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História

O tempo é o senhor das histórias

História de: Tatiana Tibúrcio da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2012

Sinopse

Tatiana Tibúrcio nasceu no Flamengo. É filha de empregada doméstica e morou com avós até os sete anos em Casimiro de Abreu. Mudou-se para Niterói e depois Teresópolis, com a mãe e o padrasto, onde estudou num colégio de freiras, num conservatório e estudou teatro. Tatiana começou a trabalhar em várias companhias de teatro e criou um projeto artístico para autores e atores negros. Em Suburbia interpreta a personagem Amelinha.

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História completa

A minha árvore para na mãe da minha bisa, porque ela era escrava. Minha mãe diz que a bisa falava que veio da Bahia, e só lembra que passou por um túnel, e depois a vida mudou completamente. E eu fui criada na primeira infância em Casimiro de Abreu, com meus avós. Minha mãe era empregada doméstica no Rio, e depois que eu nasci só pude ficar com ela até o terceiro mês, depois eu tive que ir, porque a patroa dela não deixava.

Eu lembro que meu avô tinha um bar que ficava do lado da rodoviária de Casimiro de Abreu. Nossa infância foi meio ali, porque a gente morava nos fundos do bar. Eu tinha muito medo do meu avô. Ele andava sempre com chapéu Panamá, arrastando o chinelão pelo bar e pela casa, sem sorrir. A minha avó era uma gracinha, muito séria, firme, mas muito doce. Eu lembro da gente sentada na sala vendo TV, de repente vinha a minha avó e dava uma ajeitadinha no vestido. Era o jeito dela de dar carinho.

Minha mãe depois se envolveu com meu primeiro padrasto. Eles namoraram um tempo, e quando a relação tava firme, ele falou: “Traga a sua filha, vamos fazer uma família”. A gente era paupérrimo lá em Casimiro, era uma vida bem limitada, difícil. E quando minha mãe se casa, eu levo um choque cultural, porque eu vou morar numa cobertura em Niterói. Ele era engenheiro naval, chamava Fisher. Depois a gente se mudou pra Teresópolis. Fui estudar num colégio de freiras. E tenho péssimas lembranças. Detesto escola. A minha avó me ensinou a ler e escrever em casa. Eu cheguei preparada pra entrar na primeira série, só que a diretora da escola não acreditava que eu sabia ler e escrever, por questões raciais mesmo. O colégio era grande, muitos alunos, e os únicos negros da escola éramos eu e o filho do porteiro. Lembro que uma vez teve uma festa na escola, de final de ano, e como era um colégio católico tinha aquela representação toda. E a freira entrou na sala perguntando quem da nossa turma queria fazer a Maria. As meninas levantaram a mão e eu, logicamente, levantei também. Ela virou pra mim: “Não, Tatiana, você não pode fazer Maria”. “Mas por quê?”. Ela não respondeu.

Meu padrasto tinha uma coisa curiosa. Tudo que eu expressava de desejo criativo ele estimulava. Depois, com 11 anos ele morreu. A vida virou de cabeça pra baixo de novo. Eu saí do colégio, da casa, de tudo. A gente voltou a morar em Niterói. Foi um período confuso, porque um dia você tá dormindo numa casa com quatro quartos, e no dia seguinte nada mais é daquele jeito. Essas mudanças sempre foram muito complicadas pra minha cabeça, não pela questão material, mas pela questão da estabilidade. A vida nunca era uma coisa tranquila, linear, progressiva, era sempre um cavalo de batalha. Eu sempre gostei de teatro, porque quando eu tava em Teresópolis, uma das minhas atividades, além do conservatório, era teatro. Aí eu descobri a Martins Pena, por acaso, num anúncio de jornal. Eu falei pra minha mãe que queria fazer, aí ela falou: “De jeito nenhum”. Minha mãe não me deixava andar sozinha. Eu fiquei pau da vida, mas eu consegui dar um olé e fazer a prova. Três etapas: a banquinha, a prova escrita e tinha o bancão. Fui fazer o bancão e não passei. Voltei arrasada, ainda levei uma coça! Mas minha mãe é uma macaca velha, e ela tinha sacado há muito tempo que eu tava fazendo alguma coisa. Ao invés dela me reprimir, ela viu que era sério, e começou a procurar um curso que fosse mais perto de casa. E ela descobriu que a Françoise Forton começou a dar um curso em Icaraí. Lá eu descobri o que era fazer teatro de verdade. Conheci os meus primeiros amigos de teatro e o universo se abriu completamente pra mim, porque o teatro tem esse poder de ser agregador.

