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História

O curandeiro Kagnãn

História de: Jorge Kagnãn Garcia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/03/2008

Sinopse

Jorge apresenta a vida e os costumes de seu povo, e como ele se tornou um famoso curandeiro, além de conhecedor de remédios naturais. Faz uma reflexão sobre os direitos indígenas e conta com detalhes a época em que sua região foi invadida pelos brancos e como, desde então, ela tem sido destruída.

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História completa

Na idade que estou agora, eu tenho que voltar muito no meu pensamento, né? Eu nasci em terra indígena Nonoai. Quando eu me casei, eu tinha 16 anos e a minha patroa tinha 13. Até hoje estamos vivendo junto. Ela é viva e eu sou vivo ainda. E sempre só com ela também, nunca troquei de mulher. Ela se chama Maria Constante, e eu Jorge Kagnãn Garcia. Tenho uma cruzinha com Guarani, a mãe era de origem Guarani com Kagnãn.

 

Meu povo surgiu assim: o cacique Nonoai fez um toldo indígena. Ele morava ali. Dali passado uns anos, ele faleceu. Ali, então, ficou o nome Nonoai: o nome era do índio velho. Então ele abarcou aquela área indígena Nonoai. Quando crescemos, aquilo ali era puro sertão. Um pinhalão que não tinha fim. Coisa mais linda do mundo que existia. Ali tinha pinhão, ali tinha abelha, ali tinha tudo quanto é espécie de bicho. Tinha o cateto, o porco, o tatu, o quati, o bugio, ou macaco, o papagaio. Só o papagaio é bem raro. Não é como era século passado, bem pouquinho os papagaios. Não, tem uns bandinhos por lá.  Não sei se, como é que se some, né? Aquilo fazia nuvem. Aquelas papagaiada! E ali foi terminando, foi indo, foi mudando era na época do SPI [Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais], passou para a Funai [Fundação Nacional do Índio].

 

Foi por ali nossa vivência de vida. Sofrida, mas valeu a pena. Depois veio aquela invasão, invadiram as nossas terras, a gente teve que correr. E ficaram um tempo, invadiram bastante. Derrubaram matas virgens, mata sem pinhal, não tinha pinheiro, mas lá tinha tudo quanto que é espécie de madeira de lei. Mas eles chegavam lá faziam um mutirão de 15, 20, 30, 40, 50 homens, devoravam. Nós avisávamos a polícia, mas ela virava as costas e eles continuavam igual. Nós que era da lei, as autoridades indígenas, a gente tinha muito cuidado de dar um conflito grande lá, de Deus o livre matarem os índios. Mas isso, graças a Deus, não aconteceu. Mas foi trabalhado firme, nós tinha que trabalhar mesmo. Nós tinha que cuidar, cuidar, como cuidasse uma criança, aquilo lá, para não ter briga de índio com branco.

 

Digo perfeitamente que eu fui criado com a lei na mão lá dentro da minha terra indígena, mas lei de fora eu nunca participei. Eu tenho participado agora nessas saídas. Eu vejo advogado falar, eu tive oportunidade de falar com muita lei de fora. Depois de velho que eu comecei sair, mas sempre comandei os índios lá dentro da área indígena. Até hoje ainda sou um velho conselheiro.

 

Nosso costume indígena nós nunca abandonamos. Se eu sei que tem um índio para fora da área, eu ando por aí, eu vou lá prosear com ele, quero ver ele. Prosear pertinho com ele, que ele é meu sangue. Sempre fomos assim, gostamos de viver junto. Só que nossas terras sempre foram atingidas pelo branco. O Leonel Brizola mandou fazer um parque florestal do estado. Bom, nós fomos lá com dificuldade, nós pegamos de volta. Nós nos revoltamos, os índios, fomos lá, acampamos: “Aqui é nosso!” Atropelamos o guarda que cuidava em roda: “De hoje em diante, somos nós que mandamos.” Nós sabemos que a terra é nossa. Até hoje está lá ainda. É proibido até nós entrar lá para destruir. Podemos ir lá matar um passarinho, comer uma cacinha lá, mas dizer, derrubar madeira não. É proibido pelo nosso cacique. E nós mesmo, os índios, achamos que não é para destruir. Vamos conservar para os nossos próprios filhinhos um dia conhecer o que é pinheiro, o que é mato. Se nós, índios abrir mão, termina aquele matão.

