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História

O saber indígena na aldeia Maronáua

História de: Mauirá Zwetsch
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2007

Sinopse

Mauirá Zwetsch nasceu na aldeia indígena de Manuel Urbano no Acre. Filhos de pais leitores, seu destino não foi diferente: a leitura se tornou uma de suas atividades mais cotidianas. Por conta do um livro “Terras do Sem Fim” de Jorge Amado, ele decidiu viajar de carona até a Bahia e conhecer a região de Ilhéus e as plantações de cacau, cenário da obra do escritor baiano. Para ele os livros são uma forma de abrir “horizontes e expandir a percepção sobre o mundo” de uma forma única. 

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História completa

As casas na aldeia eram de pau-a-pique sobre palafitas que mediam mais ou menos um metro e meio de altura, eram muito altas. De dentro de casa eu via o terreiro pelas frestas das madeiras. O terreiro onde ficava minha aldeia era cercado de mata fechada e tínhamos muita liberdade e tranqüilidade. Dormíamos em redes, feitas pelas mulheres com um algodão silvestre. As comidas eram variadas e tinha de tudo um pouco, feijão, melancia, macaxeira, peixes, tatu, paca, porco-do-mato, macaco, tartaruga, e jacaré. As caças dependiam muito do dia, e o que a gente mais comia mesmo era feijão e macaxeira. Para comer, usávamos tigelas de cerâmica produzidas por nós mesmos. Fazíamos também arcos e flechas, cestos, vasos de todos os tamanhos e facas.

Nascia o sol, levantávamos, e cada um começava a fazer alguma coisa. Algumas tarefas eram divididas entre homens e mulheres, mas não havia uma rotina rígida. Os homens caçavam, preparavam a terra, derrubavam as árvores e faziam as queimadas. As mulheres faziam a colheita, a comida, teciam as redes, e faziam os vasilhames e artesanatos. As crianças podiam tudo. Lidavam com facão, arco e flecha, ajudavam a fazer comida, brincavam na floresta e no rio. Os curumins tinham muita liberdade na infância.

Meus pais sempre viajaram muito, eram missionários e pesquisadores. Eles saíram do Rio Grande do Sul quando eu ainda nem tinha nascido e foram morar em Rondônia. De lá, meus pais decidiram ir para o Acre na aldeia Maronáua, e por lá passaram sete anos. Lembro que tinha uma brincadeira que as crianças adoravam. Fazíamos perna de pau. Para calçar as pernas, sentávamos nas casas que já eram altas, com palafitas de um metro e meio de altura. E as pernas de pau eram mais altas ainda. Tinha que apoiar nelas e ir embora. Apesar de não haver muitas condi- ções, eles montaram uma escola, centro médico e vivenciaram o dia-a-dia da aldeia.

De lá, mudamos para Rio Branco, São Paulo, Salvador e muitas outras cidades, até voltar para o Rio Grande do Sul novamente. Minha casa sempre tinha movimento de amigos e colegas dos meus pais. Em São Paulo, recebíamos muitas visitas de gente de todo o Brasil e do exterior. Falavam de política, cultura, movimentos indígenas e sociais. Sou também de uma família de leitores. Desde pequeno, presente de aniversário, Dia das Crianças e Natal era livro. Herdei da minha mana os livros infantis, como O Menino Maluquinho, alguns contos de Rubem Alves. E, como meu pai trabalhava como revisor de publicações, ele trazia do trabalho uma revistinha chamada Amigos das Crianças. Mais tarde, quando estava ficando esperto e cheio de porquês, meu pai assinou a revista Ciência Hoje para Crianças, que me enchia de idéia para fazer experiências em casa.

Fui bastante estimulado a ler, estudar, ver pouco televisão, fazer esportes. Isso me ajudou muito a ser uma criança que era comportada e comunicativa, fácil de fazer amizade. Além disso, minha família discutia de tudo na mesa de jantar, o que me ajudou a ser crítico em relação a injustiças e preconceitos.

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