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História

O hábito de comer burikita

História de: Avraham Ben Avran
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/06/2005

Sinopse

Identificação. Aprendizado do ofício de marceneiro e seus primeiros trabalhos. Ida para Belgrado e casamento. Estadia em Israel e o trabalho que desenvolveu. As diferenças de benefícios para operários. Problemas de saúde. Vinda para o Brasil e montagem da oficina de móveis. Mudança do ramo de atividade e o início da Doceria Burikita. A clientela. O hábito de comer burikita. As propagandas e formas de pagamento. O bairro do Bom Retiro e sua diversidade. Avaliação do Brasil.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Sou Avraham Ben Avran. Esse é hebraico, filho de Deus. Eu nasceu em Novi Sad, na Iugoslávia, em 25 de dezembro. Minha pai chama Michel Ben Avran. Ele foi na guerra em 1914, quando eu tinha 13 dias, e nunca voltou. Eu não o conheci. E tinha dois meses quando mãe morreu. Antes de partir minha pai fez uma brincadeira com o povo e me falou assim: "Olha, meu filho, lembra as palavras de teu pai: não coloca água na boca, só vinho e bagaceira, porque você sabe que só torneira enferrujada é água." E graças a Deus, eu tenho 80 anos e não tomo água. E não tomo nem remédio! Aqui entra só caipirinha e vinho. Graças a Deus eu está aqui. Sem doença, sem nenhuma coisa. INFÂNCIA Eu foi criado como animal! Nessa época, tempo de guerra, depois de guerra 1918, não tinha comida, não tinha pão como agora. Pão de milho! Em 1918, essa onde morava chamava Austro-Húngaro. Ano 18, eles perderam. E ortodoxos iugoslavos entraram. E como eu não tinha ninguém, fui com eles junto. Chegamos numa cidade do interior. Entramos numa casa e logo, perto de parede, fazem cama: tábua, palha de trigo e cobertor em cima. E depois tudo deitamos assim, nós 30. Embaixo de cama estava porcos, na cozinha estava vaca. Porque se deixa fora, soldado passa e rouba. E quando veio dia, porco fora, vaca fora. E tirava leite. De manhã a velha levantava e fazia comida pra todos nós. Pegava farinha de fubá, cozinhava bem, fritava cebola acima. E tudo mundo sentamos lá no chão e comemos com colher de madeira. Quando acabamos tomamos vinho ou bagaceira. E assim continua a vida. Depois tinha 11 anos e foi pra estudar marcenaria. Tinha 16 quando recebi carteira profissional e comecei a trabalhar. Cada casa tinha uma janela, ventilação de porão. E como não tinha onde morar, à noite desci mais uns amigos, deitamos e de manhã levantamos e saímos para trabalhar. TRAJETÓRIA PROFISISONAL - MARCENARIA Trabalhava como marceneiro. Fazia móveis completo. Também trabalhou em Bom Retiro e era muito conhecido! Depois, tinha 28 anos. Como jogava futebol, jogamos contra Hungria. E eu, como nessa época tinha novo treinador, me colocou contra Hungria. E passou bem. Eles gostaram. E vamos pra Belgrado, cem quilômetros de lugar onde morava. E foi na pé. Passamos na pé eu mais um amigo. Na minha cabeça, chega a Belgrado e pega navio, porque estudava cozinha também aonde nasceu. E uma vez, patrão pegou eu, pegou um peru assado e onde joga lixo, embrulhou e jogou fora para amigos pra comer. E eles pegaram. Chegamos lá, caiu neve. Mas está bom, chegamos. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – FÁBRICA Antes de Belgrado cidade chamava Zemon e lá dorme na polícia. Outro dia a polícia pegou barco e colocou no outro lado, Belgrado, cidade. Chegamos lá, estava Natal. Antes, cavalo de rei passava, com 12 cavalo branco, bem arrumado, cidade toda luz: "Ah, não, eu vai ficar aqui! Não vai na América! Vou ficar aqui!" E eu ficou lá. Depois achou onde morar e começou. Achou um lugar onde escuta barulho de máquinas e entrou lá, procura serviço. Lá tinha um mestre húngaro e ele não sabia falar bem iugoslavo. "Eh! Ah! Donde está você?", ele falou. Digo: "Ah você fala húngaro!" "Fala!" Ele conversou comigo húngaro e eu começou trabalhar lá. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL - FUTEBOL E depois entra na Clube Belgrado e começou a jogar futebol. Tinha um treinador húngaro, falou: "Olha, você quer ser bom jogador, não fuma!" Pegou, jogou cigarro e nunca na minha vida fumou mais! E assim continuou jogo. Em 1935 ou 1936 conheceu minha senhora na campo de futebol. Tudo gritava: "Segura, não deixa que ele passar! Segura dele, segura dele!" E assim conheci minha senhora. E começamos a namorar. Agora, tem muito interessante uma coisa: estava noivo na cidade onde eu nasceu. Tinha uma tia, fomos lá. E minha senhora, como noiva, foi com ela na cozinha. Entra uma cigana: "Opa, deixa olhar sua mão!" "Vai tomar banho, que é que você vai olhar!" Até hoje me lembra dessa cigana. Acertou cem por cento. Ela sentou, pegou um copo água e olhou: "Você não está aqui, você vai viajar. E você vai casar, mas você vai sofrer muito, você vai sofrer muito! Mas depois desse sofrimento, você vai viajar, uma água grande - como foi pra Israel -, mas lá não vai ficar muito tempo. Você vai passar mais grande água, você vai chegar lá. No começo, lá, você vai sofrer um pouco, mas você, na idade de você, você vai ser rico, mas nunca dinheiro vai parar na mão! Sempre limpa com vassoura." E verdade, filha da mãe, cigana! Acertou! Justo assim! Nunca para dinheiro! Dá pra lá, dá pra cá, tem netos, bisnetos, filhos... Mas graças a Deus, não falta nada! Estou muito contente. Quando chego aqui, quem me trouxe fugiu pra Israel, em 1948. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – MARCENEIRO (Israel) Eu era marceneiro e logo começou trabalhar lá. Fui na fábrica onde fazia móveis, mas eles ganhava um e meio por dia. Eu vi serviço deles e falou pra patrão: "Escuta, por esse dinheiro, eu não vai trabalhar pra você!" Ele: "Dá dois". Eu trabalho só uma semana e não continua. Foi lá um polonês, marceneiro, e veio contente, dez de manhã, com minha amigo que conhecia lá. E eles fez uma mesa redonda, dono e mais dois empregados. Logo quando entrei já vi que estava 10 horas. E eu acertou com ele que vem trabalhar uma hora. Uma hora, quando vê, ainda mesa estava lá. Tampa de mesa ainda estava lá. E eles sofre, não junta, e redonda não é fácil pra fazer. Coloca folha, chama folha de nozes, esse é bem fino como papel. Esse tem que colocar junto e cada um igual porque são dois milímetros! Faz, não acerta! E eles não sabia isso. Eu falou: "Senhor Shwartz, você já almoçou?" "Não". "Você mora onde?" "Perto da igreja." "Mas você me dá outra folha e vai almoçar". Ele foi. Chegou, mais ou menos uma hora: "Avraham, Zacontin! – esse é polonês – Você já fez?" Ele não falava em iídiche essa época. E quando chegou pra pagar, me falou: "Olha, menos de três não trabalha". Ele pagava um e meio, dois, mas nenhum sabia trabalhar, tudo aprendeu lá. E acertou! Chega o filho: "Mas pai, você é louco, ele vai ganhar mais como você!" "Ele faz tudo!" Chega um barbudo, religioso, que não quer conversar comigo porque não sou um catcher, nós iugoslavos não somos. “Catcher, vai tomar banho, você não quer comer, come porco, come tudo. Tudo o que entra não é pecado, pecado é o que sai! O que entra na boca não é pecado! Deixa essa besteira de vocês!", falou para eles. “E filha vai casar, mas quer móveis especial." Eu tinha um livro de desenho de Itália, bonitos, e ele escolheu móveis mais pesados. Chega o dono, Shwartz: "Avraham, você pode fazer isso?" "Não existe quem não pode fazer!" "Mas quanto vai custar?" "Isso eu não sei, preço de vocês, não sei como está aqui." "Mas mais ou menos." "Tá bom. Quanto custa essa armário?” – eles fazia armário de quatro portas – "Tanto e tanto." "Coloca dez vezes tanto”. Estava bom, tudo feito na mão. E o barbudo aceitou. PRODUTOS Matéria-prima era Cedro porque esse é mais melhor, não entra bicho, não entra cupim. Não trabalha com outros madeiras. Bate “Pa, pa, pa” e “Não, isso não é cedro não!”