 

Hoje a gente está trabalhando para estudar os filhos, para eles terem mais experiência, os netos. Eu tenho há já uns 15 ou 20 bisnetos apostando em base de aula. Eu mando meus filhos: “Vão estudar, que o movimento é grande dentro do nosso Brasil.” A gente vê, está fechando o Brasil. Até quando eles vão cavoucar a terra? Nós mesmo vamos destruir a terra daí, né? Calculo eu no meu pensamento. Não sei se é um pensamento bobo, é certo ou não. A água não se existe mais água como era. A planta não dá como você plantava. Tudo está de mudado. Tudo que eu passei está ficando para trás. Será que nós temos que amanhã, depois, cavoucar terra para nós fazer casa igual o João de Barro? Eu acho que é parecido que eu vi a cidade grande aí, a maior parte, é só casa de terra, casa de barro. Então eu fico admirado, mas é a evolução do Brasil. O que temos que fazer?

 

Eu cansei de ver dentro de ônibus: “Bah, os índios com todas essas terras, meus amigos, ao invés de trabalhar, ao invés de produzir, ao invés de fazer...” A gente escutando, mas o que é que a gente vai dizer? Porque não é nossa cultura o trabalho do branco, nunca foi. Desde que eu me conheci por gente, eu peguei bastante dessa parte que não é nossa cultura. Eu convivi com mato. Eu era caçador, eu era o mestre da caça, desde piá, desde criança, eu já era influído antes dos outros, dos meus guris, meus companheiros de caça. Nós pegava as flechas de manhã cedo, quando clareava o dia nós já estávamos tudo com as flechas perto do fogo, assim, endireitando ela porque ela também amanhece meia torta, né?

 

A gente vai lá na mata, mata um bichinho lá, ele é bem sadiozinho, que não tem um verme sequer. E como é que ele vive na mata, né? Será que ele, alguém vai lá curar, fazer curativo nele? E não se acha um morto também, empestiadinho também não se acha. O pássaro a mesma coisa. O pássaro se mata um ele é bem sãozinho, não tem nada de, e é saudável. Comer ele é o mesmo que tomar um copo de remédio, porque ele é sadio, ele come só frutinha do mato, e ele é bem sadiozinho.

 

Eu admiro, às vezes fico pensando uma ideia boba, mas é uma verdade: eu olho para os passarinhos. O papagaio, a maritaca, a caturrita, o periquito, nós uma época era assim, a divisão de índio. Somos índios, mas cada qual tem seu modo, seu costume. O índio xikrin, o índio guarani, o coroado e os passarinhos são assim. E eles estão obedecendo a lei da natureza. Vocês já viram um papagaio, uma maritaca, uma caturrita, misturar com outra, com outro, outra nação deles? Não se misturam  não. Eu nunca vi eles se entrosando. Dizer: “Esse, ele tem raça com caturrita, esse tem raça com papagaio, esse tem raça...” Não, é eles e pronto. Só a arrumaçãozinha deles. O que é papagaio é papagaio, o que é pombo é pombo, o que é tucano é tucano, o que é sabiá é sabiá. Eu nunca vi um sabiá de outro tipo, é um sabiá só. O macuco é a mesma coisa. Jacu. Também naquelas épocas nós éramos assim, nós indígenas. Não se misturava nação. Cada qual é o seu grupo. O xikrin é xikrin, o coroado era coroado, que somos nós, índio Kagnãn puro. Era importante naquelas épocas. Agora não, agora casa índio com guarani, com xocré, com aqueles lá do Mato Grosso. Então já estão se misturando tudo. E os passarinhos ainda não, o animal tem isso aí. Os passarinhos não, os passarinhos estão respeitando a lei. São sadiozinhos, ninguém cuida deles. De certo tem a natureza que protege eles, porque quem é que cuida deles? Será que é as aves, será que é nós, será quem é?


Nós poderíamos ser assim tudo, nós. Igual aos passarinhos. Eles não brigam, eles vivem lá no mato, não se vê nem um sinal de um bichinho morto. Lá, de vez em quando você acha, mas é custoso. Muito custoso achar um bichinho morto lá. A minha experiência ela está encurtando, ela está indo para trás. Ela não está indo mais para a frente. Claro, eu me sinto cada dia que passa outro Jorge, pela passagem do tempo que eu passei. Me sinto sim. Eu fui um homem muito forte, muito sadio. Mas hoje já me sinto pesado, eu mesmo. Então tudo que eu tenho de soltar que precisam de mim, um prêmio, é idéia, uma coisa, eu estou soltando para as pessoas que procuram. É um bem que eu faço. Tenho o pensamento firme por ali e continuo. Enquanto puder dar um passo para a frente vou dando. Vou ajudando Kagnãn, Guarani, todas as nações indígenas que eu puder ajudar eu ajudo. Eu canso de falar que a minha vida está ficando curta, né, com a idade. Então a gente está tentando fazer eles entender que uma verdade seja uma verdade, e o que não é verdade não é verdade. Ninguém faz nada sem o conjunto. Quando o conjunto vai junto a dança dá bonita. Muito obrigado, daí.


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