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História

O casamento de Niède

História de: Niède Guidon
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/03/2008

Sinopse

A arqueóloga Niède Guidon conta como se deu a sua formação na profissão até o momento do descobrimento do sítio arqueológico de São Raimundo Nonato, no Piauí, em 1973. Faz uma reflexão sobre o histórico do Parque Nacional da Serra da Capivara e também da relação da comunidade ao entorno com o Parque, além dos desafios e da sua paixão pela profissão.

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História completa

Eu gostava muito de ir à casa de minha avó, lá no fim da Rua Treze de Maio, em Jaú (SP). Sempre estava lá. Quando a gente atravessava a rua, os moleques mexiam muito comigo, porque minha mãe tinha o costume de me vestir com roupas da Ilha da Madeira, com coisas diferentes, né? Os moleques achavam muito esquisito meu irmão e eu vestidos de marinheiro! Eles caçoavam muito da gente. A travessia daquela rua era uma briga constante. Mas eu gostava muito da chácara da minha avó porque tinha muitas plantas frutíferas, gostava muito de subir em árvores, vivia no alto daquelas mangueiras imensas. Foi uma infância muito agradável!

 

Todo mundo dizia que eu ia ser médica, porque eu abria todas as bonecas que me davam! Estripava todas pra ver por que que abria e fechava os olhos, por que falava. Quer dizer, eram coisas que eu queria entender por que aquilo acontecia. E todos achavam que era uma tendência pra operar, tanto que fui fazer vestibular pra medicina, mas justo naquele dia, durante a prova, eu tive uma enxaqueca e não consegui me sair bem. Mas eu tinha também prestado vestibular para História Natural, na USP, e entrei.  Me apaixonei. Gostava muito de estudar geologia, a terra, os animais, as plantas. Aquilo me deu um prazer muito grande.

 

Terminei o curso, prestei concurso, comecei a trabalhar no magistério e fui para a cidade de Itápolis (SP). Lá, houve todo um entrevero! Nós éramos em cinco professoras diplomadas pela USP com concurso que chegamos juntas, e até então o colégio local tinha professores que eram advogado ou farmacêutico. Houve um movimento contra a gente. Sem contar que duas colegas e eu não íamos à missa. O padre começou a dizer que nós éramos comunistas! E ser comunista naquele tempo era uma coisa muito grave! Então a Secretaria da Educação achou melhor nos tirar de lá e nos levou pra São Paulo. Daí me colocaram no Museu Paulista da USP, que tinha toda a parte das culturas indígenas, e tinha a arqueologia que não tinha ninguém trabalhando. O diretor do Museu, o alemão Herbert Baldus me disse: “Ah, então você fez História Natural, você vai trabalhar na arqueologia”. Mas de arqueologia eu só conhecia aquilo que você conhece estudando história, o Egito, Mesopotâmia... Mas do Brasil não se conhecia praticamente nada! Fui falar com ele eu disse: “Olha, eu acho difícil trabalhar com uma coisa que eu não domino, onde que eu posso estudar?”. Ele disse: “Só tem na Inglaterra ou na França”. Como eu tinha mais ligações com a França, eu fui à embaixada da França, solicitei uma bolsa e fui pra Paris, onde fiz arqueologia. Isso foi em 1960.

 

Voltei três anos depois com o diploma de arqueologia. Voltei para o Museu Paulista. Até que um dia chegou um grupo de pessoas do Piauí, depois de ver a exposição sobre Minas, sobre a Lagoa Santa, e pediu pra falar com o responsável da arqueologia, que era eu. “Ah, lá na nossa terra também tem esses desenhos de índio”. Aí eu anotei o nome da cidade: São Raimundo Nonato. Nas férias daquele ano, era 1963, quando chegou dezembro, peguei meu carro e fui até a cidade, mas dezembro é um mês que chove muito e eu não consegui chegar porque uma ponte do Rio São Francisco havia rodado. Voltei pra São Paulo com aquilo na cabeça. No ano seguinte, 1964, com toda aquela baderna no Brasil por causa da tomada do poder pelos militares, minha tia chegou e disse: “Hoje mesmo você vai embora, você foi denunciada como sendo membro do Partido Comunista”. Eu disse: “Mas eu não sou membro do partido, eu posso provar que eu não sou”. Ela disse: “Até você provar, você já apanhou tanto que é melhor você ir embora hoje”. E me botou no avião. De um dia pra outro, fui embora e comecei de novo a minha carreira na França.

