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História

O "Monstro do Maracanã"

História de: José Carlos Bauer
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/01/2014

Sinopse

José Carlos Bauer é filho único de pai suíço-alemão e mãe brasileira. Um paulistano de origem humilde que vê o Brasil de antigamente como um lugar ideal.Entrou no juvenil do São Paulo Futebol Clube, treinando em campo de várzea e logo ganhou um terno. Com a concentração só de jogadores (destacando grandes diferenças com o que é feito agora), começou cedo a carreira de futebolista. Teve uma boa convivência com outros jogadores e se lembra bem de quando o Pacaembu era passarela, rodeado por mulheres e homens bem vestidos, incluindo os jogadores. Foi nesse Pacaembu que Bauer conheceu sua esposa, em 1945.Fala que custou para ser convocado para seleção, mas quando foi, em 1950, jogou pra valer e foi apelidado de "Monstro do Maracanã".Destaca uma torcida diferente da de hoje, que respeitava a partida. Conta de passagens como a final entre Brasil e Uruguai, e uma partida contra a Espanha, em que a torcida brasileira cantarolava "eu fui às touradas de Madri, pratimbum, pratimbum!" (enfatiza que nessa época não era comum gritos e batucadas nas torcidas).Apesar de todas as truculências que passou ao fim da carreira, indo jogar no Botafogo do Rio de Janeiro, agradece e tem um forte carinho pelo São Paulo. Ao fim de sua carreira teve a oportunidade de enfrentar Pelé durante o segundo tempo de uma partida, e fala orgulhoso que o jogador não fez nenhum gol durante esse segundo tempo (Bauer já estava com 32 anos nesse duelo), mas no dia seguinte da partida foi mandado embora do São Paulo.Ao fim da entrevista conta sobre a época em que atuou como treinador, passando por partidas em Portugal, e seu reencontro com Bella Gutman.

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História completa

P - Bom, vamos começar, Bauer, a lembrar um pouco da infância... O senhor conta um pouco dos seus pais. Ou mesmo... Dos seus pais. O senhor... Onde que nasceu? Em que data nasceu? E aí vamos começar a relembrar toda a parte da infância do senhor.

 

R - Eu nasci em São Paulo, capital. Em 1925, dia 21 de novembro. Sou filho de pai suíço-alemão, e a minha mãe brasileira. Já falecido os dois. E sou filho único. Bom, a minha infância praticamente começou... É... Eu nasci na Dona Veridiana, centro de São Paulo, bairro Santa Cecília. Posteriormente meu pai, eles mudaram pra Rua Frei Caneca, lá na Bela Vista. E aí eu tive toda a minha infância nessa Rua Frei Caneca, na Rua Augusta, é... Antonio de Queiroz, Peixoto Gomide. É, quando ainda não era Avenida nove de julho. Nós fazíamos nosso campinho de futebol lá, quando criança, e nós fazíamos a nossa pelada. E também dentro daquela redondeza havia o colégio, o colégio estadual da Consolação, no qual eu estudei. E tive também certo tempo, e me arrependo profundamente. É que meu pai tentou que eu estudasse alemão, e hoje eu me arrependo, mas estou aqui, contente, satisfeito da vida, porque tive a felicidade... Depois, os anos passando, em 1940 já, tendo 14 anos, eu fui treinar, porque me viram jogando e pediram pra que eu fosse treinar no São Paulo Futebol Clube. O São Paulo tinha o campo lá na rua da Mooca. O campo... Que... Da Antárctica. E eu fui treinar mais. E eu, como as crianças pobres, eu não tinha chuteira e jogava. E na várzea do São Paulo, sem chuteira, só de meia, e todos achavam aquilo estranho. E porque que eu não tinha medo de estar jogando no meio de adulto, então eu jogava no meio de adulto, jogava, é uma equipe de esporte, equipe, quer dizer só de grandes. E me saía bem, tanto é que pediram pra que eu fosse treinar no São Paulo. E eu fui treinar, pensando que tivesse na várzea, jogando de... Sem chuteira... Eu cheguei lá, me preparei e entrei em campo de meia e o Feola então olhou: "Mas o que que é isso aqui?" né? Falou: "Assim não pode treinar". Muito bem, eu deixei o campo, meio decepcionado, não aborrecido porque, tanto é que não me aborreci que em mil novecentos, é um ano após 41, tornaram a me levar no São Paulo, aí não sei como eu estava de chuteira. Talvez tivesse ganhado ou meu pai comprado e eu já tava de chuteira, e treinei na Rua Müller, no outro campo, que o São Paulo havia alugado, que é no Brás. E aí lá, então eu fui com outros dois colegas que haviam treinado... Voltaram a treinar no segundo treinamento, e deu-se o seguinte: ficaram encantados comigo. O General Porfírio da Paz, o diretor de futebol e posteriormente seu Vicente Feola. Então, já logo me levaram pra sede do São Paulo e já pra assinar uma inscrição. Era inscrição de amador, mas eu não podia fazer isso, porque primeiro tinha que ter uma autorização do meu pai e eu levei então pra minha casa o papel que o São Paulo me forneceu. Aí meu pai assinou, sem saber o que estava assinando, não sabia ele o que era futebol. E levei no dia seguinte, no treino seguinte, levei lá na sede do São Paulo. Eles gostaram muito, inclusive o seu general Porfírio da Paz. Ele havia... Eu não havia pedido nada, absolutamente, mas ele talvez, no intuito de me prender, me ofereceu um terno, disse que ia me dar um terno no dia que eu trouxesse a inscrição já assinada, isso foi feito, me levou aqui perto. Hoje eu estou aqui na Rua Três Rios e aqui no Bom Retiro, essa Rua Formosa que é José Paulino, ele me levou numa dessas lojas aí, me comprou um terno e fiquei muito contente. E aí passei a jogar nos juvenis do São Paulo Futebol Clube. Em 1942 a Federação Paulista começou a fazer seus campeonatos com as categorias menores, começou com os juvenis, depois começou com os aspirantes e assim foi. Então eu passei a jogar no juvenil do São Paulo, em 42. E eu sempre falo pra todos os meus amigos conhecidos, e hoje pras crianças também, transmito que a maior glória que eu tive dentro do futebol, foi ter sido campeão juvenil no São Paulo, campeão invicto. E o São Paulo não tinha campo. Nós tínhamos o campo, o São Paulo ora treinava no, no, na aqui como, no... Onde joga, aquele negócio do galo aí... Jogava né? Um campo aí perto da, agora não lembro. Eu treinava na Moóca, ou treinava aí onde eu acabei de falar, lá no Brás. Então nós treinávamos assim, em campo de várzea. Mas jogava duas vezes no campo do Corinthians, duas vezes no campo do Palmeiras, e assim ia, né, Juventus, Comercial, Nacional, e nós ganhamos o campeonato invictos, com dois empates. Isso pra mim foi uma grande alegria extraordinária, que eu não posso esquecer. E posteriormente, em 1944, mal sabendo eu que eles estavam testando, nos jogos profissionais amistosos no interior de São Paulo, eu comecei a participar de todas as partidas. E eu não jogava meio tempo não, eu já começava jogando e já estava me preparando. Aí, em 1945 é que eu comecei realmente. E já em janeiro tinha uma “taça cidade São Paulo”, que participava o São Paulo, o Corinthians e o Palmeiras. Aí eu já, logo na primeira partida, joguei contra o Palmeiras. Nós perdemos de um a zero e eu fui considerado o melhor jogador em campo. Daí então foi um pulinho mais que eu dei na minha vida, para tornar-me mais conhecido, porque aí já em 45, veio o meu campeão, o primeiro campeonato profissional conquistado por mim dentro do São Paulo. Aí eu vi o bicampeonato em 46 e daí, e daí pra frente, graças a Deus, minha vida foi cheia de glória.

