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História

Páginas de um sobrevivente

História de: Luiz Alberto Mendes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/08/2009

Sinopse

Luiz Mendes começa o seu relato relembrando a sua origem, e logo fala que nasceu de uma “maneira meio torta”, pois é fruto de um namoro proibido pela família, já que seu pai era casado com outra mulher. Relembra do momento em que morava com seu pai, que o maltratava. A situação ficou insustentável e começou a fugir de casa pra ir às ruas, aos onze anos. Começou a roubar e foi preso. Após ser solto com um pouco mais de dezoito anos, começou a participar de grandes assaltos, homicídios e em pouco tempo teve seu veredito dado pela justiça: mais de 100 anos de prisão. Na Casa de Detenção foi o primeiro momento que entrou em contato com os livros, através de outro detento, que começou a contar a história do livro “Os Miseráveis”, pelo encanamento do banheiro. Assim, Luiz começou a tomar gosto pelas histórias, pela literatura, e após mais de 30 anos preso, saiu e se tornou escritor.

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História completa

P/1 – Bem, a metodologia do Museu, a gente pede pra você dizer seu nome completo, a data e local de nascimento.

 

R – Luiz Alberto Mendes Júnior, nasci em quatro de cinco de 52, em São Paulo.

 

P/1 – Fazer aniversário a semana que vem.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Nascido em São Paulo?

 

R – Fazer 55 anos.

 

P/1 – E Luiz, qual é o nome dos seus pais?

 

R – Luiz Alberto Mendes, obviamente né, e Eida de Oliveira Mendes.

 

P/1 – E qual que era a profissão dos seus pais?

 

R – Minha mãe era copeira e meu pai motorista de praça, motorista de táxi.

 

P/2- Você tem irmãos?

 

R– Eu tenho irmão por parte de pai, que não foi criado comigo.

 

P/2 – E você tem ligação com ele hoje em dia, não?

 

R – Eu tive, a ultima ligação que eu tive com ele foi um encontro, a gente conversou e tudo. Mas eu tenho aproximação com a filha dele. A minha sobrinha, que é filha dele, hoje é meu braço direito, é a pessoa mais próxima de mim, chama-se Carla Fonseca Mendes, tem até meu sobrenome.

 

P/1 – E ela trabalha com você?

 

R – Não. Ela é uma secretária e trabalha num banco, mas ela é meu braço, quando eu preciso de qualquer coisa, como ela é secretária, tem acesso, telefonia, e-mail, tudo, ela tipo me assessora. Como é pouco o que eu faço, é pouca a minha produção, então fica fácil pra ela.

 

P/2 – Luiz, voltando um pouco agora na sua infância, você nasceu aqui em São Paulo, viveu aqui a sua infância, passou aqui a sua infância. Como foi esses primeiros anos de vida, o que você pode nos conta da sua vida em casa, de como era a sua casa, a dinâmica ali com os seus pais, a relação com os seus pais...

 

R – Bom, eu vou começar contando uma historinha pra vocês que é bem explicativa de como era a situação. Havia uma moça que estudava naqueles colégios protestantes de 1950, por aí e tal e lá vai bolinha. E aqueles colégios eram internos e protestantes americanos. Então só no fim do ano que ela vinha ficar com a família, colégio interno. E essa moça veio passar com a família um fim de ano e as irmãs dela levaram ela pra conhecer um baile e tal e no baile ela acaba conhecendo um cara que dança muito bem e acaba se apaixonando, resumindo rapidamente, se apaixona pelo cara e começa a namorar. Aquele tempo o namoro tinha que ser em casa, namorava-se em casa, aos olhos da família. E a família tinha que saber quem era o cara, e a família foi procurar saber quem era o cara. E descobriu que o cara era casado e tinha um filho. E a família proibiu o namoro. Aí o cara contou uma história bem contada pra moça, que não gostava da mulher, que a mulher não prestava, que era uma vagabunda, não sei o que, não sei o que e tal. E a moça acabou jogando as coisas pela janela e saindo pela porta como quem vai pra padaria e foi embora com o cara, e foi morar com o cara. A família procurou, a mãe procurou e quando a mãe encontrou ela estava grávida. Como era recente a mãe deu dinheiro pra ela tirar a criança, porque àquele tempo, aquela criança se nascesse primeiro seria considerada bastarda, não podia ser registrado no nome do pai, porque o pai era casado, por lei não podia ser. Então só podia ser registrado no nome da mãe e pai desconhecido ou ignorado. Já seria carimbado, já seria pai desconhecido, essas coisas. Pela família também, toda a família rejeitava o bastardo, havia um preconceito, hoje em dia nem dá pra entender uma coisa dessa, mas naquele tempo era uma coisa bem palpável. Então por conta disso e pelo fato de que a família não acreditava naquele relacionamento. Um cara, um homem casado, com uma moça e tal, ninguém acreditava que pudesse ir pra frente um negócio daquele. O negócio era minimizar o problema, então tirar a criança era uma solução. E ela deu dinheiro e a moça tirou a criança. Passado algum tempo, ela engravidou de novo, aquele tempo não tinha anticoncepcionais. Não tinha quase nenhum tipo de maneira conceptiva, anticonceptiva, negócio da lua, não sei o que e tal. E a moça ficou grávida de novo, a mãe deu o dinheiro, ela foi e tirou de novo. E numa terceira vez ela ficou grávida de novo, a mãe deu o dinheiro e quando ela era, no momento de tirar, como era recente a gravidez dela, ela tinha um armarinho desses de cozinha todo cheio de espelhos e de luzes assim e tal, muito bonito e ela achou que ela devia comprar aquilo. E que o rapaz, o cara, o marido ia receber o dinheiro aquele tempo, do salário dele e tal. E daí ela tirava, então comprou o armário e aquele tempo não tinha essa ideia de crediário que tem hoje, tinha que se comprar tudo à vista. E comprou o armário e quando ela foi esperar o cara receber o cara foi desempregado, não tinha dinheiro pra tirar e aí nasceu o cara. Esse cara sou eu, eu já nasci desse jeito assim, de uma maneira meio torta. E vai por aí a fora, começa uma infância que até os seis anos de idade eu era tido como um débil mental, considerado como um débil mental porque eles me colocavam num canto e me deixavam ali e eu ficava ali quieto sem dar trabalho pra ninguém, eu não perturbava ninguém, eu não dava trabalho nenhum, parecia um bobalhão que ficava ali mexendo com as coisinhas e tal. Enquanto as outras crianças brincavam, eu não. Eu não tenho lembrança desse tempo, minha mãe que conta.

 

P/1 – Você não ia pra escola, não?

 

R – Aos sete anos fui pra escola. E na escola virou de santo, que eu era tido quase como um santo, porque um moleque que não dá trabalho, um santo. Aí quando virou, virou o diabo. Eu em contato com as outras crianças, quando relaciona com o mundo, o negócio virou e eu virei o diabo, de comportamento. Aquele tempo só tinha duas, dois tipos de notas, aplicação e comportamento. Aplicação era a nota das matérias e comportamento era como o cara se comportava na classe, comportamento era muito importante, era cinquenta por cento de... Você tinha que tirar, na média de comportamento e aplicação você tinha que tirar uma média de cinquenta, que é de cinquenta a cem, de zero a cem, pra você passar de ano. E era a maior dificuldade pra mim, porque de comportamento, se de aplicação eu sempre ia muito bem, nunca precisei fazer lição de casa nem nada, eu estudava, eu aprendia, o que na sala de aula me passava já tava suficiente, mas de comportamento eu era um dos piores alunos da classe. Eu era complicado, eu dava trabalho, eu tinha uma das piores notas. Então era vinte, trinta, zero, chegou a zero de comportamento. O dia que eu bati na professora foi zero. A professora veio me bater, eu agredi ela. Aquele tempo a gente apanhava da professora, apanhava com tapa na cara, “plaft”, na cara.

 

P/2 – Como é que foi essa história?

 

R – O que?

 

P/2 - Essa história da briga com a professora.

 

R – Ixe rapaz, eu tive várias brigas com vários professores. Nunca aceitei apanhar de ninguém, nunca aceitei que ninguém me batesse, nem meu pai. E meu pai me espancava como eu fosse um cachorro. Meu pai era alcoólatra, ele enchia a cara de pinga, todo dia ele enchia a cara de pinga e chegava super alcoolizado, batendo e brigando com minha mãe, comigo. Até desmaiar, ele desmaiava de tão bêbado. E aí a gente arrastava ele pra cama e ele, “ah filho da pu,” ia xingando, e jogando os braços assim, acertando nós. Nós era, minha mãe... Minha mãe tinha um metro e quarenta e dois. Ela com doze anos teve meningite e não cresceu mais, só se desenvolveu e não cresceu mais. Então tudo nela era delicado, a mão, as duas mãos dela cabiam numa única mão minha. O rostinho dela era uma bolinha, o pé dela era número trinta e dois, tinha que mandar fazer, porque era pé de criança, só fazia sapato pra criança. E eu era pequeno, então a gente tinha que arrastar aquele monstro para a cama e aquela coisa toda. Ele chegava em casa eu ia me esconder na casinha do cachorro, quando ele desmaiava daí eu saía, aquele inferno. E os dois brigando que nem gato e cachorro, porque o cara além de alcoólatra era mulherengo. Ele passava dois, três dias fora de casa e voltava com aquela história de que foi preso que não sei o que e tal. Todo cheio de marca de batom, todo fudido de mulher. O cara era da gandaia, o cara era gandaieiro, boêmio, bom dançarino, era professor de dança, um cara que se dava muito bem, boa pinta e tal. Foi uma guerra entre os dois e aquele ambiente terrível em casa. Você queria saber... O que que você perguntou?

 

P/2 – Eu perguntei da briga com a professora, mas continua falando...

 

R – Então, daí isso aí vai repercutir na minha situação, a situação familiar vai repercutir na escola. E por conta disso, você vê que eu assimilava. Hoje em dia eu tenho... Puta, é uma coisa terrível a questão do exemplo, da educação, eu percebo que o educa, o exemplo, é quase tudo. Você falar não adianta nada, você fazer que é importante, o que você faz continuamente é que fica gravado na mente da criança. Eu tenho dois filhos, eu tenho um de doze e um de sete e aí eu vejo eles, só assim que eles funcionam.

Eu aprendi a fumar roubando cigarro do meu pai, eu aprendi a beber bebendo do fundo do copo do meu pai, eu aprendi a ser violento, arrogante, metido, valentão, com o meu pai. Porque meu pai era assim, meu pai era valentão, meu pai era de brigar, encarar tudo. Nunca vi meu pai apanhar de ninguém, eu só vi o meu pai bater, grande, pequeno, qualquer tamanho, meu pai batia em todo mundo. Na vila meu pai era o bam bam bam mesmo. E eu tinha o maior orgulho dele por conta disso. E aí como motorista de praça, pra você ter uma ideia, um dia ele pegou um cabo de machado, desse tamanho, e aí serrou, ele foi por, esse pedaço aqui ele pôs ao lado do carro dele e falou “esse aqui é pra bater nos gaiatos”, ele falava que todo mundo era gaiato, “nos gaiatos que aparecerem por aí pra querer levar uma comigo e tal”. O outro pedacinho eu pus na minha bolsa da escola e é do mesmo jeito com todo mundo. Quer dizer, paulada nos outros, sabe? Quer dizer, e aí vai, na escola era a mesma coisa, a professora veio me bater, ela deu um tapa por aqui, eu dei para o outro lado e aí ela veio pra cima, eu engalfinhei com ela, rolamos no chão e tal. Fomos parar na diretoria, aluno e professora tudo arrebentado, com a cara arranhada, tudo machucado e foi o maior buxixo. Fui expulso da escola.

 

P/2 – Você tinha quantos anos nessa época?

 

R – Ah eu tinha onze anos. Eu tava fazendo admissão, admissão ao ginásio. Tinha saído do quarto ano primário, tinha eliminado o curso primário, que tinha naquela época. Tinha entrado na preparação, admissão pro ginásio. Aí fui expulso do colégio barão, colégio, colégio Manuel da Nóbrega ali no bairro do Belenzinho, na Vila Maria Zélia, ainda existe a Vila Maria Zélia.