.Eu quando acabou isso, tira na rua, colocaram como exposição. Olha, assim, fila de gente pra ver. Quando acabou, ela casou com também um religioso, barbudo. Ela estava bonita, era moça muito bonita! E ela mora pra lá de Haifa, mais ou menos 15 quilômetros. E até hoje, graças à Deus, eu antes que deita, agradece pra ele que me dê saúde pra trabalhar. Quando levanta cinco horas, lava meu rosto e agradeço a Deus que me deu bom sono. Eu quando deita, deita e já dorme, sossegado. Porque eu sente nunca na minha vida um pecado. PARTICIPAÇÃO NA GUERRA Tá bom. Matou muito porque estava guerra, mas se não mata eles, eles vai matar de mim. Uma vez alemão me pegaram na montanha e colocaram eu na árvore. Me amarraram e disse amanhã vai me matar. À noite, filha de comandante me soltou, ela chega e cortou tudo. Eu fugiu. E ele matou filha. Ele matou filha! Fanáticos! Então, deixa tudo isso. PAGAMENTO Então eu já chega ganhar sete, que é grande dinheiro, muito dinheiro por dia. Pagamento cada sexta-feira. Primeira vez, quando eles chega para pagar, colocou na minha bolsa e falei: "Nunca, não faz isso! Eu não sou puta. Eu sou marceneiro! Eu ganha esse dinheiro, você coloca aqui na mesa! E eles têm que ver e aprender a trabalhar! Se ele vai trabalhar como eu, ele vai ganhar também!’. E assim passei minha vida. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL - IUGOSLÁVIA Lá se trabalhava até uma hora, sábado. Chegava uma hora, chega o patrão, dinheiro. Aqui operário não vale nada, aqui operário é lixo! Para governo, operário é lixo! Aí o país vive com 85% de operário! Mas presidente não sabe, vai explicar pra ele por que. Esse coitado operário: "Você amanhã vai receber férias. Onde você vai?" "Nenhum lugar! Casa." Lá, não! Qualquer lugar tem uma montanha ou mar. Também lá você entra na sindicato. Lá você é como rei. Você entra lá, dá teu carteira. Quando você entra de férias o dono te dá vinte ou trinta dias. Você preenche papéis e ele te dá carteira de navio, de trem ou de avião. o, porque lá cada lugar tem trem, tem navio, como avião. E se você pôs a doença, você vai par lugar como Campos de Jordão, para onde tem montanha. Se você tem saúde, você vai na mar com família inteiro. E todos despesas, governo paga. Aqui não existe isso. E esse é grande erro. Porque aqui tem lugar onde ir: tem Guarujá, tem Santos, tem Vitória, tem Campos de Jordão. Tem tanto lugar pra operário! Mas coitado: aqui ele só recebe dinheiro e vai gastar na bar, tomar caipirinha, e família, nada. E doença? Lá qualquer hospital operário pode ir e tudo as doenças tem muito atendimento! TRABALHO SEM FÉRIAS Eu nunca tinha férias porque eu sou burro. Mas gosta de trabalhar. Eu nunca estava cansado! Na Iugoslávia, sábado recebe dinheiro, já amigo me espera fora e vamos lá na bocha. Ou vamos cantar e assim a gente diverte. Domingo joga futebol. E mesmo na Israel eu nunca estava cansado. Aliás, eu tem 80 anos e eu não estou cansado! Molecada seis e meia está aqui, na Burikita. Cada dia, com meu filho junto. Seis e meia entramos. Hoje eu trabalha até uma hora. Almoça, vai pra casa e descansa, por causa de perna. FALSO DIAGNÓSTICO DE