Busca avançada



Criar

História

O presidente campeão do mundo

História de: José Eduardo Mesquita Pimenta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/09/2013

Sinopse

Nascido dois anos antes da abertura do Estádio do Pacaembu, pode acompanhar o São Paulo desde pequeno. Participou de uma peneira do Palmeiras aos dezesseis anos por comodidade, já que morava no bairro de Perdizes. Atuou na equipe durante seis meses. 

Aos catorze anos tornou-se sócio do São Paulo, depois de uma campanha para admitir novos sócios. Formou-se em Direito influenciado pelo objetivo do pai em ter filhos com diploma de curso superior. Influenciado pelo mãe, concertista de piano, sempre gostou de música e estudou um pouco, sendo um grande admirador de música popular.

Presenciou a construção do estádio do Morumbi. Foi levado ao conselho do São Paulo por Homero Bellintani, incluindo seu nome na chapa liderada por Laudo Natel, que acabou vencendo as eleições. Na época da entrevista estava então em seu segundo mandato como presidente do São Paulo Futebol Clube, estando diretamente ligado com a formação do time vitorioso do início da década de 90.

Vê o São Paulo de sua época em paralelo com o Santos de Pelé, descrevendo até um fã-clube organizado no Japão. Foi eleito melhor dirigente pela crítica portuguesa, e destaca ser uma opinião vinda do jornalismo europeu.

Tags

História completa

P- Seu nome completo, data e local de nascimento.

R- Eu me chamo José Eduardo Mesquita Pimenta, nasci em 19 de abril de 1938, na cidade de São Paulo.

P- E seus pais? O nome deles.

R- Meu pai se chama Altino Nunes Pimenta, nasceu em Santos, e minha mãe Ema da Costa Mesquita Pimenta, nasceu em São Paulo, na cidade de São Paulo.

P- E a atividade profissional dos pais?

R- Meu pai é engenheiro civil, formado na Escola Politécnica em 1928. Minha mãe era concertista de piano, mas era pra uso interno, né, depois de uma certa idade deixou de se exibir publicamente.

P- E seus avós? Você se lembra de seus avós maternos?

R- Meus avós maternos eu não conheci. Quando nasci eles já eram falecidos. Meus avós paternos sim, porque meu avô viveu muito, viveu 100 anos e seis meses, e minha avó viveu até os 94 anos. De modo que chegaram a fazer 71 anos de casados. Então deles me lembro muito bem, e tenho boas recordações, embora eles morassem em Santos.

P- E o senhor nasceu em que bairro?

R- Eu nasci na Pró-Matre, na Liberdade. Fui talvez um dos primeiro bebês da Pró-Matre, na época, sei que ela foi inaugurada mais ou menos na época em que eu nasci, mas a minha família morava na Avenida Pacaembu.

P- E como era o bairro nessa época? Na época da sua infância?

R- Era um bairro novo que estava em expansão. Era um bairro de casas muito boas, e tal, e pra minha alegria estava muito próximo do estádio municipal do Pacaembu, né, ele foi inaugurado dois anos depois do meu nascimento. Eu nasci em 38 e o estádio municipal do Pacaembu foi inaugurado em 1940. Isso depois de algum tempo me proporcionou frequentar o estádio ainda em tenra idade, né. Com pouca idade eu já ia ao estádio e já comecei a vibrar pelo São Paulo, que na década de 40 foi o grande campeão, né. Foi campeão em 43, depois bicampeão em 44, 45, foi bicampeão em 48, 49. Então foi cinco vezes campeão nessa década, acho que por isso que me tornei são paulino também, né, com certeza.

P- Como era a sua infância nesse bairro, do que se brincava, como era a vizinhança...?

R- Eram as brincadeiras normais da época, nós tínhamos quintal, então fazíamos cabana, cabaninha, tinha uma mangueira, onde a gente “trepava” na mangueira, e lá... Brincávamos muito no quintal e fazíamos balões, na época de São João, nas festas juninas. Então soltávamos balões e raramente nós brincávamos na rua, mas era assim com carrinho, velocípede, e tinha lá bons amigos na vizinhança, né. E nós sempre nos juntávamos pra fazer as brincadeirinhas de menino, né, então foi uma época muito boa, uma época que eu tenho muita saudade ainda.

P- Jogava...

R- Futebol sempre, né. Fazia parte da brincadeira sempre. Bola fazia parte da brincadeira sempre.

P- Você fazia parte de turmas de rua de futebol?

R- Veja, eu era muito pequeno nessa época, morei até oito anos lá, então era muito pequeno. Então jogávamos assim mais em casa, no jardim. Mais tarde claro, com certeza, aí comecei a me interessar. Jogava na escola e no bairro nós tínhamos um clube, era principalmente futebol. Eram onze camisas e uma bola. Normalmente o dono das camisas e da bola era o capitão do time, quem escalava o time, né. Disputávamos jogos na várzea, jogávamos ali na Água Branca. Naquela época tinha muitos campos de futebol, vários campos, então era comum nós jogarmos lá na várzea da Água Branca, também aqui no final da Rebouças havia muitos campos, onde hoje ali está o “Supermercado Eldorado”, jogávamos ali, jogávamos em clubes, enfim, nós tínhamos uma atividade permanente, sempre voltada ao futebol, competindo, disputando torneios...

P- Jogava em alguma posição?

R- Eu era volante na época. No futebol eu era o volante, é. Mas mais tarde, aos 12 anos, eu me interessei também por bola ao cesto. Aí eu jogava bola ao cesto no Pinheiros, treinava no Pinheiros e acabei militando no Pinheiros, não como militante porque eu era sócio, mas acabei jogando bola ao cesto durante alguns anos. E lá me tornei campeão paulista infantil por duas vezes, e depois no juvenil fui vice-campeão brasileiro, depois joguei alguns meses no Tietê, eu estava disposto a parar na época, mas voltei a jogar por um convite do técnico do Tietê, aí fui campeão brasileiro de bola ao cesto, pela seleção paulista na época. Depois parei com bola ao cesto, porque eu estudava e tinha uma vida muito atribulada e não dava mais pra continuar jogando, a não ser que eu tentasse... Até na época era um esporte semi-profissional. As pessoas já recebiam alguma coisa pra jogar nas equipes de cima. E eu não me interessei por isso. Mas, voltando um pouquinho atrás, aos 16 anos eu fui fazer uma peneira no Palmeiras, mais por comodidade, né? Nunca fui palmeirense, quero deixar bem claro isso, mas por uma questão de comodidade, eu morava nas Perdizes e naquela época era muito comum, através dos jornais, fazer-se uma chamada pra fazer teste, né, com jogadores novos, tal, chamavam-se peneiras, né, e eu me apresentei no Palmeiras, na época o técnico era o Cambon, era um uruguaio que já tinha sido técnico do principal, da equipe principal do Palmeiras. E desde o primeiro momento ele me atirou uma camisa, eu vesti essa camisa e nunca mais saí do time. Durante seis meses eu fiquei jogando no Palmeiras, e quando ia iniciar o campeonato paulista, o meu pai me chamou e disse, olha, agora chega, né, você optou pelo bola ao cesto -- que eu já estava mais integrado, né, já tinha disputado muitos campeonatos, paulista e brasileiro -- ou o futebol, porque as duas coisas não dá. Você tá estudando e evidente isso vai interferir nos seus estudos. E eu acabei optando pelo bola ao cesto. E deixei minha carreira de futebol, que certamente não teria muito sucesso, mas até então eu tive essa oportunidade de jogar no Palmeiras e ser titular do infantil durante seis meses, pelo período de seis meses.

P- Nessa época você torcia pra que time?

R- Ah. Na certa pelo São Paulo. Sempre, desde que eu me conheço por gente, e comecei a torcer por um time de futebol, sempre foi o São Paulo. Eu tinha paixão!

P- Mas você começou a torcer por influência de família?

R- Não, não, meu pai era nascido em Santos, não era fanático por futebol, embora tivesse tido primos do meu pai que jogaram no Santos Futebol Clube, e ele era torcedor do Santos por essa razão, né? E meu irmão mais velho, que é um ano e dez meses mais velho do que eu, meu irmão, único irmão, era corintiano. De modo que eu não tinha nenhuma influência familiar, ao contrário. Porque realmente simpatizei, gostei do São Paulo. Não sei se porque tinha o nome da cidade, pelo fato do São Paulo ter ganhado alguns títulos na época, né, então eu tenho a impressão que por essa razão, por estar muito próximo ali do Pacaembu, São Paulo mandava os jogos ali no Pacaembu, jogava sempre no Pacaembu, então eu me interessei. E aos 14 anos fui me inscrever como sócio do São Paulo. Se não me falha a memória, foi uma campanha que foi feita pra admitir novos sócios, e eu aproveitei e fui, porque tinha loucura pelo São Paulo, e me inscrevi como sócio.

P- Você tinha um jogador que era seu ídolo na época?

R- Ah, diversos, né, mas o principal era o Leônidas. Eu gostava muito do Leônidas, que veio em 42, né, que chamava realmente a atenção e se destacava. Tinha muitos outros, Bauer, Rui, Noronha, era Mauro, que era um jogador clássico, na frente também Teixeirinha, Remo, todos grandes são paulinos, né? Friaça... Primeiro o China, Friaça... E mais anteriormente, eu não me lembro, era muito pequeno ainda, foi aquele ataque com Luizinho, o Sassá, Leônidas... Foi em 45, 46, eu tinha aí por volta de sete, oito anos, mas eu me lembro de tê-los visto jogar.

