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História

O taxista faixa preta

História de: Manoel Bezerra de Vasconcelos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/11/2011

Sinopse

Hoje taxista, antes pizzaiolo, pasteleiro, e, antes de muita coisa, ceramista. A vida de Manoel passou por muitas profissões. Desde a primeira, na infância muito pobre na cidade pernambucana de Bezerros, em que precisava amassar o barro o dia inteiro desde os oito anos para ajudar os pais, até a consagração com um dos maiores mestres de artes marciais do Brasil. Começou com kung fu, foi para o judô e passou por muitas outras artes, tornando-se um especialista. Já defendeu o Brasil em campeonatos mundiais e já venceu muitos títulos. Essa história que começa sofrida, e de muita determinação, vale a pena ser conhecida por todos.

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História completa

Olha essa história! Enquanto eu esperava um passageiro num bingo na Mourato Coelho, fiquei vendo as máquinas, um monte de máquinas, e numa delas estava escrito: 40 mil reais. Quando ele desceu, perguntei o que era aquilo. “É o acumulado da máquina. Quer tentar?” “Não, obrigado, só tenho dez reais no bolso!” “Tenta a sorte aí, vai que dá certo?” Coloquei cinco reais, a máquina levou o meu dinheiro. Ele falou: “Aposta três, aposta três”. Peguei os três reais. Meti o dedo. A máquina foi, foi e foi. Quando chegou no número 66, com 30 bolas, a máquina gritou: “Bingo acumulado”. Falei na mesma hora: “Fiz alguma coisa errada?!” “Não, cara, você só ganhou 40.750 reais.” Ganhei 40 mil!

 

No dia seguinte fui ao centro e comprei um táxi completo, um Vectra 98. Fora isso, minha vida sempre foi uma luta. Meu pai, o João, era vaqueiro, e minha mãe, Maria Natércia, era pedreira. A gente morava num lugarzinho chamado Sairé, que na época pertencia à cidade de Bezerros, Pernambuco, e lá eu fiquei até 79. Só com 15 anos vim tentar a sorte em São Paulo. A vida era dura. Comecei a trabalhar com oito anos de idade, em cerâmica. O pãozeiro passava vendendo pão, um balaio na cabeça. Passava de manhã, a gente comprava o pão e pagava na sexta-feira, quando recebia. E tinha que dividir: comia a metade e guardava a outra metade, pois no almoço a gente sabia que não ia ter nada para comer.

 

Quando foi um dia, meu pai passou: “Filho, venha para casa, preciso falar com você”. Fizemos a rodinha, os sete filhos, e ele disse que tinha arrumado um emprego em São Paulo. “Eu vou, você fica cuidando dos seus irmãos.” Eu era o mais velho. Ele largou tudo lá e veio embora pro Sul. Isso foi em 1977. Aí passou 1978 e nem notícia do meu pai. As crianças adoeceram, eu estava desiludido – um rapaz com 15 anos, só trabalhando, passando fome. Um dia, eu estava amassando barro, umas duas horas da tarde, um sol quente. Foi nesse dia que realmente passei a acreditar em Deus. Olhei aquele sol e disse: “Olha, minha mãe fala tanto que tem Deus, né? Que lá em cima é o céu... Será que ele não está vendo que eu estou me matando aqui...?” E aí, nesse momento, justamente nesse momento, eu ouvi uma voz atrás de mim: “Filho...”. Que voz era aquela? Quando olhei para trás era o meu pai. Meu pai mesmo! Corri para cima dele, chorando que nem agora. Ele disse: “Vim buscar vocês”. Dois anos sem dar notícia! Ele tinha comprado um barraquinho de madeira, numa favela em São Paulo. Juntou todo mundo, os sete filhos, minha mãe, colocou a gente no ônibus, viemos para cá.

 

Cheguei semianalfabeto. Fomos morar no Parque Arariba, em Santo Amaro. Chegamos aqui, fomos para um barraco de tábuas. Como minha mãe era pedreira, ela falou: “Vão andar pela rua! O que acharem de tijolo, telha, madeira, tragam pra casa, vou transformar esse barraco numa casa”. Em seis meses, no meio da favela, minha mãe construiu um sobrado. O meu pai nunca soube ler nem escrever, por isso ele me falou assim: “Filho, passei em frente duma pastelaria. Tem uma placa lá, não sei o que está escrito, mas pela forma acho que precisa de empregado. Vamos lá?” Chegamos ao lugar. Entramos, vi um chinês – nunca tinha visto gente com os olhos puxados, não tinha chinês em Bezerros. Deu certo. Fui trabalhar com ele, com o Li Chow Fang. Ele quis me colocar no balcão, mas eu não sabia fazer contas. Eles gostaram de mim, me colocaram na escola. Disseram assim: “A gente veio de Hong Kong e também era pobre, os nossos amigos ajudaram a gente, os chineses ajudam uns aos outros, e se há uma coisa que a gente respeita são as pessoas que trabalham. Você só tem que me trazer notas boas”. A pastelaria chamava Sandakan e era no Largo Treze de Maio.