Acho que foi o primeiro lugar na minha vida que eu não me senti um bicho esquisito. Depois tive minha chance de fazer de novo a Martins Pena. E a Martins Pena foi outra mudança na minha vida. Era muito eclética, tinha gente de tudo quanto era lugar. Foi uma ampliação de horizonte indescritível pra mim. Na Martins Pena eu descobri a possibilidade de ser indivíduo, de fato. E era muito família na época. Eu expliquei que tinha perdido o emprego, e que eu não ia poder continuar na escola. A diretora: “Quanto você gasta de passagem na vida?”. Eu fiz um cálculo, ela incluiu mais um lanche na escola, e deu cento e vinte reais. Ela falou: “Então eu vou te dar do meu bolso cento e vinte e você, em troca, cuida do figurino da escola”. E no figurino eu fiquei. Eu reformei o figurino, consegui uma sala maior, criei araras, organizei, cataloguei.

Em 2003 o Cridemar falou: “Eu faço parte de uma companhia de teatro negro chamada Companhia dos Comuns, e parece que tá precisando de atriz”. E eu digo até hoje que o Cridemar me resgatou do castelo da Rapunzel, porque o figurino da Martins Pena ficava no último andar da escola. Eu entrei, fiz o teste pra companhia, passei. E aí outra virada na vida, porque eu fui entender o que era ser mulher negra. Tudo aquilo que eu sentia começou a ter lógica, ter contexto, já não era uma neurose na minha cabeça. Antes eu tinha aprendido que eu podia fazer parte, depois aprendi que podia ser indivíduo e ali eu entendi quê indivíduo eu era. Eu achei o meu lugar no mundo. Um sujeito negro. É fácil pra mim de entender, mas difícil de colocar em palavras. A gente passa a vida toda achando que é coadjuvante de uma realidade, que você tá ali pra cenografar a realidade de alguém. Ser sujeito negro é deixar de ser objeto. Depois da Companhia dos Comuns eu fiquei num limbo. E aí eu fui fazer uma participação numa novela chamada “Sinhá Moça”, onde eu conheci a Rute de Souza, que foi um presente na minha vida, porque ela era ídolo. Depois eu montei um projeto chamado Negro Olhar. Ciclo de leitura dramatizada com autores e artistas negros, que visa trazer à tona essa dramaturgia negra do continente americano. É um ciclo de leitura que tem show de abertura, a leitura dramatizada e um debate no final pra discutir aquele texto. Quando a Rute me explicou o que era o Suburbia, eu falei: “Eu tenho que estar nesse negócio de qualquer jeito”. E quando me ligaram dizendo que eu tinha passado, eu fiquei feliz como eu nunca tinha ficado pra trabalho.

No Suburbia eu quase fui para o céu. O Suburbia dá a oportunidade de a gente se representar como é e como queremos ser representados. Tem história. Tem uma árvore genealógica nessa parada. A gente tem início, tem meio e tem sequência. E a Amelinha é o meio, é aquela que pode ver tudo e pode estar em tudo, e auxiliar em tudo. A Amelinha é doce, sensual. E tem fé na vida, fé no sentido de acreditar. A Amelinha acredita, ela sabe que é possível, porque ela tem história e ela tem tempo, e o tempo é o senhor das histórias.

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