P- Na década de 40, o senhor recorda de algum jogo que o senhor viu?

R- Eu me recordo de alguns jogos ainda. Eu me lembro de um São Paulo e Palmeiras em 50, foi resultado de um a um, foi um jogo decisivo de campeonato, eu me recordo de diversos jogos na época, né... Eu assistia a muitos jogos.

P- Mais algum que tenha marcado, que tenha mexido com você, algum lance de algum jogador, algum comentário?

R- Não, eu me lembro, me lembro de ter assistido bicicleta do Leônidas, isso é... É, não foi ele o inventor da bicicleta? E era uma jogada excepcional. Eu me lembro de ter assistido... Primeiro foi São Paulo e Juventus, São Paulo ganhou até com uma vantagem dilatada, se não me falha a memória. E assisti um gol de bicicleta do Leônidas, né. Foi marcante.

P- Deve ter sido oito a um.

R- Oito a um? É possível... Foi uma vantagem...

P- Uma das maiores goleadas do São Paulo.

R- Eu me lembro... Foi uma vantagem dilatada. Eu me lembro disso.

P- Como a família reagia a essa tua paixão pelo futebol?

R- Havia algum comentário negativo ou positivo, incentivava, era uma coisa comum dos jovens da época?

P- Eu praticava esporte, eu fazia habitualmente, e como esportista amador a gente jogava nos fins de semana. E durante a semana na escola, disputando campeonatos colegiais, e às vezes viajávamos também, eram muito frequentes as viagens pela escola, até pelo próprio clube, né. Meus pais nunca se opuseram. Meu pai até, no início, até me acompanhou, ele me incentivava de certa forma, ele apreciava... Nós éramos sócios do Pinheiros na época e ele me acompanhava quando eu era pequeno pra ir à piscina, pra fazer esporte. De modo que foi sempre bem visto, bem recebido. Agora, a preocupação maior do meu pai era sempre o estudo, ele sempre punha o estudo em primeiro lugar, ainda que o esporte fosse vital, fosse necessário para o desenvolvimento e tal, mas sempre o estudo era a grande preocupação dele.

P- Apesar do seu pai não recriminar as suas atividades esportivas, ele almejava pra você uma vida profissional?

R- Ah, sim, sempre propôs que nós, eu e meu irmão, nos formássemos, tivéssemos um diploma de uma escola superior, né? Na época era muito comum engenheiro, advogado e médico. Então eu teria que optar. Meu irmão formou-se em arquitetura e eu me formei em Direito, né. Mas isso era a grande meta, o grande objetivo dele. Apesar de ele incentivar a prática do esporte. Mas a grande preocupação é que nós estudássemos, que tivéssemos uma profissão.

P- Você acabou se formando advogado por uma certa exigência dele...

R- Não, não, eu até pensei... Porque tinha um irmão do meu pai que era médico, solteiro, né, até pensei em um determinado momento em seguir a medicina. Cheguei a fazer o vestibular de medicina. Fiquei como excedente, mas aí mudei. Não sei, acho que talvez não fosse a minha vocação, e aí mudei. Aí prestei exame pra faculdade de direito e aí entrei.

P- Além do esporte, do futebol e o bola ao cesto, você tinha outro hobby, outra atividade?

R- Na época... Não, eu gostava basicamente de esporte. Piano eu tocava, isso é verdade. Minha mãe como era concertista e conhecia muito bem piano, nós tínhamos piano em casa e ela sempre me sugeria que eu fosse, que eu estudasse piano e tal, e ela... Insistia bastante com isso. Então eu tive uma iniciação musical com ela. Cheguei a tocar alguma coisa importante assim... Mas depois eu não me habituava muito a estudar com ela, porque ela era muito exigente, sempre depois do almoço tinha que ficar duas horas no piano, mas eu gostava de música popular, ela gostava de música erudita, né. Depois que parei praticamente de estudar, aí eu tocava de ouvido, tocava alguma coisa de ouvido, dedilhava, isso sim, sempre gostei de...

P- Você tem piano em casa?

R- Não, eu tenho um órgão. Piano eu não tenho, mas tenho um órgão, um órgão eletrônico.

P- Quem eram os seus compositores preferidos?

R- Ah, os populares? Na época eram mais músicas americanas, que vinham de lá, né, George Gershwin, Cole Porter, tinha muita coisa assim. E aqui no Brasil eram sambas. Sambas de Ary Barroso... Muita gente conhecida, mais do passado. Mas eram, sobretudo, músicas importadas. A gente gostava muito daquelas músicas com muita melodia, sobretudo aquelas trilhas, eles faziam os fundos, as trilhas musicais dos filmes, dos filmes mais conhecidos da época, então era muito interessante, né.

P- Qual era a profissão do seu pai?

R- Meu pai era engenheiro civil. É. Porque ele é vivo, né? Tem 92 anos. É vivo, formado na turma de 1928 na Politécnica...

P- E os avós?

R- Meu avô paterno era exportador de café. Meu avô materno era dentista.

P- Você começou a trabalhar depois de formado? Qual foi o seu primeiro emprego?

R- Não, não, eu casei quando eu tava no terceiro ano da escola. E já fui pai quando estava no quinto ano da escola ainda. Era uma loucura. Porque eu fazia química à noite, fazia faculdade de direito de manhã e trabalhava à tarde, o tempo que tinha disponível. Então era uma loucura, uma correria danada, né, mas deu certo!

P- Mas você trabalhava em quê?

R- Eu trabalhei numa firma de tintas e vernizes que pertence ao meu sogro. Ele tinha uma parte lá da sociedade, eu era assistente da diretoria, depois que me formei passei a advogado da empresa, depois eu comprei uma parte das ações de sócios dele, me tornei empresário, mas foi muito pouco tempo. Isso foi uns três, quatro anos só. Depois...

P- Você tá falando em que ano?

R- Eu tô falando em 65. Eu me casei em 61. Sou casado há 33 anos. Agora no dia três de abril faço 33 anos de casado, né. Com a mesma mulher, que é importante.

P- O nome dela?

R- É Inês.

P- Como você conheceu ela?

R- Eu a conheci em Poços de Caldas, passando férias. Em uma temporada de férias eu a conheci, depois... Aliás, não começamos a namorar imediatamente. Ela foi estudar na Suíça, passou lá um ano e meio estudando na Suíça, depois quando retornou é que nós começamos a namorar.

P- E nessa época você continuava vida afetiva, trabalho e a ser são paulino também?

R- É. Tudo, tudo, tinha que correr e fazer tudo. Minha mulher nem era muito apreciadora de futebol, de modo que... O futebol era o rival dela, quando eu ia assistir futebol ela não gostava muito.

P- Agora ela já...

R- Agora ela já se habituou, né. Forçosamente, né.

P- O senhor entrou de sócio em 54?

R- Em 52. Eu tinha 14 anos.

P- Como era o São Paulo nessa época?

R- O São Paulo tinha o campo de treinamento. Era no Canindé. As dependências esportivas eram no Canindé. Na década de 40, como já falamos, o São Paulo foi um grande campeão, né. Depois começou a entrar em dificuldades porque já tinha projeto de construir o Morumbi. Então entramos numa fase difícil, em 53 o São Paulo ainda foi campeão, em 57 também foi campeão, mas aí já estávamos em plena realização do estádio do Morumbi. Em plena construção do estádio do Morumbi. E ficamos 13 anos no jejum porque a grande meta era a construção do estádio. Então as verbas da construção do estádio não se misturavam, não se confundiam com as verbas do futebol, de modo que o futebol nunca pôde montar, nessa época, grandes equipes. Mas o estádio foi efetivamente construído e hoje é um monumento público. Hoje é o templo do futebol paulista. De modo que valeu a pena e deu esse embasamento, essa infraestrutura que o São Paulo precisava pra se tornar um grande campeão, né. Um grande clube em primeiro lugar e um grande campeão como é hoje.

P- E como foi a sua participação na vida do clube?

R- Eu ingressei em 1952, como sócio, então nessa época nós éramos mais assistentes de futebol, né? Porque o São Paulo não tinha uma parte social muito desenvolvida, não. Era muito... Primitiva, né.

P- O que era ser assistente de futebol?

R- É... Torcedor... Ir ao campo, né. Torcedor de futebol. E depois nós, em 66, sem ter solicitado, sem ter pedido, espontaneamente, o Homero Bellintani, que foi meu padrinho no São Paulo, o falecido Homero Bellintani, o saudoso, grande são paulino, me levou ao conselho do São Paulo, quer dizer, incluiu meu nome na chapa que acabou por vencer as eleições, que era liderada pelo então presidente Laudo Natel, que já era presidente e continuou presidente. Aliás, o governador Laudo Natel foi presidente durante 14 anos. E justamente no período da construção do estádio. E aí passei a participar do conselho. E fui reeleito sucessivamente até 88, quando me tornei conselheiro vitalício. A par disso, em 1983, eu fui convidado pelo presidente Dallora para concorrer como vice-presidente na chapa do conselho, da mesa do conselho. Fui eleito, então exerci por dois anos a vice-presidência do conselho. Depois fui membro da comissão legislativa, fui membro da comissão de reforma de estatutos, e mais tarde, em 84, quando o doutor Carlos Miguel assumiu a presidência, ele me convidou pra ser o Secretário Geral. Cargo que eu exerci até praticamente o final do mandato dele, no final de 88. Depois, em 90, eu fui eleito presidente do São Paulo, reeleito em 92 e estou exercendo agora o final do meu mandato, né, termina em abril.