 

P/1 – Onde que você morava quando você era pequeno?

 

R – Vila Maria city.

 

P/1 – Vila Maria...

 

R-  É, bairro da Vila Maria.

 

P/1 – Aí você passou a sua infância...

 

R – A minha infância toda ali, adolescência também. Quer dizer, adolescência também não. Porque ao fim da minha, é incrível, mas era um moleque precoce pra caramba. Eu, aliás é uma coisa que hoje eu procuro na literatura de psicologia, procuro bastante a respeito, porque ao tempo que eu era um… Depois dos sete anos eu era um moleque hiperativo, antes eu não era, e como é que de repente eu passei a ser hiperativo? Eu era hiperativo, eu descubro na literatura, hoje, como, inclusive como os hiperativos são tratados atualmente, há uma preocupação com essas crianças. Eu era um moleque assim e sou até hoje. Eu sou hiperativo até hoje, eu não paro, eu não consigo parar. Eu durmo quatro, cinco horas por dia e o resto do tempo eu tenho que fazer qualquer coisa. Vivo fazendo, vivo. Agora no momento presente eu tô envolvido em pelo menos dez projetos, dez situações, porque a minha cabeça tá em todas elas assim. É um monte de coisas e eu tô envolvido em tudo e eu adoro isso. Descobri recentemente que isso aí é o motivo da minha vida, isso é tudo que eu quero da minha vida.

 

P/2 – Luiz, antes da gente entrar na adolescência, deixa eu só recuperar duas ou três coisinhas da sua infância.

 

R – Pois não.

 

P/2 – Uma, depois de você contar essa situação familiar sua, fala um pouquinho sobre a relação que você tinha especificamente com a sua mãe, enquanto criança, ali em casa.

 

R – Minha mãe era uma criatura ao tempo que, difícil, muito fácil pra mim, porque ela não tinha carinho, uma pessoa que não era, ela era bruta. Apesar de pequena ela era bruta, não era uma mulher carinhosa de ficar pondo a mão. Eu nunca pus a mão, nunca fiz um carinho nela físico, nem ela em mim. Mas havia um carinho diferente, nos olhos, nas atitudes. Ela sempre foi por mim. Ela me visitou vinte anos na prisão, e só parou de me visitar quando teve o derrame. Foi por mim a vida toda, eu sou filho único dela, e a vida toda dela assim, a correria dela era por mim. E ela lamentava, lamentou a vida toda dela, ela lamentou quando ela era jovem, quando eu era menino, quando eu era criança, por não haver dado linha na pipa e abandonado o alcoólatra e ido comigo viver uma vida, dar uma chance pra mim. E era uma pessoa, trabalhou, você vê, ela aos quarenta e sete anos de idade ela arrumou um trabalho. E aí é que ela se considera, a partir daí é que ela se considera mulher. Até então ela achava que ela era um capacho do cara, que o cara mandava, desmandava e ela fazia só o que o cara... E morria de medo do cara. Quando começou a trabalhar, ela começou a se relacionar com o mundo. Ela trabalhava na Guaporé veículos, numa revendedora de veículos. E aí ela começou a se relacionar com as pessoas e começou a ir para o mundo. Começou a se definir como pessoa, como identidade, aí que ela se tornou uma puta duma mãe. Até então ela tinha sido uma mãe, mas não era uma mãe que eu podia oferecer diário, que eu podia oferecer alguma coisa substancial a nível intelectual. Mas daí pra frente minha mãe passou a ser uma pessoa incrivelmente companheira. Eu já tava preso a muito tempo e tava sofrendo bastante, já tava lendo muito, muito, muito e ela lendo comigo também, me acompanhando lendo, tudo que eu lia, eu acabava de ler, eu tinha, fazia toda a correria da cadeia pra arrumar o livro pra ela ler também, mesmo que fosse emprestado. E ela lia, e eu nunca gostei de novela, eu ia assistir a novela que ela assistia exatamente pra no dia da visita comentar com ela. Ela vinha toda... Quando eu não tinha mulher, não tinha companheira, ela vinha toda semana. Quando eu tinha alguma companheira ela vinha de quinze em quinze dias. Eu sentava ela no canto da minha cama, ela chegava mais ou menos nove horas da manhã, eu sentava ela no canto da minha cama, ela vinha na minha cela, na minha visita, sentava no canto da cela. E aí a gente começava, eu ficava andando pra lá e pra cá, a gente ficava conversando, conversava cinco, seis, sete, oito horas, quanto tempo fosse, e sem parar. E super ativamente, alegremente. Falando sobre livro, sobre novela, falando sobre família, sobre pessoa, sobre ela, sobre eu, sobre passado, sobre presente. Minha mãe foi assim, a pessoa que me manteve durante muitos anos no estado de luta contra a alienação. Recente eu li um texto duma peça de um puta amigo meu, do Fernando Bonassi, e ele fala, no fim da peça que perdemos tudo. O texto fala sobre perdermos, perdemos tudo, perdemos a vergonha, perdemos tudo, perdemos até a consciência da nossa alienação. Quer dizer, o problema é esse, quando se perde a consciência de que você é alienado, daí você boiou mesmo. E eu não tinha essa consciência, hoje tenho sim, tenho consciência de que sou alienado e que tento de alguma forma suplantar isso e vivenciar algo melhor que isso, mais consciente e profundamente.

 

P/2 – Luiz, interessante, a gente vai chegar nesse ponto da sua prisão e tal. Mas antes, na sua adolescência, você foi expulso do colégio, você tinha uns onze anos. Conta um pouquinho pra gente sobre a sua adolescência, os amigos, namoradas, brincadeiras, a vida, sua vida social na adolescência.

 

P/1 – Depois que você foi expulso, você voltou a estudar?

 

R – Voltei, eu voltei, era colégio particular, porque admissão era particular, não tinha admissão do governo.

 

P/2 – Pode falar. Adolescência, escola...

 

P/1 – Depois que você foi expulso você voltou a estudar no colégio particular.

 

R – É, admissão era em colégio particular e continuei, voltei pra outro colégio, colégio Barão de Mauá e tal, fiz o primeiro ano ginasial. Mas eu já estava muito envolvido com a cidade. A cidade de São Paulo, as suas luzes, as suas cores. E eu fui estudar de noite, era na Avenida Celso Garcia, no Brás, próximo do centro. Então vira e mexe eu cabulava aula, ia pra cidade ver a noite, ver as luzes da cidade. E eu via os moleques lá tudo solto, tudo na rua à vontade tal, legal. Eu achava que aquilo era liberdade, que eu queria aquela liberdade, eu queria aquele espaço, eu queria ninguém mandando em mim. Meu pai mandava muito em mim, ele enfiava madeira, ele batia muito, ele me zuava. Eu e meu pai nós nos odiávamos profundamente. Ele, ao fim e ao cabo ele já não tava precisando nem de motivo pra me bater, ele batia a torto e direito. Aí era um ódio terrível e uma situação insustentável. Até que eu fui, eu comecei a fugir de casa aos onze anos e fui fugindo, daí o juizado me pegava na rua, o juizado de menores pegava na rua, havia os comissários, naquele tempo as crianças, moleque menor de idade não podia tá na rua. Se tivesse, a polícia pegava e levava pro juizado, as pessoas denunciavam. E eu comecei a viver pedindo pras pessoas, porque tinha aqueles restaurantes pra fora das calçadas em São Paulo, naquele tempo, e eu comecei pedindo comida pras pessoas pra sobreviver, pra comer mesmo, e as pessoas davam. Só que as pessoas, naquele tempo, tinham uma preocupação muito grande com as crianças. Eles queriam saber onde estava a minha mãe, “cadê sua mãe moleque?” “e aí, você tá fazendo o que aqui, cadê sua mãe?”, “onde que você mora?” e já começava a querer saber, já contava mentira e eles não acreditavam, aí já chamava a polícia e já queriam saber. Eles incrementavam, queria que o moleque desse um jeito, quer dizer, aliviar a consciência. Tinha uma certa consciência de não ver o moleque na rua. Isso aí foi a... Com o tempo acabou, hoje em dia ninguém tem consciência de mais nada, todo mundo vê e ninguém quer saber de mais nada. E aí eu vim, daí eles prendiam, mandavam pro juizado de menor, no juizado de menor eles mandavam pro plantão, chamado SACS, era uma instituição pra menores até dezoito anos de idade, até catorze anos de idade. E ali a princípio eram os menores, quem tomava conta da gente eram os funcionários, os comissários, mas quem realmente tomava conta eram os outros, as crianças institucionalizadas, criadas no instituto modelo que era lá no fundo da Celso Garcia. As crianças que ninguém queria e que o governo criava, eles colocavam ali pra cuidar da gente. Só que esses caras não queriam cuidar da gente, eles queriam é comer a gente, eles queriam é tomar tudo que a gente tinha. E a chave ali era fugir, fugir ou ter que apanhar deles, batiam bastante na gente. E aí pra fugir tinha um muro alto, então tinha que ficar um em cima do outro. Então o terceiro que pegava no muro, o terceiro dava a mão pro segundo e o primeiro era o trouxa que ficava ali, que entrava na história. E eu a primeira vez, fiquei ali, apanhei pra caramba dos caras, da polícias, dos menores e tal, apanhei muito. Na segunda vez já tava lá em cima. Fugi com o moleques da cidade. E com os moleques da cidade eu comecei a aprender a roubar. Aprendi a roubar e com o tempo já não a roubar pra sobreviver, mesmo, pra comer, pra arrumar as coisas pra gente se adiantar e tal. E aí comecei...

 

P/1 – Como que era isso? Onde que vocês...

 

R – Por exemplo, em feira. Tinha umas feiras na cidade, a feira da Consolação por exemplo, atrás da Rua da Consolação, mas chamada a feira da Consolação. É, ali a gente tinha... As pessoas naquele tempo, era como amarrar cachorro com linguiça. As pessoas iam na feira, as mulheres iam na feira e largavam a casa aberta, confiando, e a gente entrava na casa e, ó, a gente fazia arrombamento com cabo de vassoura, não precisava nem de chave de fenda, de tanto que as pessoas confiavam. Era só uma chave, aquela chave caixão, era deste tamanho assim que a gente abria até com, até com clipes a gente abria a porta das pessoas. Era muito fácil aquele tempo. E a gente entrava nas casas das pessoas pra... Não era bem pra roubar, era mais pra vandalizar mesmo. Era pra rasgar, rasgava o estofado, cagava na geladeira, rebentava tudo, rasgava tudo, detonava a casa da pessoa. Já com um certo ódio, porque a gente era muito judiado no juizado. Então a gente achava que alguém tinha que pagar por aquilo. E quando a gente saía e quando a gente via oportunidade, a gente juntava três, quatro moleque, a gente saia vandalizando mesmo, judiando. Pegava bêbado na rua, desmaiado, a gente jogava fluido de isqueiro, que naquele tempo tinha, os isqueiros usavam fluido, jogava fluido de isqueiro no cara e tocava fogo pra ver os caras saindo gritando e correndo pegando fogo. Maldade mesmo, juntava os moleque, começava, danava a fazer maldade, maldade por maldade. E foi rolando assim, de treze, catorze, quinze anos e os caras, e ir preso e soltava, e ir preso e soltava, daí vai pro pau de arara, e tortura no DEIC e tortura nas delegacias. Daí começa a fazer arrombamento, daí começa, as coisas começam a ficar mais sérias, começa a ficar ladrão profissional mesmo. Já a polícia tá querendo dinheiro, a polícia tomando dinheiro, toda vez que pega, quer tomar dinheiro, quer bater e tomar dinheiro, bater o tomar dinheiro, bater e tomar dinheiro. Aí tem, já tá roubando pra dar pra polícia, pra não apanhar, pra poder num ficar na rua. Até que chega um momento que aos dezoito anos fui preso e fiquei acho que dos dezesseis até os dezoito e meio.

