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História

O saterê escritor

História de: Ozias Glória de Oliveira Yaguarê Yamã
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2008

Sinopse

Yaguarê Yamã nasceu no dia 3 de outubro de 1973, na aldeia Yãbetué, no município de Nova Olinda do Norte (AM), região dos índios maraguás. Sua mãe era maraguá e seu pai era sateré-mawé, de modo que ele pertence a esses dois povos. Depois de passar uma infância de muito contato com a natureza, nadando em rios e comendo frutas no pé, Yaguarê mudou-se para Parintins, onde começou os seus estudos formais e aprendeu a falar português. Mais tarde, ganhou uma bolsa para estudar Geografia em uma faculdade de São Paulo. Sofreu muito com o clima e a solidão na capital paulista. Vendo-se sozinho, passou a frequentar a internet, onde conheceu Renata, uma amiga internauta que acabou por se tornar sua esposa. Juntos, eles foram morar no Estado natal de Yaguarê, que nessa época já começa a escrever seus primeiros livros. Sendo filho de um contador de histórias, herdou o dom de contar e também de descrever com grande sensibilidade as histórias, as lendas e a cosmovisão de sua cultura. Seu livro Sehaypóri: o Livro Sagrado do Povo Sateré-Mawé foi um dos cinco títulos brasileiros escolhidos em 2008 para integrar o catálogo White Ravens, da Internationale Jugendbibliothek – a maior biblioteca de literatura infantil e juvenil do mundo (Munique, Alemanha).


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História completa

Eu sou, antes de tudo, Yaguarê Yamã, que na língua portuguesa significa Tribo de Onças Pequenas. Gosto muito de contar o meu tempo de criança na aldeia Yãbetué, povo de Maraguá. Eu sou desenhista, mas ninguém imagina, fora da minha aldeia, como eu aprendi a desenhar: com espinha de peixe, brincando do terreiro da aldeia! Pegava as espinhas de peixe, aquelas bem fininhas, e ia para o terreiro da aldeia e começava a desenhar na areia! Imitando animais, árvores, peixes, gente, comecei a gostar e desenhar e hoje eu acho até que desenho bem! Não passei por esses cursos que costumamos ver por aí! Sou um autodidata. A minha infância é muito bonita.

 

O meu povo, como toda a Amazônia, gosta muito de contar e ouvir histórias de “visage”! A gente aprende a lidar com os medos ouvindo essas histórias de fantasma.  Os adultos juntavam numa casa de palha e cada um tinha uma rede pra deitar e a narrar as histórias tradicionais! Quando anoitecia, a gente corria logo para lá e ficava entre as pernas deles, sentadinhos bem no centro, porque mais atrás já tinha medo do que poderia vir atrás! Eles contavam cada história! O problema era quando terminava e os adultos não estavam nem aí para a gente! De um lado é floresta e de outro lado também floresta, tudo escuro, só com a luz lunar e tendo que ir andando em fila. O primeiro prestava atenção para o que poderia vir na frente, o último prestava atenção para trás, qualquer vulto que aparecia nem avisava, saía correndo e a gente tinha que acompanhar na carreira também... Eu morava sempre do outro lado do terreiro, campo aberto, mas era escuro, e aí me dava medo, porque de repente vinha um coleguinha com medo e corria... E para entrar na rede tem que urinar antes! E aí estava o problema! Ter que ir lá fora no escuro, sozinho e nenhum coleguinha se prontificava para ir com a gente... Isso era um tormento, se poderia a gente nunca mais urinava na vida!

 

A nossa cultura não é de se comentar muito o que se aprendeu com a história. Aqui eu acho que o pessoal gosta muito de comentar: “Vamos lá, o que você aprendeu?”, lá não, a história e basta, a pessoa desenvolve o espírito. O meu pai foi o maior contador de histórias que já existiu. Ele já é falecido e eu tenho um livro chamado O Caçador de Histórias, que é em homenagem a ele! Todas as histórias fantásticas, de aventura e de medo que ele contava estão nesse livro. Ele respirava fundo e mergulhava nas histórias, como um portal de entrada para um mundo mágico, onde os animais fantásticos falam entre si, e nessas histórias, com certeza, a gente acabava aprendendo as coisas: por fábula. Acho que para vocês também, serve para a gente aprender lições de vida que a gente fica aprendendo.