P- Como é que foi a primeira gestão?

R- A minha primeira gestão? A primeira gestão, bom, eu não tava postulando ao cargo de presidente do São Paulo. Nós... Eu participava de um movimento de oposição, na época, que era liderado pelo Dr. Antonio Nunes Galvão, que para todos nós era o candidato, né, era o líder do grupo e o candidato à presidência. Vencemos as eleições, fizemos a maioria dos conselheiros, e pra nossa surpresa o Dr. Galvão renunciou à candidatura dele, por motivos de foro íntimo que ele não quis declinar, mas que nós aceitamos na época. E nessa contingência o grupo tinha que indicar um candidato à presidência do São Paulo, pra concorrer nas eleições. E eu fui escolhido. Embora tenha relutado, porque eu era presidente eleito do Rotary Clube de São Paulo, já estava no interregno entre a eleição e a posse, era um compromisso já assumido, o Rotary Clube que eu participava, Rotary Clube em São Paulo, o clube-mãe, o primeiro clube de São Paulo, e já tinha esse compromisso assumido e o casamento da minha filha marcado pra setembro, então a par das minhas atividades, do escritório e tal, eu relutei muito pra aceitar porque achei que naquele momento eu não poderia aceitar, não teria disponibilidade sequer de tempo pra dedicar ao São Paulo. Mas de certa forma fui envolvido pelas pessoas e acabei... Quando me dei conta já estava dando entrevista como candidato à presidência do São Paulo. E fui eleito, até concorri sozinho, porque, embora pertencendo a um grupo de oposição, sendo um candidato de oposição, eu sempre militei na antiga situação. E era egresso da antiga situação, né. Como disse, fui eleito e ingressei no clube ao tempo em que o governador Laudo Natel era o presidente do clube. E por uma questão apenas de divergir da orientação do presidente Carlos Miguel, ele foi um grande presidente, mas apenas por divergir dele quanto à sucessão, não é, a condução da sucessão, é que eu me afastei do grupo. Mas por ser conhecido e por ter muitos amigos na antiga situação, eles entenderam que não deviam lançar um outro candidato pra fazer oposição a mim, então eu fui eleito concorrendo sozinho, né. Naquela ocasião obtive quase a totalidade dos votos, parece que foram 210 que compareceram e obtive 200 votos, cerca de 200 votos ou 199 e 10 votos em branco, e assim foi. Mas eu me deparei também com uma situação muito difícil, porque não conhecia, por mais que tivesse militado como secretário geral, tal, o regime é presidencialista. Então é o presidente que tem essa visão global e abrangente do clube. Me faltava essa visão. E quando assumi me deparei com problemas enormes, o São Paulo, a equipe não estava bem na época, a equipe estava em último lugar no campeonato paulista que se disputava, depois foi a repescagem, não passou, depois foi rebaixada, como dizem, embora na verdade ela tenha sido transferida pro grupo B, não, que pertencia à mesma primeira divisão, e alguns problemas de ordem financeira, de organização, então foi um período muito difícil até nós aprendermos a conhecer o clube, podermos organizar o clube, foi um período difícil. Já no final de 90 nós colhemos alguns resultados. O São Paulo foi vice-campeão brasileiro, e pelo fato de não ter ganhado o campeonato brasileiro, nós tivemos boas arrecadações naquelas finais, que nos defrontamos com o Corinthians, então nós pusemos as nossas finanças em dia, quer dizer, tínhamos um déficit operacional, e com o resultado das finais nós equilibramos. Ficamos ainda com um pequeno, fechamos o balanço com um pequeno superávit. Aos números da época, de 35 milhões, ou coisa parecida. Então, a partir daí nós deslanchamos. Houve a contratação do Telê em outubro de 90, aí o futebol, já reorganizado, o clube também já reorganizado na sua administração, quer dizer, já em fase de organização, né, vamos dizer assim, de reorganização. Passamos informatizar o clube em todos os setores, fomos implantando o regime de computação, de informatização, aí tivemos um domínio maior sobre as coisas do clube. E aí pudemos, com esse controle, já pudemos ousar de contratar uma comissão técnica de primeira linha, com profissionais de maior qualidade, mais caros, é claro, né. E também jogadores. Começamos a contratar novos jogadores, a emprestar novos jogadores que eram mais caros, mas que vieram reforçar substancialmente a nossa equipe. Já em 91 nós disputando no primeiro semestre, disputando o campeonato brasileiro, já fomos bem-sucedidos, fomos campeões brasileiros. O que nos propiciou a participar da Copa Libertadores da América. Que na época era um tabu, porque para os brasileiros, há dez ou doze anos que um clube brasileiro não era campeão da Taça Libertadores. Era uma competição muito difícil em que havia muita violência nos campos de futebol, mesmo por parte das torcidas, e os brasileiros não confiavam muito no sucesso de um time brasileiro nessa competição sul-americana. E nós achávamos que não, que a partir daí o São Paulo - eu, pelo menos eu tinha essa visão do São Paulo. Que o dia que eu conseguisse estabilizar o futebol e que eu pudesse disputar uma competição internacional, que eu gostaria de projetar o São Paulo internacionalmente a partir daí. E achava que o São Paulo era um grande clube, tinha um grande patrimônio, o maior estádio privado do mundo, mas era conhecido no território brasileiro, quer dizer, um grande clube de âmbito nacional, e nós gostaríamos de fazer o São Paulo um grande clube internacional. E foi isso o que aconteceu. Aí passamos a frequentar a Confederação Sul-Americana, estabelecemos uma amizade muito íntima com o presidente da confederação, que hoje estou até me tornando compadre dele, fui convidado para ser padrinho do filho dele que nasceu agora, um mês atrás, de maneira que você pode imaginar. Aliás, ele tornou-se um grande torcedor do São Paulo. Então você pode imaginar que nós estreitamos essas relações e os caminhos começaram a se abrir no âmbito da confederação sul-americana. Era um tabu até então. E com isso conseguimos o primeiro campeonato sul-americano, a conquista da primeira taça Libertadores da América.

P- Voltando um pouquinho. Pra esse time vitorioso que é o São Paulo, o primeiro passo foi a contratação do Telê?

R- Veja, não. Começou na reorganização propriamente do futebol, do departamento de futebol. Quando chegamos, encontramos... Não tínhamos um técnico titular. O técnico Carlos Alberto Silva teve seu contrato vencido em março, não renovou, não continuou, e nós estávamos contando com os serviços do técnico auxiliar, o Pupo Gimenez. E que de forma nenhuma queria assumir o time principal, né. Era um momento difícil, um momento em que o São Paulo sofria derrotas consecutivas e ele não queria assumir a equipe principal. Então nós encontramos o time desagregado, jogadores descontentes, distorções salariais, não, e isso tudo precisou ser corrigido. Estabelecemos um quadro por categoria de jogadores, classificamos os jogadores por categoria e enquadrando os jogadores nessas categorias. Nós também fizemos um plano salarial.

P- Que categorias?

R- Por exemplo: jogador que era titular do São Paulo era de uma categoria; o que era titular e basicamente tinha servido à seleção, então era outra categoria; o que era titular e titular da seleção brasileira, outra categoria; aqueles que eventualmente, esporadicamente jogavam no time de cima, no time principal, também pertencia à outra categoria. E assim por diante. De tal sorte que nós, diante desse enquadramento, pudemos também fixar salários por faixas e eles já tinham essa consciência de que quando eram promovidos de uma categoria para outra, também tinham um benefício salarial. Na época passamos a corrigir mensalmente os salários, de acordo com os índices de inflação, corrigimos uma série de distorções que havia entre eles, os jogadores, exatamente enquadrando-os dentro dessas categorias, né, que foram estabelecidas... Bom, a parte toda de infraestrutura, desde cozinha, também fizemos uma reforma no setor médico, foi admitido como chefe do departamento médico o Dr. João Gilberto Carasato, que é professor da USP, é especialista em ortopedia e também especializado em medicina desportiva, aliás, é o presidente da Associação Brasileira de Medicina Desportiva, e com ele vieram outros médicos que compuseram: um ortopedista, um clínico geral, e também no setor de fisioterapia. Contratamos novos fisioterapeutas, e já contávamos com os serviços do fisiologista Turíbio Leite de Barros, que é considerado a maior autoridade nessa área. Ele permaneceu conosco... E assim por diante. Mais recentemente, isso projetando um pouco no futuro, mais recentemente contratamos também uma nutricionista, o que é uma novidade que foi introduzida, e assim por diante. Quer dizer, a coisa foi toda reorganizada, a parte de pessoal também que trabalhava no centro de treinamento, então com isso nós pudemos dar uma estrutura, não é, ao ponto de permitir que o São Paulo crescesse. Contratamos também o Waldir de Moraes, que é tido como um dos melhores treinadores de goleiros, o Moracy Santana, que veio como fisicultor, então toda a equipe de primeira qualidade. E isso gente muito séria, que trabalhava com alta competência e tal, isso tudo nos propiciou também uma alavancagem, e até nasceu daí a ambição, digamos assim, de projetarmos o São Paulo internacionalmente e de participarmos com êxito, com sucesso da competições internacionais. Sabíamos que nós não éramos inferiores a ninguém. A grande dificuldade dos times brasileiros, sem dúvida é o aspecto financeiro, né, a nossa moeda é muito fraca em relação à moeda dos países mais desenvolvidos no futebol. Então essa dificuldade que nós temos também justifica o êxodo, e a exportação de tantos jogadores brasileiros pro estrangeiros, mas não nos inferiorizamos, apesar disso. O nosso futebol tem alta qualidade, nosso manancial é muito grande, de formação e reposição de jogadores, de craques, então foi isso que o São Paulo fez. Nós montamos uma equipe básica e, apesar de ela ser reformulada constantemente, ela não perdeu em qualidade, e não perdeu a sua competitividade. Foi o que propiciou a conquista de tantos títulos importantes nesses últimos três anos.