TROMBOSE Sofreu muito de perna. Dr. Mário Denis, médico muito conhecido não só aqui, mas na Latino América, um grande professor pra varizes. Um dia, eu não podia pisar na pé. Falou minha senhora: "Vai lá e leva chave que empregada abre oficina.” Foi lá na Rua Sabará: "Bom dia." "Bom dia." "Onde o senhor trabalha?" "Tenho uma fábrica". "E quantos operários tem?" Nessa época tinha 18. "Deita." No momento eu não pensa por que ele fala assim pra minha senhora: "Ih! Olha, pega taxi, leva pra casa, 60 dias não pode levantar de cama. Pé para cima. Ele tem trombose." Eu vou pensar: "Está bom”. Eu passei muito na guerra, neve, tudo, pode ser alguma coisa entrou, mas trombose, não sei. Ele me trata, filha da mãe, já chega quer que vende oficina. Não tem mais: 50 cruzeiros, 70 cruzeiros, 100 cruzeiros. E deu injeção na veia que não pode dar. Um dia conheci outro médico, Marcos Wolosky, do Bom Retiro, e fui com ele. Ele me falou assim: "Olha, senhor, pode subir nesta mesinha? Mas tira tudo." Ele pegou, daqui pra baixo. "Mas quem falou pra senhor que senhor tem trombose?" "Mário." "Mário Denis? Foi meu professor. Mas não pode, mas o que é que ele fazia?" Eu conto pra ele. Isso é vagabundo, não é médico! Por que ele perguntou onde eu trabalha, quanto operário tem, que é que tem interesse isso para médico? Ele não acreditou. Outro dia eu pega minha receita e leva pra ele que, quando vê a receita: "Ele é louco, ele estragou pé. Ele deu injeção pra senhor, ele é louco! Senhor pega agora meia dúzia antibiótico de 500 gramas, cada oito horas toma uma." Eu quando tomei segunda, já andava! Quando acabou, ele fala: "Olha, amanhã não levanta, minha enfermeira vai lá e coloca bota." Mas não é só bota, é gesso. Justo sete horas chega moça. Ainda estava na cama, esperava ela. Ela pegou, abriu papel, colocou uma creme, como uma massa. Pegou a faixa, amassa bem, talco. "Agora o senhor levanta." "Como levanta?" "Levanta e anda." Depois, 60 dias ela falou: "Anda!" Olha, jogar futebol, tinha velhos antigamente, hoje já não existe. Tinha um aqui que consertava molas de carro e sempre jogava Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Portuguesa e Comercial. Cada domingo jogamos, levamos um tambor de cerveja, 60 quilos churrasco e 50 litros caipirinha. Quem perde, paga, mas todo o mundo come e bebe! É assim. Quando eu chega, não podia correr, eu estava goleiro. "Não, não vai tirar." Quando tiro, você vai numa loja, tem uma loja Rua Aurora que vende meia elástica. "Você vai usar essa meia elástica, de mulher" e começa tudo assim. É, tá bom. Um dia, como nós tínhamos festa aqui, tinha como campeões. E ele convidou pra mim também. Eu fui, estava justo sábado. Foi lá e disse: "Senta perto de campeão." Tinha mais uns 280 quilos ele. "Senta perto." Ele estava campeão. A cozinha me falou antes que começou: “Avraham, come muito, come.”. Olha, eu comeu 12 prata feijoada, ele comeu nove. Eu tomou 16 copo caipirinha, ele tomou oito. Quem ganhou? Eu! Ainda, acho que na casa ainda tem taça que ganhou. Canal 2 estava lá, nessa época filmava tudo. Ainda de lá, eu foi num amigo, tinha festa na casa. Tomava vinho e comeu mais carne de porco. Essa época podia, hoje já não dá, mas interessante. Essa época eu estava mais ou menos 50 anos. Era 1959. E tinha muitos italianos e espanhóis aqui, que deixava mulher na Espanha e veio aqui para trabalhar e mandar dinheiro pra casa. Chegou muitos espanhóis comigo em navio. VINDA PARA O BRASIL Um dia, em Telaviv, cônsul Brasil, sai uma declaração: “Quem tem uma coisa declarado, uma prova que fez uma coisa na guerra...”