 

Eu falava francês porque, quando eu era pequena, o meu avô me ensinou a cantar a Marselhesa. Lá em Jaú. Ele me punha em cima da mesa e dizia: “Canta”. Se eu cantava direitinho, eu ganhava uma moeda de 400 réis, o que dava pra comprar um monte daquele algodão doce, que era proibido comer, minha mãe não gostava dessas coisas comprada na rua, mas eu ia, comprava e ficava debaixo da escada comendo. Então eu ouvia meu avô falando francês. Sem contar que estudei numa escola pública, numa época em que era obrigatório o inglês, o francês e o espanhol, sem contar o latim e grego. Quer dizer, quando eu saí da escola, eu falava francês, inglês e espanhol! Quando eu pedi a bolsa na embaixada, tive que fazer um exame de francês e consegui passar.

 

E aí eu saí do Museu. Quando eu cheguei na França, aquilo do Piauí tava na minha cabeça. Assim que pude, organizei uma ação francesa pra São Raimundo Nonato pra tirar a limpo o que eram aquelas fotos que tinham me mostrado. Se via que era algo completamente diferente de Minas Gerais. Fiz um pedido ao CNRS, que é o Centro Nacional da Pesquisa Científica, corresponde ao CNPq brasileiro, fiz todo um levantamento do que já se sabia do Brasil, mostrei que era uma região sem nenhuma pesquisa, sendo necessário ir até lá. Tive o apoio dos meus professores e consegui a verba francesa. Meus colegas da Universidade de São Paulo, que tinham ficado, também foram me encontrar. Foi uma missão, desde o começo, franco-brasileira. Éramos em três: Silvia Maranca, Luciana Pallestrini e eu.

 

Fui até São Paulo, compramos um jipe, e partimos com o  jipe completamente carregado. Uma viagem longuíssima, terrível, pela Rio-Bahia até Feira de Santana e depois entramos em Petrolina e depois no Piauí: chegamos em São Raimundo Nonato! Começamos a conversar com as pessoas, alguns achavam muito esquisitas essas mulheres de calça, guiando, que não era uma coisa costumeira da região, mas nos receberam muito bem! Eles entenderam o que a gente tava procurando e todos também queriam ganhar um dinheirinho, porque a gente pagava. Pra nós, essa era a única maneira de poder conhecer a região. Eram pessoas que tinham um conhecimento muito grande sobre a caatinga e que nos ensinavam. "Quando você tá andando e acaba a água, você vai ali, você corta aquela planta, ela tem água!" Nos ensinavam uma porção de coisa, nós aprendemos muito eles. Colaboravam, mostraram, foram nos mostrar os sítios. Sem elas, nós não poderíamos ter descoberto isso tudo.

 

O primeiro ano que eu vim pra missão foi 1973, ficamos três meses. Nesse tempo, nos levaram a 58 sítios, mas depois eles já não conheciam mais, porque só sabiam daqueles lugares mais próximos das estradas, onde estavam habituados a ir. Mas lá pra dentro do Parque, nas zonas mais distantes não, isso só depois que a gente se instalou, que criamos um centro de pesquisa e começamos a abrir estradas, é que a gente foi descobrir novos sítios. Hoje, já passamos dos 1600 sítios.


O encontro que mais me marcou foi com a Pedra Furada. Foram dez anos escavando, sempre encontrando material. Cada sítio tem uma razão. Cada escavação tem um encanto diferente. É o que eu digo: escavação é como casamento, se você casa, pronto, você fechou o seu futuro. Cada sítio é uma coisa diferente, por isso que eu não casei. Eu acho que o importante na vida é isso, trabalhar por prazer e fazer o melhor que você possa fazer, porque é a única maneira de obter bom resultado.

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