 

P - Bem, vamos voltar um pouco à infância do senhor, pra ver, essa fase de criança, filho único, como que foram as primeiras amizades? O tempo de escola? O que que o senhor gostava? Assim, integrava o time da escola assim, ou se não... Vamos lembrar um pouco dessa fase escolar também.

 

R - É, antigamente, né, eu... Hoje os colégios são melhor distribuídos, existem mais colégios, é... Tem professores de educação física, até treinamento de futebol, mas antigamente não, nós não tínhamos nada, o nosso negócio era jogar bola de meia na rua, chutando palha, chutando guia, enfim, essa era... Perturbando a vizinhança, que nós jogávamos à noite, principalmente à noite, ao cair da tarde. As seis, sete horas começava nosso jogo, a nossa brincadeira, e aí né. É... Havia outras brincadeiras, e a época era boa porque, por exemplo, nós fazíamos festa, principalmente São João, no qual São Paulo não tinha prédios, havia muita facilidade, o balão caía num terreno vazio, não havia o que tem hoje, hoje não, eu não... Não... Já meus filhos, já crescidos, eu não ensinei meus filhos a jogar, a brincar com balão, e uma coisa eu não brinquei de criança, não que meu pai não deixasse, mas eu nunca brinquei com negócio de bombinha, essas bombinhas assim, nunca brinquei. Também não me lembro de ter dado bombinhas a meus filhos, porque eu acho isso muito perigoso, então já não veio dos meus pais, veio de mim mesmo, me cuidar contra tudo isso. Agora o balão nós fazíamos e isso não tinha por onde, e sempre o futebol, na época, nós... E nos jornais, por exemplo, não se via. Meu pai, ele comprava jornal alemão, aí eu não sabia ler e ficava nisso daí, mas nós procurávamos acompanhar jogos pelo rádio. Por exemplo, a Copa do Mundo eu lembro tão bem, a Copa do Mundo de 38, eu ouvi, é... Porque antigamente criança não podia, só maior de 18 anos podia frequentar bar. Então, de tardezinha, nos jogos do Brasil na copa de 38 havia um... Embaixo, um porão, era um bilhar, e lá tinha um rádio, e havia aquelas frestas pra ventilação... Nós ficávamos então deitados na calçada, fora, ouvindo a Copa do Mundo. Porque não era permitido mesmo, criança nenhuma frequentava, então eu vim de uma infância assim, quer dizer que havia proibição de tal coisa, havia mesmo, não é como agora, existe a proibição, mas ninguém toma conhecimento, ninguém faz nada, nada. Então graças a Deus, eu costumo dizer que eu vim de um Brasil que era Brasil, que me honrou profundamente, agora não, agora tá feio.

 

P - E naquela época que o senhor começou a jogar futebol, o senhor sentiu alguma resistência dos seus pais, sua mãe, seu pai?

 

R - Não, primeiro que eu já falo que o meu pai não entendia de futebol, não sabia, e minha mãe não se incomodava, é... Pra se cuidar, não chegar tarde, agora nunca fui de chegar tarde não, e nessa época aí era... Ninguém, enfim, negócio de bebida, tóxico, enfim, dormir tarde, na época não existia graças a Deus. Eu tive a felicidade de não viver com isso, e não era do meu tipo também, nem que fosse hoje também, isso não passaria por perto de mim não.

 

P - E na época da adolescência? É quando a gente começa a conhecer a vida, se relaciona com as meninas. Como é que era isso na sua época?

 

R - Bem, é... Sempre foi a mocidade, eu não vou dizer que... Mas não, também... Não fui um namorador profundo, mas tive poucas namoradas, digo mesmo, tive poucas e por acaso assim tive duas namoradas quase na mesma época, com os nomes iguais, Jandira e Jandira. Aí posteriormente eu tive uma terceira namorada, que é a minha mulher e nós estamos juntos há 43 anos. Eu não me lembro de uma quarta, quinta não, foram três.

 

P - Na época o senhor jogava futebol descalço e...

 

R - O negócio foi o seguinte: Em 40 eu não me lembro como é que eu fui lá no São Paulo, quem me levou. Agora já em 41 havia um são-paulino na Rua Frei Caneca, filho de árabe, árabe? Alguma coisa assim, e ele havia levado os dois colegas meus e no... Na semana seguinte eu estava na rua e eles passaram os três, ué, disseram pra mim: “Vamos treinar no São Paulo.” “Não, mas eu não tenho dinheiro pro ônibus e tal”, então esse que levou os outros dois: eu pago e tal, não sei o quê e tal. Aí nós fomos, então foi com ele. Ali acabei ficando e os dois sendo dispensados.

 

P - O senhor já torcia pelo São Paulo? Como é que começa a torcer, desde quando?