 

P/2 – Mas Luiz, só um segundo, antes disso, dos treze até os dezesseis quando você não tava lá na instituição do juizado, você retornava pra sua casa, você ficava na rua, como é que era?

 

R – Às vezes, eles traziam pra casa da minha mãe, aí eu ficava ali uns dias, aí meu pai já exigia, porque já não estudava mais, meu pai exigia que fosse trabalhar. Aí eu ia pra cidade, arrumava, pegava o Diário Popular, ia ali pra Praça da Sé e pegava os classificados, emprego de office-boy. Como era esperto, bem falante, eu conseguia a vaga tranquilamente, conhecia a cidade bem, minha vó morava ali perto da Liberdade, então conhecia bem a cidade. E aí passava um mês, dois meses trabalhando na empresa, aí quando eles deixavam uma chance de depositar muito dinheiro no banco ou deixavam o cofre marcando e tal eu “vrupt” no dinheiro e linha na pipa. Ia lá pro Rio de Janeiro, ia pra Santos e viajava, ficava dois, três meses longe. Aí voltava na maior cara de pau, tirava outra carteira de identidade de menor, como se não tivesse acontecido nada, outro emprego. E aí eles chegavam em casa. Ih, era “mó boi” porque eles iam em casa, uma vez quiseram até tomar a televisão da minha mãe, uma vez quiseram levar o pai preso e tal. Era a maior confusão, já arrumava. Puta eu ficava feliz da vida quando os caras problematizavam pro meu pai. Eles achavam que meu pai era culpado, que meu pai tava ganhando alguma coisa com isso. Porque daí o crime, eu passei a ganhar muito dinheiro. Eu passei a ganhar muito, como ladrão, eu, como menor de idade, como moleque, com treze, catorze, quinze anos, ganhava muito dinheiro. Porque é o seguinte, eu aprendi a bater carteira, a abrir bolsa, naquele tempo as mulheres não acreditavam que a pessoa podia abrir a bolsa dela, enfiar na bolsa dela, arrancar e ainda fechar a bolsa dela, as mulheres não acreditavam. Essa onda aí começou em mil novecentos e setenta, as pessoas começaram a acreditar que era possível isso. Até então as mulheres deixava a bolsa aberta assim, “pô, deixei a bolsa aberta, caiu a carteira”. Não acreditava. E aí eu entrava pela Rua Direita dum lado e saia pelo outro com dez carteiras dentro dos bolsos. Eu roubava, saia roubando uma atrás da outra assim, uma mulher atrás da outra. Entrava num ônibus pra um lado, do outro lado saia com quatro, cinco carteiras e ia embora. Era muito dinheiro, era muita coisa, era muita facilidade. Ia pros bairros, a gente chamava “fazegoma”. Tempo de fim de ano, todo mundo descia pra Santos e abandonava a casa, mansões, os caras abandonavam. Eles entravam nas mansão e ficava três quatro dias depredando as mansões do cara. Depredando mesmo, rolando nas mansões, usando a mesa só como banheiro, e fazendo o diabo mesmo. Coisa de moleque mesmo. A gente não... A gente arrumava muito dinheiro, a gente andando de pé no chão. Roupa tudo bacana e tal, tudo fora de número, comprava fora de número, não conhecia número de roupa, e com pé no chão. Revólver na cinta, a gente roubava muito revólver nas casas. Revólver na cinta e pé no chão. Molecagem mesmo. Era o que chamavam delinquência juvenil na época. E não, tinha noção de crime de pá, de bandido, de quem é bandido, nós não tínhamos noção disso. Tinha noção de que a gente gostava de curtir mesmo, zuar. O filme que me identificou muito foi “Laranja Mecânica”, muito parecido com aquilo, muito, muito, muito, negócio louco mesmo.

 

P/2 – E como é que a coisa foi ficando mais séria? Você falou que ficou dos dezesseis aos dezoito preso. Como foi isso?

 

R – Ah, eu com dezesseis anos me envolvi em situações mais sérias, complicações muito sérias de arrombamento, de homicídio, envolvido com os outros. E aí eles mandaram pro juizado e aí eu tive que ficar até os dezoito, eles exigiam que eu ficasse até os dezoito anos. E aí com dezoito, ainda demorou mais e tal, eu com dezoito e meio eles me soltaram e eu vim pra casa, maior de idade já. Só isso, mais nada. Eu fiquei dois anos e meio ia só crescendo, crescendo em ódio, crescendo em cultura criminal. Porque lá eles não ensinavam nem... Não havia nem o primário lá, não havia preocupação de nos ensinar, nem o fundamental. Não tinha preocupação nenhuma. Era só mesmo pra nos depositar lá, enterrar vivo e esperar que nós completasse dezoito anos pra nos soltar na rua. Quem tomava conta de nós era PM, não era nem funcionário, eram os PM mesmo, de borracha na mão, aqueles cacetete na mão, nos levava na cacetada. E era assim, era guerra. E eles nos dominaram até quando nós começamos a perceber que eles eram poucos e nós um montão, que se a gente catasse eles, não tinha jeito. A gente era em duzentos, trezentos moleques, eles eram meia dúzia de PM. Ah, quando nós percebemos isso, nós tomamos o juizado várias vezes, e nossa senhora, quando eles pegavam a gente eles judiava de nós, mas também quando a gente fazia rebelião e pegavam eles, pela madrugada, voava cabelo mano, voava cabelo. Era um desespero pra esses caras aí, eles terem que ficar, passava mal na mão da gente.

 

P/1 – E Luiz, você queria, nessa época, você queria trabalhar com alguma coisa, você tinha...

 

R – Trabalhar nada, eu tava totalmente vinculado ao crime. É uma situação assim, o ser humano produz cultura, somos homem culturalis, produzimos cultura. Aí você pega as pessoas vindas de cada um do crime, provindas de cada um com o seu modo operantis, cada um com a sua maneira criminosa, a sua atuação criminosa e tal, e coloca tudo no mesmo lugar, imagine que tipo de cultura vai se criar daí, já que ele vai obrigado. É a cultura do crime, bicho. Então o moleque que entrou lá roubando o shampoo no supermercado vai sair sabendo como é que se compra o fuzil. Outro dia, recente tive no programa do Lobão fazendo entrevista e nós conversando, daí ele falou assim, “pô, é verdade o que ele tá falando porque eu fui preso, em três meses que eu fiquei preso, eu não sabia de nada, eu saí de lá em condições de comprar um fuzil ou um quilo de cocaína”. E é verdade você, lá dentro é a cultura do crime, você sai aculturado, você sai com contato, você sai com relacionamentos, você sai. Porque é isso que acontece, porque a sociedade não entra lá dentro e não oferece nenhum tipo de outra cultura pra, de alguma forma, o cara ter alguma opção, o cara ter alguma alternativa. O cara ali dentro não tem alternativa. Como ele é produtor cultural ele tá num meio, num caldo cultural, a ele só resta a cultura do crime. Então ele está condenado, de predador ele passa a ser vítima, vítima duma cultura que quando ele sair aqui fora ele está condenado a viver a vida dele todinha entre aqui fora e lá dentro, aqui fora e lá dentro. Ele fica muito pouco aqui fora e quase o resto da vida lá dentro, porque essa coisa impregna de uma tal forma que ele sai aqui fora e ele tá cometendo situações que ele nem sabe, assim quase como um cachorro salivante de Pavlov.

 

P/2 – Mas e aí com dezoito anos e meio você sai do juizado já maior de idade...

 

R – Eu saí, já saí bandido, já sai querendo ser bandido, ser assaltante, já não queria ser ladrão só, não. Eu queria dominar, eu queria me criar, eu queria ser o bam bam bam mesmo. Queria poder, queria dinheiro, queria ser o bandido mesmo. Queria a fama, queria o conceito de bandido, gostava disso, amava isso.

 

P/2 – Você se lembra do dia que você saiu, com dezoito anos e meio, exatamente aquele dia?

 

R – Eu não sei o dia não, sei que foi agosto de mil novecentos e setenta, de mil novecentos e setenta e dois, mil novecentos e setenta.

 

P/2 – Mas aquele dia, você se lembra o que aconteceu, o que você fez...

 

R – Oito de agosto. Eu me lembro exatamente o dia que eu saí. Porque eu vim, eu vim lá de Mogi Mirim, eu tava no internato lá de Mogi Mirim, não era internato não, lá era cadeia mesmo. Mogi Mirim. E aí quem me trouxe, como eu já era maior de idade, quem me trouxe foi uma diretora que até gostava de mim, me trouxe de carro, ao invés deu vir de carro de preso, ela me trouxe no carro dela. Então passamos ali pela [Avenida] Brigadeiro Luiz Antônio, onde tinha um prédio do juizado e ali ela parou e eu fiquei, e ela entrou pra dentro com o motorista dela e eu fiquei sozinho no carro dela. Aí ela ligou o rádio, “se quiser aumentar e tal”. Aí eu liguei o rádio, tava tocando uma música do Paulo Diniz, aquela assim “I don’t want to stay here, i want to go back to Bahia. Eu tenho andado tão só, quem me olha nem me vê, silêncio em meu violão, nem eu mesmo sei porquê. Via em teu site eu mando notícias minhas para o Pasquim, beijos para a minha amada que tem saudades e pensa em mim. I don’t you like sei here, i don’t to back to Bahia”. Lembra dessa música? Então eu lembro perfeitamente desse momento, essa música associou ela a liberdade, a sensação de liberdade. Quando eu escutei ela chorando mesmo assim e tal. Pensando “puta, tô livre, caramba, e agora, o que eu vou fazer?”. Nem sabia o que eu fazia da minha liberdade, só sabia que eu queria viver pra caramba.

 

P/1 – Luiz, e aqui em São Paulo, que lugares você gostava de ir, o que você gostava de fazer, aqui em São Paulo?

 

R – Primeiro, quando era moleque era aqui o centro de São Paulo. Depois que passei de maior também o centro de São Paulo, os grandes bailes, os bailes que tinha aqui. Porque meu tempo de juventude, anos setenta,71, 72, eu frequentava muito os bailes aqui. O São Paulo Chique, até o Caçamba, o Som de Cristal, ah, o baile dos Campos Elíseos, os bailes do Eduardo, eu frequentava os bailes da cidade todinha. Eu curtia muito São Paulo, curtia a cidade. Isso depois de passar de maior. Disputava, era tido como malandro, então ia nos lugares onde os malandros tavam e disputava com os cara. Tinha uma mulher que era show, então os caras ficavam tudo “ahhh”, eu gostava do auge, dos nomes que os caras dava. E curtia essas ondas aí besta, de criminoso mesmo, uma ilusão tão grande, um sonho tão besta, depois a gente vai perceber que tudo é bobeira do caramba, uma molecagem.

 

P/2 – Tem alguma pessoa especial na sua vida nessa época, uma namorada, um amigo do começo da juventude aí, final da adolescência?

 

R – Não, nenhuma pessoa que eu me lembre. A única pessoa que eu me lembro mais ou menos, quando eu tinha já dezoito anos, chamava-se Isabel Cristina da Silva, era minha mulher na época. Era uma mulata, puta, ela era bem maior do que eu, ela tinha um tipo assim, mulata. Aquele tempo tinha as mulatas do Sargentelli, umas mulatas com o corpo muito bem feito e ela era desse tipo. E ela cantava, ela cantava em boates, um puta de um mulherão e eu era um molequinho. Eu fui crescer, eu fui me desenvolver fisicamente na penitenciária depois dos vinte anos de idade, eu cheguei na penitenciária eu era o menor preso que tinha lá, eu era bem pequeno. Eu cresci até os trinta anos de idade, eu fui ter barba com trinta anos de idade. E aí, essa mulher foi muito significativa, porque ela era meia louca e as loucuras dela era, puta era muito legal. As loucuras dela iam muito de encontro às minhas e foi um momento, foram momentos muito legais, até o momento que quase que a gente se matou, eu matar ela, ela me matar. Mas foi muito legal, essa mulher marcou muito na época.

 

P/1 – Essa foi a primeira esposa ou vocês só se juntaram?

