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História

"Para mim nós somos natureza"

História de: Suzana Machado Pádua
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/07/2005

Sinopse

A história de Suzana Pádua se mistura com a história do IPÊ - Intituto de Pesquisas Ecolôgicas. Depois de uma reviravolta em sua vida, tendo abandonado sua zona de conforto para acompanhar o marido em uma experiência de campo no mestrado em Biologia, Suzana, que sempre teve uma conexão forte com questões ambientais e a vida dos animais, apesar de ser filha de caçador, decidiu estudar educação ambiental.  Daí se envonveu com as comunidades do Pontal do Paranapanema e decidiu educar para a preservação daquele eco-sistema. O IPÊ veio depois, mas foi construído a partir de um grande e bonito trabalho. Essa é a história de Suzana e do Instituto de Pesquisas Ecológicas. 

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Ironicamente, eu sou filha de caçador, papai foi o que eles chamam de big game hunter, aquele caçador que caçou mesmo. Ele foi à África duas vezes, foi à Índia, caçou uma cabra na Espanha que era dificílima, só o Franco dava licença... era realmente empenhado nisso, ia sempre para Mato Grosso, etc. Eu era pequena, não existia a palavra conservacionista, mas eu sempre questionei: qual é a graça de matar um bicho, uma onça que está correndo, aquela magnitude daquele animal tão lindo, de repente você dá um tiro e o bicho cai? Mas na época o papai era um herói, e eu acho que os valores mudaram, hoje um caçador não seria mais um herói na nossa sociedade, porque não cabe mais. Mesmo no bairro da Gávea, onde eu morava, no Rio de Janeiro, tinha muito pássaro, e papai, volta e meia, matava um pássaro e o pássaro vinha para a mesa. Todo mundo comia e minhas lágrimas desciam: "Como é que ele teve coragem de matar um passarinho e o passarinho de repente virou comida?" Eu não me conformava com isso. A tal ponto que hoje eu sou 90% vegetariana.

O responsável pela grande mudança foi o meu marido. O Cláudio [Pádua] era formado em administração de empresas, filho de família mineira política tradicional. A família achou que ele era maluco, que estava largando toda uma vida mais estável para ir trabalhar por um ideal, a conservação da natureza no Brasil. Ninguém levou ele a sério, mas ele voltou para a universidade, biologia, foi fazer mestrado e doutorado fora, a grande mudança foi quando ele foi coletar os dados do doutorado no Pontal do Paranapanema. O Pontal para nós é uma escola porque foi onde tudo começou, é um símbolo, como o mico-leão-preto, a espécie que ele estava estudando, altamente ameaçada, que vive numa determinada região de São Paulo, muito devastada.

Foi um choque muito grande, porque nós estávamos vindo dos Estados Unidos, com uma vida muito confortável, de repente eu estava morando num casebre, no meio do mato, dentro da reserva, num parque estadual, no Morro do Diabo. A vida era muito sem conforto, muito terrível, muito, no início foi horrível. Eu chorei muito achando que ia fazer minha mala e ir embora. Mas comecei a trabalhar com educação ambiental, percebendo que as pessoas achavam: “Por que não cortar tudo para fazer uma fazenda de gado? Porque isso pra mim não serve pra nada”. Isso me doía profundamente. Comecei a trabalhar com educação ambiental, tentando passar para as pessoas uma noção de orgulho: “Vocês moram do lado de uma área que é uma das poucas que ainda restam, e com várias espécies ameaçadas”. Não se salva nada se as pessoas não tiverem esse senso de orgulho. Mudou absolutamente tudo na minha vida Como educadora, hoje, eu adoraria ver as pessoas mudando e descobrindo o seu caminho sem tanto sofrimento e sem tanta dureza. Foi muito duro, eu peguei leishmaniose, fiquei doentíssima, aí eu olhava para aquilo tudo com muito mágoa. Mas eu comecei a trabalhar com educação ambiental e me apaixonei, acabei fazendo mestrado.

A cidade é Teodoro Sampaio, fica no Pontal do Paranapanema, o segundo lugar mais pobre do estado de São Paulo. Anos depois veio toda a migração maciça do MST, é uma outra história. Eu comecei trabalhando primeiro com as escolas. Fui falar com o prefeito que queria oferecer um programa de Educação Ambiental. Preparei trilhas no parque, programas para visitação pública e visitação estudantil. O prefeito provavelmente achou que eu ia pedir alguma coisa para ele, me deixou esperando quatro horas, eu tinha levado um livro, fiquei sentada lendo. Quando eu cheguei para falar com ele, ele disse: “Mas você não veio pedir nada?” Eu falei: “Não, eu não queria que você soubesse por outras fontes que eu estou aqui, eu sou de fora, sou carioca, vou morar aqui por um tempo e queria que você soubesse que esse programa vai acontecer”. Daí para a frente eu tive um aliado.