 

R - Não, olha, o negócio é o seguinte, a gente de criança, eu tinha assim uma afeição, mas não que eu era corintiano, não havia assim essa torcida fanática como agora, agora tá demais, tá até pra morte. Então não se matava ninguém no caso do futebol. E aí que eu passei a jogar no juvenil do São Paulo, eu passei a gostar do São Paulo. Por quê? Porque meu pai não ia ao campo, mas os pais dos colegas, eles iam. Tinha o Leopoldo, um bom ponta-esquerda, tornou-se profissional no São Paulo, Saveiro tornou-se profissional no São Paulo, o pai acompanhava, Antoninho tornou-se profissional no São Paulo, o pai acompanhava, Novele, o goleiro. E todos, e quase todos desse lado de cá, do Bom Retiro. O ajudante do Feola era do Bom Retiro. E o Feola morou, não sei se nasceu também no Bom Retiro, ficou muitos anos aqui no Bom Retiro, então o Bom Retiro também merece um destaque, porque muitos jogadores apareceram aqui no Bom Retiro e... Você perguntou? Fugi...

 

P - A questão de como o senhor descobriu, como começou a torcer pro São Paulo.

 

R - É, então, e aí, exatamente aí, pelos pais, enfim, havia muitos e nós, eu... E passamos a formar um grupo de são-paulinos, quer dizer, os pais. E aí foi, foi um ponto... Um ponto muito bom, um ponto positivo pra nós, pra mim principalmente. Aí não teria que acontecer outra coisa, um jogador de futebol profissional e um torcedor praticamente do São Paulo.

 

P - E o sr. se sentia mal, assim, da falta, da ausência do seu pai incentivando seu filho?

 

R - Não, não, depois eu me tornei um profissional que ele começou a entender, porque ele tinha os amigos dele, não eram muitos, mas ele tinha e falavam. Eu nunca pedi pro meu pai: "vá ao Pacaembu". Nunca peguei e comprei, ou arrumei uma entrada pra ele, mas eu sabia que ele ia ao Pacaembu, porque quando eu voltava do jogo, ele comentava que os outros falavam pra ele que eu joguei bem e tudo. Então ele passou a me acompanhar e eu também. Chegava no dia: "Pai, você vai ao jogo?" Ele não falava nada não, então ficava um negócio assim, ele ia, ficava quietinho lá no seu lugarzinho e eu perguntava pra ele, quando tinha algum tumulto, alguma correria, principalmente nas gerais do Pacaembu, eu perguntava pra ele onde é que ele estava depois, se ele estava ali por perto, ele diz: "não, eu tava do outro lado, eu vi a correria e tudo, mas não teve problema". Então havia a minha preocupação com ele, claro, meu pai, mas ele não entrava, assim, em detalhes quanto ao jogo.

 

P - E nos dias de jogo, como é que era a concentração que o time fazia?

 

R - Olha, o São Paulo e as outras equipes mesmo, eles levavam os jogos e a concentração muito a sério, os diretores, os clubes, não porque os jogadores fossem farristas, absolutamente, e tem um detalhe muito importante que hoje... Outro dia eu vi alguém falando, parece que o Gerson, falando que hoje a Seleção Brasileira precisa largar desse negócio de se falar: "Não, eu preciso levar meu sogro, preciso levar meu filho, preciso levar meu cachorrinho pra concentração, preciso levar pra Europa" e antigamente não. São Paulo dizia: a concentração vai começar quarta-feira. Começava quarta-feira, ninguém “chiava”, ninguém falava nada, quer dizer, até era uma ambiente gostoso quando estava na concentração, eu não posso dizer de outras, mas do São Paulo sim. Posteriormente passamos a concentrar na sexta-feira e dependia dos jogos, quando era clássico o Feola marcava na quarta, quinta-feira, e nós ficamos concentrados sem ninguém achar ruim. O único jogador, porque era argentino e a família dele... Tava com a família em São Paulo, ele não se concentrava e acabou se acostumando, e nós, jogadores não achávamos ruim, que era o Antonio Sastre. Então ele precisava ficar com a família, com os filhos, e ele ficava mesmo em casa, não tinha esse negócio de farra, antigamente num tinha. Não tinha beberrão, não tinha nada disso. Então nós aceitávamos essa maneira do São Paulo proceder com ele. E havia um detalhe muito importante, que ele chegava domingo de manhã, por volta de nove horas mais ou menos na concentração, quando eram os clássicos contra o Palmeiras, o Corinthians. Ele não fumava, aliás, quase que ninguém fumava no São Paulo, ele entrava fumando na concentração. E dizendo: "La partida es amistoso? Ya ganamos. Ya ganamos". Isso dá uma confiança terrível, porque ele não fumava e entrava dessa maneira dentro d’uma concentração, logo em seguida ele já jogava o cigarro fora, apagava e jogava fora, mas era assim. Então havia uma alegria extraordinária e aquela... Pra entrar em campo, você já viu né, um cidadão chega à concentração, e participando do jogo e dentro do campo também, ele, ele impunha essa animação.

 

P - Você não falou que a concentração era muito gostosa. O que tinha de gostoso? Que, que tinha de legal?  

 

R – Olha, eram os amigos, eram os jogadores, eram os jogadores que se sentiam à vontade. Se conversava muito, não havia televisão, não havia aquele negócio, um contava uma piada, um negócio qualquer, um acontecimento, e a coisa ia assim, um ria de lá, outro ria daqui, um ambiente sadio mesmo, ambiente sadio, não tinha brincadeira de mau gosto e principalmente, eu costumo dizer sempre, que, por exemplo, o Leônidas era bem mais bem mais velho do que eu, na época eu tinha 17, 18 anos, ele já tinha uns 30 anos. Luizinho Mesquita a mesma coisa. Luizinho Mesquita chegou a dizer pra mim que quando eu nasci, em 25, ele já jogava bola, falou pra mim. O Leônidas começou em 28, quer dizer, eu nasci em 25, três anos depois ele já tava jogando bola, quer dizer... E aí o Remo era velho, o Sastre velho, o Noronha também, e eu costumava, costumo dizer as pessoas que eu... Quando é... No almoço, no jantar, eu sentava no meio de senhores, a minha companhia eram os senhores, então esses senhores aí, eu aprendi muito, quer dizer é pelo São Paulo e por eles, coisas importantes. É sentar numa mesa, então não é... Hoje, por exemplo, eu vejo, né, senta numa mesa é farra de cá, farra de lá, uma mesa pra mim continua sendo sagrada , então eu tenho todo o respeito quando eu estou numa mesa, almoçando, jantando, então, quer dizer ali é sagrado, Deus está ali.

 

P - Como que esses senhores tratavam o senhor? Pelo fato de ser um moleque diante desses senhores?

 

R - Não, eles me tratavam como os outros. Entre eles era igualdade, era igualdade. Quer dizer, não é porque eu era menor, era o mais moço da turma, que eles iam fazer coisas, brincadeira de mau gosto, nada disso, não tinha absolutamente nada disso, o pensamento era o futebol, a concentração era sobre aquilo que nós tínhamos que fazer no domingo.

