiro _______. Começamos a escrever, pesquisando com mais outros velhos entre as terras indígenas, dentro de 32 aldeias e falando com alguns velhos, como eles vinham participando durante a vida deles sobre os katxas, onde que surgiu os cantos, quem que aprendeu as rezas. Então isso pra mim foi muito importante escrever esse novo projeto pra poder buscar e pra fortalecer dentro da comunidade, pro jovem aprender. E na verdade, as pessoas já fazem essa parte de festival, mas não faz correta, faz muitas misturas. Na hora do festival do katxa só e katxa, a pessoa não faz desse jeito, principalmente o ________, eu já vi fazendo dois festival no Lago Lindo, ele nunca cortou o bucho de paxibão, ele nunca trouxe as caças, nunca dançaram as danças de ritmo. Ele sempre faz ali, toma Nixi Pae ali, dança um pouco, outros já vão participar de forró próprio do _________. É assim, então para trazer esses conhecimentos, a gente escreveu com o __________ pra poder fazer, então muito espiritual pra trazer esses conhecimentos que nós estamos buscando agora, incentivando, resgatar, começa a escrever e nós queremos mesmo fazer, depois que o _____ começa, termina de escrever e vamos se encontrando mais e conversando como é que podemos fazer. Quando chega a data certa, com alguns editais, é hora para fazer  o festival, troca de semente com outros povos Huni Kuin, das outras terras…

 

P/1 – Como que vocês mantêm as sementes lá?

 

R – A semente, a gente mantem… A gente consegue onde as nossas famílias têm, cada aldeia não tem igual, cada semente, outras aldeias não tem semente de cica, _______, outras aldeias não têm inhame, taioba, é assim onde tem, a gente vai conseguindo.

 

P/1 – Eu queria também te perguntar do rapé, o que é o rapé?

 

R – Rapé é no português, povo Huni Kuin chama ______. É feito de tabaco, primeiro a gente vinha comprando tabaco da cidade e levando na aldeia, corta, depois tira a lasquinha todinha e torra ou seca no sol, essas duas coisas que você pode fazer para poder fazer rapé. Quando fica seco, tem que começar a pilar no pilão e depois tem que peneirar pra ficar bem fininho, peneira boa. E depois de peneirar, tem que fazer a mistura, cinza boa, cinza que já conhece, cinza original como _______, como _________ novo pensamento. E pode… Faz bem tratado para utilizar nos nossos corpos, tem coisa bem tratado.

 

P/1 – E vocês usam pra que, o rapé?

 

R – O rapé pra descansar na hora de seu trabalho, você trabalhou o dia inteiro, limpando o seu roçadinho, o seu bananal, quando sentir muito… Pra dormir bem, pra descansar e para voltar o seu corpo normal, então os velho tomava na hora de dormir, tomava rapé. Agora, esses tempos, nós já estamos tomando na cerimônia, na hora do trabalho pode usar, a hora que você sente alguma gripe, alguma coisa ruim, aí você pode tomar também. Através de rapé, ele cura também, protege, gripe. Então é assim que estamos usando rapé, pra isso.

 

P/1 – Aí tem quais medicinas mais… Essa é uma Medicina mais espiritual também, né?

 

R – Sim.

 

P/1 – Quais são as Medicinas espirituais?

 

R – A Medicina espiritual é o Ayahuasca é espiritual, _______ é espiritual e o rapé é espiritual também. Rapé, você sente a força também, sente frio, vontade de fazer limpeza, de fazer coco, é forte também, é um espírito forte.

 

P/1 – E o sapo também, né?

 

R – E o sapo. Vacina de sapo. E colírio de sananga, esses são espirituais.

 

P/1 – E todo mundo estuda isso?

 

R – Todo povo Huni Kuin estuda, só que já tá mais adulto, já tá avançando, já tá chegando pra conhecer. As crianças ainda não podem.

 

P/1 – É só o pajé… É pajé a palavra? Qual que é a palavra que…

 

R – É pajé.

 

P/1 –  Pode ser pajé? (Inkanaibai?) também, né?

 

R – Pajé… (Inkanaibai?) é aquele que… Pessoa mais velha, inka é velho, nai é o céu, bai é o caminho, eles que conhecem tudo, os que pensam, por isso que ele é (Inkanaibai?).

 

P/1 – E como é esse dia, se a pessoa vira pajé. Como a pessoa se torna pajé?

