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História

Para mim, a vida foi dura mas foi boa. Ela é boa.

História de: Kennedy da Silva Martins
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/07/2017

Sinopse

Kennedy da Silva Martins nos conta um pouco de sua infância e do momento que fica órfão de pai, mãe e de padrasto. Conta como vai para a casa de acolhimento Guaranis com seus três irmãos meninos e como impede que suas três irmãs os acompanhem. Foi adotado, diz não ter se adaptado, dando detalhes de seu relacionamento com a família adotiva. Retorna à casa de acolhimento após fugir da escola e passar semanas com suas irmãs. Na igreja que frequenta, conheceu Perpétua, sua madrinha afetiva. Se encontram a cada 15 dias, quando fazem algum passeio, vão à igreja ou à chácara. Enquanto descreve momentos com ela e sua família, deixa claro o enorme carinho e admiração que sente.

Sua fé de que as pessoas o fortalecem por meio de orações e amor, mesmo que à distância, lhe conforta.


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História completa

No total, éramos sete irmãos: três meninas e quatro meninos. Dos meninos, sou o mais velho. Meu pai morreu atropelado por um carro quando eu ainda estava na barriga da minha mãe. Meu padrasto morreu porque tinha muito catarro no peito. Minha mãe? Morreu de tanto… vamos dizer, assim, de tanto usar droga. Então para mim, a vida foi dura, como a de qualquer um que passou por aqui. Mas enquanto tive meus pais, amigos e pessoas que me amam, ela foi boa e perfeita.

 

Durante minha infância ficava sempre com meus irmãos. A gente se divertia, soltava pipa, às vezes buscava pão na padaria. A gente fazia muitas aventura no modo de se divertir e ficar um com o outro, porque a união faz a força.  Minha mãe era faxineira, ia trabalhar de segunda a sexta, à tarde. Meu padrasto também ia trabalhar porque ele era pedreiro. Eu e meus irmãos ficava brincando lá em casa, às vezes a gente fazia comida e aí à tarde eu e meu irmão soltava pipa e jogava bola. A gente fazia algumas arte. Eu curtia bastante.

 

Quando meu padrasto faleceu, antes da minha mãe morrer, eu fui para o Abrigo Guaranis, que me acolheu e onde estou até hoje. Fomos só eu e os meninos. Minha mãe não tinha condição de ficar com a gente.

 

As meninas do conselho tutelar foram em casa num domingo. Quando entendi que elas ia levar eu e meus irmão pra Fundação Casa, joguei as roupa que estava na cama, em cima na minhas irmãs, que dormiam. Quando acordaram, perguntaram pra minha mãe: “Cadê os menino?” Minha mãe falou, chorando: “Eles foi para o abrigo”; “Aonde?”; “Lá na vila Yolanda”. Minha mãe ficou com o coração assim apertado, porque foi duro.

 

A gente não sabia o que era abrigo. A gente não conhecia as pessoas. A gente era tímido. Foi sinistro. A mulher do abrigo disse: “Hoje você vai poder dormir junto com seus irmãos, porque é a primeira vez e nunca dormiu longe deles”. Mas depois, eles ia ficar num quarto e eu no outro. Antes de dormir, o tio Ricardo fez umas oração com a gente. A gente agradecia pelo que aconteceu no dia e pelo que aconteceria no dia seguinte. Agradecemos pelo que temos e pelo que não temos.

 

No dia seguinte fomos para o zoológico, foi a primeira vez que eu fui para um passeio do abrigo. Vi cobra, tartaruga, animais na vida real. Fiquei muito emocionado, porque só via essas coisas pela TV.

 

Comecei a falar mais com as pessoas, criei algumas intimidade. Fui seguindo a vida, fazendo alguns cursos.

 

Fui adotado com meu irmão mais novo, o Vitor, que hoje tem 6 anos. Fiquei com ele na casa, por uns 2 ou 3 meses. No momento, estava bom.

Não me adaptei. Porque eu não gosto de ser adotado. Pra mim foi um momento muito difícil de tentar me adaptar com a família. Já não conseguia direito. Eu tento, tento, tento, mas às vezes não dá.