 

P - E os treinadores? O Joreca, o Feola... Qual era a conduta deles, se afastarem ou entrarem?

 

R - Não, eles também, os dois eram muito psicólogos, é... O Joreca é... Quando uma das primeiras vezes, em 1945, que ganhamos o bichinho lá, não era negócio grande não, como agora, era um bichinho, e o São Paulo tinha tesouraria e a sede lá no Canindé, concentração e o campo de treinamento, aí eu fui na tesouraria receber o meu dinheiro, meu, ele falou: "Mocinho, nós vamos juntos?" “Vamos.” Ele não tinha carro, não, ninguém tinha carro. Nós fomos juntos de bonde, fomos lá na Caixa Econômica Federal depositar meu dinheirinho, abrir uma carteira, depositei o dinheiro. Quer dizer, era um homem, assim... E outra coisa, depois passado um determinado tempo, ele chegou pra mim e disse olha aqui, o treinador veja só, chegou e disse: "Tá aqui essa garrafa de vinho do Porto, você gosta de gemada?" "Gosto" "Tá aqui vinho do Porto, você põe um pouquinho assim, com ovo, açúcar..." E posteriormente, eu não, eu não sei se foi ele, alguém, disse: "Não põe mais açúcar, põe “desse troço” que é um negócio melhor pra saúde." Quer dizer, eu dentro de campo e o pessoal queria saber como é que eu corria tanto daquele jeito, e os próprios colegas, como o back central Renganeschi, central de São Paulo, pedia para eu ficar ao lado dele, porque a corridinha dele era pequena, e eu então fazia cobertura praticamente, dentro da defesa do São Paulo, porque eu ia e voltava, ia e voltava, ia e voltava, mas, quer dizer, sei lá se o homem esqueceu de dar a fórmula pros outros, mas deu pra mim.

 

P - E você se inspirava em alguém? Algum ídolo de infância que imitava na hora de jogar?

 

R - Bom, eu poucas vezes ouvi falar, depois eu acabei jogando contra, foi Domingos da Guia, pai do Ademir da Guia, então quando ele vinha, vinha com o Flamengo jogar em São Paulo, eu ia ao Pacaembu ver-lo jogar, e a maneira, porque ninguém passava por ele, então eu era um garotinho e assimilei muito, ele, ele quando o adversário vinha, ele dava um bote no adversário e voltava... Então o adversário vinha, ele dava um bote no adversário e voltava... Então o adversário driblava pra frente, ele ficava com a bola, e eu quando comecei no profissionalismo, comecei a fazer, mas já no juvenil comecei a fazer isso e não levava drible. Bom, o negócio é o seguinte: chegou a tal ponto que o Luizinho, meia-direita do Corinthians que infernizava todas as defesas, um dia, agradeço até o Luizinho não é, eles, "o único que eu não consegui passar com a bola no meio das pernas, não sei por que, foi o Bauer". Então comigo era difícil, como era difícil com o Domingos da Guia. Então eu tive um espelho, que é... Antigamente, que é na época do Pelé, em 70, os jogadores olhavam e se espelhavam em ver. Eu por exemplo, quando os backs batiam o tiro de meta, os goleiros, eles não batiam o tiro de meta, quem batia eram os backs. Posteriormente o Barbosa apareceu batendo o tiro de meta, e o Lorival, que era um back do Fluminense, jogavam na zaga da Seleção Brasileira. Domingos e Lorival é quase físico, idêntico, mulato, alto, e esse era Domingos e Lorival. Então esse Lorival, também do Fluminense, eles vinham... O Fluminense vinha para jogos em São Paulo, ele pegava e batia o tiro de meta do lado direito, com a perna direita, ele batia o tiro de meta do lado com o pé esquerdo. Eu ficava lá olhando... "Que negócio é esse aí? Por que eu não posso fazer?" Eu comecei a fazer. Aí o Mario Moraes, um grande comentarista esportivo, um dia me perguntou: "Bauer, como é?" "Como é o quê?" Quais são as pernas e tal? "Eu vi gente bater com as duas, eu fui obrigado também a bater com as duas, né?" Então, não sei, hoje não tem muito isso aí não, de um tempo pra cá, caiu muito esse negócio de se espelhar. Por exemplo, o Mauro acha que eu não gosto do Neto. Então o Mauro Ramos de Oliveira "É o Bauer". Não Mauro, o negócio é o seguinte, o Neto quando apareceu no Guarani eu gostava dele, eu achava que ia ser um craque, então pela passagem pelo Palmeiras, foi no Corinthians e tal, agora chegou ao Corinthians ele se acomodou, então ele passou a ser um jogador, o que que ele ia transmitir pras crianças, bater escanteio, bater pênalti, bater falta e não correr dentro do campo, isso é jogador de futebol? Eu não acho que seja jogador de futebol, e tanto é que ele chegou na Colômbia, o pessoal já... Não, não, bater escanteio, bater falta e... Precisa correr mocinho, ele não corre, quer dizer... E tá difícil pra ele arrumar um clube aqui, eu não sei onde ele vai arrumar.

 

P - Bauer, e uma pergunta, o que você fazia fora do futebol? Quando não tinha nem concentração, nem treinamento depois do jogo, por exemplo, numa segunda-feira?

 

R - Nos jogos no Pacaembu, São Paulo mandava todos os jogos. Quase todos os times eram... Mas o São Paulo mandava os jogos do Pacaembu, e foi uma época gostosa, linda, porque as mulheres iam aos jogos, não sei se agora vão, mas o Pacaembu ficava florido de mulheres e nós, numa época aí que o jogador de futebol usava terno, gravata, sapatinho bem engraçado. E nós íamos, nós saíamos do Canindé para o Pacaembu, claro, tomava seu banho, fazia sua barba, via lá no espelho seu terninho, sua gravata, e na gravata aqui, um prendedor, uma série de coisas, abotoaduras... Então ali nós saíamos. Quando a gente chegava ao Pacaembu, no portão já tinha gente lá, e, tal um fulano, cicrano, beltrano, não sei por que, lá... Lá... Lá... Então já havia lá aquele desfile. Pra chegar ao vestiário, após a partida, era outro desfile da saída. E as mocinhas lá olhando os jogadores saírem, aí segunda-feira nós fomos dar uma voltinha pela Barão de Itapeninga, Dom José de Barros, Avenida São João, Viaduto do Chá, Rua São Bento, Rua Direita e daí a fora. Ficávamos por ali. Nós íamos muito ao chá do Mappin, tinha o outro. Esses dias até lembrei de um outro chá que tinha, parece que até hoje tem lá na Barão de Itapetininga, então nós vivíamos assim. Agora entrava de tardezinha, quatro horas, cinco horas, pra olhar as moças e pras moças saberem quem tava chegando, quem tava lá, nada de uísque e nada de cerveja, nada de coisa, o negócio era esse, então se namorava, enfim eram as olhadinhas.