 

E então decidi que eu queria aprender chinês. A mãe do Li não sabia falar meu nome, disse assim: “Vasselos, tem que fazer tudo o que eu mandar, não pode reclamar”. Apanhou uma tigela cheia de amendoim torrado, dois palitinhos, ela pegava com uma facilidade caroço por caroço, colocava na outra tigela. “Quero que você faça isso. Não é força, é técnica.” Quando é no outro dia, a mesma coisa: “Vai ficar pior. Devolve palito de madeira”. Ela me deu dois de marfim. Tenho em casa os de marfim até hoje, um tesouro para mim. Levei exatamente 48 dias para transferir os caroços de amendoim de uma tigela para outra. Aí sim, ela disse que eu podia começar a aprender o mandarim, que é o chinês clássico. Fiquei dez anos na pastelaria. Aprendi a fazer massa de macarrão, massa de pastel, pastel, coxinha, quibe, esfiha. Um dia o chinês falou: “Vou casar, montar outro negócio, você vai tomar conta disso aqui”. Passei a gerenciar a pastelaria. E continuava aprendendo chinês.

 

Eu tinha um amigo do chinês que era mestre de kung fu. Ele me levou até uma academia. Estava com 16 anos; achei fantástico. Meu pai não queria, então comecei a treinar escondido. Em 1982, quando fiz 18 anos, fui campeão brasileiro de kung fu pela primeira vez. E o mais interessante: era iniciante, tinha dois anos e pouco de treinamento, fui lutar com um cara que tinha mais de seis anos de academia, um japonês; o cara era muito bom, mas eu ganhei. Fui me desenvolvendo ali e crescendo, crescendo.

 

Um dia, em 86, meu mestre me apresentou um amigo, mestre de judô. Foi lá no balcão, pegou um quimono, comecei o judô. Aperfeiçoei técnicas no judô que levei do kung fu. Em 1991, era campeão brasileiro e ia ter um Mundialito na China, me classifiquei. Peso pena, 56 quilos. Fui lá e tirei o quarto lugar mais honrado que se podia ter, o quarto lugar só perdendo para chineses, lá dentro do berço deles. Mas agora a história é outra, pois antes de Quando chegamos em Pequim, me apresentaram a guia. Eu era chefe de delegação, pois falava chinês. A guia falava português de Portugal. Fui à casa dela, me apresentou a família toda, inclusive uma engenheira, parente dela. Voltei para o Brasil no finalzinho de 91. Estava com o olho roxo, mas feliz da vida, pois tinha uma noiva chinesa

 

Em março de 92 larguei tudo aqui e voltei para a China, para me casar com a Zhao Nong. Nós nos casamos no sábado, 16 de março de 1992, em Pequim. Lá os noivos vão ao fotógrafo, tiram foto, daí vão à prefeitura. À noite, tem festa na casa da noiva, os convidados em traje chinês. Mas veio a outra parte. Casei com a moça, maravilha! E trazer a mulher? Precisava de visto. No consulado brasileiro me disseram que ia demorar. Voltei para o Brasil e deixei a mulher lá. Casado, mas a mulher ficou na China. Passei só uma noite com ela. O que eu tive de contras no casamento foi impressionante! Todo mundo: “Você é doido!”; “Não faz sentido, casar com mulher que nunca viu!” Não tinha lógica pra eles, entende? E eu a queria aqui legalmente. Até que conseguimos. Daí vou para o aeroporto, esperar a minha mulher. O voo chegou. Uma hora, duas horas, nada da Zhao Nong aparecer. Três horas depois sai um fiscal com a mulher: ela havia perdido as malas na Alemanha. Ficaram esse tempão pra descobrir isso. A mídia começou a estourar ali. Um monte de repórteres, queriam saber como era isso, casar com uma chinesa. Fomos morar em uma quitinete na Major Sertório. Então foi Globo Repórter, Esporte Espetacular, Sílvia Poppovic, Otávio Mesquita, Jô Soares.