 

R – Não é esposa, é uma companheirinha que eu tinha na época. Esposa eu tenho, eu tive depois, eu casei tudo.

 

P/2 – Mas essa primeira, você nunca mais ouviu falar dela depois?

 

R – Ela morreu, eu soube notícia que ela morreu em mil novecentos e setenta e cinco, bêbada, atropelada em Santos. Eu soube, a última informação que eu soube dela.

 

P/2 – Luiz, a gente tava falando do seu período quando saiu do juizado, dois dezoitos aos vinte anos. Dá um resumo desse período pra gente.

 

R – É o que eu chamo de período de ferro. É o período que eu “iludidão”, terrivelmente iludido com a cultura do crime, eu estava terrivelmente aculturado, sempre terrivelmente. E aí, nesta mesma dimensão de terribilidade, se existe essa palavra. Então eu andava com uma arma de um lado da cinta, outra arma do outro e uma sacola cheia de bala do outro. Eu andava armado 24 horas, até pra ir ao banheiro eu andava armado. E aí vivia trocando tiro com a polícia, a polícia atrás de mim eu dando tiro neles, eles atrás de mim e eu enquadrilhado e fazendo assalto, roubando e vivendo com um monte de mulher, uma mulher aqui, outra mulher ali e confusão daqui, confusão dali. E dando tiro num, dando tiro no outro e assaltando aqui, assaltando a boca de fumo aqui, assaltando fulano ali e zuando aqui, fazendo o diabo. Eu tava, e tomando muita, aquele tempo a gente usava muito remédio a base de anfetaminas. Então tomava demasiadamente esses, tudo o que tivesse anfetamina, tomava, tomava, eu passava dois três dias acordado, eletrificado. 24 horas com carro roubado pra baixo e pra cima. A gente ficava três, quatro meses com carro roubado aquele tempo, não tinha problema, a polícia nem enchia o saco. A polícia vinha em cima da gente, dava tiro, eles saiam correndo. Depois começou o negócio de ROTA (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar), daí eles começaram a matar a gente, daí já era. Mas até esse tempo aí a gente dominou São Paulo, durante um tempo a gente dominou, de noite a polícia nem saia muito na rua porque se saísse a gente dava tiro neles. E a gente que andava na rua de carro, aqueles “dodgão”, aqueles “opalão”. Até que depois de vários tiroteios com a polícia, num desses tiroteios eu fui preso. Fui preso, mas também nesse tiroteio baleamos dois policiais, e os policiais ficaram em situação difícil e eu fui preso na hora e já sabendo, já tava sendo procurado, já fazia um ano que os caras tavam atrás de mim. Eu sabia que quando fosse preso eles… Porque eles iam me matar, eles já tinham falado isso. Eles invadiram duas vezes a casa de minha mãe, dando tiro e aí eles falaram pra minha mãe “ó, agora a gente não quer mais pegar, a gente quer matar, a gente quer matar porque tá dando tiro na gente, já baleou duas vezes a gente e tal”. E até que chegou o momento que eles deram tiro, deram tiro, mas não me acertaram. Eu tomei seis tiros, eu tenho seis balas no corpo, eu tomei, eu tomei oito tiro, mas eu tenho ainda seis bala no corpo, tenho, duas que eu não tenho certeza, eu acho que é quatro ou são seis, eu não tenho certeza porque fui baleado com quinze anos, tomei dois tiros com quinze anos aqui, nessa região aqui e eu desmaiei e nunca soube o que aconteceu de fato. Eu só acordei, eu tinha dois buracos aqui e eles tavam cuidando de mim. Eu fugi do hospital, mesmo baleado, consegui, me recuperei na rua, andando na rua, esburacado e tudo. Bom, e fui preso, daí veio a tortura, a polícia queria saber tudo que havia... E eu tava, aqueles tiras [caras] que nós baleamos, a gente tava na mão da equipe deles do assalto, na equipe dois do assalto. A gente tava na mão dos cara, um mês depois os caras saíram do hospital, tava na mão deles. E os caras torturam nós três [durante um] mês e meio, todo dia, todo dia eles batiam, era pau de arara, pau de afogamento, pau de esculacho, pau de tudo quanto é jeito. Me arrancaram as unhas do pé e da mão. Minhas unhas do pé, todas as duas do dedão nascem encravadas, elas entram pra dentro da carne sempre, eu tenho todo mês que ir no podólogo. Na cadeia eu tinha que ser o meu podólogo, quantas vezes, eu arranquei três vezes unha infeccionada, porque infecciona sabe, se não cortar. Aí infecciona, tem que arrancar com operação e tudo. Coisa séria de sofrer pra caramba. E arrancaram as unhas da mão também, aqui assim a palmatória, penduraram, os caras batendo aqui, arrancaram tudo, saiu tudo. Minhas mãos ficaram assim, meus pés ficaram assim. Eu passei um ano sem ter uma ereção, porque eles amarravam, eles tinham dois fios na maquininha de dar choque, um fio eles pegavam a glande, abaixava, aí pegava, passava em volta da glande assim, o outro fio enfiava no cú, e dava choque. Eu fiquei... Meu pinto queimou todo. Eu fiquei um ano sem ter ereção, pensei que nunca mais. Uma situação ficou, foi muito difícil. Pó, pra gente vim pra cadeia sabe o que aconteceu? O meu companheiro Bala matou um cara dentro do xadrez, o primeiro cara que dormiu, nem sabia quem era. Ele pegou um osso de galinha, afiou a ponta do osso de galinha, o cara dormiu, ele enfiou no ouvido no cara e com o salto do sapato sentou o pau no cara, o cara ficou assim daí ele pegou a toalha e enforcou o cara. Ele nem conhecia o cara, ele foi e enforcou, matou o cara, pra se autuado em flagrante e poder vim pra cadeia pra não ficar mais na mão dos caras lá no DEIC, ele já tava enlouquecendo. Esse cara, passado algum tempo, vai se enforcar na cela forte de Venceslau, não, de Avaré. Nós viemos em quatro pra cadeia, dois ficaram loucos, esse se enforcou, eu sou o único que saiu sadio.

 

P/2 – Mas aí do DEIC você foi pra cadeia já, você foi pra cadeia direto?

 

R – Fomos pra cadeia já, mandaram a gente pra cadeia, já cheio de processo, que eles arrumaram, nós assinamos processo até, de montão. Latrocínio, assinamos, latrocínio e latrocínio de polícia, nós matamos polícia. Deu trinta anos pra cada um, logo de cara, primeira pena foi trinta anos cada um. Eu cheguei a ser, tá condenado a cento e trinta e dois anos.

 

P/2 – E qual foi o presídio?

 

R – Eu comecei tirar cadeia na Casa de Detenção, daí matei um cara na Casa de Detenção, oito meses que eu tava lá, matei um cara lá. Daí eu fui pra penitenciária pra tirar castigo, lá também matamos, matei mais um cara lá, inconsequência desse aí.

 

P/2 – Você quer contar um pouco sobre isso, essa...

 

R – Não, isso aí não é importante, são coisas desimportantes de um passado que já foi. Eu falo assim, eu não gosto muito nem de conversar sobre isso porque é um passado já bastante remoto, é uma coisa que já não significa mais. Eu gosto, eu falo pra mostrar pras pessoas que mesmo que a gente chegue ao fundo do poço, porque eu cheguei ao fundo do poço, tanto da violência, como da estupidez, da ignorância, de tudo que você possa imaginar, mas eu continuei humano. É isso que eu sempre procuro mostrar. Eu mostro aonde fui, onde me afundei, depois também mostro de onde eu saí. Porque é até lugar comum, muito batido e tudo, mas aquela frase de que não é o rio que deve se condenar por se caudaloso, e sim as margens que tornam ele caudaloso porque ninguém leva em consideração. É mais ou menos assim. A minha situação era muito difícil desde que nasci. Eu não tinha outro, não tinha outros parâmetros, eu podia ter sido outra pessoa. Realmente eu tenho certeza que eu poderia ter sido um outro moleque, um outro cara se eu não fosse quem eu sou. Sendo quem eu sou só podia dar na merda que deu. Eu não aceito opressão, eu não aceito ninguém por cima de mim, não aceito ninguém mandando em mim.

 

P/1 – Mas Luiz, então conta pra gente como foi que você começou a sair desse mundo de...

 

P/2 – É, a volta por cima, como começou?

 

R – Então, isso aí começa mesmo na prisão. Porra, é incrível porque mesmo no mundo do crime eu excedia, um criminoso não queria saber de nada, eu queria saber de tudo. E aí de repente, nesses crimes aí, eu chego lá na cela forte, condenado a tirar um ano de cela forte, primeiro eu fui condenado a tirar seis meses de cela forte. E cela forte, aquele tempo, era cela forte mesmo, as paredes vertiam água e tinha uma porta lá de ferro, um negocinho pro guarda ficar vigiando a gente, um guichê pra ele por comida, a porta de ferro, a janela aqui atrás era uma chapa de ferro com furinhos milimétricos e tal, isoladão ali. E não tinha nada. Não podia ter uma bíblia, não podia fumar, não podia nada. Eu peguei um castigo de um mês por causa de uma bituca de cigarro, eles me deram mais um mês de cela forte. Agora outra vez pegaram eu com três cigarros, me deram mais um mês de cela forte. Uma vez falando, mas porque eu falei “oi”, o cara me deu mais um mês de cela forte. Eu fui pra tirar seis meses, tirei um ano. E numa dessas daí, o cara da faxina passou e falou assim: “ô meu, liga o telefone”. Falei, “telefone, que porra de telefone é esse daí que vocês tão falando?”. Eu já escutava falar, porque eu fui pra cela forte quando eu cheguei, eu não conhecia o sistema da cadeia, eu não cheguei a conhecer a cadeia, a penitenciária. Eu já cheguei já “pumba!”, cela forte. E aí eu não sabia nada, “telefone?” E aí o cara falou “é o boi”. O boi é a privada. Aí eu vou lá na privada, “mas ligar a privada?” Só se for tirar a água pra esse encanamento e tal, pode ser, o cara tá lá e tal. Aí fui lá, fui tirar, jogando a água e pra jogar a água não vai, então tinha que tirar com a caneca, porque só tinha, não tinha nem torneira, nem água na cela. Então eles deixava uma caneca de plástico que eles vinham, pagavam água, os copos da água pra gente tomar e a gente deixava a caneca cheia pra tomar durante a época que não vinha lá pagar água, ele pagava duas vezes por dia. Aí que a caneca, tirei a água, depois vou tomar, foi daí que escutei os barulhos. Daí comecei a tirar assim, aí quando escutei: “ô, ô, quem tá ligando o telefone?”, o telefone era a privada. E aí, “ô, sou eu”, “eu quem?”, “Luiz”, “tá, aqui tal, ah eu moro em frente de você”. Era o cara que morava no mesmo corredor que eu, do outro lado da cela forte. Então ele lá tirava a água da privada e pelo encanamento da privada ele entrava em contato comigo. E só esse cara aí, não tinha mais ninguém pra trocar ideia. Mas porra, eu já tava há um monte de dias sem conversar com ninguém. E eu era moleque, rapaz, eu tinha vinte anos de idade, eu tava acostumado com a gandaia pesada. Mesmo na Casa de Detenção era gandaia pesada, eu fumava maconha o dia inteiro. Eu na Casa de Detenção tomava picada, ampola de preventil o dia inteiro. Eu fazia o diabo, eu ainda era o diabo na cadeia. Eu traficava, eu fazia o diabo dentro da cadeia, eu assaltava dentro da cadeia, assaltava os caras na cadeia, os outros. O que eu era na rua eu era na cadeia. Não tinha negócio de domínio, e aí é o seguinte, não tinha negócio de facção também, é salve-se quem puder, tinha que ser, tinha que pegar pela frente e homem a homem, não podia de dois pegar um, daí né, aí era mais suave pra quem fosse homem. E aí esse cara começou a trocar ideia comigo e esse cara começou a falar de livro. Cacete, porra, mas eu nunca li um livro na minha vida, nunca tinha lido um livro na minha vida, que livro o cacete! Não quero saber de livro, eu mal sabia ler, mal sabia escrever direito, porque eu tinha ido até admissão, mas porra, fazia um monte de ano, mas de dez anos que eu nem “tchum” num livro, queria nem saber, nem lembrava mais como é que lia direito. E o cara começou a contar história e eu não gostava, mas só tinha o cara pra conversar. E aí conversando, aí daqui a pouco ele começou a contar umas história de livro que me interessou. E o primeiro livro que ele me contou foi os “Les Miserables” do Victor Hugo. Livrão que eu sei, é dessa grossura assim, setecentas e cacetadas de páginas. Ele me contou em episódios porque não podia conversar, era de madrugada. A luz apagava nove e meia, batia o sino, blem, blem, vinte e uma vezes. Aí apagava a luz, aí pá, aí meia noite acendia a luz, era a contagem, o guarda passava fazendo contagem e tal aí apagava a luz. Duas horas da manhã e às quatro horas da manhã, de duas em duas horas acendia a luz e eles passava fazendo contagem. Então quando apagava a luz a gente ligava a privada e ficava trocando ideia, acendeu a luz a gente ficava tipo fingindo que tava dormindo. E aí em episódios ele foi me contando aquela história. Depois, quando eu fui ver o livro, o livro se tornou absolutamente desinteressante, porque o cara contou com uma dramaticidade, bonito pra caralho. Aquele cara... Como é o nome do personagem?