 

R – Se torna pajé aquela pessoa que já concluiu a dieta e já conhece bem as plantas para curar e já canta bem as rezas, rezas sagradas e já toma o Nixi Pae e conecta através de Nixi Pae, conhece e já utiliza rapé, já aguenta esses processos mais forte, então ele já pode chamar pajé.

 

P/1 – E você mesmo, o que… Já é pajé? Ou você tá estudando? Como é que…

 

R – Eu mesmo… Da minha aldeia, os meus alunos me chamam de pajé também, pajé professor. Então eu tô aqui, os ________ estão me chamando de pajé. Mas a pajeria que eu tô fazendo através de conhecimento das plantas, fazendo defumação com as plantas perfumosas pra proteger a anemia, tontice e banho pra sentir feliz, pra ficar firmeza, alegria, paz. E com a reza de sananga também, com a reza de sananga. A sananga pessoalmente, o ritual é espiritual, mas é forte, não é qualquer criança que pode aplicar, só algumas pessoas que já tem idade que podem sentir. E também traz a coisa, facilita mais. Os caçadores, quando aplicavam com sananga, já partia pra mata pra caçar, de repente encontra as caças onde não encontravam. Então, a sananga ajuda também pros caçador, então dá pra trazer os trabalhos pra firmar, pra conseguir facilitar. Mas é muito bom, é muito forte.