 

Um dia, brincando com os meninos na escola, de pega-pega, fui tentar abrir a maçaneta e sem querer eu quebrei o vidro da escola. Fiquei com o coração na mão. Aí veio aquela adrenalina e eu pensei: “Puts, eu vou acabar me ferrando”. Nunca tinha acontecido algo do tipo comigo. Pulei o portão da escola e fui para o abrigo, porque eu estava assustado. Algo me fez ter essa reação. Fui de Guaianazes até a Vila Yolanda, a pé. É uma caminhadinha boa. Nem quis saber de cansar de andar, eu só queria saber que meus irmãos estariam bem, e que eles soubessem que amo eles.. E “ah sei lá, o porque eu tinha feito isso” dizia comigo mesmo. Até hoje eu não me entendo.

 

Fui ver minhas irmãs, meu irmão Ítalo, e voltei para o abrigo. Me sentia muito arrependido pelo que fiz. Então a tia do abrigo disse: “Peça perdão mesmo que a pessoa não consiga te perdoar. Como alguém que não consegue perdoar o próximo, quer que Deus a perdoe?”

 

Eu disse: “Desculpa” mas ela falou: “Eu estou cuidando do seu irmão por você”.

Sabe, bateu aquele rancor no coração. Tentei conversar com ela, mas ela só foi me responder depois de três anos. Me senti muito triste de saber que ela não pôde me perdoar no momento, porque ela também estava passando por um momento difícil. Deu tipo uma raiva no coração. Um aperto. De saber que eu tentei amar a pessoa, mas a pessoa nem quis mais saber assim de mim.

 

Conheci a Perpétua na igreja que frequento, através de um amigo. Ela disse: “Aceita passar um final de semana na minha chácara? Mas sabendo que sou brava. E que sou difícil”. Fomos para sua chácara e ela me deixou bem à vontade. Me convidou para passar mais um final de semana na casa dela, e logo sugeriu: “Quer fazer apadrinhamento afetivo comigo?”. Eu disse: “Quero”. Desde então nos encontramos de 15 em 15 dias. Ela me leva pra vários lugares, como a chácara onde fui pescar, a cachoeira e o zoológico.

 

Ela é diferente do que as pessoas diziam a seu respeito. Para mim, ela é uma pessoa bem legal. Só é chata  para educar as pessoas, dizendo o que é certo e o que é errado. Ela me orienta, me chama para fazer lição.

 

Conheço toda a família dela. Tem o André, que é seu esposo; o Jonatan que é seu filho adotivo, e o Junior, que é seu filho. E também... Ah, se eu contar a família toda dela aí não vai dar muito certo. Traduzindo, eles são pessoas muito boas.

Ela e o André me disseram: “Se você não conseguir, você tenta de novo. Se não conseguir, tenta de novo” Sinto alívio de poder falar com ela sobre qualquer coisa que tenha acontecido ou que possa acontecer. Ela me perguntava o que eu quero ser quando crescer, e eu respondia: “Bombeiro, porque desde criança eu tinha esse sonho. E ainda tenho”. É tão bom essa atenção e esse carinho comigo...

 

Em setembro de 2017 faço 17 anos. Pretendo terminar meus estudos e trabalhar perto de onde eu for morar e estudar. Fico no abrigo até os 18. Converso com a Perpétua sobre meu futuro, e ela diz: “Se de repente você não conseguir alugar uma casa, você pode contar comigo que eu vou te ajudar. Você pode morar de aluguel ou pode morar com a gente.” Me sinto bem contente de saber disso porque... Ela é um amor de pessoa. E de saber que ela ama.. que ela me ama.

 

Ela me disse: “Eu não vou te abandonar, não importa pra onde você for”. E quando ela promete uma coisa, ela cumpre. Vejo nela alguém que gosta das outras pessoas, que as fortalece mesmo nas dificuldades. Ela pode contar comigo em tudo que eu puder ajudar, pois sei que eu posso contar com ela em cada momento da vida.

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