 

P/1 – Jean Valjean.

 

R - Jean Valjean, puta, aquilo é riqueza do caramba. Mas que miséria, que desgraça, aquela vida, aquilo lá não existiu, aquilo é muito mentira. O romantismo, o período romântico da literatura é mentiroso demais, eu acho muito mentiroso, os caras excediam na mentira, por isso que não foi muito longe. O realismo “tum”, já entrou e já, vai, vai pra lá e já era. Nunca mais se ouviu falar em romantismo, nunca mais, nem hoje não se cria mais sobre romantismo. Vai ser romântico hoje na terra dos irmãos Campos, não tem nem jeito, não se cria. É, bom...

 

P/1 – Então esse foi o primeiro livro que você conheceu, que você ouviu?

 

R – É, é, aí começou. Aí ele contava, ele foi me contando. Nós moramos uns três ou quatro meses assim, no mesmo encanamento da privada, na mesma ligação privadial. Às vezes, a gente tava lá, bla, bla, bla, aí vinha aquela descarga lá do quinto, porque eram cinco andares né, vinha aquela descarga “brum”, e aquele cheirão. Peraí que embaçou, embaçou. Aí voltava e tava aquele cheirão, puta, daí o Henrique falava: “eu vou ficar tuberculoso desse jeito”. Porque acho que chamava Henrique Moreno esse cara. Foi meu amigo minha vida toda. E aí quando eu saí do castigo esse cara me mandou duas pilhas de livros, o que pra mim foi fundamental, um rascunho de uma carta pra minha mãe. Fazia uns dois anos e meio pra três anos que eu não via a minha mãe, não tinha contato com a minha mãe. E eu era filho único dela, só tinha eu e eu sabia que minha mãe tava sofrendo muito por não saber onde eu estava. Eu não tinha condição de fazer uma carta pra minha mãe, eu não tinha. Esse cara fez o rascunho, eu passei a limpo e mandei pra minha mãe, minha mãe respondeu toda emocionada, daí eu dava pra ele, fazia rascunho, passava a limpo e pá. E assim foi umas dez cartas. Até que chegou o momento que ele não conseguia traduzir o que eu queria dizer pra minha mãe, a minha intimidade com a minha mãe ele não tinha nada a ver. E o negócio dele era ficar elogiando com poesia, não sei o que, não sei o que. E eu e minha mãe não tinha nada desses negócios de elogio, de carinho, essas palhaçadas não tinha. E eu comecei a modificar, e modificar até que chegou um ponto eu to... Fica a vontade, fica a vontade com suas cartas aí tal, eu já conseguia trocar ideia com a minha mãe. E aí começou com a minha mãe, depois começou com outras pessoas que minha mãe foi me trazendo. Daí eu conheci um cara do, chama Grupo dos Missivistas Amigos, era um grupo, um círculo de pessoas que se propunha a trocar ideias com pessoas aprisionadas, ou hospitalizadas, ou em sanatórios, em situações muito difíceis e por carta, por correspondência. Aí eu conheci o Danilo Lopes que era o diretor, o criador e através dele já me colocou em contato com um monte de gente e me colocou em contato com uma professora que tava se formando em letras, na época. E essa professora… Eu me apeguei excessivamente a essa mulher, eu fiquei apaixonado por essa mulher. Comitantemente to lendo, eu comecei a ler, porque eu saí do castigo da cela forte, mas fiquei mais seis meses em regime de observação na mão da psiquiatria. Sem poder ir pro recreio, sem poder receber visita nem nada. Então eu comecei, ali que eu comecei a ler. Primeiro comecei com quinze minutos e doía a cabeça, e doía tudo, os olhos e tal. Depois mais quinze, vinte, trinta, quarenta e pá, pá, pá, quando eu percebi eu já tava lendo doze horas por dia, eu lia o dia inteiro e, e nove e meia apagava, a maldita da luz apagava. Nossa, minha briga na penitenciária sempre foi essa, a porra da luz apagar nove e meia. Eu tinha vela pra acender, eu acendia vela, eu arrumava lampadazinha desse tamanhinho e punha, fazia uma carreira deste tamanho de pilha daquelas pilhas pequenas, desse tamanho e botava a lâmpada ali, a lampadazinha ali pra ler e tal. Porra, mó luta pra poder ler de noite, mó guerra mesmo, mó guerra com os funcionários também, porque os funcionários ficavam enchendo o saco, minha cela era cheia de livro e eles queriam revistar, então o livro atrapalhava a revista, então eles guerreavam, eles queriam levar meus livros e eu não deixava. Eles levavam num dia, eu ia buscar no outro, ia na diretoria, fazia a maior catimba por causa de livro. E aí o funcionário da biblioteca que recebia os livros que chegavam pra gente e davam os livros pra gente, vira e mexe chegava caixote de livro pra mim daí o cara: “mas como você vai levar esse monte de livro pra cela, você não vai ler tudo”. Eu falei: “não, é tudo meu, eu quero tudo, é meu, é meu”. Fiquei louco por livros, virei um bibliomaníaco terrível, até hoje, até hoje sou assim. Hoje já não roubo livro mais, mas eu tinha o costume de roubar livro, onde eu visse livro marcando, livro pra mim não era roubo, cultura não tem crime, vale tudo por cultura, marcou com livro eu tava levando. Hoje tá mais tranquilo com isso que eu tenho livro suficiente, mais do que suficiente pra ler, tenho uma biblioteca imensa. Tenho uma parede de livro desse tamanho aqui, tudo pra eu ler, que eu não li ainda.

 

P/2 – Conta, fala de alguns livros importantes pra você nessa primeira fase de contato com a leitura.

 

R – Ah, eu acredito que um dos mais importantes foi “Sidarta” do Hermann Hesse. Esse livro foi fundamental pra minha concepção de vida, entendimento, algumas coisas e foram fundamentais. Outro livro também que mexeu demasiadamente com a minha cabeça, vai ter que ficar assim por enquanto... Mexeu demasiadamente com a minha cabeça, chama-se “Um Homem” de uma jornalista italiana chamada Oriana Fallaci, puta de um livro incrível também.

 

P/1 – Fala sobre o que esse livro?

 

R – É contando a história de Alexander Panagoulis, um revolucionário grego que tentou matar o Papa Golos, um ditador grego e tal, o cara ficou cinco anos preso, conta toda a história dele. Mas é incrível, o cara era homem pra caramba, me espelhei muito nele. Tem muitos livros que me empolgaram demasiadamente. Um livro que mexeu muito comigo foi da Simone Beauvoir, “O Segundo Sexo” também, mas o que mais me mexeu foi “A Convidada”, um livro que mexeu muito comigo na época. Alguns livros do Albert Camus também mexeram muito comigo, “O Estrangeiro”, “A Peste”, na época me impressionaram. A trilogia de Sartre também, “O Exílio”. Ah, é toda a história de Mathie, eu não me lembro o nome dos livros agora, mas também mexeram muito comigo, eu fui me envolvendo muito com o existencialismo. Assim, nem levado por ninguém, simplesmente por uma paixão que eu já tinha, não sei da onde que provém, pela França. Eu aprendi a ler francês, eu não sei falar, eu aprendi a ler, eu lia fluentemente, eu lia quase todos eles no original, eu tinha amigos. Escrever eu não tenho condição, mas eu lia, fluentemente, mas não conseguia falar e não conseguia ouvir, porque eu aprendi só a ler, não aprendi a... Ninguém nunca falou comigo e eu nunca falei com ninguém em francês.

 

P/1 – E dos brasileiros, têm algum...

 

R – Ah, brasileiro eu... Assim, eu começo pelos... Uma pessoa que pra mim é muito importante é o Érico Veríssimo. Um dos primeiros, acho que os primeiros livros que eu li foram dele. Um dos primeiros, “Olhai os Lírios do Campo”, pra mim mexereu. A trilogia dele do “O Tempo e o Vento” também, eu li ela umas duas ou três vezes, também foi muito importante pra mim é... Tem mais alguns, tem alguns mais importantes ainda. Tem um cara, Graciliano Ramos por exemplo. Algumas pessoas tendem a dizer que a minha escrita é muito parecida com a dele, no que eu puta, eu me orgulho muito e acho que nem mereço. Mas eu tenho uma admiração muito grande pelo texto dele, pelo enxugamento que ele tem no texto. Eu li recentemente ele dizendo que uma palavra existe pra dizer e não pra enfeitar. Eu acho muito bonito o tipo dele, eu até copio demais, eu calço os meus texto muito nisso, eu enxugo demasiadamente, eu procuro. Meu, eu tive um livro agora, meu último livro “Às cegas”, ele foi um dos finalistas do concurso Jabuti do ano passado. E assim, mas eu sei porque ele chegou ali. Eu reescrevi ele três vezes, a minha editora me fez reescrever ele três vezes da primeira palavra a última palavra, completamente. Fiz trocentas revisões no livro. O livro chegou ao que ele chegou porque ele deu trabalho. Eu sei que o conteúdo daquele livro tá muito bom, sei que ele não é o melhor, mas porra, é muito trabalho, mas eu...

 

P/2 – E como esse livros todos chegavam até você lá na cadeia?

 

R – Primeiro os livros chegavam através da biblioteca, tinha uma biblioteca muito boa na penitenciária do estado, enorme. E os clássicos tinham todos, eu conheço os clássicos de ter lido duas, três vezes cada um deles, conheço bem mesmo. Machado de Assis conheço bem. Eu li tudo de Machado de Assis e eu não li uma vez só não. Aluísio de Azevedo, eu li tudo de Aluísio também e sou fã incondicional de Aluísio, “O Cortiço” pra mim é uma obra máxima, importantíssima, nunca vi ninguém escrever sobre favela numa época de cortiço tão bem. Acho que eu leio tanto, li tanto e vivi minha vida toda lendo, escrevendo, que assim, de cada país tem alguns autores que eu gosto muito, como os americanos, eu gosto muito dos escritores americanos. Alguns deles me impressionam demais, o João dos Passos, por exemplo, me impressionam demais, o Faulkner, puta o cara é impressionante, o cara tem uma poesia maravilhosa. Os franceses então, nossa senhora. Tem um cara meu, um cara que teve preso, não sei se vocês conhecem a literatura dele, o teatro dele é todo, francês, foi um presidiário, foi um mendigo e tal e agora eu não me lembro o nome dele, um poeta incrível, não me lembro agora o nome dele não, mas..

 

P/1 – E Luiz, depois você se tornou um grande leitor e na cadeia mesmo você começou, além das cartas com a sua mãe, você escreveu alguma outra coisa, você começou, até você falou que deu aula de história. Quais as outras atividades que você começou a desenvolver?