P- Então a gente podia falar sobre os títulos. Assim como você foi o presidente que mais ganhou títulos, o Müller foi jogador que mais ganhou títulos na história do São Paulo. O Müller foi trazido de novo pro São Paulo na sua gestão?

R- É verdade, é. Nós fomos buscar o Müller, na verdade tudo começou no final da Copa de 90, em julho. O Brasil foi desclassificado, eu estava almoçando em uma churrascaria em São Paulo, quando me deparei com o Müller, com o irmão e o falecido Edvaldo, aquele ponta-esquerda que já tinha sido atleta também do São Paulo, aí iniciamos uma conversa. O Müller dizendo, "Olha, não aguento mais a Itália, eu quero voltar"... Mas aquilo pra nós era uma utopia, porque imaginar que um jogador que tivesse já se transferido pra Itália, que era o centro mundial de futebol, e ganhando o que eles ganhavam, voltar a jogar no Brasil era um sonho impossível, uma missão impossível. De modo que aí começou a conversa. "Não, eu venho e tal, eu vou conseguir". Eu disse: “Mas Müller, nós não temos condições de te pagar. Você sabe o que ganha em média os nossos jogadores"... Ele disse: "Não, o meu passe eu garanto que posso obter do presidente, pelo menos a promessa de que eu posso... Poderia vir por empréstimo", e esse empréstimo seria gratuito. Eu tenho uma combinação com o presidente, etc, ainda tenho um certo tempo de contrato, tenho um dinheiro substancial pra receber, então eu posso me acomodar com ele e viria por empréstimo gratuito. Eu disse, "bom se você vier assim, a gente pode estudar, mas os salários, você sabe que não se compara aos salários pagos, não se comparam aos salários que você recebe na Itália". E ele então me telefonava, dizia: "Como é presidente, olha, eu vou voltar, hem..." Até que um dia ele disse: "Olha, eu tenho condições efetivas de voltar, o presidente me prometeu, tal, que que você acha?" Eu digo: "Olha, se for nessas condições..." Trocamos uma ideia a respeito de salário... Ele disse: “Eu estou louco pra voltar, eu aceito”. E foi o que ocorreu. Aí ele conversou com o presidente, o presidente fez a promessa, mas depois não cumpria a promessa, ao ponto de que nós começamos já a nos desesperar, o nosso diretor de futebol Fernando Casal Del Rey já tinha ido ao encontro dele na Itália, já tinha obtido uma assinatura de um compromisso com o Müller em relação ao São Paulo, mas não tinha falado com o presidente do clube, que era uma pessoa difícil, até que eu marquei uma audiência com o presidente do clube italiano, que era o Torino na época, o engenheiro Borsano, e pra lá nós fomos tentar trazer o Müller de maneira definitiva. E ocorre que nós acabamos passando 15 dias, era pra uma conversa rápida, uma entrevista, em seguida provavelmente da assinatura de um contrato, não é, de um compromisso. Mas ficamos 15 dias, porque nesse ínterim mudou o discurso do presidente. O presidente, que havia prometido emprestar o Müller gratuitamente, disse que a partir dali ele só venderia o Müller, ele só sairia do Torino vendido. E nós, imagina, comprar o Müller seria coisa impossível, né, uma missão impossível. E a conversa evoluiu e acabamos encontrando um meio termo, um preço que era relativamente alto pra nós, mas baixo para o nível do futebol europeu, né? E com um prazo muito longo, muito dilatado pra pagar. Então nós resolvemos assumir com uma certa coragem, porque já tínhamos uma dívida do clube relativa ao Ricardo Rocha, que ainda pendia, de pagamento, e nós resolvemos trazer o Müller. E assim foi. E o Müller voltou. E você sabe que o Müller, além de ser um grande jogador, um extraordinário jogador, é um rapaz de estrela, de sorte. Ele nunca perdeu um título disputando uma partida pelo São Paulo, né. E assim continua. Está aí conosco até hoje.

P- Então em 91, dois títulos.

R- Em 91 o paulista e o brasileiro.

P- Como foi essa campanha do paulista?

R- Do brasileiro foi... Do paulista foi muito curiosa, porque nós disputamos, na realidade nós tivemos dois títulos no paulista. Nós fomos campeões na divisão B e por força do regulamento nos davam o direito de disputar com o campeão da A o título paulista. E foi o que ocorreu. Nós ganhamos a divisão B, para a qual nós tínhamos sido rebaixados, e depois, nessa qualidade, nos defrontamos com o Palmeiras, campeão da A, e nos sagramos campeões paulistas. Então foi uma campanha belíssima, o São Paulo fez uma campanha extraordinária, com muitos gols, sofreu poucos gols, e foi, vamos dizer assim, a confirmação da recuperação do São Paulo. Porque o brasileiro foi arduamente disputado, houve um certo equilíbrio e nós prevalecemos no final. Empatamos com o Bragantino e fomos campeões brasileiros. E no paulista nós tivemos uma campanha extraordinária. Marcante.

P- Como é que foi a decisão lá em Bragança?

R- A decisão foi como toda decisão de brasileiro, muito difícil, até porque o campo do Bragantino era muito pequeno e nós tivemos que nos submeter ao regulamento da época, que estabelecia que o mando de jogo era do Bragantino, e ele tinha direito de jogar no seu campo. Como o regulamento não fixava o número mínimo de assistentes, ou se fixava, não estou bem lembrado, era um número muito baixo, então permitia que o campo do Bragantino fosse utilizado na final. Embora nós tivéssemos protestado junto até à segurança, a Polícia Militar, porque entendíamos que um jogo daquela importância, em se tratando de campeonato brasileiro, o campo do Bragantino não se prestava, não é? Eles asseguraram que poderiam manter a ordem e a segurança no estádio, impedir a violência, de fato houve lá quase que uma operação de guerra, entradas em separado das torcidas, localização também distinta das torcidas, e lá foi disputada a final. Mas é claro que seria outro brilho, sem menosprezar o Bragantino, que é uma grande equipe, foi campeã paulista, apenas que ela não é dotada hoje de um estádio à altura de uma final de um campeonato brasileiro, que já estava em recuperação depois da perda da Copa do Mundo e que merecia uma final com a presença maior de público e com uma festa maior. Mas, de qualquer forma, foi um jogo difícil. Foi na casa do adversário, um jogo que a gente já imaginava seria extremamente difícil dentro do campo, nós acabamos por empatar e o empate nos serviu. Fomos campeões com esse empate. Mas o São Paulo jogou muito bem, armou-se muito bem, e mereceu, foi um título merecido.

P- Bem, com isso abriu caminho pra disputar a Libertadores no ano seguinte.

R- Aí abriu caminho pra disputar a Libertadores. Nos aproximamos da sul-americana, começamos a participar de suas reuniões, e aí planejamos a nossa participação na primeira Libertadores da América, planejamos porque tínhamos, inclusive, os primeiros compromissos na Bolívia, a primeira fase já jogávamos na Bolívia. E na Bolívia tínhamos que contar com a dificuldade da altitude, que era um adversário grande. La Paz está a quase 3.800 m de altitude. Então nos preparamos pra isso. Fizemos uma preparação no próprio São Paulo, reproduzimos as condições, parecidas, é claro que não são iguais, nós tivemos que reproduzir todas as condições de pressão atmosférica, de rarefação do ar, etc, mas fizemos testes dentro do possível com condições parecidas com a que íamos encontrar lá na Bolívia, né. E preparamos o time, fizemos uma estratégia de chegar lá no local do jogo somente algumas horas antes da partida, o que nos permitiu, estrategicamente, uma condição física melhor, porque, segundo os especialistas, nessas circunstâncias, ou você chega com muita antecedência pra fazer uma adaptação mais longa, mais demorada, ou você chega em cima da hora do jogo pra não sofrer os efeitos da altitude. E nós, optamos pela segunda alternativa, até porque não teríamos tempo pra uma adaptação mais longa. E deu certo, deu resultado, a partir daí fomos vencendo as outras etapas.

P- O São Paulo ganhou um prêmio internacional de medicina esportiva por causa dessa preparação?

R- Ganhou. O nosso departamento médico, o nosso departamento de fisiologia, eles foram contemplados por isso. O trabalho foi apreciado, foi divulgado, e foram contemplados por isso.

P- Qual foi o jogo mais difícil dessa campanha? Foram estes da Bolívia?