 

P - E com quem? O Bauer ia com quem? Quem era a companhia? Que outros jogadores?

 

R - Que eu me lembre, assim, era eu e o Mauro mesmo, chegado, né? E outros, o Maurinho, não dá... Turcão, Alberto Soares e o Alfredo, uma vez ou outra, enfim, e tinha mais gente, o Gino, o Dino, enfim muitos, muitos jogadores, muitos jogadores. Mas não íamos tudo junto, aí que está... Eu, por exemplo, fui assim desde criança. Eu ia a uma festa, ia sozinho ou com um amigo, esse negócio de seis não, nunca, nunca, nunca. Estive metido com cinco, seis, nada disso, era eu e um outro, sempre foi assim. Então se podia chegar e sair de dez, pra que isso. Então a gente combinava, eu e o Mauro. Outro combinava com outro, quando via tava lá no Mappin, algum lugar, tinha dois lá, outros dois aqui, e tal, outro dois em outro lugar e assim era a nossa vida.

 

P - E em que circunstâncias o senhor conheceu a Dona Elza, sua mulher?

 

R - No Pacaembu. Agora não posso lembrar em que jogo, não é, mas foi em 1945, foi em 1945. Nós namoramos até 1950 e aí nós casamos no final de 50.

 

P - E a partir daí como é que o senhor começa a conciliar a vida familiar com a vida de atleta?

 

R - Bom, aí, o negócio é o seguinte: a minha mulher sempre foi muito compreensiva e nos damos bem. É porque ela já desde desses cinco, seis anos, 1945 a 50, ela se habituou, se habituou a chegar no domingo, sábado não existia, sábado pra sair, sexta-feira não existia esse negócio, então existia após a partida, após a partida. Ela morava ali em Perdizes, nós saíamos andando na Avenida Pacaembu, chegava ali na Cardoso de Almeida, tinha uma padaria, lá na padaria comprava um negócio, tomava um guaraná, enfim, comia um doce e aí logo em seguida deixava na casa dela, então já ia pra minha casa. E mesmo porque é... Nós tínhamos... O passado foi lindo, o passado foi lindo porque o pessoal não podia dormir tarde. Meia-noite acabava ônibus, acabava bonde, acabava tudo, não tinha mais circulação de nada e ninguém tinha carro, não se podia pegar um táxi, não é, assim, a torto e a direito, não? Então foi um negócio maravilhoso. Então é aquilo que eu acabei de dizer. Deixava a minha namorada, foi pouco, quando eu pedi a ela, sei lá, pra noivar, já casei, foi tudo junto.

 

P - E a Seleção Brasileira quando que o senhor, chega? Como que é? Qual a primeira Seleção, como que é essa chegada?

 

R - É... É esse negócio pra mim, Seleção Brasileira, que eu almejava e... Os participantes. Eu ficava com água na boca, eu queria participar e fui convocado em 1945 pra um Sul-Americano no Chile e eu fui dispensado, dispensado porque havia craques, mas craques mesmo.

 

P - Quem?

 

R - É... Danilo, Rui Campos, meu colega no São Paulo e tinha meio de campo, tinha o Jaime do Flamengo, grande jogador, e meia de campo. Também o Zizinho, o Jair da Rosa Pinto, enfim, tinha uma infinidade de grandes jogadores, então fui dispensado. Voltei a ser convocado em 1946, no Sul Americano da Argentina, também a mesma coisa, encontrar pela frente esses craques de meia de campo. Fui dispensado. Em 1947 fui convocado pra uma taça, que se jogava tipo taça Roca, que era Brasil e Argentina, e tinha uma outra taça, não me lembro agora o nome, que era Brasil e Uruguai, ora no Uruguai, ora no Brasil, também não participei. E assim foi, né... E... É sempre o Mauro que fala sobre essa passagem na vida dele. Que ele ficou cinco anos na reserva ou sem jogar, e eu digo pra ele: "Mauro, e eu que sempre fui dispensado?" Foram cinco anos também. Agora, em 50 chegou a minha vez. Em 49 eu joguei nos jogos em São Paulo que nós tínhamos ganhado no Sul Americano e o Mauro jogou em São Paulo e jogou no Rio. Eu não tive essa felicidade de jogar no Rio em 1949. Agora, já em 1950, o Mauro foi dispensado e eu permaneci na Seleção e fui titular graças a Deus. Foi quando eu recebi o apelido de "Monstro do Maracanã", que me honra muito até hoje, e que na época eu não soube aproveitar, bom, nunca é tarde e graças a Deus nós estamos vivos. E eu estou aproveitando esse nome "Monstro do Maracanã" e no Maracanã passaram grandes craques, mas ninguém tira essa coisa de "Monstro do Maracanã".

 

P - E quem colocou "Monstro do Maracanã" e em que momento?

 

R – Olha, eu tenho uma dúvida aí se foi o Geraldo Zé de Almeida, Oduvaldo Cozzi, os dois já falecidos, sendo que o Geraldo Zé de Almeida foi meu compadre, compadre e amigo. E teve uma partida entre Brasil e Iugoslávia que nós precisávamos ganhar pra classificação, que nós havíamos empatado com a Suíça, e nós ganhamos da Iugoslávia de dois a zero. E aí chegou ao meu conhecimento, ao meu ouvido, que Oduvaldo Cozzi e Geraldo Zé de Almeida... Os comentários... Fulano, e como é que é o Bauer não erra um passe, e aí minha dúvida seguiu sendo: Quem foi? E ficou sendo "Monstro do Maracanã", exatamente por não ter errado sequer numa partida. Assim chegou ao meu conhecimento, não sei.

 

P - No momento da carreira do senhor, o que o senhor lembra com mais carinho, que dá mais importância, mais emoção?