Então, eu vou contar um pouco de mito, o surgimento dos nossos legumes, da segurança alimentar. Um dia acabou os legumes dos povo Huni Kuin, quando passou queixada comeram tudo que tinha de legume: mandioca, banana, batata doce, inhame, taioba e o povo ficou sem roçado. Aí começaram a comer barro, argila, procurando, comendo fruta e até que ficou sabendo que uma pessoa que tinha todos os legumes, um tal de Yaxiconawa. Ele é um homem sovino, quando alguém ia lá pedir alguma semente de milho, ele torra, entrega pras pessoas, povo Huni Kuin plantando, não brota. Quando ia pedir galho de mandioca, ele tirava todo o olhozinho da mandioca e dava pro povo, nunca nascia. Quando ia pedir filho de banana, vai cortando no meio e entregava com olho, aí pessoas resolveram: “Rapaz, nós temos que nós mesmos buscar, tem que conversar”, reuniram lá, escolheram uma pessoa chamado de _______. Pássaro Rouxinol.  Aí, chegou lá onde tá o Yaxiconawa, tava limpando o roçado dele, ele chegou lá, ele recebeu: “Bem-vindo, cunhado,______”, porque é cunhado. Chegou lá, perguntou: ”O que você queria?” “Eu vim só passear mesmo, visitar” Tá bom, fica aí que eu vou trabalhar”, aí ele limpando o seu roçado e quando deu tempo, uma vaga, aí, o Passado Rouxinol quebrou um galhozinho de mandioca e começou correr e o Yaxiconawa viu. Viu e lá tudo criação de inseto, de cobra, escorpião, aranha e Yaxiconawa mandou pra pegar pra atacar o Pássaro. Pássaro correu na balceiro, na grota, atravessou igarapé e chegou, chegou com o seu pedaço de mandioca e plantaram lá, o pessoal estava esperando. Daí começou brotar e crescer, começaram a ficar feliz, sentindo feliz, pega mais algumas outras espécies e chegou a vontade de pegar semente de milho. Escolheram outra pessoa chamado de _______, cunhado calango. Aí ele foi lá, chegou o horário certo, onde o Yaxiconawa tava colhendo a semente de milho da espiga. Chegou lá, logo na chegada pegou uma semente e engoliu, jogou na boca e engoliu. Daqui a pouco, Yaxiconawa vem conferindo, conferiu e faltou uma semente, conferiu com duas vezes, faltou mais uma, com três, faltou mesmo, aí ele falou: “Rapaz, nunca faltou nada, foi você que pegou, não tem ninguém. Abre a sua mão”, abriu a mão dele, não tem. “Abre a boca”, abriu a boca, também não tem. “Espera aí que eu vou cortar a sua boca”, foi lá, pegou um pedaço de taboca bem amoladinho, se chama ______ cortou a boca, cortou todos os dedinhos, jogou lá no terreiro, lá no meio do sol quente. Aí o _______ lá desmaiado, cheio de melado de sangue, e Yaxiconawa pensando que já morreu, que já faleceu, cuidando do seu trabalho, até que o maribondo chegou e queria tirar pedaço de carne do dedo dele, retornou, voltou a vida dele e sentiu firmeza e não podia falar, e assim mesmo, tentou caminhar, transformou calango, arrastando mesmo devagar, devagar, até que conseguiu chegar. Diz que chegou lá, ele não podia falar, mas explicou para o pessoal, pessoal prestou atenção, aí vacinaram ele de kambô, vacinou, começou a fazer a limpeza, vomitar, tirando todas as comidas que tem e tirou o milho. Aí, pessoas foram lá, tinha um milho. Começaram a plantar e começou a brotar e daí, cresceu, até que deu espiga, começaram a distribuir as sementes e outra pessoa teve vontade de pegar outra espécie de mandioca, tinha várias espécies, já tinha conseguido outra espécie só. Escolheram ______, kapan que chama é o calango, ele foi lá no Yaxiconawa e não falou com o Yaxiconawa, não pediu nada e logo chegou e quebrou o galho de mandioca e começou a correr, aí o bicho vem atacando, marimbondo ferrando as costas, no corpo todo, na cara. Ele caiu lá dentro do poço do igarapé, caiu lá e queria (boielar?) no barranco e lá tinha outra moradia de marimbondo. Aí ele foi mergulhando mesmo, não tinha como ele escapar e ele transformou o jacaré lá, aí o pessoal da maloca dele ficou preocupado e foram atrás dele, rastejando no rastro dele e saíram no pico e correu o rumo do pico na mata virgem, mesmo, foram lá atrás, rastejando mesmo, rastejando e foram descer no igarapé e viram homem jacaré, ele mesmo que conversou com eles: ”Eu já virei jacaré, já transformei em jacaré, eu não posso ir mais com você, eu tô com muita vergonha, vocês podem ir embora". Aí o pessoal voltou, aí resolveram, então: “O Yaxiconawa, ele tá pensando só ele mesmo que tem tudo, vamos conseguir só fogo, pra gente matar ele”. “Então vamos”, aí reuniram outro pássaro, deixaram com ele pra pegar o fogo, o pássaro se chama curica ______, nesse tempo o pássaro curica, tá mais o bico do outro pássaro, do pássaro tucano, bico comprido. Ele foi lá, chegou no horário certo, onde a esposa do Yaxiconawa já tava torrando o milho, aí começou a chorar, curica chorando mesmo, até que aborreceu a esposa do Yaxiconawa e ele resolveu: “Espera aí, agora eu vou queimar esse curica, tá me aborrecendo de choro”, pegou um pedaço de lenha com a brasa e jogou no mesmo rumo do curica. Aí a brasa caiu bem abaixo do curica. Aí o curica parou de chorar, aí a esposa do Yaxiconawa tava lá torrando o milho pra poder não queimar, aí para de chorar, daqui a pouco, a esposa do Yaxiconawa foi ver a curica, curica já vai voando lá longe, só esfumaçando, levando um pedaço de fogo. Aí, a esposa do Yaxiconawa gritou para o marido, para o Yaxiconawa e o Yaxiconawa correu, pegou a pedra, bateu na pedra, perepere também e soprou e daqui a pouco, vem muitos trovões, e daqui a pouco, muita chuva com vento, aí o pássaro curica levou só o pedaço de fogo e deixou lá numa árvore seca, chama mulateiro, mulateiro é seco, eles já sabem, aí vem descendo muita chuva e todos os pássaros de pena foram lá até a chuva pra poder não molhar o fogo, todo mundo precisando do fogo, e até que a chuva passou e o fogo começou a pegar, pessoal ficando feliz. O pássaro curica foi lá ficar lá no olho d’água pra poder melhorar o bico dele. Daí que começaram a ter fogo, sentindo feliz dividindo o fogo, aí começaram mesmo pra ser vingança a Yaxiconawa, preparar arma, flecha, arco, lança, suas comidas e começaram a chamar o tatu. Chamaram o tatu pra poder cavar a terra, o tatuzinho cavou e não deu certo. Chamaram outro tatu e não deu certo, chamaram outro tatu de grota e cavou, não deu certo, fez um açudezinho no meio do caminho e não gostaram. Chamaram outro tatu, tatu canastro, tatuzão mesmo. Aí ele começou a cavar, povo explicando onde que pode cavar, deixou lá, onde o povo queria, no roçado de Yaxiconawa. Aí o pessoal ficou feliz, o tatu foi embora, começaram a vingança, flechando a esposa do Yaxiconawa, flecharam o Yaxiconawa mesmo, flechando os insetos, matando as cobras, queimando marimbondos e jogando a arraia no igarapé e pensando que vão morrer afogado e a arraia ficou feliz, vida para sempre morando dentro do rio mesmo. Aí ficaram todos os legumes e começaram a tirar a tripa do Yaxiconawa, tiraram as tripas, chamaram todos os pássaros pra poder pintar e aí alguém mandou todo mundo para começar pintar com sangue. Ninguém não quis, aí foi um pássaro ______, ele chegou, começou a pintar, ficou bem azulzinho, o resto dos pássaros começaram a ver e chegaram aproximando, pintando mesmo, muito feliz, pintando e correndo, acertou uma cinza onde a esposa do Yaxiconawa fazia fogo e caiu lá dentro das cinzas, quebrou a canela, gritou mesmo e consertaram ele e o pássaro beija-flor pegou uma pera de algodão e começou voando, sentou lá no galho do cumaru e o galho do cumaru vinha quebrando, aí começou a  voar de novo, sentou no galho de samauma e quebrando também. Aí voando e sentou num galho de copaíba e quebrando também, não teve jeito, né? Jogou a pera de algodão e queria escapar, sentou num galho sequinho. Aí, ele escapou sentindo feliz. Toda vida dele tem que sentar num galho seco, o beija-flor sentou lá, sentindo feliz, cada um, os animais agora se transformaram nas pinturas vermelhas, azuis, todos os pássaros que tem aí foi pintado com sangue de uma pessoa, o Yaxiconawa. Então foi surgimento de nossos legumes e do nosso fogo foi através do Yaxiconawa. A história que o meu vô contava é assim.

