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História

O dia em que Tancredo morreu

História de: André Braga
Autor: André Braga
Publicado em: 17/09/2009

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Foi em 1985, eu estava na quarta ou quinta série, nem lembro direito, mas me recordo perfeitamente do dia em que Tancredo Neves morreu. O Brasil, depois de passar vinte anos vivendo num regime ditatorial – e esse é considerado o período mais negro de toda a nossa história – elegia pelo Colégio Eleitoral Tancredo de Almeida Neves (MDB) Presidente da República. Uma votação mais do que histórica, já que foi aberta (cada votante dirigia-se até um microfone e proclamava seu voto) e transmitida por praticamente todos os veículos de comunicação brasileiros. No embate político Tancredo derrotou o biônico, e amiguinho dos militares, Paulo Maluf, com 480 votos a favor e 180 contra. Houve 26 abstenções (é, teve gente que num momento histórico dessa magnitude que ficou calado 26 omissos). Na época eu não fazia ideia do que estava acontecendo, do momento que o país passava. Num muro dum ferro-velho, que ficava em frente à rua em que eu moro, havia pichado “Diretas Já”. Lia-as mas não sabia do que se tratavam tais palavras. Lembro de alguns detalhes da vida escolar que eram provenientes da influência dos militares. Todos os dias, na escola, tínhamos que traçar na página do caderno, de cima para baixo, da direita para a esquerda, dois riscos com lápis de cor, um verde outro amarelo, depois de fazer o cabeçalho com o nome da escola, local, data... Na entrada, na hora de formar as filas para que fôssemos conduzidos ordenadamente às respectivas salas de aula, tínhamos que esticar o braço e encostar a mão no ombro do amigo da frente, isso determinava a distância que cada um deveria ficar do outro. Nas aulas de educação física, na hora de o professor fazer a chamada, formávamos quatro colunas, todos de uniforme branco, ficávamos com as mãos atrás do corpo, uma mão segurando o punho da outra, e com os pés naturalmente afastados. Essas duas posturas corporais são militares. Descobri isso, ou melhor, liguei o nome à pessoa, quando servi ao Exército (obrigatoriamente) em 1994, no 2º Batalhão de Polícia do Exército (que ainda era na rua Abílio Soares, em São Paulo). Fora hastear a bandeira cantando o Hino Nacional, isso já era clichê. No quartel, tínhamos que saber, na ponta da língua, todo o Hino Nacional. Tarefa difícil. Um dos tenentes dizia, indignado: - Como pode, vocês sabem "Faroeste Caboclo" inteira, sem errar uma vírgula, e não decoram o Hino Nacional Bando de mocorongos Na escola, numa das vezes que ficamos sem professora na sala, aproveitamos a ausência da matriarcal educadora para fazer a boa e velha algazarra, como os alunos do primeiro grau geralmente fazem. O contingente da sala deveria ser entre trinta e cinco, quarenta alunos, não lembro exato. A porta da sala ficava no canto frontal direito. De repente a professora, uma mulher magra, rosto chupado com nariz fininho, lábios insossos, olhos furiosos, cabelos curtos, meio alaranjados, meio amarelados, nitidamente tingidos na tentativa de esconder o tempo, rompe aos berros - “parem já com esta anarquia” Era a primeira vez que ouvia a palavra anarquia. Nem sabia o seu significado. Mas, associando essa nova palavra à situação, boa coisa ela não poderia significar. Outra coisa bem interessante da época era uma propaganda que a TVS (hoje SBT) exibia. Sempre aos domingos, nos intervalos do programa do Silvio Santos, era exibido “A semana do presidente”, que mostrava as atividades cotidianas do presidente militar em exercício. Era uma nítida "puxada de saco", para tentar obter favores de concessão, já que os Marinho sempre foram mais próximos dos generais verdejantes, e levaram muito mais vantagens do que os Abravanel, no campo das telecomunicações. Voltando ao fatídico dia, tudo estava aparentemente normal. Os preparativos corriqueiros seguiam, eu já havia tomado café-da-manhã e minha mãe ouvia um programa matinal de rádio. O locutor, todo dia, dizia - “olha hora, olha hora. Acorda ele, Dona Maria. Joga água” - e sonoplasticamente rompia o som de água espirrando. Coloquei o avental do colégio, branco com um passarinho desenhado no bolso superior esquerdo. Peguei minha mochila, saí pela porta da cozinha e segui pelo corredor. Passei pelo portão que vem antes da garagem, atravesei-a, saquei as chaves do bolso e fui para abrir o portão principal, que dava acesso à rua. Estava uma manhã ensolarada, lembro-me das desuniformes sombras das barras do portão esparramadas pelo chão do quintal, provocadas pelos quentes e suaves matinais raios solares. Quando saí, ouvi uma voz me chamar: - André, André - olhei para o lado e vi minha vizinha, que voltava do colégio. Ela veio em minha direção e disse: - André, hoje não vai ter aula. - Não? Por quê? - Perguntei espantado. Não via motivo algum para tal. - O Tancredo Neves morreu – Respondeu num tom seco. Parei em frente ao portão, pensando na trágica e fúnebre afirmação que a menina acabara de proferir... E, como todo bom garoto do primeiro grau, alienado politicamente, bradei: - ÊBA HOJE NÃO TEM AULA (História enviada em setembro de 2009)
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