 

R - Bom, foi aquilo que eu sempre cito: que o Campeonato Juvenil foi muito importante na minha vida, porque ali nesse negócio de juvenil, ali eu comecei, quer dizer, a minha vida de homem, porque ali eu fui orientado por homens, como foi o caso de profissionais, o tal negócio que eu tava sempre no meio dos senhores. Então, veio uma outra emoção sensacional que foi o jogo contra a Espanha, o jogo contra a Espanha... Por exemplo, no início do segundo tempo, quem entrasse no Maracanã ia perguntar: Escuta, um a zero pra quem? Está dois a zero, dois a um, como é que está esse jogo aí? Porque o jogo tava lá e cá, o Brasil atacava, a Espanha atacava, e a Espanha fez um gol, o meia-direita Igoa fez um gol de bicicleta. Se a Espanha ganha ou empata o jogo, estariam falando até hoje, como se fala da nossa derrota no Uruguai, mas foi um jogo em que nós... Cada gol do Brasil, um, dois, três, quatro. Agora não sei precisar quando foi, se foi no quarto, quinto, sexto gol, mas alguém ou várias pessoas começaram a cantar as touradas de Madri, aí começou "eu fui às touradas de Madri pratimbum, pratimbum". Eu não sei onde eles arrumaram, não sei se era bum ou o que era, antigamente não tinha esse negócio de batucada no campo de futebol, mas era muito ruído, todo mundo cantando, isso eu nunca vi, jogador mais nenhum. Olha, não queira saber em dólar quanto valeria ouvir de novo o que a torcida fez, quer dizer, o Maracanã lotado e o público todo cantando "eu fui às touradas de Madri..."

 

P - E o comportamento da torcida naquela época, como manifestava o carinho pelo time?

 

R - As torcidas antigamente não eram... Era carinhosa, você perdia uma partida, quer dizer, havia o silêncio, a torcida do São Paulo, a torcida do Corinthians, não ia ninguém lá esperar treinador, esperar jogador, pra dar no jogador porque perdeu, não, nada disso, havia respeito. Eu sempre falo, hoje não há respeito, então havia respeito, havia consideração. A torcida, a que ganhava tava contente evidentemente, e a que perdia tava triste e ia embora pra casa, como foi o caso da nossa derrota contra o Uruguai. A torcida esperava até uma goleada e o próprio time do Uruguai esperava tomar uma goleada, mas é aquele negócio, o time entrou em campo pra perder de pouco, não tomar goleada, jogou no contra-ataque, foram poucas às vezes que o nosso goleiro defendeu alguns chutes dos atacantes do Uruguai, tanto é que o melhor jogador em campo foi o goleiro uruguaio. Foi o goleiro uruguaio que defendeu tudo que o Roque mas Poy. E a torcida, e o comportamento da torcida... Ficaram chorando no Maracanã e não saíram de lá, a torcida não saía, quer dizer, nós também. Olha, eu até hoje, até hoje, o mal foi que, que... Nós éramos levados pro Maracanã, veja só, em carro de bombeiro aberto, esse era o negócio, se podia andar, se podia andar porque ninguém ia fustigar nenhum dos jogadores, então nós voltamos pra concentração lá de São Januário, após o jogo, em carro aberto, ninguém nos molestou, ninguém atirou pedra, ninguém fez nada. Tava todo mundo chorando, quer dizer, o Brasil todo, quer dizer, foi uma época maravilhosa do Brasil, hoje não, se acontece hoje, eles derrubam o Maracanã.

 

P - Que outro acontecimento marcante da sua vida pessoal, tirando um pouco o atleta Bauer?

 

R - Bem, aí eu sou obrigado a falar da minha família, então tive, graças a Deus, a felicidade de conhecer a minha mulher que me deu quatro filhos, dois homens, duas mulheres, e que estamos juntos até hoje e vamos até... Se Deus quiser.

 

P - E o pai Bauer, como é que é?

 

R - É como foi o meu pai, meu pai até que foi... Sei lá... Mais doce... Na hora de se falar a sério, sempre conversei sério com os meus filhos, chamando... Quer ver uma situação que foi em 1973. Eu chamei meus filhos, os dois filhos homens, conversando com eles, eu falei, já estava vendo mais ou menos essa situação do Brasil, eu disse a eles: "Olha, se vocês... Não estou mandando vocês irem embora, se vocês tiverem oportunidade, dentro do futebol ou estudando, se puderem sair do Brasil..." Eu até citei o Canadá, citei os Estados Unidos, citei a Europa, Suíça, Alemanha, Bélgica e citei vários países. "Vocês vão, eu posso até perder os filhos, mas eu estou olhando o lado bom pra vocês." Então, eu sempre procurei dar uma orientação, como hoje eu falo pra garotada de 12, 13, 14 a 18 anos: "Se tiver oportunidade de ir pro Japão, eu não posso levá-los, se tiver alguém, um empresário, um... Alguém pra levar pro Japão, vá pro Japão, vai porque eu estive no Japão duas vezes, conheci o Japão e vi, senti a maravilha que é o Japão, mas é maravilha mesmo, de você poder andar, eu não saí... Corri às três horas da madrugada, mas porque eu levantava cedo, levanto hoje cinco horas da manhã. Ia fazer meu footing. Eu via as crianças, crianças que iam pra escola, criança de cinco, seis, sete anos mais ou menos e sem ninguém., Então procurei com um empresário saber se eles estavam pegando o ônibus, ônibus urbano ou era ônibus de colégio e fui informado de que era ônibus urbano, que os pais, nas primeiras semanas, eles levavam até o ônibus, até a escola, até o garoto aprender, depois não leva mais, aí o garoto vai e volta, como aqui no Brasil ele vai e fica...

 

P - Bauer se você tivesse a chance de mudar alguma coisa na sua vida, você mudava? E o que seria?

 

R - Não, olha, eu... Tudo que eu fiz... Minha vida foi no São Paulo Futebol Clube. É... Eu digo que foi uma época gostosa e que... A questão de contrato... Em 1944 havia um contrato de amador de três anos, colocaram na minha frente, eu peguei e assinei, mal tava sabendo eu que eu seria no ano seguinte Campeão Paulista profissional. Então eu fiquei em 44, praticamente em partidas amistosas e fui campeão aspirante, e 45 campeão profissional, mas não profissional... Em 46 bicampeão, e campeão invicto com aquele contrato de três anos, aí me chamaram: "Vamos fazer um contrato com você". Tudo bem, tá, assinei, eu não pedi nada, vieram em 47, sei lá se eu tava ganhando pouco: "Vamos dar um aumento aí." Tá, tudo bem, eu peguei e assinei e assim foi. Em 1952, quer dizer, oito anos depois, eu fui a uma reunião no São Paulo, cheguei, e nós tínhamos conhecimento de cada jogador do Palmeiras, Corinthians, eles recebiam de luva 120, 150 mil cruzeiros e um sobradinho de dois, três dormitórios, antigamente custava 90, 80, 100 mil cruzeiros e eu falei: "Olha, como é que eu vou fazer... Eu não comprei ainda meu sobrado, a minha casa" Aí que entramos num acordo e consegui alguma coisa, mas eu sempre digo que não trago mágoas, não levo comigo mágoa do São Paulo, pelo contrário, tivesse que fazer tudo isso que fiz pro São Paulo, faria de novo.