 

A primeira vez que eu fui para a cidade, tinha uns sete, oito anos. Fomos numa canoa feita por uns trançados, como uma tolda de palha. Os homens é que tinham que remar, sorte minha porque eu ainda era criança e não precisava estar enfrentando sete horas de viagem, remando. E diferente dos brancos daquela época, a gente viajava por dentro dos lagos, que era mais rápido, era melhor, a gente não costumava remar a rio aberto, sempre pelos lagos. Quando chegamos em Parintins, umas seis para sete horas da noite, eu nunca tinha visto aquela quantidade de luzes, aquilo era um mundo novo para mim, foi, nossa, não digo que foi amor à primeira vista, mas foi uma coisa que me marcou bastante!

 

Quando meu pai faleceu, houve uma oportunidade de ir para Manaus. Sem emprego, mas mesmo assim eu fui. A gente tinha que vencer na vida, então fui para Manaus com meus quatro irmãos homens pra procurar emprego. Depois de três anos em Manaus, me perguntaram se eu queria tentar a vida em São Paulo. Era isso que eu queria, porque a minha intenção era crescer e ajudar o meu povo, acho que eu sou bastante ligado a isso, de procurar, de organizar as coisas, uma melhoria para o meu pessoal. E dessa maneira a gente veio, eu vim embora para cá.

 

Era minha primeira vez andando de avião e o meu irmão disse: “Olhe, tu vai para lá e talvez tu nunca mais olhe esta floresta. Trate de olhar essa floresta aqui porque eu acho que lá é tudo uma selva de pedra, então trate de olhar essa aqui porque é uma última vez que tu vai olhar!”, aí vem aquela dor! Do ambiente que a gente mais gosta, sair em busca de um sonho. Mas eu costumo não pensar muito no medo, acho que acostumei muito com as histórias de fantasma, por isso que eu não tenho tanto receio das coisas. Mesmo quando o avião levantou o voo, que dá aquele friozinho na barriga!

 

Cheguei em São Paulo e vieram me receber e não tinha ideia do que fosse o frio! Eu vim com uma camisetinha bem fina e cheguei num mês que estava muito frio, muito frio mesmo, e quando vi todo mundo usando roupa por cima de roupa e eu só com aquela camisetinha, e me perguntaram: “Tu tá com frio?”, e eu disse: “Não”, ainda nem sabia o que era frio, foi quando eu fui apresentado, aí eu comecei a ter frio, né?

 

Foi em São Paulo que eu conheci um amigo que eu gosto tanto, que é o Daniel Manduruku, um indígena que estava iniciando a carreira de escritor por intermédio de outras pessoas. E aí como abriram caminho para ele, ele também quis abrir caminho para mim. E foi assim, com as nossas conversas, que me ajudou no meu primeiro livro, Puratig: o remo sagrado, um livro infantojuvenil. Desde então, agradeço muito a ele e foi assim que eu comecei a andar nesse caminho. É muito boa a oportunidade de contar às pessoas da cidade como é nosso lugar, onde as pessoas da cidade não tem muita ideia, tem muito preconceito, falta de informação de saber como que é, e é por isso mesmo que eu faço isso com prazer, de escrever e de mostrar.

 

Um dia alguém me disse: “Olha, eu instalei internet para ti! Tu quer internet? Para conhecer as coisas tem que ter internet!”, eu não ligava para isso, mas depois conversando com os outros, me ensinaram aquela coisa de sala de bate-papo... Eu achava estranho esse negócio de conversar com as pessoas sem saber quem é, mas um dia eu entrei e comecei a conversar! Estava mesmo gostando do negócio, aí acessei de novo e veio uma pessoa chamada Renata conversar comigo. Conversamos bastante, a gente teve a ideia de trocar o telefone, eu dei o telefone de onde eu estava morando para ela, ela me deu o dela e pronto. Passamos um mês conversando por telefone e a tivemos coragem de se conhecer pessoalmente, lá no metrô Anhangabaú. Nossa, eu estava muito nervoso! Vi aquela moça e me deu vontade de voltar, mas eu falei: “Vou lá enfrentar!”.



Desde lá eu já fui mostrando as fotos da minha família, a Amazônia e acho que isso ajudou bastante ela se interessar por mim. Passando uns três dias ela disse que estava disposta a namorar comigo. Que legal! O tempo passou, ela me apresentou à família dela e acabamos casando. Minha esposa que conheci pela internet! Quando eu falo isso na minha terra, o pessoal não acredita, é uma coisa meio absurda para eles! “Como que conhece alguém assim sem ver?” Um dia eu perguntei para ela se ela gostava realmente de floresta, de mato, essas coisas, ela disse que gostava. “Você está pronta para ir?” Ela aceitou e fomos embora.

 


Sou um contador de história desde que eu me lembro! A gente gosta disso, de passar, de mostrar para os outros aquilo que o indígena pensa!


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