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Oncologia, o mergulho da Perséfone

História de: Nise Yamaguchi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2009

Sinopse

Desde muito jovem, Nise buscou estudar filosofia e compreender as questões mais profundas do ser humano. Quando escolheu ser médica, levou esses questionamentos para a sua profissão, a fim de tratar seus pacientes de uma maneira mais holística e humana. Ela é uma das primeiras especialistas em tratamentos de câncer no Brasil, e tem no currículo mais de oito mil histórias de pessoas que tratou e com quem se envolveu profundamente.

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História completa

Eu tenho uma relação profunda com a vida. A gente precisa olhar para dentro e abrir os olhos da alma, porque aí você vai enxergar a pessoa dentro de você, no seu coração, na sua mente, na sua memória. Procuro trabalhar essa essência. Assim, muitas vezes a morte é como se fosse um abrir de asas pra poder voar com mais tranquilidade. É muito mágico quando a pessoa se torna essa essência e fica bem com ela mesma. O amor de todas as pessoas em volta ajuda a construir essa ponte. Então eu acredito que a morte é como uma curva na estrada a não ser vista, como dizia o Jorge Luis Borges, porque a gente marca as pessoas e a gente guarda todas as marcas que nos foram impregnadas. Tem que ser muito grata a isso e viver com muita alegria. Então eu não trabalho a morte, eu trabalho a vida. Assim eu consigo, sabe?

Desde muito cedo eu sabia que queria ser médica. Não sei dizer de onde veio essa vontade porque as referências médicas que eu tinha eram muito pequenas e não eram ícones, não eram pessoas que seriam referências como comportamento. Fui a primeira médica da minha família. O meu nome é Nise Yamaguchi e sou oncologista.

Quando eu me matriculei na faculdade, comecei a fazer vários cursos paralelos: homeopatia, acupuntura, medicina antroposófica. Participava também da Liga de Farmácia, da Liga de Febre Reumática, da Liga de Combate à Sífilis. Aos sábados, trabalhava como voluntária na paróquia de São Judas Tadeu e lá eu aprendi a cuidar de gente. O geriatra Wilson Jacó chegava, sentava na mesa e falava: “Dona Maria, como é que a senhora tá?” e abraçava todo mundo, ouvia as histórias e se interessava pelas pessoas. Foi quando aprendi a encontrar o ser humano. Também nas Ligas de Combate à Sífilis onde a gente fazia a entrevista dos pacientes, conversava com eles nos ambulatórios voluntários.

Eu sempre ficava com o paciente até o final do dia para conversar com a família, que às vezes vinha às sete horas da noite, porque todos trabalhavam durante o dia. Alguns médicos ou assistentes falavam: “Você não tem que se envolver. Por que é que você se preocupa com isso?” E eu cheguei a conclusão que eu devia me envolver sim! Tive a sorte de uma amiga ter me trazido uma informação que existia uma médica suíça que morava nos Estados Unidos, a Elizabeth Kluber-Ross, que tinha escrito alguns livros sobre a relação com pacientes graves. Sobre a morte e morrer. E quando eu li o livro, eu chorava, sabia que ali tinha uma verdade e que ninguém estava preparado para lidar com os pacientes graves.

Me interessava pela medicina antroposófica, pela homeopatia e também pela medicina humanizada. Queria conhecer hospitais que tivessem uma outra visão do ser humano! Então, aos 23 anos, já formada, fui pra Alemanha e pra Suíça aprender uma medicina diferente daquela que eu via na faculdade. Fui trabalhar em hospitais na Floresta Negra, na Fielder Clinic, que era perto de Stuttgart. Lá, fiquei na cirurgia, na radiologia, na pediatria e na psicossomática.

Eles estavam desenvolvendo uma pesquisa num hospital ao lado que era um aparelho enorme e que eu nunca pensei que chegaria no Brasil: a ressonância magnética. Depois, quando fui morar em Basel para fazer um curso de humanização da medicina, eu ia no Instituto de Imunologia e na Universidade assistir algumas aulas. Tive a oportunidade de conhecer as pesquisas de anticorpos monoclonais quando eles estavam começando. Lá, dois Prêmios Nobel fizeram a pesquisa em linfócitos tipo T, então eram coisas da imunologia que ninguém sabia, nunca tinham ouvido falar no Brasil. Nessa busca da medicina humanizada, tive um contato com uma tecnologia de ponta extraordinária na Europa pra época.