 

P - E o senhor lembra da sua despedida, como jogador, como foi essa despedida?

 

R - Olha, praticamente, não foi no São Paulo, mas é um negócio... É... O mundo é gozado... O mundo é gozado. Eu esperava me despedir dentro do São Paulo, uma despedida gostosa, que ficasse marcada, mas não ficou também marcada, porque não foi aquilo que eu esperava. Olha, eu estava no Botafogo emprestado, Botafogo do Rio que eu precisava sair do São Paulo pelo falecimento do meu pai e aquilo me perturbou muito e eu então fui pro Rio, fui pro Rio... Não, eu gostaria que alguns jogadores fizessem o que eu fiz em 1956. Eu telefonei pro Zezé Moreira, treinador do Botafogo, meu amigo, falei: "Seu Zezé eu estou lhe telefonando porque eu tô precisando do Senhor." "Porque?" "Eu queria treinar no Botafogo." "Há, mas como treinar no Botafogo, você é jogador de Seleção Brasileira, treinar no Botafogo? "Não mas é que eu estou precisando sair de São Paulo, eu..." Ele aceitou, eu fui pro Botafogo, consegui o treino. Já vieram aqui pegar meu passe. São Paulo facilitou, o gratuito e eu tava muito bem no Botafogo e acabei me aborrecendo né... Sou meio genioso, sou meio genioso... Comigo precisa saber começar porque senão... Eu não levo nada pra casa, eu não sou briguento, mas eu guardo comigo, eu procuro nunca magoar ninguém, me magoar, eu fui magoado lá, tudo aquilo que seu Ademar Bibiano do Botafogo quis me dar o João Saldanha dizia: “Você tá louco, o homem quer te dar tudo quer te dar até a fábrica, você não quer um contrato desse." Falei: "Não quero." Aí eu fiquei, fiquei sabendo que o São Paulo queria minha volta, por intermédio do Bela Gutman, pra voltar pro São Paulo, então como eu sempre gostei de São Paulo, até aquela altura, que hoje não dá... Então eu aceitei, eu voltei e eu joguei um ano, dois anos por aí, isso em mil novecentos e... Com aquele back Renganeschi, ele pedia para eu vir quase ali de quarto zagueiro pela minha velocidade e joguei uns dois anos assim com ele, e depois já como quarto zagueiro mesmo, em 43, que nós fomos ... Em 53 nós fomos Campeão Paulista com o Jim Lopes que ele pediu para eu jogar de quarto zagueiro, eu joguei. Então acontece que a minha vida foi no meio de campo e o... Esse treinador húngaro, Bela Gutman, ele me via jogando no Botafogo, aliás contra o Honved, contra o Honved, nós ganhamos do Honved de seis a dois e o Honved equipe húngara era a base da seleção húngara, nós ganhamos de seis a dois. Ele me viu jogando, então eu soube que ele teria pedido a minha volta ou se ele é do São Paulo... Eu peguei e voltei. Eu voltei, mal tava sabendo o que ia me acontecer, o homem pega me põe no meia-direita na frente, jogando na frente, nunca joguei na frente, aí... É danado o negócio, você que não está acostumado a ficar de costa pra uma defesa e você passar a ficar de costas pra defesa, quando você jogava no meio de campo, de frente pra quase todo time, seus companheiros enfim, tinha a visão do campo todo ali. Não, ali você pode ter a visão do campo, mas não sabe o que está acontecendo ali no gol que é o principal, questão de virar, é uma série de dificuldades, e eu treinava com o Gino na frente, os treinamentos eram bons, mas eu não gostava... Falava assim: “Gino, não tá dando, não tá dando”. Aí fizeram um torneio entre o São Paulo, o Santos, é... Valência, Valência ou Sevilha e o Porto. Eu joguei contra o Porto, não joguei nada, joguei contra o Sevilha, não joguei nada, aí veio o jogo contra o Santos, aí ele me tirou, eu dei graças a Deus porque vou jogar naquele lugar, não lá. Então ele me tirou, tudo bem, eu fiquei no banco, mas aí o Pelé tava começando, Pelé encobrindo Deus e todo mundo foi lá e encobriu Poy e fez gol, fez outro gol, dois a zero. O Mauro que era capitão, veio avisar o banco que o marcador do Pelé, que era o Victor, tava chorando dentro de campo, tava sendo desmoralizado, que ele não tinha condições de jogo, pra tirar ele. O Turcão, antigo companheiro nosso, ele havia machucado o joelho e ele estava ali só olhando o jogo, perto do banco, tava à paisana e logo veio pedir pra ele o tempo de jogo: "Quando tempo tá faltando Turcão?" "Por quê?" Ele disse: "quatro minutos." Eu estava pronto para entrar, eu desci a meia, desamarrei as chuteiras só não tirei, desamarrei a chuteira, o Bela Gutman me chamou, comecei a amarrar de novo as chuteiras, pá. Bom, por que eu não quis entrar mais em campo? Ali naqueles quatro minutos, depois três, dois, eu iria entrar na minha posição como eu entrei, mas poderia levar um chapéu, um negócio no meio das pernas, uma bola no meio das pernas, servir de palhaço também e eu já tava com meus 32 anos, já tinha uma experiência pra não me submeter àquilo. Aí eu amarrei a chuteira e sai correndo, fui lá no representante, assinei a súmula, aí o juiz tum, terminou o primeiro tempo era o que eu queria, quer dizer, ele não teve essa experiência que eu tive como jogador de futebol, eu nunca fiz isso com ninguém. Inclusive pelos últimos dez minutos, ah não, isso não se faz, não se faz... Bom então fomos pro vestiário, trocamos idéias tal... Não sei que... Vai jogar... O Pelé... Isso e aquilo, tal... Muito bem. Olha o Santos terminou dois a zero, primeiro tempo, terminou o jogo dois a dois, Pelé não fez gol não. Não digo que fui maior em campo não, mas não fez gol, eu também não tomei bola no meio das pernas, ninguém me faz de palhaço. E sabe o que aconteceu no dia seguinte? Me mandaram embora, me mandaram embora, quer dizer, aí acabou minha vida, eu poderia... Se eu telefono pro Rio, mas eu nunca gostei de me rebaixar, eu podia ter feito isso: "Olha, o negócio é o seguinte: eu desisti, eu vou voltar pro Botafogo. Vocês me dão aqui?" Mas é claro que eles... E acontece sabe o que o Botafogo foi campeão em 57, nem uma coisa nem outra.