 

P/1 – Gratidão. Você sabe a história do surgimento dos Huni Kuin?

 

R – Surgimento do Huni Kuin, eu ainda não pesquisei.

 

P/1 – Tá, você prefere contar mais uma história ou fazer um canto?

 

R – Vamos cantar, né?

 

P/1 – Pode ser. Tem canto de sorte? Pra trazer sorte?

 

R – Pra trazer sorte? Espera aí! Xinakaimã. Pode cantar? Então eu vou cantar a música de ______ Xinakaimã.

 

[Canto]

 

P/1 – Essa é em qual idioma, que você cantou?

 

R – Essa se chama _______.

 

P/1 – Mas a língua? A gente nem falou da língua.

 

R – Língua Huni Kuin.

 

P/1 – Huni Kuin. E o que esse canto fala?

 

R – Esse canto tá falando sobre o canto da cura, esse daí, falando sobre as curas ______, que podia fazer assim, na hora de cura. Então, _____ é o cunhado, _____ é bem pintado, todo pintado no seu braço e falando também ______: seu pensamento vai voltar todo positivo, normal. ______: nossos pensamentos, nossos espíritos pra sentir feliz. ______: na ponta do nosso pé vai chegar, vamos receber a força do sangue, ter sangue. _______: na nossa mão também chega o nossos sangue. ______: ni é floresta, bani é uma árvore que a gente chama de pupunha. _______: metade do pupunha tem uma planta que se chama _______, como se fosse um ananá, ananá bravo, nativo da floresta. ________, é o branco, ______ é macaco, estamos falando do macaco, é o macaco que tá procurando, vem procurando as frutas dos pupunha. ________: todos os macacos estão se sentindo feliz, estão achando graça. _______ é aquela pessoa que é forte, _______ é mulher, tá falando da mulher firmeza, mulher forte, firmeza. _______: ela sentou aí. ______: começou fazer caiçuma, ralar. ______: a caiçuma bem doce, normal e vai chegar. _______ é mulher que sabe tecer, sabe desenhar no corpo. _______: no dedo do pé vem fazendo os desenhos e trazendo a sabedoria dela e pinta tudo, o seu corpo. ______ é uma pera desenhada com ______: tá lá, você pode botar as caças de nambu, carne de nambu. ______: tá lá rodando na pera. _______: então é assim que canta.

 

P/1 – Gratidão. Então é isso. Gratidão pela entrevista.

 

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