Resolvi voltar pro Brasil. Pensei que aqui as coisas ainda estavam para ser feitas e na Alemanha elas já estavam feitas. Ao mesmo tempo, um grupo no Brasil me chamou para trabalhar com oncologia. Me perguntei se eu teria estrutura emocional e achei que, filosoficamente e pela minha percepção da vida e da morte, eu tinha o necessário estofo filosófico para poder ser médica oncologista.

Nessa época, 1980 e pouco, o câncer ainda era sinônimo de morte. Hoje em dia, nós temos muitas técnicas de detecção precoce. Não existia tomografia, não existia ressonância magnética. Ultrassons eram poucos. As biópsias, só com cirurgia. Cirurgias que não tinham toda estrutura que nós temos hoje. As UTIs estavam começando! Então existia um estigma de uma doença gravíssima que não tinha cura. E que você, enquanto médico, teria que lidar com situações extremas da vida e onde o seu limite seria encontrado com muita frequência. Então você decidir entrar numa área em que você sabe que não vai ganhar a parada sempre, exigia muita coragem. Eu tinha consciência do que isso significava.

Na minha concepção, a vida e a morte são faces de uma mesma moeda, ou seja, uma percepção filosófica de continuidade da vida. E se eu pudesse contribuir para que as pessoas ficassem bem, eu estaria muito feliz. Se elas não pudessem ficar bem, e pudessem ir em paz, eu também estaria cumprindo um determinado papel, que se imbrica no papel de médico curador. E eu sempre fui buscando a cura, sempre! Buscava tratamentos avançados, sempre fui atrás desse paradigma, porque eu achava que era possível ir além. Eu olho para um paciente, não penso: “Ah, esse paciente que estatisticamente tem tantos meses de vida...” Não. Eu penso: “Esse é aquele que vai superar e que vai além!” Pauto a minha vida por isso. A gente consegue ir muito longe exatamente porque você não acredita só nas estatísticas. Elas servem como balizador, mas elas não são determinantes do ser.

Uma frase que eu penso: “Contra as estatísticas, mas com a ajuda de Deus”, ou com os Deuses. Com aquilo que você tem de melhor. Então vamos buscar na ciência, vamos buscar no indivíduo, na força estruturada da família, na comunhão dos amigos. Você tem que ter coragem para olhar para um paciente e enfrentar aquela situação junto. Se você não tiver essa capacidade, dificilmente vai conseguir ter uma liga humana que permita superar os momentos difíceis.

Eu aprendo a ser grata fazendo aquilo que posso para contribuir com o mundo. Aprendi que realmente o câncer tem cura, desde que você detecte precocemente. Então eu luto muito para que a gente faça a detecção precoce de câncer. Além disso, o potencial inimaginável de cada ser humano é impressionante! Ela não tem noção o quanto  é importante para uma comunidade inteira. Muitas vezes a própria pessoa descobre que é mais amada do que pensava, ou que a luta dela não é uma luta solitária, que ela tá representando ali para aquele universo de pessoas, uma referência. Então eu aprendi o valor do cotidiano, o valor das coisas simples: como é gostoso poder comer, fazer uma digestão, como é gostoso poder respirar, como é gostoso poder falar, pensar, se movimentar. E isso é algo que a gente descobre, infelizmente, quando falta. Então eu procuro tornar a vida das pessoas mais agradável, sempre.

Uma outra coisa também essencial é que quanto mais a pessoa tiver dentro dela a vontade de viver, mais ela pode ter chances de superar as questões difíceis. Então existe algo que nutre o ser humano e que permeia a sua trajetória. Ela precisa ter vontade de viver. Capacidade de se adaptar a situações difíceis, mas também algo que venha da essência do ser humano. A vida é quase palpável. A gente consegue de certa forma ter essa percepção. Então os pacientes, eles me ensinam isso: o valor das coisas simples, das pequenas coisas. Oncologia, para mim, é uma história de amor. Uma história de você se envolver profundamente, como um mergulho como a Perséfone faz: entra e sai junto.

Editada por Carolina Grohmann

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