R- Todos foram difíceis, mas sobretudo os da final, nós jogamos contra os Newells Old Boys, que é um time argentino, os argentinos são tradicionais adversários dos brasileiros, sempre, em qualquer circunstância. O jogo lá foi muito difícil, nós perdemos por um a zero, o jogo de ida, foi o primeiro jogo da final, e achamos até que o árbitro foi rigoroso ao dar um pênalti do Ronaldo, nós achamos que o Ronaldo teria tocado na bola involuntariamente, ou melhor, a bola... Foi bola na mão e não mão na bola, mas ele foi rigoroso e apitou e nós perdemos por um a zero. E aqui, ganhamos no tempo regulamentar, com o gol do Raí, não é? E depois nos pênaltis, o São Paulo até hoje não perdeu nenhuma decisão importante por pênaltis, na minha gestão, no meu período. E mais uma vez nós nos sagramos vencedores através deste critério dos pênaltis. Mas também foi merecida a vitória do São Paulo.

P- O herói aí foi o goleiro né?

R- Foi o goleiro. Foi o Zetti e o próprio Waldir de Moraes, que nós, já conhecendo a regra e a possibilidade de uma decisão por pênaltis, o Waldir ia, se antecipava, assistia aos jogos dos adversários, e não só ele verificava o modo de jogar, as condições de cada jogador adversário como também quando ocorria decisão por pênaltis ele observava quem eram os batedores e em que lado batiam os pênaltis, e isso acabou propiciando uma informação ao Zetti que deu ao São Paulo o título. São pequenos detalhes. É aquilo que nós dizemos, hoje as grandes equipes no mundo se equivalem em força. Não existe uma superioridade muito grande, não existe uma grande equipe que se destaque, então são forças que se nivelam, que se equivalem, a gente acaba ganhando no detalhe, nas pequenas coisas é que você leva vantagem sobre o adversário. E não tenho dúvida nenhuma que o São Paulo, em diversas competições, em diversos torneios que nós comentamos, acabou vingando, acabou vencendo por causa dos detalhes.

P- Bem, o primeiro mundial a gente nunca esquece. Como foi o jogo do Japão?

R- Foi uma emoção, uma emoção tão grande, eu me lembro que a gente estava sempre preocupado, envolvido com toda a parte de preparação e com aqueles momentos que antecedem, com as solenidades da própria competição, então tudo isso traz muita tensão, muito estresse, agora o dia do jogo é o ápice, o apogeu do estresse, eu lembro que lá chegando no estádio, era um domingo, o jogo marcado para meio dia, porque lá era inverno nesta época, e vislumbro aquele público todo chegando, muita gente com bandeiras do São Paulo que foram distribuídas lá, ou camisetas do São Paulo, e a ordem, porque o japonês é muito ordeiro, mas o cenário era muito bonito, o céu estava azul, um céu de brigadeiro! E de repente adentrando a tribuna de honra em pé, admirando todo aquele cenário e tal, eu olhei pro céu e disse: "Meu Deus do Céu, não é possível. Há dois anos nós estávamos na segunda divisão e hoje disputando o campeonato do mundo, com possibilidade de daqui a duas horas nos tornarmos campeões do mundo". E olhando pro céu, aquele céu lindo, realmente me arrepiou. Aí senti uma emoção que é indescritível! Depois culminou com o título, né, então nem sei. Aí é uma alegria! Aí eu dizia: “Não é possível”, então Deus realmente está nos protegendo, ou está recompensando o nosso esforço, porque se trabalhou muito, sem dúvida nenhuma se trabalhou muito. Toda a diretoria, a equipe técnica, os conselheiros, todos participaram, uma participação muito íntima nessas atividades do São Paulo, então isso era o corolário desse esforço, mas é que Deus olhou pra nós. Não sei se olhou ou se virou as costas, mas acho que olhou por nós e nos recompensou, sem dúvida!

P- E quando o Barcelona fez um a zero, o que aconteceu?

R- Olha, o São Paulo estava tão bem que não se abateu e a gente que é habituado a assistir jogos assim, “incontinuadamente”, você percebe quando o time está bem, não é? E o time, nós percebemos, eu pessoalmente, tinha a sensação né, que o time não se abateu com aquele um a zero e continuou jogando bem e então a esperança de que o São Paulo virasse aquele resultado era muito grande, e foi o que de fato aconteceu.

P- E a festa da conquista, o que mudou para o São Paulo em termos de credibilidade internacional, repercussão na imprensa?

R- Tudo, você não faz ideia do que é o São Paulo hoje no plano internacional. É uma coisa extraordinária, o São Paulo é muito conhecido hoje no exterior, eu diria sem falsa pretensão que o São Paulo hoje ele é comparável ao Santos da década de 60, o Santos de Pelé. O São Paulo tem uma fama, uma projeção, eu tenho visto alguns depoimentos. Eu tenho andado muito por aí pelo exterior e quando o São Paulo perde algum jogo no Brasil, alguma competição os de fora não acreditam, "O São Paulo perdeu? Não acredito". Eles estão tão habituados com o São Paulo ganhando tudo, ganhando das melhores equipes do mundo, do Barcelona, ganhando do Milan, ganha de Real Madrid, ganha de times argentinos, então quando o São Paulo perde e eles não acreditam: "Não acredito que o São Paulo perdeu", o São Paulo é o máximo, as crianças, os meninos, a juventude, é impressionante. Nas escolas, ainda recentemente na Argentina, o São Paulo inaugurou o estádio do São Lourenço de Almagro, e me contavam os dirigentes argentinos dos clubes que nas escolas onde estudam os seus filhos e tal, as crianças pedem a camiseta do São Paulo, elas têm o São Paulo assim... Se não for como primeiro time, mas têm o São Paulo como seu segundo time, o time universal. Nós temos no Japão, por exemplo, hoje, um fã-clube constituído, com estatutos e tudo direitinho. No ano passado quando estivemos lá disputando o a Segunda Copa Intercontinental, nós já tínhamos dois mil sócios inscritos, e pagando uma mensalidade. Há uma publicação mensal com notícias do São Paulo, dando conhecimento das coisas do São Paulo. Fizemos um encontro desses fãs adeptos do São Paulo e compareceram mais de três mil pessoas no restaurante, uma loucura. E o que se vende de camisetas, chaveiros, eles querem tudo o que é do São Paulo. E eu noto pelo tratamento que nos dão. Quando nós chegamos a qualquer lugar do mundo nós somos tratados diferenciadamente, realmente o São Paulo é fantástico nesse sentido. De outro lado eu recebo milhares de cartas dos cinco continentes e, uma coisa muito curiosa, muita gente que conhece o São Paulo pedindo objetos, chaveirinho, e recordações, mas muita gente, e até gente que milita no jornalismo, que conhece, que acompanha o São Paulo, e que conhece o São Paulo até muitas vezes melhor do que nós mesmos, conhecem a escalação, conhece os jogadores, conhece tudo a respeito do São Paulo, dão palpite, fazem sugestões, é impressionante. O jornal Marca da Espanha, que parece que tem uma tiragem extraordinária, de 1,5 milhão de exemplares...

P- Oh! É o mais importante...

R- É o mais importante da Espanha, jornal esportivo da Espanha, ele já está pelo segundo ano consecutivo promovendo uma pesquisa, um concurso na realidade, existe um troféu, e ele consulta jornalista dos cinco continentes do mundo, Oceania, Ásia, África, Europa e América, e o São Paulo na primeira pesquisa, na primeira rodada foi considerado o terceiro maior clube do mundo, o melhor clube do mundo, logo depois do Milan e do Barcelona. Mas no ano passado o São Paulo foi eleito o melhor clube do mundo, com 140 votos contra 104 do Milan, que ficou em segundo, e o Barcelona em terceiro com noventa e qualquer coisa, e depois os demais clubes, ingleses e argentinos, então você veja que...

P- A crônica espanhola também lhe deu o título de melhor dirigente.

R- A crônica portuguesa, mas consultando os jornalistas da Europa. A espanhola foi essa que considerou o São Paulo o melhor clube do mundo. A portuguesa, que também consulta os jornalistas de toda a Europa, eles elegem os melhores jogadores, dirigentes, técnicos, etc, e eu fui considerado o melhor dirigente do ano. O que me enche de muito orgulho. É claro que isso decorre evidentemente desse brilho com que o São Paulo tem tido nas competições, e da pujança do clube, e eu fui contemplado porque sou o representante do clube. Mas é claro que isso me enche de orgulho, porque tive essa aventura de dirigir o clube nesses últimos três anos.

P- Sem dúvida, com a vitória do primeiro mundial, por outro lado da moeda, também a coisa encareceu o time, não é?

R- Demais. Porque a cada competição, a cada conquista internacional, esse é o mercado do futebol, que é um mercado totalmente atípico, há uma valorização real do jogador mesmo aqueles que recebem em dólar. Recebem em dólar, não, recebem o equivalente em dólar. Mas há uma valorização real, então nós, a cada ano e a cada conquista nós temos que renovar o contrato dos jogadores e pagá-los melhor, com um aumento em relação àquilo que vinham ganhando. De modo que isso para nós, brasileiros, é um sacrifício muito grande. Infelizmente, porque gostaríamos até de pagar mais do que pagamos, embora ache que no nível do Brasil nós pagamos muito bem, talvez sejamos o clube que melhor paga, e já estamos quase que chegando a níveis de Europa. Mas isso com um sacrifício muito grande, porque as nossas receitas provenientes do futebol são absolutamente insuficientes para manter um grande clube.