. Essa época estava Kubitschek candidato para presidente. Ele deu declarações porque Sara, mulher dele, era judeu. E um amigo me falou: "Você não quer ir pra Brasil? Eu não gosta aqui." Francamente, eu não via futuro aqui. Eu trabalha mas quer ver pra que ele trabalha. Só trabalhar pra comer, isso pra mim não é. Eu não estava contente lá. Foi a Telaviv e veio logo pra cá. Pega ônibus, voltou, pego minhas papéis e ouro, foi lá, levou tudo. Dez dias estava aqui. Tinha diploma de coronel, como luta na guerra, tudo, de 1941 até 1945. Tinha tudo prova. Infelizmente ficou lá consulado, não me devolveram. E assim veio aqui, aqui começou. Uma amiga nossa mandou pra passear. Foi com dois criança, uma pequena, outra maior, e fomos passear em Bom Retiro. Chega na Rua dos Italianos tinha uma placa “curva perigosa”. Falei “Mama mia! Sai daqui!". Na nossa língua, curva é puta (risos). Aqui bonde passa e coloca curva perigosa. "Minha senhora sai, filha da mãe, essa mulher está louca, onde ela mandou nós para passear?” (risos). E voltamos. E começou xingar ela. E ela: "Sabe o que é que é isso? É pra bonde!" Tá bom. Ainda não sabia falar (risos) e depois eu foi trabalhar na Lapa. Eu ficou 20 dias lá. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – FÁBRICA DE MÓVEIS (LAPA) Era fábrica de móveis. Tinha um italiano, chamava Fanton. Ele fazia só armário e ganhava quatro mil cruzeiro por mês. Eu pensei pagar seis e comecei o trabalho. Eu fazia cama, penteadeira e toillet. 20 dias acabou tudo. Eu ganhou 11 mil. Eles me chama: "Mas escuta, Avraham, como você fez isso?" "Por que, não é bom?" "Não, é muito bom! Sabe o que é Avraham, você não dá pra operário, abra sua oficina!" Pego 11 mil, chego na casa e abre oficina, marcenaria, na Rua Prates. Todos amigos: “Você é louco, você não sabe falar língua!” “Mas que é que fala? Armário é armário, mesa é mesa, cadeira é cadeira, madeira é madeira, é isso que tem que falar!" E foi lá, na Florêncio de Abreu, na Cardoso, que vende máquinas. Chegou lá e começou escolher máquina. Escolheu cinco, seis máquinas. Quando acabamos: "Tem que dar 30% de entrada." "O senhor me desculpa, eu não tenho." "Mas como não tem?" "Me falaram que compra, não sei, pra um ano pagamento." "Sim, mas tem que dar entrada." "Mas não tem." E começo falar: "Eu sou assim, de Iugoslávia, de Israel..." "Tá bom. Depois vamos ver." Nós saímos e minha senhora começa a chorar, outro filho começou a chorar: "Papai, olha, que loucura fazemos. Já alugamos oficina, compramos mesa e que vai fazer agora?" Depois de três dias, nós almoçando em casa, chega o zelador: "Senhor Avraham!" Morávamos no segundo andar, ele de baixo, começou a gritar: "Senhor Avraham! Chegou caminhão cheio de máquina!" "Mas que caminhão?" "Não sei!" Corremos, justo caminhão estava lá com cinco máquinas. Quando tiraram, estava gerente lá: "Olha, senhor Ricardo manda e fala pra três horas você passa lá" "Mas que três horas, eu já vai lá." "Mas ele não está lá agora." Nós chegamos lá duas horas. E ele estava lá. Ele falou: "Olha, tenho a confiança de senhor, mas se não pagar uma duplicata, eu pega todo o dinheiro, todas máquinas." Mama mia, filha da mãe! Pega máquinas, pega dinheiro. Mas falei: "Aceito, assino, assino tudo!" E comecei. Trabalhei dia e noite. Interessante: todo o mundo chega, pega um apartamento de 45 mil, ou pega uma armário, 18 mil, e eles me dava dinheiro. Quando eles dava dinheiro, falava pra eles: "Pega logo, leva pra dois duplicata, leva." Cada duplicata estava 12 mil. "Leva 24 mil, leva". Ele fala: "Não, só depois 30 dias." "Não, o senhor tem que aceitar, dá um recibo, porque o meu marido vai brigar comigo." E assim ele aceitou. Olha, oito meses pagava tudo. Quando pagou tudo, pega um garrafa de uísque