 

Aprendi muito sobre os chineses. Eu já estava casado, chegando ao auge da minha carreira de lutador. Já não estava mais na pastelaria. Trabalhava numa lanchonete fazendo entregas. Teve um campeonato brasileiro, pedi ao dono pra me dar uma semana de folga. Fui lá, virei campeão e tal. Quando voltei, fui a um cliente habitual entregar lanche. Contei sobre o campeonato, e ele teve a ideia de me colocar na Folha de São Paulo. Chegaram o repórter e o fotógrafo, fiz uns movimentos; no dia 28 de fevereiro de 93, fui capa da Revista da Folha. Aí resolveram me ajudar durante um ano. O cliente da lanchonete ia me dar a hospedagem em qualquer país, o restaurante ia me dar alimentação, o jornal bancaria a passagem. Arrumei três patrocínios em um. Não tinha lucro financeiro, mas onde tivesse torneio eu ia. Isso caiu do céu. Aí veio a Copa Europeia, em Londres. Fui lá e ganhei. O interessante é que só tinha eu no pódio, porque os outros dois foram nocauteados por mim, não puderam subir. Bandeira brasileira, todo mundo de pé, você enche o peito: “Eu sou brasileiro”, maravilhoso. Mais tarde teve um campeonato em Los Angeles. Fui convidado e acabei campeão. E fui a São Francisco disputar a Copa Mundial de Artes Marciais, todas as artes marciais juntas. Então não tem coisa mais gratificante do que você sair daqui, ir lá pros Estados Unidos, subir num pódio com 52 países de pé, são representantes de 52 países de pé, pra ouvir o teu hino nacional, entendeu? “Campeão do mundo, Brasil.” Não ganhei um centavo por isso, mas ganhei a honra pro meu país. Nessa época, a gente não ganhava nada com as lutas. Tinha de trabalhar por fora.

 

Trabalhava na Folha, distribuindo jornal, da meia-noite às seis da manhã. Dormia até meio-dia, ia dar aula em Santo Amaro, numa academia. Das 14h às 15h30. Aí corria para a Cidade Ademar, para dar aula às 18h. Às 19h começava na lanchonete, trabalhava até 23h. E ainda tinha que treinar, sábado e domingo era para treinar. E tinha, no meio disso, uma família. Nossa primeira filha se chama Li. Li Zhao Fung de Vasconcelos. E a segunda se chama Ana Flávia.

 

Depois do judô veio o kickboxing, que na época se chamava full-contact. Depois do kickboxing, fui treinar boxe. Aí fui treinar tae kwon do. Quando cheguei, comecei já como faixa verde. Com oito meses ganhei a faixa preta do tae kwon do. Aí surgiu no Brasil o muay thai, o boxe tailandês, extremamente violento. Se você não for macho mesmo, esquece, vai apanhar. Em 95, já tinha cinco faixas pretas nas artes marciais e não tinha mais patrocínio. Em 98, eu ainda estava lutando e era campeão. Em 2000 sofri o acidente. Foi um acidente de moto, dormi na moto. Bati num carro por trás a 80 quilômetros por hora. Fratura exposta no maléolo, três parafusos. Veio um desânimo grande na minha vida, porque falaram: “Esquece artes marciais; pra você acabou”. Eu fiquei um ano andando de muleta. Psicologicamente aquilo acabou comigo. Tive vários empregos, me formei em Direito na Unip, há um bom tempo trabalho como taxista. Só as histórias do táxi dão um livro. Só que tem uma coisa, nas artes marciais você aprende: nunca pode desistir. Fiquei mais ou menos dez anos parado, de 56 quilos passei a 80. Certo dia vi uma luta na tevê, exposta numa loja. Era de karatê. O mestre lutava com touros – ele parava o touro no braço. Fui ao professor, mas estava gordo, não conseguia fazer nada direito. Comecei então o karatê keokushin. Cinco faixas pretas nas costas, voltei ao zero. Continuava trabalhando, seguindo a vida, mas precisava de um motivo. Foi o fato de voltar para o karatê que me deu isso. E meu objetivo agora é terminar a faixa preta de keokushin, que não é luta para qualquer um; terminar a de judô no ano que vem e a de jiu-jitsu. Tenho cinco, se conseguir essas três, serão oito faixas pretas. E com oito faixas dá para entrar no Guinness. Não acredito que alguém tenha oito faixas pretas.

 


Parece mentira, mas não ganhei dinheiro com as artes marciais. Hoje dá dinheiro, é diferente. Não pretendo envelhecer no táxi; é muito perigoso. O meu projeto é terminar as minhas oito faixas, juntar algum dinheiro e comprar o meu salão, a minha academia. E quero escrever um livro, tenho fé em Deus. A gente não leva nada daqui, pelo contrário, a gente deixa. Se eu fosse me resumir em palavras, elas seriam essas: lutar para vencer, acreditar no impossível, renascer das cinzas. As coisas mudam, tudo muda e tudo é possível, você só tem que acreditar. Que nem eu... eu tô acreditando nisso, eu acredito que isso vai virar um livro, eu quero que vire um livro, que vire uma história, daqui a dez, vinte anos, não sei se eu vou estar mais aqui. Eu quero que fique o que eu fiz, entendeu?


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