P- Receita em cruzeiro e o pagamento dos jogadores em dólar, né?

R- É, exatamente. Recebemos em cruzeiro e pagamos em dólar. Recebemos poucos cruzeiros, o que é relevante, né?

P- Quer dizer, não vamos falar de todos os títulos porque senão a fita não vai dá, não é? Vamos tentar então o bicampeonato paulista de 92. Quais as suas recordações dessa campanha?

R- Bom, aí o São Paulo já tinha uma situação consolidada. São Paulo já havia sido campeão da Libertadores de 92 e partiu pro brasileiro, no brasileiro nós... Aliás, o paulista disputou-se no primeiro semestre, houve uma inversão. Então no primeiro semestre fomos campeões da Libertadores e do Paulista. É claro que o título de bicampeonato paulista é extraordinário, né, e nós, já esse tempo, estávamos visando, já tínhamos os olhos voltados para o tricampeonato, porque era outro título inédito do São Paulo. E da maneira como nós estávamos situados no contexto do futebol paulista, naquele momento, com uma equipe bastante superior às demais, assim como uma estrutura muito bem montada, nós tínhamos o direito de aspirar. Então, ganhamos o bi visando ao tri, dissemos: “Olha, dessa vez nós vamos conseguir o tri que é um título que o São Paulo não tem. O Palmeiras tem, o Corinthians tem, o São Paulo não tem”. E naquele mesmo semestre fomos campeões da Libertadores, e já com uma situação consolidada fomos para o brasileiro. E no brasileiro, chegamos até as semifinais, faltava, dependíamos de nós mesmos no jogo contra o Vasco da Gama no estádio São Januário, no campo do adversário, mas se ganhássemos estaríamos classificados pra final, e aí acho que realmente o time relaxou... o time não foi bem. O que acontece normalmente quando o time aparentemente é muito superior ao outro, e talvez tenha menosprezado o adversário e tal, e foi uma noite negra, nós perdemos de três a zero e fomos desclassificados. E eu tenho certeza que se nós  passássemos, se tivéssemos passado por aquele jogo, teríamos enfrentado até o Botafogo com uma certa facilidade, como foi o caso do Flamengo.

P- Foi uma final carioca no final.

R- Foi uma final carioca. Mas o Flamengo teve até certa facilidade pra ganhar do Botafogo. O Botafogo, embora tenha chegado às finais, o time não era muito consistente, não era um time excepcional. Então perdemos a grande oportunidade do bicampeonato brasileiro naquele ano. Mas, em compensação, em seguida nós fomos a Tóquio e pela primeira vez conquistamos sobre o Barcelona o título de campeões mundiais.

P- Tudo bem ganhar o mundial, mas o bi já era querer ser muito, né? Como eram os bastidores no São Paulo nesse período que antecedeu a...

R- O São Paulo aí adquiriu a fama de ganhador, o presidente de um presidente pé-quente, né? Então nós já começamos a passar a admitir que o São Paulo vencesse, e é claro que o torcedor, muito mais... Vamos dizer, muito mais apaixonado, admitindo que o São Paulo tivesse de ganhar todas. Mas nós sentíamos a força do time, essa é que é a verdade. Nós nos preocupávamos muito com os bastidores, com tudo aquilo que envolvia o espetáculo final, nós não podíamos descuidar de nada dos detalhes finais, aquilo que eu disse a você, nós sempre fomos campeões cuidando sempre muito bem dos detalhes, e nada foi descuidado, nada foi esquecido. Então nós tínhamos essa expectativa grande de o São Paulo poder reproduzir o título do ano anterior. Foi o que aconteceu, quer dizer, a expectativa era boa e no campo se confirmou.

P- E aquele gol de letra do Müller.

R- Qual deles?

P- Três a dois.

R- Ah, do três a dois contra o Milan.

P- É, o último gol do Müller.

R- O último? Bom, aquele foi o gol de Buda, que nós brincamos. Porque nós fomos ao Buda, fizemos um pedido muito veemente ao Buda, acendemos uma vela pro Buda, e tenho certeza que naquele momento o Buda nos atendeu. E nós brincamos muito com Müller que foi um gol de Buda. E de fato. O São Paulo é predestinado, estava escrito que o São Paulo seria o campeão, mereceu, fez por merecer ser campeão, porque se ombreou ao Milan, jogou tão bem quanto o Milan, um jogo de campeões e o São Paulo aproveitou bem a sua oportunidade e teve a felicidade de o Müller fazer aquele gol.

P- Bicampeão mundial igual ao Santos, como foi essa repercussão?

R- Olha, a emoção maior eu confesso que foi no primeiro mundial. E com o fato do São Paulo vir sempre ganhando títulos, e títulos inéditos, nós até admitimos, de uma maneira até preconcebida, que o São Paulo seria capaz de repetir, porque continuava ganhando títulos inéditos. E admitimos até que poderíamos ganhar do Milan, apesar de que nós achávamos que o time do ano anterior tinha chegado melhor preparado a Tóquio, aquele que se defrontou contra o Barcelona. Mas o São Paulo se superou. Formado de grandes jogadores, e os jogadores muito conscientizados de seu papel, de sua missão, da responsabilidade que tinham, e o desejo de se tornarem bicampeões do mundo, de vencer o Milan, até então tido como um time invencível, imbatível, então isso tudo concorreu certamente para a vitória final e a consagração do São Paulo.

P- Bem, vamos mudar o enfoque. O São Paulo foi o primeiro clube brasileiro a ter uma gestão mais profissional, quer dizer, colheu muitos frutos disso. Eu queria que o senhor fizesse um histórico disso e como o senhor se insere nesse...

R- O grande debate que se tem travado ultimamente é no sentido do futebol-empresa, das equipes ou dos clubes se transformarem em empresas, pra explorar o futebol. O grande debate, isso está contido inclusive na Lei Zico, que foi aprovada pelo Congresso recentemente, em julho do ano passado, mas um tanto desvirtuada em relação ao seu texto original, mas essa matéria foi mantida no projeto e na lei que está em vigor. Essa é a grande questão. Eu vejo muita dificuldade em você adaptar métodos empresariais a um clube, que tem uma natureza jurídica diferente, que é uma sociedade civil, uma entidade privada, sem fins lucrativos, eu acho muito difícil. Todavia o São Paulo já vem fazendo isso há muito tempo, muitos anos. Vem, na medida do possível, implantando métodos empresariais no clube. Portanto, nós temos um clube totalmente informatizado. Ele é totalmente controlado por computadores. Isso nos permite um domínio, um controle sobre tudo o que se passa no clube. E também evidentemente, o aperfeiçoamento de sua administração não é da sua organização. E... Até no futebol, embora eu ache que o futebol seja uma coisa a parte, é um... Eu costumo dividir o clube em três partes: O futebol, a parte social e o estádio de futebol. O futebol é um desses setores, é uma das partes. E um setor totalmente individualizado, atípico. Mas mesmo o futebol, hoje, já está informatizado, nós já temos um programa de informatização que estamos introduzindo, né, gradualmente e que está nos propiciando resultados excelentes. Você há de ter visto até o Moracy Santana no campo portando um lap-top, um computador, fazendo registro de dados durante a partida. Tudo isso é levado depois dentro de um programa que é levado pra dentro do nosso computador que armazena todos esses dados. Além de outros. Isso tem sido muito útil ao São Paulo. Então, na medida do possível nós adotamos alguns métodos, alguns princípios empresariais na parte de administração de pessoal, nós temos planos de carreira, planos de salários, enfim, uma série de benefícios indiretos que propiciamos aos nossos empregados, como assistência médica e outros benefícios. Alguma coisa nós temos introduzido à moda de uma empresa. Mas nem sempre é possível você transformar, me parece que nos outros clubes ocorre o mesmo fenômeno, você transformar um clube numa sociedade comercial. Isso é impossível. Agora, o que eu prego e tenho pregado, é que dentro do que a lei faculta hoje, dentro dessa prerrogativa legal, é que o São Paulo crie uma sociedade, e teria que ser sob a forma de uma sociedade anônima, que é a mais conveniente, a mais adequada, crie uma sociedade para explorar o futebol profissional. O que eu não entendo e não posso conceber é que um futebol altamente profissionalizado, no que tange aos seus jogadores, aos métodos empregados, aos espetáculos, a tudo o que circunda o futebol, seja dirigido por amadores. Eu não digo, não quero dizer, por amadores incompetentes. Muitos são competentes, não existe uma escola de formação de dirigentes, mas são dirigentes forjados na prática, muito competentes, mas não são remunerados, portanto não têm obrigação de horário e não estão obrigados a estar lá dedicando todo o seu tempo ao São Paulo. E essa atividade do futebol profissional, bem como outras atividades de outras modalidades profissionais, ela exige tempo e dedicação integral daqueles que cuidam e administram o esporte profissional. De modo que eu sou a favor da criação de uma sociedade que viesse a explorar o futebol profissional e “quiça” outras modalidades profissionais, como o voleibol, ou bola ao cesto, ou tenista, ou boxe, enfim, e que ela pudesse ter sua administração própria remunerada e profissional. Então acho que, inclusive, a criação ou a transformação de uma sociedade com finalidade esportiva passa necessariamente pela profissionalização da administração. Então é isso que eu tenho propugnado, já tenho conversado com muitos dirigentes do futebol e companheiros de clube é que no sentido puro São Paulo poderia criar uma sociedade da qual ele fosse o sócio majoritário, detivesse o controle, das ações com direito a voto, mas que pudesse admitir como sócios minoritários, sócios capitalistas, empresas e multinacionais, seja o que for. Também não precisa ser uma só. E com isso também propiciar um engajamento da empresa no futebol profissional e das modalidades profissionais. Porque nós não podemos contar com o Estado, né, o Estado não tem recursos, é deficiente na sua administração, de modo é que nós teremos é que contar mesmo com as empresas, e com isso nós temos que proporcionar meios das empresas virem a integrar um esquema para o desenvolvimento do esporte profissional. Essa talvez fosse uma das formas. E isso é o que eu tenho pregado.