Cavalo Branco e deu pra todo o mundo. Falou pra gente: "Olha, quando senhor Avraham vem aqui, nem me pergunta, manda pra ele máquina!" SILVIO SANTOS Um dia, já começou namorar com meninas e foi na Beco. Nessa época era como casamento no escuro, do Sílvio Santos. Eu estava na Beco, na Bela Cintra, com uma moça. Eu vi uma mesa grande, cheia garrafas vinho. De repente, apareceu o Sílvio Santos, e falou assim: "Quem tomar uma garrafa de vinho? Se não tirar de boca e tomar tudo, ganha Cavalo Branco, uísque." "Minha nossa! Avraham, vai você!" Justo meia-noite ele deu um tiro. Eu pego garrafa assim: " glu, glu, glu...” Quando pego quatro, parou a música, todo mundo parou. Cinco garrafas! E quando acabou, chamo o garçom: "Traz um pedaço de toucinho e uma cebola." Eu vai explicar: tempo de guerra, pegava garrafão de cinco litros, tomava. Experimenta um dia: segura ar, toma ou vinho, ou o que você mais gosta. Quanto você vai tomar, não vai tomar um copinho, vai metade garrafa, até você segurar. Mas depois quando solta, tem que pegar cebola ou toucinho. Ele tira álcool. Até hoje eu come cebola. Todo o dia, dez horas, minha empregada me corta uma cebola. Cebola é bom pra sangue, pra tudo. Marceneiro começou trabalhar esta rua, Cruzeiro do Sul, na frente detenção. Espanhóis, italianos, voltava. Foram na África, pagava mais. Eles foi lá pra trabalhar. Conheci um tinha 60 empregados brasileiro e criança. Esse sofrimento me passa: dia dez recebe pagamento, três dias, não aparece. Dia vinte recebe, três dias, não aparece. Isso quando eles volta a trabalho. Eu estava treinando ping-pong dentro detenção, para polícia. Estava campeão na Iugoslávia com ping-pong. E treinava deles. E tinha um tenente Flor, ele gosta muito, e ensinei como se jogava. Ele aprendeu bem. Ele levou conta pra minha oficina. Um dia falei: "Olha, não sei que vai fazer. Não dá, com essa gente. Eu promete dia dez mês que vem você recebe móveis, você não vai nem receber outro dia dez! Não dá, não dá!”. Então quando eu vê que vai afundar, vendeu e começou Burikita. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – BURIKITA Antes de vender minha senhora fazer burikita só na casa, só para nós. Esse é um doce massa folhada e na Iugoslávia vende na padaria. Lá vende assim, bandeja grande e corta pedaços, vende por pedaço. Com queijo, com cereja, com maçã, com ovos. E até hoje isso existe na Iugoslávia. Eu começou falando pra minha senhora: "Faz um pacote de quatro burikitas de queijo.” e foi na Mackenzie. Chega Mackenzie, aparece um professor: "O que é que é?" "Olha, te falo, eu sou iugoslavo, nasci na Iugoslávia tanto ano na mão de turcos, e depois tiraram a Iugoslávia de turcos, e isso sobrou pra nós lembrar." "Mas o que é Burikita?" Abre pacote, estava quente! Coloca na boca: "Mas o que é isso? Isso chama...?" Eu falou “Burikita!”. Encomendou 300 pro outro dia. Esse mesmo falou assim: "O senhor passa Consolação, vai Filosofia. Lá tem de manhã e tem à noite. Fala com dona Maria." O mesmo aconteceu. Chego lá, a dona Maria não queria. Aparece uma moça, já de Bom Retiro, professora: "Dona Maria, o que quer ele?". Comecei novamente: "Sou iugoslavo, parapapá..." E ela também pegou, quando pegou na boca: "Dona Maria, pega!" "Ai, que gostoso! Tá bom, traz 300." Pegou táxi pra casa, morava na Ribeiro de Lima. PRODUTOS Subi em cima, pegou farinha, fechou a porta. Pega minha senhora, pega grande balde, farinha dentro, ovo, sal, água. E começo. Amassa, amassa, amassa. Cheio! E deixa pra crescer. Quando começou crescer, tirava 750 gramas, mas tinha só uma geladeira! “Onde vai tudo essa massa?”