 

P/2 – Só um segundo, e seguindo nisso, ou talvez até um pouco antes disso, como se desenvolveu a sua relação com esse círculo de missivistas, com essa professora que você falou que ficou muito importante na sua vida?

 

R – É, essa professora, o círculo me levou à professora. Essa professora praticamente, me envolveu com um número muito grande de pessoas. Eu escrevia pro filho dela que tinha cinco anos e até pra mãe dela que tinha setenta e dois, pra todo mundo da família dela e pra um grupo de amigos dela muito grande, que eram tudo pessoas culturais. Ela me mandava todo mês quatro, cinco livros escolhidos, lidos por ela que eu tinha que ler e tinha que tipo fichar e comentar com ela,  trabalhar com ela os livros. Ela foi sendo professora de literatura e ela foi fazendo os cursos que ela fazia pros outros, ela fazia primeiro pra mim, eu era sempre a cobaia dela. E todos os livros que ela foi lendo, ela foi fazendo cursos assim, ela fez pós-graduação, ela fez em linguística. Eu fiz também com ela, eu li todos os livros que ela leu. Então tudo que ela lia, tudo que ela pá, eu fui lendo, eu fui me desenvolvendo junto com ela. E ela foi, o mais interessante é que ela foi me pondo contra a parede na questão dos valores, porque é, Paulo Freire fala assim: à medida que o ser toma conhecimento dos códigos de contato da humanidade, ele faz uma releitura do mundo. Foi o que se deu comigo, na medida que eu tomei contato com as letras, com os códigos de comunicação, de relacionamento das pessoas, e comecei a dominar esses códigos, eu já não tive mais necessidade de agredir e nem de fazer mais nada contra ninguém. Porque eu já sabia me comunicar com as pessoas, o meu problema era esse, eu não conseguia me relacionar, eu não conseguia viver com as outras pessoas corretamente. E quando eu comecei a me relacionar, quando eu comecei a me comunicar, quando eu comecei a me expandir, eu era completamente pra dentro. Eu não conseguia dialogar com as pessoas, poucas pessoas eu conseguia dialogar. E na medida em que desenvolvia a capacidade de dialogar, de escrever, de ler, a minha vida se expandiu, meus horizontes se expandiram, que até então eu vivia poucos metros quadrados, Vila Maria City, e centro de São Paulo, mais nada, eu não conhecia o mundo. E aí começa a se ampliar, eu começo a entender, começo a ver outros países, outro mundo, outros continentes, outra vida, terra, água, um mundo diferente, pessoas diferentes, costumes diferentes, outras humanidades e começo a tomar conhecimento da pequenez da minha vida até então, como era pequeno tudo aquilo ali. E quanto eu queria maior, o quanto eu busquei maior e quanto pouco eu consegui até então. E aí comecei a querer mais do que isso e comecei a escrever pra pessoas do mundo inteiro. Eu cheguei a ter cem, 150 pessoas me correspondendo direto, constante, do Brasil, do mundo inteiro. Eu tinha pessoas que me escrevia dos Estados Unidos, de Miami, em português, evidente, que eu até hoje não domino nada disso aí. Mas de Cuba, de Angola, de Portugal, eu tinha, hoje eu nem tenho quase, porque eu quase não mexo com internet mais, mas quando tava mexendo com internet nossa, tinha muita relação com o mundo. E assim, isso aí foi me dando uma expansão, uma capacidade de entender as coisas e na medida que lia eu fui me apaixonando pelos livros, e eu digo, hoje, que os livros me salvaram, salvam e salvarão sempre.  Me salvaram porque foi com os livros que eu comecei a entender o que eram as coisas, que eu comecei a entender que havia um mundo maior do que aquilo que eu, pequeno e mesquinho, no qual eu estava envolvido. O livro começou a trazer uma noção de lógica que eu não tinha. Eu me apaixonei por filosofia durante um período, eu tive uma professora, eu escrevi uma carta, eu li muito sobre filosofia, mas livros que caiam na mão, porque não havia como comprar livros, preso. E o meu conhecimento era totalmente fragmentário. Aí escrevi uma carta pra reitoria da PUC, pra reitoria não, pra diretoria não, pra faculdade de filosofia da PUC. E aí quem me responde foi a diretora, a doutora Raquel Gazolla, ela era diretora da faculdade. E ela me responde dizendo que ela mesma podia me ajudar e que ela, se eu aceitasse, me ajudaria por carta. Eu ia dizendo minhas dúvidas e ela ia tentando esclarecer, ela podia me fornecer livros. Então ela me mandava meia dúzia de livros pra mim, eu lia, e todas as minhas dificuldades eu ia listando e quando chegava num determinado tempo eu fazia uma carta listando todas as minhas dificuldades e uma vez por mês ela me mandava uma carta em papel contínuo de computador, quarenta ou cinquenta páginas, aquelas puta explicações incríveis. E aí eu tinha um diálogo com ela por carta e fui, isso aí foram oito anos. E eu me desenvolvi muito por esse lado, aprendi muito a questão da lógica, a coerência, de ver o mundo coerente, de entender, de querer coerência nas atitudes, não só nas conversas, mas nas atitudes, e comecei a me desenvolver muito por esse lado. É, vivi essa vida dos meus vinte e quatro anos até uns trinta e poucos, quando sai em 1979, sai a lei [número] 1.819. Essa lei dava o direito ao presidiário de frequentar curso superior na rua, tava escrito lá explicitamente. Quando eu li aquela lei falei: “puta eu vou nessa, eu vou fazer faculdade”. Mas eu tava condenado a 132 anos de cadeia e não tinha diploma de curso nenhum e não me preocupava nem um pouquinho com estudos curriculares, porque eu ia querer certificado, porque eu ia querer curso, isso aí não ia me adiantar nada, eu não ia ganhar porra nenhuma com isso, certificado não ia adiantar nada. Mas eu entrei numa,, não sei porque eu sou meio maluco, tem umas coisas que eu chapo e pá e fico naquela. E comecei a estudar, comecei a estudar e mandei uma carta pra reitoria da PUC. A reitora me deu a bolsa de estudo, condicionado ao fato de eu apresentar certificado de conclusão de primeiro e segundo grau e ser classificado em exame vestibular. Então eu comecei a estudar no começo de 82, no final de oitenta e um eu fiz, eliminei as últimas matérias do segundo grau, em dois anos eu eliminei o primeiro e o segundo grau em exames supletivos. E no final de 82 eu fiz exames, os exames vestibulares. Consegui que os examinadores da PUC fossem na penitenciária me examinar comitantemente como acontecia na PUC. Aí fiz o exame e tal, mas foi muito fácil. Eu tava estudando, eu fazia três anos, mas acontece o seguinte, a molecada, as pessoas que estão estudando, eles estudaM, tem horário de estudo. Eu não, eu não tinha, eu tinha horário pra outras coisas, pra estudar era o dia inteiro e a vida toda, a todo momento eu tava estudando. Eu chapei, eu só tinha horário pra mim, eu só vinha sair da cela pra receber minha mãe no domingo e mais nada, não queria saber mais de nada e de ninguém, não conversava mais com ninguém, eu chapei. As pessoas, os caras falaram, todo mundo na cadeia falou que eu tinha ficado louco, tinha enlouquecido, chapado mesmo. Mas não era chapado, é obstinação. É assim, você encontrar um caminho e aí pá, é por aqui, vamos nessa. E aí chega, daí aquela menina lá, esqueci o nome dela.

 

P/1 – A professora?

 

R – Não, uma repórter da Globo, ela tá na Globo de novo agora, uma baixinha, isso a vinte e tantos anos atrás hein, em 84, ela me entrevistou, foi em 84 não, foi em 82. Ela me entrevistou quando tava fazendo exame. Ela perguntou: “foi fácil?”, eu falei “foi galinha morta, mamão com açúcar”, todo mundo pensou que eu tava sendo arrogante o caramba. Passou no SPTV e tal, até minha mãe falou: “pô você foi arrogante pra caramba, hein meu”. Falei: “não, mas foi mamão com açúcar mesmo, oras”. A prova de francês, eu lia em francês tranquilamente, eu li toda prova e eu tenho certeza que não errei nada, a prova de história eu tenho certeza que não errei nada, geografia, nada, absolutamente nada. A química e física é que era o problema, matemática que eu tive que aprender sozinho. Aprender, aprendi porra nenhuma, liguei o chutômetro e dei uma sorte do caramba. Eu sabia alguma coisa, obviamente, o que era matéria de raciocínio eu aprendi, o que era de decoração eu não aprendi nada.

 

P/2 – Então continua falando, primeiro curso que você prestou?

 

R – Eu fui, eu fui matriculado pra Direito. Bom, eu tava calmo, contando a história aí ela achou que tava arrogante, passou-se três meses, ninguém me deu satisfação nenhuma. Eu achei até que tinham me enganado com o negócio de curso, achei: “ah, me contaram história, nem vai ter resultado”. Porque eu achei, se tiver alguma justiça, pelo menos eu vou ser classificado. Aí pá, de repente a mulher, essa mesma repórter, eu tô na cela, os guardas vieram falar: “ah, faz a barba, põe uma roupa limpa aí que tem uma repórter querendo falar com você”. Aí quando eu saí o holofote. Aí essa mesma repórter falou: “quando você me falou que tinha sido fácil eu achei que você era meio arrogante, mas eu fui conferir, saiu hoje o resultado. Você acredita, você foi o primeiro colocado”. Eu fui o primeiro, eram cinco mil candidatos para 450 vagas de direito, eu fui o primeiro colocado, de cinco mil. Eu sabia mais ou menos que tinha ido bem. Eu não sabia tanto. Aí foi tudo bem, começou a luta pra eu sair ir pra faculdade. Mas aí o problema é que ninguém acreditava, o diretor da cadeia não acreditava que eu pudesse. Ninguém podia acreditar, como é que um cara que nunca teve numa escola vai poder disputar com os caras que estudaram no colégio São Francisco, no Mackenzie. Como é que ele vai poder disputar. Quando de repente sai uma classificação dessa, daí ninguém acreditava, o juiz não acreditava, a reitora da PUC, nem minha mãe acreditava, ninguém acreditava em mim. Aí depois acontece… Mesmo assim eles não deixaram eu ir pra faculdade. Mas no ano de 84 mudou a política no Estado de São Paulo, fizemos o primeiro governador eleito depois da ditadura, entra o Franco Montoro que era professor da PUC, inclusive do curso de introdução às ciências da - ele era catedrático de direito da PUC, ia ser meu professor - entra como secretário da justiça José Carlos Dias, que era o presidente de um negócio chamado Direitos Humanos aqui em São Paulo. É ele entra e aí através do Dom Paulo Evaristo Arns, minha mãe chegou ao Dom Paulo Evaristo Arns, chegamos ao José Carlos Dias, do José Carlos Dias chegamos ao juiz e no ano de 84 conseguimos sair pra faculdade, eu saia da penitenciária seis horas da manhã e voltava duas horas da tarde, eu ia pra PUC e voltada, de manhã e de tarde. Mas eu me compliquei pra caramba porque eu tava a doze anos preso e em absoluta contenção sexual, aquele tempo não tinha visita íntima nem nada e eu não gostava negócio de pederastia, entendeu? Então cai no meio das meninas ali, parecia um lobo mau no meio das ovelhas, desgracei, fiz desgraça no meio das meninas, nossa fiz cada uma que incrível mano, com as meninas, com todo mundo. Nossa e eu cresci muito na faculdade, de repente tava escrevendo pro jornal Porandubas. De repente eu fui eleito o representante da minha classe de direito, de repente eu tava sendo cotado pra ser uma das chapas, pra tá num das chapas de vice-presidente do Centro Acadêmico de Direito, de repente também tava já numa chapa do DCE, pra disputar DCE, já tinha me filiado ao PCdoB. Eu conheci de marxismo pra caralho porque eu tinha lido tudo que eu pude na cadeia sobre filosofia e principalmente marxismo, existencialismo, estruturalismo, todas as filosofias modernas, eu modéstia à parte conheço bem. Conheço a história da filosofia razoavelmente bem, posso te falar desde os pré-socráticos até agora os pós, os pós-modernistas e a gente pode, agora não to tão bem porque há muito tempo não pego, mas a esse tempo eu tinha uma fluência muito grande. Eu falava de cada corrente, de cada classe, de cada escola, de cada livro. Eu gostava, eu era apaixonado pelo assunto.