P- E como é esse projeto da nova sede social, a grande marca da sua gestão.

R- Pois é, esse é um projeto também inovador, mais um projeto inédito, nós viabilizamos a construção da sede, viabilizamos a construção e também no seu aspecto econômico e financeiro através de um sistema de underwriten, ou seja, de subscrição de títulos sociais. Quer dizer, isso é inédito na medida em que você tem esse sistema aplicado no mercado financeiro, quer dizer, com títulos mobiliários que são normalmente registrados e negociados em bolsa, mas não como títulos sociais, títulos de clube, de um clube como o São Paulo. E nós conseguimos, mediante a credibilidade a confiança que o São Paulo desfruta hoje em toda a sociedade e no meio financeiro, nós conseguimos que dois bancos, no caso o Bradesco e o Banco Atlantis, liderassem um pool de instituições financeiras, que hoje somam 27 instituições, que subscreveram os títulos, ou seja, garantiram os recursos necessários à construção da obra. Então a par da subscrição desses títulos, que foi feita pelos bancos, pelas instituições financeiras, ainda um sistema também inédito, que é muito empregado na Europa, nos EUA, mas que não é comum no Brasil, que é a securitização desses títulos, ou seja, parte desses títulos que serão representados por essa dívida na aquisição desses títulos que será representada por notas promissórias, elas serão descontadas no mercado para obtenção dos recursos para financiamento da obra, que serão fornecidas aos bancos coordenadores para entregar ao clube no sentido de construir a sede. Então, essas duas modalidades são inéditas e com isso nós, independentemente de sacrifícios dos sócios de uma contribuição dos sócios que nesse momento seria extremamente onerosa para eles, até porque estamos vivendo uma fase de recessão, de dificuldades econômicas. Nós, independentemente de qualquer contribuição dos sócios. Apenas com a emissão de 10 mil títulos, que servirão apenas para pagamento da obra, nós vamos construir uma sede social moderna, com todos os requisitos que a gente pode imaginar numa sede moderna, com piscina aquecida, semiolímpica, com arquibancadas, salão de festas para 2.300 pessoas, boate, anfiteatro para 350 pessoas, restaurante, canchas de boliche automatizadas, quadras de squash, sauna, enfim, uma série de benefícios que nós vamos trazer aos sócios, que poderá desfrutar dessa sede, não só os antigos sócios, mas aqueles novos que, ao final do processo, os bancos detentores desses títulos vão vender ao usuário final. Ao final do processo, esses dez mil sócios poderão desfrutar, juntamente com os sócios atuais, de todos os benefícios que a nova sede trará.

P- Dentro de aproximadamente quanto tempo a sede vai estar...

R- Dentro de 18 meses a partir da construção. Do início da construção. Nós já estamos... Eu creio que mais uns dez ou quinze dias teremos o início da construção. De modo que daqui a 18, 19 meses aproximadamente, nós teremos a sede concluída e entregue aos sócios.

P- E em relação ao Morumbi? Está sendo criada uma feira no anel inferior.

R- Exato. Nós temos ideia de aproveitar melhor o nosso imobilizado, o nosso patrimônio. O Morumbi hoje praticamente se presta exclusivamente pra prática de futebol. Mesmo, alternativamente, pra outros espetáculos, ele não é adequado. Existe uma adaptação, mas ele não apresenta aqueles requisitos de conforto, de acústica e outros que seriam necessários para a apresentação de outros espetáculos que não o futebol. Então a nossa intenção, como é um patrimônio muito valioso e cuja conservação e manutenção é muito cara e demanda um esforço muito grande do clube, e oneram bastante os cofres do clube, então nós pensamos na utilização desse patrimônio para outras finalidades. Uma delas é uma que pudesse propiciar uma renda permanente. Pensamos num shopping, mas a dificuldade da construção de um shopping nesse local, por força do zoneamento, é muito grande, até porque também foi desaconselhado em face da existência de outros shoppings nas proximidades, então nós estaríamos concorrendo com outros shoppings, com... Que já estão lá implantados, talvez não fosse interessante do ponto de vista comercial. Então admitimos que nesse contexto pudéssemos fazer alguma coisa diferente. E foi idealizada, então, por um grupo, que vai administrar esta feira, nós chamamos de feira, embora tenha as características de um shopping, são lojas, são stands que estão sendo montados, são 62 stands que estarão em torno do anel inferior do São Paulo. Nós imaginamos uma coisa diferente: é um clube de compras, é um sistema novo, um sistema americano, em que os consumidores, isso aberto pro público em geral, então os clientes terão oportunidade de comprar mercadorias até 40% mais baratas que os preços praticados no mercado. Então é uma coisa muito interessante. E porque vai propiciar uma renda permanente, porque o São Paulo vai participar do aluguel e no futuro também com um percentual sobre o faturamento das lojas. E sem prejuízo da atividade do futebol e de outra atividade qualquer. Porque nos dias de futebol essas lojas estarão fechadas, com suas portas cerradas, portas de ferro, e o torcedor poderá circular por toda a área da feira e buscar os acessos ao estádio sem nenhum problema, sem nenhuma dificuldade. E fora dos dias de futebol, essa feira estará aberta dez ou doze horas por dia, então propiciando não só conforto para os moradores ali da região e uma possibilidade de uma economia nas suas compras, como também uma renda substancial pro São Paulo, o que é muito importante. Afinal, enquanto nós não tivermos multinacionais apoiando o futebol e outras atividades importantes do clube, nós temos que criar novas receitas. E uma delas é essa proveniente exatamente da feira que nós vamos e pretendemos inaugurar ainda até abril deste ano.

P- E o memorial do São Paulo?

R- É, o memorial é outra coisa nova que acho que vai marcar o São Paulo também como um clube moderno, um clube de vanguarda e pioneiro. O que nós assistimos em geral é... São salas de troféus, salas que guardam os principais troféus conquistados pelo clube e que certamente têm ali uma parte da memória do clube. O São Paulo quis um pouco além. O São Paulo quis efetivamente construir a história do clube. E o clube que não tem memória, não tem história, né? Então nós quisemos, além da possibilidade de exibirmos os nossos troféus, que são representativos das maiores conquistas do clube, clube que é bicampeão do mundo, bicampeão da América hoje, que tem realmente muita coisa bonita pra mostrar para os seus adeptos, seus torcedores e até para outras pessoas interessadas, desportistas em geral, nós quisemos também ali instalar a história do São Paulo. Estamos fazendo, através desse sistema, do qual estou participando neste momento, que é o sistema multimídia, que hoje é um sistema moderno, e que nós pretendemos deixar registrada a história do São Paulo. Se possível, a mais completa, pra que, de uma vez por todas, a gente tenha a história oficial do São Paulo dentro do São Paulo. Hoje é muito comum os historiadores, as pessoas que têm interesse em determinados assuntos, procurarem as redações de jornal ou outras fontes, para buscar dados relativos ao São Paulo. Então nós pretendemos, na medida do tempo, enriquecer este acervo da história do São Paulo e lá constituirmos a verdadeira e a versão oficial da história do São Paulo, pra que aqueles interessados no futuro procurem o São Paulo pra elucidar suas dúvidas, ou pra obterem dados referentes à história do São Paulo. Além disso, vamos ter um espaço pra eventos. Para eventos culturais, inclusive, não só desportivos, e que nós poderemos usar o memorial também. Além disso, vamos ter também um pequeno auditório, para cerca de 40 pessoas, que vai permitir a exibição de vídeos, os mais variados, certamente a maior parte relativa a gols e jogos importantes do São Paulo, mas lá também nós poderemos ter a projeção  de fatos históricos, de episódios, de eventos ocorridos no clube e que são de importância relevante também pra história do clube. Além do sistema de multivisão. Um sistema também moderno, em que as pessoas poderão ver fotografias com movimento, né, e também fotografias históricas, de lances históricos, de coisas importantes da vida do São Paulo. Será sonorizado, portanto nós vamos ter lá um local próprio pra... Será muito agradável pros são-paulinos, próprio pra pesquisas, de outro lado muito agradável de ver também, porque não será simplesmente um museu estático, vai ter movimento, poderemos assistir aos melhores lances do futebol, as melhores partidas do São Paulo, vamos poder ver fotografias históricas, documentos históricos, objetos históricos, e assim por diante. Quer dizer, eu tenho a impressão de que será um local muito agradável, que será servido também por uma lanchonete, e vamos ter também uma butique que venderá artigos do São Paulo, licenciados pelo São Paulo, com a marca do São Paulo, então eu creio que será um local muito agradável, muito aprazível, que nós vamos inaugurar, pretendemos inaugurar no dia 28 de março deste ano de 1994.