. E na cama, na sofá e no chão. Tinha muita massa para um mil burikita. Quando acabamos, à noite, vamos no vizinho, amigo, jogar baralho, até meia-noite. Meia-noite voltamos, novamente tira tudo e começamos fazer. Uma mesinha e um fogão. Acabamos tudo isso sete horas, 800 burikita. Seiscentos lá. E na Renascença, nesse prédio onde é agora Pão de Açúcar. 800 burikita. “E agora, pra levar?” TRANSPORTE Parou na rua, mas nenhum táxi quer parar. Aparece um velho, parou. Eu falou: "Escuta, aí tem duas caixas pra levar e mais duas no porta-malas." "Mas que é que é?" "Tem burikita." "Mas que é que é isso, burikita?" Mas que é que eu ia agora explicar: "Quer levar?" "Tá, aceito, uma de cada vez.." Tira cabeça: "Mas que é que é esse cheiro?" Estava quente, eu tirava um e deu pra ele. "Mama mia!" Ele estava salivando. Olha, estava louco. Ele me espera me devolver a casa, quando deu, pagou pra ele e mais quatro burikitas. Olha, dois meses, em casa ele chega, me leva. Tudo paga à vista! Chega na casa, tira dinheiro joga no chão: "Minha senhora senta aí e conta dinheiro." Já não dava mais em cima, começou festa de israelita, fazia torta de maçã, torta de queijo, strudel de maçã, strudel de nozes. Strudel é comprido, massa folhada. E assim começamos a trabalhar. FUNCIONÁRIOS Empregamos moça, ela ajudava. Ela tanto aprendeu, pegamos outro moça. Ela estava ciumenta: "Ela é burra, ela não sabe nada." “Você não sabia nada, deixa, vai aprender!” Assim, ela saiu. Abandonou. Depois queria voltar, eu não peguei. Quem sai da Burikita não volta, não pega mais. Até hoje é assim. Porque muito fácil pra aprender: você entra hoje, em três, quatro dias você lava louça e ajuda a limpar maçã. Depois de uma semana, você já sabe abre e fecha a burikita, sabe fazer merengue. Esse, de suspiro, nozes e chantilly. Muito conhecido! Uma moça trabalha um mês, ela já faz, não tem nada complicado! Doce não tem nada complicado. QUALIDADE E nossa doce, garantido. De tudo original, não tem nada como outros faz: pega caju e farinha de rosca, coloca queijo: nozes! Nossa é nozes 100%. Temos um petit-four pequeno com nozes e ameixa preta. Nós sozinho cozinhamos e fazemos geléia. E tudo muito conhecido. E um dia já estava pequeno. Já em cima não deu, alugamos embaixo um lugar. CLIENTES Não existe festa onde nosso strudel de nozes, strudel de maçã, strudel de papoula não tenha. Hoje nós vendemos pra Rio, para Belo Horizonte, para Curitiba, para Campinas – lá tem esses médicos e quando eles têm festa, só telefona: "Seu Avraham, me prepara 20 strudel de maçã, 20 de nozes, 300 de queijo, de batata.". Eles não quer espinafre, nem de carne. Queijo e batata. Mesmo Porto Alegre: manda telegrama pra dia esse, prepara tudo. “Nós vamos chegar e levar com avião”. Nós temos até Estados Unidos, um casal quando vem aqui, mulher fala: "Não esquece, vai na Burikita, traz strudel de nozes e de papoula." Eu falo: "Lá não tem?" "Tem, mas não é gostoso como o de vocês!" Tem aqui São Paulo também, também faz strudel, mas não fazer massa folhada como nosso. Nosso, quando você coloca na boca, desmancha! Nossa burikita pegou fama. Até hoje, Jardim América, todo o mundo chega só pra isso. E quando não tem: "Ah, peguei táxi!" "Por quê não telefona? Tem telefone! Telefona, a gente se prepara!" Chega gente de Curitiba, ônibus que vem parar aqui na Rua Prates. Três, quatro ônibus. Chega lá e: "Olha, pra tarde eu precisa dois strudel de nozes, dois de papoula." "Sem problema, à tarde você recebe." Chega à tarde e leva. O petit-four: "Um quilo de nozes, um quilo de ameixa", eles leva! E assim gente até hoje continua. EMBALAGENS Vai tudo enrolado, de cartão, pode levar onde quer. TRADIÇÃO FAMILIAR Tudo isso aprendemos de mãe dela, dona