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O dia em que desisti de ser professora

História de: Rosemary dos Santos
Autor: Rosemary dos Santos
Publicado em: 16/02/2005

Sinopse

Chega, disse para mim mesma quando o relógio despertou.

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História completa

Sou professora de Informática Educativa da Escola Municipal Profesora Olga Teixiera de Oliveira em Duque de Caxias. Leciono há 15 anos. Fico pensado se algum de nós já pensou em desistir. Hoje acordei pensando em desistir de ser professora. Sei lá, fazer outra coisa. Chega, disse para mim mesma quando o relógio despertou. Pronto, decidi, vou ser secretária, atendente, camelô. Qualquer coisa menos ser professora. Isso mesmo.

Analisando as minhas opções, a idéia de fazer outra coisa me agrada. Já sentiram isso? Vontade de não ser professor mais?Quanta cobrança. Pressão.Trabalho extra. Rouquidão. Alergia. Calos na garganta e nos pés. Secretária: belas curvas, vários idiomas. Não tenho curvas, arranho no inglês. Não, não dá pra mim. Camelô: essa idéia me anima. Caminhar. Pegar sol, “Esta blusa está linda na senhora, combina com seu perfil (atriz também, pois preciso dissimular bem as gordurinhas da 'freguesa').” Acho que também não, mas ainda tenho várias opções. Sabe, às vezes na vida da gente temos que mudar, fazer outras coisas. “Professor de sala de Informática não faz nada. Quero ver encarar uma turma como nós”. Diz um professor em tom de ironia na hora do recreio, olhando-me de soslaio. Fito-o furiosa. Agora mais decidida ainda. Vou largar o magistério. Quanta falta de companheirismo. Lembro do meu juramento há ... alguns anos.

Bom, deixemos pra lá este negócio de data, pois o que estou falando agora é sobre minha indignação em ser professora.Voltemos ao meu juramento. Jurei honrar minha profissão e zelar pelo bem estar dos meus alunos..nada tinha sobre querer desistir, se cansar, horas extras, indignação, choro, carregar livros,ouvir injúrias. Não, não tinha. Nosso diploma deveria ter prazo de validade. Advogada. Chega de muita gente ao meu redor.Jovens ansiosos demais. Quero um escritório bem decorado. Um “paciente” por vez . “Um cafezinho?” “Pois não?” “Qual o seu problema”. Fico remoendo essa idéia a manhã toda. Hoje é dia de pagamento. Contas. Luz, água, telefone.“Cafezinho?” “Aqui está o meu cartão."Terninho cinza, sapato bico fino. Sacudo a cabeça. Olho para meu jeans desbotado e meu tênis que há muito deixou de ser branco. Lembro que tenho que pagar a faculdade da filha, o aluguel. Penso no que vai sobrar: pouco. A turma chega. Cada um corre para um computador. Interrompem meus pensamentos. Uns gritam eufóricos. Eu, olhar cansado peço para abrir um site de pesquisa sobre a Baixada Fluminense, sem me mover. Luiz Felipe, olhos vivos e muita, mas muita energia, grita lá da máquina 10. “Ô dona Rose, não vai conversar com a gente antes, não? A senhora sempre diz que temos que bater um papo antes de começar as pesquisas”. Pergunto molemente sobre o que ele deseja conversar. E ele responde: “ahhhhh sobre o que nós vamos pesquisar né?” Silêncio. Olha para mim, cala-se. Percebe que hoje não estou professora. Compreende. Eles sempre nos compreendem. Todos quietos visitando sua cultura.

Também não quero mais escrever crônicas. Frases curtas. Textos inacabados e cheios de impressões pessoais e pontos finais. Não sou escritora-professora. Só os amigos dizem que tenho talento. Ousadia. A aula acaba.Todos correm para a saída. Eu também. Saio à rua feliz da vida. Olho o céu. A escola fica para trás, que alegria. Acho que vou ser fiscal da natureza. Penso nas contas e acordo para a realidade. Fico triste de novo. Mau humor total. Quero jogar na loteria. Carros, viagens, sol, praia. Atravesso a rua alguém grita: Rosemary, Dona Lourdes. Minha professora da 1ª série. Nossa, faz tanto tempo. Aceno com um sorriso de alegria. Nunca me esqueci de seus olhos verdes. De como fazia-me sentir importante em suas aulas. Fico olhando-a tentando lembrar algum traço daquele tempo. Ela continuava a mesma.Irradiava alegria e confiança. Existe algo melhor do que ser reconhecida na rua por sua professora do primário? Ela sempre sabia o nome de todo mundo.Fazia a chamada e dizia nome e sobrenome de todos. Eu a olhava com admiração e respeito.Tratava a todos com carinho. Abraça-me. Retribuo. Pergunta-me sobre a vida. Respondo sorrindo: “Professora, sabia que a senhora foi responsável por torna-me professora? A senhora demonstrava tanto carinho com a gente. Falava de poesia como se bebesse as palavras. Somos colegas de profissão com muito orgulho. Lembra quando a senhora nos “forçava” toda aula a trazer um autor para a sala?  “Quem você trouxe hoje?” E um dia eu disse: Cecília Meireles. A senhora deu um grito de admiração pela minha escolha. Neste dia resolvi ser professora. Ela sorriu meio sem jeito. Olhos embaçados. Diz que sente falta dos alunos, eles traziam-lhe vida. Abraça-me novamente e convida-me para ir um dia a sua casa. Está aposentada. Despede-se.

Paro numa lanchonete peço um pastel e um caldo de cana. Começo a pensar em suas palavras. Bebesse poesia. Dona Maria de Lourdes. Escola Municipal Coronel Eliseus.Resolvi ser professora (Pequeno Príncipe “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”). Entre uma mordida e outra sinto meu humor melhorar. Decido que preciso pensar em algo diferente para a próxima aula. Nasci para ser professora. Como fui importante, quanto carinho. Nada é mais importante do que isso. Lembro do Luiz Felipe. Sorrio novamente.Vocação será um bom assunto para as 8ªs pesquisarem na Internet na próxima aula. Preciso contar a uma amiga da USP sobre o Projeto dos idosos: Alfabetização de adultos com o uso da tecnologia: uma proposta possível. Sinto-me viva novamente. Acho que o dia de hoje daria uma boa crônica. Professora:Rosemary dos Santos.

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