P- Dr. Pimenta, como o senhor vê hoje o futebol no Brasil?

R- Com preocupação, como vejo todo o futebol do mundo com preocupação. O futebol é o esporte mais popular do mundo, que tem mais apelo popular, indiscutivelmente. Mas vejo que o futebol também está sendo afetado por essa crise mundial que nós também estamos assistindo. A crise econômica acaba afetando diretamente todas as atividades, inclusive o futebol. Então vejo que na Europa, a Europa que adiantou-se no sentido da profissionalização do futebol, hoje vive dificuldades. A Itália, como exemplo do maior, alguns clubes passam por sérias dificuldades, alguns clubes que já se transformaram em sociedades por imposição da lei, hoje estão aí praticamente falidos, aguardando que algum comprador venha a resolver, a dar uma solução pra suas dívidas, tal, e retomar as suas atividades com regularidade. Mas vejo com preocupação, até porque a estrutura também do futebol brasileiro é muito frágil. A exceção do que estamos assistindo com o Palmeiras no momento, que se associou a uma multinacional no sistema de cogestão, mas que tem interesses nitidamente distintos, porque a empresa comercial investe, mas o patrimônio é dela, portanto o patrimônio não pertence ao clube, mas existe uma associação de interesses com relação aos objetivos finais, a empresa aumentando a sua produção e alcançando uma quantidade maior de venda dos seus produtos, e o Palmeiras certamente se beneficiando dessa situação pra montar uma grande equipe e disputar com chances as diversas competições em que está envolvido. Mas isso é uma exceção, tomara que apareçam outras, mas eu não conheço no mundo toda outra empresa com essas características e que esteja agindo dessa maneira. Então vejo com preocupação aqueles que não têm esse sistema, não desfrutam desse sistema e manterem equipes fortes, competitivas, equipes que possam estas, se projetar num plano internacional, competindo em igualdade com outras equipes de outros países mais adiantados. Acho que a estrutura atual deles precisa ser mudada, de qualquer maneira, tem que ser mudada, tem que haver uma mudança quase que fundamental em relação a diversos aspectos, calendário, administração. Então vejo com preocupação a situação do futebol brasileiro.

P- E com relação à administração onde os dirigentes não são remunerados, na maioria dos casos o presidente do clube ainda tem que, no fim do mês, ajudar a pagar as contas do clube.

R- Não, não sei se é em todos os casos. No São Paulo não ocorre isso. Mas sei que alguns clubes de outros estados, em estados mais pobres, alguns clubes do interior o presidente ainda socorre o clube em muitos casos. Não é o caso do São Paulo...

P- E por onde que poderia começar essa mudança?

R- Eu acho que a mudança é estrutural. Nós temos que repensar o futebol a partir, por exemplo, de diversas regras que têm que ser estabelecidas. Por exemplo, em relação a calendário. Nós temos calendários diferentes dos europeus, difere do calendário sul-americano e estabelece muitos conflitos de interesses. Os nossos clubes não têm a disponibilidade pras suas competições, pra disputar as suas competições como têm os clubes da Europa. O nosso calendário é ainda um pouco improvisado, a superposição de jogos, São Paulo chegou a jogar 100 partidas no ano passado, o que não ocorre no calendário europeu, por exemplo. Ele é mais racional e as partidas são mais espaçadas. E há então datas pra que você possa participar de todos esses calendários sem atropelo. O calendário é uma parte. A parte toda de estrutura de administração eu acho que também precisa ser repensada. Por exemplo, esta questão da administração profissional eu acho que tem que ser introduzida de uma maneira definitiva. Não só nos clubes como nas entidades dirigentes. Por exemplo, a parte do relacionamento clube/jogadores, eu acho que precisa repensada também. Os clubes investem muito na formação dos jogadores, então é preciso que eles tenham uma recompensa. É claro que ao lado disso não se pode desconhecer que o jogador também deve ter um reconhecimento do seu valor e deve ter a recompensa do esforço que faz pra se tornar um grande jogador. Mas existe uma associação de esforços nesse sentido. Tanto os... Nem o jogador se torna grande jogador por si só, nem o clube sem os grandes jogadores, se não estiver assistindo os jogadores não se tornará um grande clube. Então existe uma associação de esforços aí. Um grande clube deve propiciar a formação de um grande jogador e a projeção de um grande jogador. Mas sem o clube esse jogador nunca alcançará uma projeção. Então tem que haver aí uma relação de equilíbrio nessas relações jogador/clube, de tal sorte que nem o clube se sinta lesado, prejudicado, e nem o jogador, por sua vez. O problema do poder aquisitivo do povo, quer dizer, dos espetáculos, nós temos que melhorar a qualidade dos espetáculos, como podemos fazer isso. Os clubes têm que ter mais dinheiro pra investir. Então, se nós não podemos contar simplesmente com as receitas provenientes do futebol, nós temos que engajar as empresas nesse processo de desenvolvimento. Nós temos que contar com as empresas pra fortalecer as nossas equipes. Fortalecendo as nossas equipes certamente já demos o primeiro passo pra alcançarmos melhores espetáculos, obtermos melhores espetáculos. Aí temos que pensar no conforto do público que vai ao estádio. Tem que ter conforto, tem que ter o seu assento garantido, tem que ter o seu assento numerado, tem que ter o seu estacionamento garantido ou a sua condução, o seu acesso ao estádio com regularidade, com certo conforto mesmo, né? Depois você tem que afastar a violência de uma maneira ou de outra, você tem que coibir a violência nos estádios, enfim, a parte de arbitragem tem que ser muito bem cuidada, porque um árbitro pode estragar um espetáculo, pode jogar o público contra os jogadores e vice-versa, então é uma série de providências que têm que ser tomadas no seu conjunto, e que creio que poderão melhorar muito os espetáculos e elevar o nível dos espetáculos.

P- Então para finalizar, o senhor podia fazer uma avaliação desses seus quatro anos como presidente do São Paulo?

R- Olha, eu sinto que eu cumpri o meu dever. Eu sinto que fui até além, quer dizer, eu fui favorecido, eu obtive uma graça até. Porque o que eu consegui eu sei que nenhum outro presidente de clube brasileiro conseguiu num espaço de tempo tão curto. De modo que recebi uma graça divina. Mas eu acho que compensou também os nossos esforços, quer dizer, foi um trabalho insano, um trabalho de muita dedicação, com sacrifícios, sem dúvida nenhuma, sacrifícios pessoais, sacrifícios da minha família, mas eu acho que valeu. Valeu pelos amigos que fiz, valeu pela administração que eu consegui implantar no São Paulo, valeu pela colaboração inestimável de todos aqueles que trabalharam no São Paulo, sem o que não seria possível, se fazer alguma coisa como foi feita, é claro que quando eu falo nós, eu falo no plural, falo em toda a administração, todos aqueles que, como o presidente, colaboraram na administração do clube, no seu reerguimento e na sua projeção, no salto que deu pro futuro. Então eu me sinto gratificado e compensado. Eu acho que valeu a pena e fico satisfeito de saber que numa fase da história do São Paulo, eu tive uma participação importante, uma participação que trouxe benefícios e resultados extraordinários ao clube. Isso me gratifica, me deixa realmente muito envaidecido por isso. É claro que o clube também me proporcionou isso. Quero sempre ressalvar para que não haja dúvida sobre isso. É claro que essa grandiosidade do São Paulo, toda essa estrutura que o São Paulo possui favoreceu. Mas acho que eu cumpri o meu papel num determinado momento da vida do São Paulo.

P- A gente tem pedido a todos se têm condições de escalar um São Paulo de todos os tempos que viu jogar.

R- Ah, eu não faria isso não porque acho que cometeria muitas injustiças. O São Paulo teve alguns bons times e alguns grandes jogadores. Acho que estaria cometendo uma injustiça, e até por falha de memória poderia realmente... Seria até deselegante com alguns jogadores, que, eu tenho certeza, militaram no São Paulo e mereciam estar em qualquer seleção do mundo evidentemente.

P- E só cabem 11 nesse time, né.

R- E só cabem 11. Por isso é que eu não gostaria de me pronunciar nesse sentido. Embora você saiba que o São Paulo teve aí ao longo da sua história muitos jogadores de seleção brasileira, muitos que foram até apontados aí em seleções mundiais que foram feitas, aí de campeonatos, ou de temporadas. Mas eu não gostaria de falar sobre um particularmente pra que não venha até cometer um pecado aí em relação à qualidade e ao desempenho dos jogadores que passaram pelo São Paulo.

P- O senhor gostaria de finalizar?

R- Bom, o que eu gostaria de dizer é o seguinte: eu vejo o São Paulo hoje um São Paulo sempre renovado. E vejo um São Paulo com um potencial de desenvolvimento enorme. O São Paulo que hoje alcançou uma projeção mundial extraordinária. Então eu penso que isso tem que ser conservado e tem que ser levado pra diante. E o São Paulo tem condições, tem infraestrutura, tem homens competentes, e eu não tenho dúvida nenhuma de que nós vamos ter assim, como tivemos até hoje, administradores brilhantes, que têm ideias e que têm muito amor ao São Paulo. Então eu não tenho dúvida nenhuma que o São Paulo será certamente, senão o maior, um dos maiores clubes do mundo nos próximos 30 anos. Eu não tenho dúvida disso!

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+