 

P/2 – Pelo visto você foi bem aceito na PUC, como foi essa relação?

 

R – Demasiadamente bem aceito.

 

P/2 – Como era os colegas, os professores?

 

R – Nossa, eu era uma estrela, eu virei estrela na universidade. A molecada dezoito, dezenove anos, eles não tinham conhecimento nenhum, eu tinha passado coisa de oito, nove anos da minha vida só lendo, estudando. Então não tinha condições deles disputarem comigo em nenhum tipo de conhecimento. Eu tinha um conhecimento, pra eles, era demasiadamente vasto. Eu disputava, as professores, não tinha um curso chamado curso básico que eles davam comitantemente ao curso de Direito. Os professores, eram cinco matérias, os professores faziam a aula em cima de mim, discutindo comigo o assunto. Ela começava abrir o assunto aí eu começava a dar opinião e a gente ficava fazendo a aula em cima. Porque eu tinha conhecimento sobre um monte de coisas, eu era super curioso, eu vivi minha vida envolvido com livro, eu passei trinta anos lendo, sabe lá o que é isso? Eu passei trinta anos lendo. Até hoje eu leio desesperadamente, eu não consigo ficar sem ler, se não tiver o que ler eu leio pasta de dente, eu leio sabonete, eu leio tudo.

 

P/2 – E nos intervalos ali você tinha social com os alunos, com os colegas, tinha uma amizade, alguém que se destacou?

 

R – Tinha, eu tinha uma relação muito grande. Eu me criei na PUC de uma tal maneira que eu tava até e foi por isso que eu me perdi, eu me enrosquei demasiadamente, me envolvi em tudo e aí quando eu percebi eu não tinha condição, tinha me perdido totalmente dos meus ideais, do que eu achava que eram meus ideais, tudo. Tinha me perdido e só me restava… Porque se eu voltasse pra cadeia ia ter uma hora que os caras iam me prender lá, não iam deixar eu sair.

 

P/2 – E aí o que você fez?

 

R – Fugi. Fiquei 46 dias na rua foragido, fui preso dentro de um banco em Santos, trocando tiro com a polícia, tomei três tiros, baleei um cara, fui preso novamente, em flagrante de assalto a banco.

 

P/2 – Que ano foi isso?

 

R – Em 84 mesmo. 46 dias depois, aí volto pra cadeia, fui viver em prisões coletivas, fiquei quatro anos rodando penitenciárias no interior até que volto de novo pra penitenciária de estado pra viver numa penitenciária de cela individual. E aí que vou entrar no processo de reflexão. Começar a questionar, “porque será?” “Pô, tu é bandido, tu é ladrão, tu é o que? Qual é a tua vida, quem é você, porque você tá fazendo isso, porque você fez isso, porque você jogou fora essa oportunidade? E agora?” Agora não saia mais, agora já era, não tinha mais chance, ninguém ia dar mais chance pra um cara como eu. Então eu entrei em desespero, entrei em chapação mesmo. E eu como tinha lido, eu tive uma noiva que era formada em psicologia, então pra fazer face ao conhecimento dela eu li bastante a respeito de psicologia. Então tentei fazer uma análise minha, fazer uma análise de mim mesmo. Eu me observando, tentando recuperar a minha infância, entender o que aconteceu. E aí minha mãe vinha me visitar, eu fazia um questionário e ela respondia, eu ia construindo. E como eu era um autodidata o meu método de construção, de aprendizado é assim, até hoje é assim, se leio alguma coisa, se eu escrever aquela coisa eu nunca mais esqueço, eu assimilei. Eu tenho que escrever, eu li, deixo livro lá daí eu vou escrever aquilo, se eu escrever o que eu ler já era, já tá memorizado. Então tudo que eu ia entendendo eu ia escrevendo, escrevendo, e aí foi, ao final e ao cabo, eu não aprendi nada, não adiantou nada, não adiantou muito não. Eu só fui entender a fluência da coisa, eu fui entender que eu não tinha domínio sobre a coisa, que eu precisava dominar, mas de repente eu vi que eu tinha um, aquilo que eu tinha escrito podia virar um livro. E aí comecei, escrevia, tentei traçar ele numa linha como se fosse um livro e aí abandonei. Eu mostrei pra uma pessoa e essa pessoa desacreditou totalmente, falou: “ah, ninguém quer saber da sua história”. Aí deixei lá, ficou treze anos engavetado esse livro.

 

P/2 – Enquanto você tava preso?

 

R – Enquanto eu tava preso e nesse tempo de prisão comecei a dar aulas. Eu comecei dando aulas alfabetizando, depois comecei a fazer telecurso, ensinar os caras do telecurso. Depois passei a ser encarregado da escola da Casa de Detenção durante muito tempo. Nós tínhamos novecentos alunos, escola grande pra cacete. E aí ia pegando gosto, um amor mesmo pelo ensino. Me dou muito bem como professor, gosto muito de ensinar, me dei muito bem com isso aí. E aí chega uma pessoa, uma atriz chamada Sophia Bisilliat, entra dentro da Casa de Detenção chamado “Talentos aprisionados”. O projeto dela consistia em fornecer material pra pessoas que tivessem algum talento artístico desenvolver sua arte. Então ela fornecia material pros pintores e expunha os quadros dos caras e vendia os quadros dos caras. E tinha uma parte lá de musical, inclusive foi de onde saiu o “Quinhentos e Nove E”, o “Dexter” e todo um grupo, ainda hoje ela se envolve muito com esse negócio aí. E da parte da literatura quem vai fazer oficina literária é o Fernando Bonassi. E aí eu vou lá, vou escutar ele, porque eu era o encarregado da escola. Eu vou lá ver como é, e conversando com ele montamos, eu e ele montamos um concurso literário na Casa de Detenção toda. O doutor Dráuzio Varela arrumou grana, arrumou cinco pau pra gente fazer o concurso, aí fizemos o concurso. E aí eu tinha esse livro aí, falei pro Fernando e ele quis ver. Eu mostrei pra ele, ele leu, gostou muito. Falou: “faz uma revisão, eu vou digitar e nós vamos levar pra editoras, vamos tentar editar isso aí”. Ele gostou muito. Aí eu fiz e ele digitou e aí pra primeira editora que ele levou, a Companhia das Letras, os caras já chamaram pra negociar. E aí que publicou “Memórias do Sobrevivente” que é meu o primeiro livro. Depois da edição do primeiro livro, passado algum tempo, eu recebi a visita lá do Juliano Cedae, que era o diretor de redação da revista Trip, o patrão dele, o Paulo Lima, que é o dono da Trip, mandou ele conversar comigo, porque ele tinha uma ideia que era uma ideia genial, eu achei, até hoje todo mundo acha. Ele tinha um amigo que era um cineasta que trabalha em Londres e que tem uma visão de mundo, tá envolvido em tudo no mundo, na política toda, então ele escreveria do mundo aberto e eu de dentro de uma cela de penitenciária escreveria do mundo fechado. E a coluna, uma coluna de nós dois, nós dois na revista. O cara me ofereceu, no primeiro, a princípio fiquei com medo, pensou coluna muita responsa. Mas eu peguei e já faz seis anos, nós estamos no sexto ano já da coluna. Agora eu tenho, eu tenho uma coluna também no site que já vai pra três anos também. E aí começa a vida de escrever. Dois anos e pouco depois eu tava numa penitenciária lá de Ribeirão Preto aí os caras me botaram na rua, de repente “se tá livre tal, pode sair fora”. Claro, meu advogado entrou com o pedido da lei dos trinta, de quem cumpre trinta anos, o artigo 75 da constituição, que ninguém cumpre mais de trinta anos e eu já tinha ultrapassado, tava cumprindo trinta e um anos e dez meses. E aí então o juiz de lá de Ribeirão me liberou pelo artigo 75 do código penal.

 

P/2 – Fala um pouco desse dia pra gente.

 

R – Ah eu tava… Eu tinha um laptop, que inclusive foi o Fernando Bonassi quem me deu. Aliás, o Fernando até hoje é um puta de um amigo meu. Inclusive ele tá entrando com o financiamento da minha primeira peça, o João Signorelli vai ser meu ator e nós já encontramos a diretora, Cibele, é...  Não lembro o sobrenome dela. O João, o João Signorelli tava me falando hoje, me telefonou hoje dizendo que encontrou uma diretora que quer fazer a peça. E o Fernando me deu um laptop, comprou um legal e me deu um 486, só cabia até Windows 95 nele. Daí eu to lá com o meu laptop escrevendo e o guarda veio e falou assim: “meu, como é o seu nome?”, “Luiz Alberto Mendes”, “arruma as suas coisas que o senhor vai embora”, “embora ô, licença!”, brincando comigo, eu não gostava, essas brincadeiras eu não gostava. Brincar com liberdade eu não gostava “ah meu, desbaratina” e continuei.  “Não, é sério, fecha aí, vamô embora!”. O cara já tava até ficando bravo, aí fechei, fechei os programas, fechei o barato, não acreditando ainda, deixei ainda a máquina lá e fui pra minha cela. Daí cheguei na cela, chamei os caras que moravam comigo “ô guarda lá tá falando que eu vou embora, mas eu não to acreditando”. Aí os caras falaram: “bom, vai lá até a inclusão e vê, vê se é mesmo”. Aí não queriam me deixar passar na portaria, na gaiola, daí os caras fizeram um movimento, daí eu consegui ir até a inclusão, eu cheguei lá, realmente era a liberdade. Aí mostraram o alvará de soltura, era o artigo 75. Mas eu não, não dá pra acreditar, eu não conseguia acreditar que eu ia embora, eu já não acreditava mais. Parecia que eu tinha nascido na cadeia e que minha vida toda tinha rolado dentro da cadeia e que não tinha outro futuro pra mim, não tinha mais nada senão cadeia pra mim.  Não acreditava mais, não acreditava mais em liberdade, eu não acreditava nem que eu já tivesse estado em liberdade um dia. Eu não acreditava mais, eu só acreditava em cadeia, não acreditava em mais nada. Aí de repente abriram, daí eu fui andando, os caras foram andando comigo pra frente. Lá pra frente consegui telefonar pra mulher, eu tava com uma mulher de Barra do Piraí, do Rio de Janeiro. Daí eu liguei pra ela, eu to chegando, tô voltando pra casa, e ela: “ah, como?”, “é, tô voltando”. Aí os caras me deram o passe até São Paulo e eu não tinha mais nem um puto. Aí eu cheguei em São Paulo, eu falei pra mulher: “ó, eu to chegando em São Paulo, de São Paulo a gente vai dar um jeito”. E chego na estação Tietê, eu não conhecia porra nenhuma, mais nada, eu não conhecia nada. Aí cheguei aí, os caras, desci do ônibus de bobeira, naquela iluminação, naquele mundo de gente, aquela coisa toda, aquela Estação Tietê, daquela loucura toda e assim sem saber o que fazer: “caralho, eu não tenho dinheiro, onde é que eu vou, o que eu vou fazer, não sei, eu não tenho mais casa”. Eu tinha a casa da minha mãe, minha mãe tinha morrido. E eu tinha casado já, porque eu casei com uma moça de vinte e um anos, dentro da cadeia mesmo casei com ela. Ela foi visitar um amigo meu e aí a gente se conheceu, fizemos dois filhos na cadeia. Hoje nós somos separados, mas ela mora na minha casa, eu moro na casa de trás, ela mora na casa da frente com meus filhos. Aí fui andando pra frente, daí quando chegou, “o que eu vou fazer? Não sei chegar na minha casa, não sei”, não sabia nada, não tinha ideia de nada. Aí um funcionário tinha me dado, no ônibus um funcionário de cadeia tinha me dado um cartão de telefone, de vinte números, de vinte coisas, de vinte pulsos. Aí meti o cartão, fui lá, mas quando eu entrei em cana, o telefone fazia assim ó, agora o telefone era assim. Aí então a maior loucura rapaz, eu fico ali e pá, pá, e o bagulho não liga e num vai, e eu começo a suar e a ficar desesperado, porque onde é que eu vou, as horas tão passando, eu tô com sono já, eu to cansado, não tem dinheiro, o que eu vou fazer. Porra meu, os caras me soltaram, vou ficar de bobeira aqui? E aí deixo, vou no outro ali, vou lá no outro e não vai também. Aí é o cartão, deixei o cartão, quando eu volto pra pegar o cartão roubaram o cartão. Aí eu volto, aí eu sei que eu consegui ligar aquele negócio de nove lá, de telefone, não sei que milagre, não sei, eu tinha ouvido falar. Então comecei aquele negócio de nove e o número da mulher, nove e o número da mulher, nove e 21 e número da mulher, até que consegui. Ela: “pai, tava aqui desesperada, já telefonei pra Trip, você vai lá no térreo, onde tão os elevadores, eles vão te pegar lá”. Aí eu: “tá legal”, daí perguntei lá, chego e aí fico esperando. Tem uns guarda lá, eles ficam me olhando. Aí chega lá o pessoal, daí eu saio correndo com as malas e entro dentro do carro, e aí fomos. Eles me levaram até a Barra do Piraí, me entrevistaram, fui entrevistando, passamos cinco horas dentro do carro conversando, mó barato, até que chegamos lá. E depois lancei o outro livro “Tesão e prazer” já na Bienal do Livro em São Paulo. Depois lancei, que foi traduzido pro russo, ele é mó barato, no alfabeto cirílico. Você sabe que loucura, é um absurdo, um negócio incrível que deve ficar registrado esse bagulho. Esse livro aí custa 32 reais na banca, na banca não, no coiso. Se você for na Rússia, fala aí um número que vocês acham que custa.