 

P - Bem, Bauer....

 

R - Agora olha aqui, veja só, então às vezes o Mauro Ramos, amigo, compadre: "Não, não podemos ter rancor" "Mauro, eu não tenho rancor de ninguém" Eu quando não gosto de uma coisa, uma pessoa, eu não gosto, não tenho rancor com a pessoa, não gosto da pessoa. Então veja só, eu poderia... Se eu tivesse rancor com o Bela Gutman, eu me encontraria com ele em Lisboa, eu já era treinador do Ferroviária, nós fizemos uma viagem pra Europa, é... Jogamos em Portugal, jogamos na Espanha e já em quase toda a África Portuguesa e Lourenço Marques. Nós jogamos umas três, quatro partidas... Tinha um cidadão que me chamou atenção, o meia-direita, era assim, moreno, alto, chutando forte com as duas pernas e ele fazia gol no nosso time, nós ganhávamos de cinco a dois e ele fazia os dois, jogávamos de sete a três e ele fazia os... Então me chamou atenção e me ofereceram um jogador pra trazer pro Ferroviária, os diretores da Ferroviária não quiseram, os dois que lá estavam: "não muita dificuldade, não sei que, tal tal, tal...” Muito bem, e nós voltamos pra Lisboa pra pegar um avião pro Brasil, em Lisboa numa barbearia que eu conhecia, tava lá conversando, falou "Ah, o Bela Gutman costuma vir aqui e tudo." Né? Falei: "dá um grande abraço no Bella Gutman." Fez a minha barba e tal e eu: "Tá, então vou voltar pro Brasil..." Quando eu estou saindo, o Bella Gutman entrando, nos abraçamos e tal, não sei quê. Então tudo aquilo que havia acontecido em 57, quer dizer, eu não iria, nunca, se eu tivesse que dizer uma mágoa profunda, um...

 

R - Bom, começamos a falar lá de Lourenço Marques, Moçambique e ele perguntou: "tem algum jogador?" Eu falei: "E tem um craque, tem um craque, eu quis levar embora pro Brasil pro Ferroviária, não quiseram, não quiseram”. Falou: "Quem é?" Olha, falei: "Chama-se Eusébio." Isso em 1960. "Eusébio, muito bem." Um mês depois ele estava estreando no Benfica, seis anos depois era o artilheiro da Copa do Mundo de 66 em... Na Inglaterra, três anos antes, em 63, foi o nosso reencontro, eu era treinador do Leixões, o Benfica foi jogar lá... O Leixões é perto do Porto. Foi jogar, nós entramos em campo, estou lá no banco, entrou o Benfica, saldou o público, ele saiu lá do meio deles, foi lá me abraçar, agradecer, então eu sempre tive isso comigo, o grande jogador, quem vê não pode ficar quieto, tem que falar, você vai falar de uma droga? Não pode. Bom jogador tem que ser recomendado e é o que eu fiz, eu falei pra ele, eu fiz o que tinha que fazer.

 

P - Qual o sonho do senhor?

 

R - Meu sonho... Acho que já não tenho sonho, o meu sonho, o meu sonho, talvez... É, sei lá se eu ainda alimento, era... É que eu não posso, é que eu não posso, tenho neto, tenho sete netos, então... Tenho uma filha solteirona, essa filha disse: "Eu vou com o senhor, pai." Minha mulher também, ir pro Japão, ir pro Japão, então lá no Japão eu tenho certeza, certeza absoluta, eu falei pra eles japoneses, falei pro Ricardo, estou falando, falei: "Olha, fala pra eles que houve assim... Assado... Né, que o médico numa ocasião, não me lembro qual foi ele disse: "Bauer, você tem 20 anos mais de vida", eu disse: "O doutor, que beleza!". Serão 20 anos, isso eu tinha 60 anos, aí lá no Japão, eu dizendo isso pros japoneses com intérprete, eu disse: "Mas aqui no Japão eu passo de 100 anos, ah passo." Porque lá eles passam, eles passam de 100 anos com aquele espírito de paz, não é... Eles inventaram outro negócio de bomba, não... Mas ele não vão inventar mais, eu tenho certeza que eles não vão inventar mais, pela vida que eles levam, quer dizer, é um negócio maravilhoso o Japão, quem puder... Se eu pudesse... Esse sonho não vai ser realizado mais, né... Aí tem uma coisa, tem uma coisa... E lá, lá os velhos são os mestres, não é inversão de valores como aqui não, a criança é o mestre no Brasil, a criança é o mestre no Brasil. Eu sou obrigado a ajudar a criança de rua, criança de rua tem que me ajudar, sendo decente, honesto, comportado, obediente, isso que eles tem que fazer contra nós velhos, não eu... Não, eles é que tem que ser isso com a gente, como os japoneses, crianças são como os velhos.

 

P - Bauer, pra finalizar, o senhor gostaria de acrescentar mais alguma coisa no seu depoimento?

 

R - Bom... Eu acho que já falei tudo né? Não sei mais o que diria nesse momento... Sei lá... Futebol pra mim foi lindo, maravilhoso, conheci muitos amigos e amigos extraordinários. Se tivesse, volto a falar, que procurar uma profissão, procurava essa de jogador de futebol, porque também eu sempre procurei tirar proveito. Essa nossa viagem pra África, eu andei lá no meio dos indígenas, andei lá naquele meio, mas quando eu pedir... Não, mas você não pode ir... Quando eu falei lá com os portugueses, você não pode ir... Não. Mas como é que eu faço pra ir... Não tem um médico sanitarista que vai te levar, vamos falar, então andei, vi tudo aquilo lá, sempre procurei em todo lugar que eu fui, eu não sei se fui curioso, mas sempre procurei saber o porquê daquilo. Então pra mim foi lindo ter sido jogador de futebol, então me deu essa oportunidade de procurar saber a vida de cada um.

 

P - Muito obrigada.

 

R - Ok.

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