Matilde, assim aprendeu. Porque na nossa casa, como fala judeus, sexta-feira à noite, shabat. Na nossa casa, mãe dela fazia ovos cozinhado 48 horas. Abre como castanha. Fazia burikita e antes que começa janta, shabat. Começa sete hora e na casa dela já chega todo o mundo, seis horas está em casa. Sentam mais velho ou filho que não tem pai, filho limpa ovo e não corta, quebra com mão. E assim, pega metade pra você. E depois tem sal e pimenta do reino. Gente come e toma pinga de ameixa. E depois come essa burikita. Feijoada cozinhado é sexta à noite, começou cozinhar já quarta-feira. Mas não é panela de ferro, é de barro. E depois, último dia coloca na fôrma e quando tira, mama mia! Maravilhoso! E assim passa sexta à noite! NEGÓCIO FAMILIAR Esse filho, chama David, engenheiro eletrônico, trabalha na Telefunken lá na Santo Amaro. Levanta cedo, chega à noite, chuva, trânsito. Ele tem cinco diploma. Eu falou: "Deixa tudo esse diploma, deixa engenheiro, entra você aqui, pra mim já chega." Dona Matilde já uma vista não enxerga e outro enxerga pouco. Foi operada de coração. Eu falou: "Pega você!" Ele entrou tão firme e hoje faz tudo. Pode deixar na mão dele sossegado. DIVULGAÇÃO Fez propaganda várias vezes na televisão hebraico, canal 11. Não tem música, tem como notícias hebraicos, duas e meia, cada domingo. E antes de começar eles faz propaganda pra Burikita. E depois continua que acontece Israel, que acontece aqui. Tudo isso propaganda. PAGAMENTO Todo o mundo dinheiro ou cheque. O que hoje mais dá aqui é comida. Você abre uma coisa, tem crédito. Mas esse negócio de pagar, dar cheque, não sabe que é seu cheque. Eu tenho um conhecido, Melódia, um bom amigo meu, tem problemas de cheque: cheque de interior, não tem fundos, depois tem dor de cabeça. Mas eles vendem assim. Mas pra nós garantido dinheiro. Não abusamos o preço, nós somos barato, mas preço bom e sempre cheio. Você passa meio-dia, assim, gente! Não pode entrar! Come doce, come merengue – morango, suspiro, chantilly. Assim altura! Você come, não precisa mais almoçar. E tem mais operários, não é só quem vem meio-dia, não é alta sociedade. Porque custa dois real o pedaço. E você come um pedaço, acabou almoço, não precisa mais nada. Toma um Coca-cola ou uma Guaraná, ou o que você quer. Toma suco de maracujá ou limão e acabou almoço. Por dois real você almoça. BOM RETIRO – Ontem e hoje Quando nós chegamos aqui, esse bairro estava bairro de judeus, um pequeno Israel. Hoje já não é tudo judeu, já saíram aqui. Agora está na Angélica ou Rua Maranhão. Hoje Bom Retiro é mais coreanos e japoneses, elementos maravilhosos. REFLEXÃO SOBRE A VIDA Se pudesse, minha idade, tirava 80 pra 50. Isso que Deus me ajudava. Outro não quer mudar nada, estou muito contente. E tão rico, esse país! Aqui sempre tem comida, nunca não falta. Não como na Alemanha, na Iugoslávia, na Hungria e agora na Rússia, todos lugar que não tem comida, fila pra um pedaço de pão. Aqui nunca tem fila, tem pão o quanto você quer, tem carne o quanto você quer, sempre tem verdura, sempre tem frutas. Não existe aqui “esse mês não tem”. Esse um país rico demais. Mas não tem governo patriota. Único que tinha um pouco era Jânio Quadros, mas ele, vagabundo, fugiu, abandonou, quando estava presidente. REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA Eu achou maravilhoso participar disso, para mim estava uma festa. Se você pode ajudar, ajuda! Tem que ter gente assim, isso me sobrou da minha vida porque não tinha nem pai, mãe. Eu não sabia nem essa palavra: mamãe, papai. Com meus filhos fala pra mãe: "Mãe." "Está bom, vocês têm mãe, eu não tinha."

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