A história do Ipê vem com estudantes, eles vinham pra fazer estágio. Por exemplo, a Gracinha é de Teodoro, família muito simples, hoje ela está acabando o mestrado na USP, é uma pessoa que trabalha comigo já há 15 ou 16 anos. Esses estudantes que vinham foram estudando e fazendo mestrado, doutorado... de repente percebemos que não dava mais para manter como Projeto Mico-Leão-Preto, precisávamos profissionalizar a instituição. Em 1992 criamos o Ipê – Instituto de Pesquisas Ecológicas. E o Ipê hoje tem quase 70 pessoas. Ainda estamos trabalhando firmemente pela própria sustentabilidade do Ipê, temos algumas parcerias muito recentes com algumas empresas, como a Martins Distribuidores, um grupo de Uberlândia muito poderoso que abriu várias portas para nós, a Havaianas, Havaianas Ipê, um sucesso do qual temos o maior orgulho, estão estampadas nas solas as espécies ameaçadas, uma com o papagaio da cara roxa, o mico-leão-da-cara-preta e o peixe-boi. A mais emocionante de todos é a Natura, nossa parceira na criação de uma pós-graduação em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável.

Os pesquisadores todos iam para o mato, chegavam enlameados até aqui, cheios de carrapatos. A comunidade achava excêntrico e engraçado. O papel da educação ambiental é pegar essas informações científicas e decodificar numa linguagem bem acessível, e contar história. Por exemplo: "O mico-leão vive em família, um protege o outro, o pai carrega o filhote para a mãe poder amamentar descansada". Eu ia para o rádio, contava histórias, fazia programa nas escolas, ia popularizando, no final eu era uma pessoa popular na comunidade. A comunidade no início tem uma certa restrição porque acha que você é de fora, vai impor alguns valores seus, mas ao ver que você não está ali para colocar nada goela abaixo, você quer construir junto, está levando os interesses da própria comunidade em consideração, passa a ser aliada, parceira, e ela mesma acaba levando adiante várias novas idéias que partiram dela e não mais do que você planejou. Hoje, o Ipê, na comunidade de Teodoro Sampaio, é uma instituição muito bem-quista, muito aceita.

Eu fazia lazer ecológico, festival de música ecológica, concurso de camiseta ecológica na noite de lambada, fechava a rua principal na maior lambada – isso nos anos 1989, 90, em plena lambada. Comecei a descobrir que o lazer atrai muita gente e você passa a mensagem, quer dizer, no meio do concurso, no meio da lambada pegava o microfone e dizia: "Olha, isso aqui tudo pertence a vocês, a gente só tá fazendo isso porque isso é um patrimônio e vocês precisam ajudar a gente a conservar, senão não vai sobrar nada”.

De uns anos para cá começamos a trabalhar alternativas de renda para a melhoria da qualidade de vida, sempre focando as espécies com que trabalhamos, por exemplo camisetas, sacolas, buchas vegetais. O Valentim trabalha com as Ecobuchas, feitas em formato de mico-leão, em formato da onça. Enquanto a pessoa está bordando uma camiseta, ela está aprendendo sobre a espécie, ou ela está trocando informações, está entendendo que só ali vive o papagaio da cara roxa, naquela região do Superagüi. Ela passa a valorizar mais, e ao fazer a camiseta e ganhar um pouco de dinheiro com a camiseta fica um processo de todo mundo ganhar: a natureza ganha, porque tem mais aliados, a comunidade está ganhando, vai melhorar a qualidade de vida deles, é um círculo vicioso do bem, é um win-win, todo mundo ganha. Estamos fazendo isso com várias frentes, tem o café orgânico, sem agrotóxico, gourmet, que é plantado à sombra das árvores, tem essa linha toda de artesanato com as mulheres. A vontade delas às vezes é muito grande: as mulheres dos assentados podem andar cinco quilômetros para ir a uma oficina que estamos oferecendo.

Nós escrevemos uma proposta em 1995 e 96, foi como eu entrei para a Ashoka, para fazer um Centro de Educação, com cursos de curta duração na área da conservação e do desenvolvimento sustentável, acabamos nos estabelecendo em Nazaré Paulista, que fica a uma hora do aeroporto de Guarulhos. Num lugar muito bonito, à beira de um reservatório de água muito importante de São Paulo, temos um Centro com capacidade para 26 pessoas. Essa foi a semente para a idéia de pós-graduação que estava sempre no nosso sonho e agora estamos realizando.

A Ashoka é uma instituição que está na alma das pessoas, mas ainda existe uma divisão ou preferência pelo lado social, em relação ao lado ambiental. Eu adoraria ver a expressão socioambiental. O Guilherme Leal, da Natura, deu uma explicação muito interessante da inquietação que leva à ação, ele definiu o empreendedor dessa maneira. Eu sou uma pessoa extremamente inquieta quando vejo desarmonias socioambientais.

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