 

P/1 – Bem, não sei.

 

R – Cinquenta cents de dólar. Cinquenta cents de dólar custa o livro lá e aqui custa 32 reais.

 

P/2 – E conta, fala um pouco desse livro pra gente.

 

R – Ah “Tesão e Prazer” é um livro que é uma aventura do cara, eu estudando como é que foi a minha aventura no campo sexual. Desde quando era pequeno que meu pai me pegava masturbando no banheiro, enfia a mão na orelha. Até quando fui aprendendo. Quer dizer, foi um desenvolvimento do cara nesse campo. São dezessete capítulos, cada capítulo com começo, meio e fim, quase contos, mas um desenvolvimento cronológico do moleque até determinado ponto. Um livro que eu escrevi em três meses rapidamente, porque o editor tava atrás de mim e eu, porra, editar, editora sem muito critério, sem pensar muito, hoje não sei não se eu editaria esse livro.

 

P/2 – Mas e depois que você saiu da cadeia, depois de ter tido aquele contato com a Companhia das Letras no primeiro livro e já trabalhando na Trip, como é que foi essa relação com o mercado editorial, eles te procuraram, como aconteceu isso?

 

R – Ah, na época eu já tava, já tinha um acerto com a Companhia das Letras, tipo prioridade, eu tinha que mostrar os meus livros pra eles, o primeiro. E aí eu mostrei o “Tesão e Prazer”, o Luiz, que é o dono, achou que não era legal. Daí dei pra Geração porque o cara tava atrás de mim. Mas o meu contato com o mundo editorial foi legal, mas decepcionante pra cacete, decepcionante demais. Lancei meu último livro no ano passado, ele foi um dos finalistas do prêmio Jabuti, muito bem votado, um reconhecimento, já não é mais um ex-presidiário que escreve e sim um autor, já reconhece que é um autor, não me considero um escritor, eu só me considero um autor, escritor é um cara consagrado, mas eu vou chegar lá. E assim... Me perdi.

 

P/2 – Você tava falando da decepção com o mercado editorial.

 

R – É porque veja bem. Eu to com um livro traduzido pro russo, outro que ganha premiação que é a melhor premiação do Brasil, reconhecimento que o livro é bom, eu sei que o livro é bom. Eu reescrevi ele trocentas vezes, eu sofri em cima dele três anos pra chegar onde chegou. O “Memórias” eu já vendi, os caras tão fazendo um filme dele já faz um ano e meio, daqui um tempo tá aí pronto o filme. Quer dizer, é um livro que já vendeu mais de doze mil cópias. E vai vendendo, ele até hoje é um dia que vende. Então num trimestre, os três livros me renderam trezentos e cinquenta pau, você quer o que, não é decepcionante. Você tem três livros, em qualquer país do mundo você com três livros lançados, e a Companhia das Letras é a melhor editora do Brasil, e ninguém diz o contrário. E não vende, não ganho dinheiro com isso. Eu ganho dinheiro, eu vivo sabe como? Com a Trip. A Trip me ajuda, com os meus artigos na Trip eu ganho dinheiro. Eu faço palestras e nessas palestras eu vendo meus livros, eu ganho mais, eu vendo mais do que os caras. E faço, presto consultorias, eu tô com mais quatro livros. Tô com dois livros na Companhia das Letras, um infantil e um pra adulto, lá sendo avaliado. To com um outro livro na Geração que faz um ano e meio que tá na mão dos caras, ta sobre contrato há um ano, o contrato já tá vencido, já faz seis meses que era pra eles estarem com o livro editado. Eu ainda não rescindi contrato porque pra mim é mais interessante editar do que não editar. Eu quero que edite, não importa que tempo, porque aí editado eu posso trabalhar em cima. E to com outro livro de crônicas na mão de uma outra editora que os caras tão examinando também. Mas eu tenho mais dois livros prontos, e eu tenho mais trocentos livros na cabeça. Parei de escrever livros por conta disso, porque não tá adiantando, não tá vendendo, quer dizer, parei, parei não porque escrever é um negócio que é quase uma coceira, não dá pra ficar, de repente dá coceira tem que fazer, é compulsório, já pra mim se tornou compulsório, se eu não escrever, se eu não ler todo dia um pouquinho, eu me sinto mal, me coçando. Puta, eu tenho, só de crônica eu to com umas quinhentas, umas quinhentas. Eu fiz uma seleção de crônicas, das minhas coisas, escolhi sessenta. Tive que fazer três seleções, fiz três livros, porque não tem condição de escolher. Pra mim, pô de quinhentas. E eu to fazendo, todo dia eu faço uma, duas, três. Tem dias que eu faço três, enche o saco. Tem hora que única coisa que eu tenho na minha vida, sou um atormentado, a minha natureza sempre foi assim desde que nasci, sou um angustiado, atormentado, sempre fui assim. O único momento que eu me sinto realmente livre, me sinto bem, é quando eu to escrevendo. Quando eu to criando, quando eu to fazendo alguma coisa eu me sinto feliz, quando eu acabo de fazer um negócio eu falo: “puta eu fiz, eu consegui”. Que nem ontem, ontem de manhã cedo acordei, o tema da Trip desse mês que entra agora vai ser sono. O ano passado foi sono também, pô já tinha escrito, já tinha esmerilhado sobre sono, o que eu vou falar mais sobre sono cacete, que assunto mais chato. E aí sentei na máquina e fiquei pensando, daqui a pouco eu tava com dois textos. Tenho que mandar, tá até na minha bolsa ali, dois textos pra mandar pro meu editor pra ele escolher um.

 

P/1 – Luiz, deixa eu só retomar uma coisinha.

 

P/2 – Só fazer uma consideração que o seu tempo de cinco horas chegou, vamos passar já pras considerações finais pra não...

 

P/1 – Então deixa eu só perguntar ainda nesse sentido, depois que você teve essa reviravolta na sua vida, você influenciou alguém, você estimulou alguém a ler, você estimula alguém, você tem uma mensagem?

 

R – Como professor na cadeia eu sempre estimulei, eu sempre dei livro pra todo mundo, eu sempre roubei livros nas bibliotecas pra dar pros caras na cadeia. Eu esparramei livros, eu esparramei a literatura por tudo quanto é canto e tô fazendo até hoje, bicho. Agora nesse momento eu to entrando, vou entrar dentro das cadeias, e esse é um dos meus artigos sobre sono, eu falei sobre um sonho meu. Um dos meus sonhos, to realizando agora, que era… Desde que eu tava preso eu achava que eu devia… Eu pensava: vou voltar aqui pra dentro, mas dentro de uns empreendimentos educacionais, culturais. Eu vou ter que mostrar pro mundo o que é o barato aqui, esses caras aqui são tudo uns ignorantes, só falta de conhecimento, de cultura, de carinho, de compreensão e esses caras vão pra frente. Pô, meus alunos, eu conheci os caras, sabia que podia. E sonhava em voltar assim e agora tô voltando. A Ecofutura esse ano entrou, é o sexto concurso literário nacional deles. Eu já participei de dois, eu fui jurado em dois e agora eles tão ampliando pra... Era só pro Ensino Fundamental, pras escolas todas do Brasil, e agora eles ampliaram pra Ensino Médio e Ensino para Jovem e Adulto e dos professores. E esse jovem e adulto entra na madureza que vai pegar escola da cadeia. E eu que vou levar isso pra dentro cadeia. Eu to com três oficinas literárias marcadas, uma pra penitenciária de Santana, feminina, uma para penitenciária de Bauru e agora vai decidir se eu vou pra Guarulhos ou Franco da Rocha. Vou para três penitenciárias pra fazer três oficinas literárias pra ajudar os caras nesse concurso experimentalmente, pra depois fazer oficinas contínuas lá dentro. Esse é o meu sonho, levar o que eu sei, eu saí de lá, o que eu sei hoje eu aprendi lá dentro. Então eu vou levar o que, já mais refinado, vou levar lá pra dentro e eu quero trazer, principalmente porque eu acho que sobre preso ninguém sabe porra nenhuma aqui fora, ninguém. O que se sabe aqui fora é o que esses mentirosos falam na TV, esses Datena da vida aí, esse Ratinho da vida fala na televisão. E esses caras não sabem nada, absolutamente nada sobre cadeia, falam a partir dos seus preconceitos e de informações distorcidas do que ninguém sabe de nada. E a única pessoa que sabe é o preso, porque a vida dentro da prisão é clandestina, crime é clandestino, é escondido. Então eu acho que o que ninguém sabe, ninguém pode fazer nada sobre prisão, ninguém. Então que o preso escreva porque ele não pode falar, então que ele escreva. Assim as pessoas vão conhecer o que é a cadeia, o que é o preso. E aí vai poder se fazer estudos antropólogos, conhecedores, sociólogos vão conhecer o que é a cadeia e aí então se poderá fazer alguma coisa em prol do preso real. Eu agora produzi o guia do egresso, que é um guia que a SAP (Secretaria de Administração Penitenciária) a idealização minha e a SAP que produziu, é um guia que ensina ao preso tudo sobre documentação ao sair, tudo, eu listei todos os albergues noturnos de São Paulo, todos os negócios de bom prato que custa um real o prato, todas as entidades que ajudam, todas as entidades que podem ajudar o egresso. É um guia de cento e sessenta páginas, é uma criação minha. E agora tô entrando com essas oficinas, tô trabalhando com outras situações, to trabalhando com crianças, tô realizando um trabalho num lugar chamado “Lar dos Pequeninos”, perto de casa, oitenta por cento das crianças são filhos de presidiários, eu to dando aulas de reforço lá. Quer dizer, tô com 55 anos de idade, o que me resta de vida, não sei quanto, eu quero significar profundamente cada segundo da minha vida, cada momento, cada instante tem que ter algum significado, alguma coisa quero deixar. E tô aqui por causa disso, da memória, da pessoa, quero deixar uma memória extensa, não pra mim, não pra orgulho meu, mas pros meus filhos, porque um dia os meus filhos vão se orgulhar de mim. Tudo que eu quero, porque porra, minha maior responsabilidade são meus filhos. E vamos nessa...

 

P/2 – A gente queria te agradecer muito, o Museu da Pessoa.

 

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