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História

¡Para presumir, sufrir!

História de: Esther Ibañez
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Esther nasceu na Espanha, em 1945, e se mudou com a família para o Brasil quando ainda era criança. Aqui, estabelecidos em Osasco, o sonho de imigrante se chocou a realidade. Tiveram de se virar, e ela se viu obrigada a trabalhar como cabeleireira. Sua relação com o cabelo, no entanto, não era das melhores: já aos três anos de idade, sua mãe a forçava a fazer permanente e passava cerveja para definir seus cachos. “Para ficar bonita, tem de sofrer”, dizia a vaidosa matriarca. Assim, a moça “engoliu” apenas por pouco tempo o ofício no salão de beleza. Foi na função de comerciante, no mercado do pai, que conquistou sucesso profissional e conseguiu erguer uma casa própria, para o marido e os três filhos. Misturando lembranças em espanhol e em português, ela conta que, ainda hoje, quando ouve uma música de sua terra natal, chora; e, quando está fora do Brasil e escuta Roberto Carlos, vai às lágrimas também. Embora nunca tenha se naturalizado, Esther tem mesmo dois países em seu coração.

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História completa

Eu nasci em Zaragoza, Espanha. Meu pai era Santiago Ibañez Lucas e minha mãe, Maria Pilar Badia Bala. Meu pai saiu da cidade de Ojos Negros com 16 anos, porque meu avô casou pela segunda vez e queria que ele fosse trabalhar na mina. Ele não quis e fugiu de casa, foi para Valência. Lá, o papai ficou trabalhando para uma firma, faziam entregas para todo o lado da Espanha. Aí, foram fazer uma entrega de Valência para outra capital, só que tinha que atravessar o rio, o Rio de Valência. Eles foram normalmente. Quando chegaram lá, estourou a guerra da Espanha, irmãos contra irmãos. Eles queriam voltar para Valência, mas não era permitido. A turma que ficou em Valência lutou contra o Franco, e a turma que estava do lado em que o meu pai ficou lutou a favor de Franco. Meu pai só queria saber de mulheres e trabalhar, não sabia o que era política. Mas, sem querer, lutou desde o primeiro dia da guerra.

 

Dois ou três dias depois, meu pai perguntou para o padre: “Senhor, quando que vai acabar essa burrice aqui?". O padre falou: “Santiago, se isto não terminar em três dias, vai durar três anos. Porque em três anos vai acabar a guerra da Espanha e vai começar a Segunda Guerra Mundial”. Isso os padres já sabiam. E durou os três anos. E meu pai lutou a favor do Franco. Matando muita coisa, passando muita sede. Bebiam até a própria. Não meu pai, mas ele contava. Por que essa idiotice de guerra? A guerra não leva a nada. Só leva a sofrimentos.

 

Meu pai foi para o front de Quinto de Ebro, onde minha mãe nasceu e tinha 14 anos. Lá não tinha água encanada, nem nada. Tinha que lavar a roupa no rio ou na represa. Minha mãe sempre ia, levava a roupa para lavar lá. Nessa época, passou uma turma de soldados. As mocinhas todas lá lavando roupa e viram aqueles soldados bonitinhos. Começaram a dar risada. A Dona Pilar não! Dizia que não deu risada, não sei se é verdade. Meu pai, muito sem vergonha, falou assim: “Em vez de vocês darem risada, por que vocês não vêm lavar nossa roupa?”. Minha mãe falou: “O senhor, você pode ir a tal lugar” – deu o endereço – “que eu lavo à noite a roupa para vocês”. Meu pai, à noite, pegou a roupa dele toda suja e levou lá. Aí que começou a conhecer. Ficou noivo da minha mãe. Então, ele tinha noiva em Ojos Negros, noiva em Quinto e noiva em Valência. Meu pai! Depois veio a guerra, a mamãe teve que sair de Quinto de Ebro, foi trabalhar como doméstica em Zaragoza. E meu pai já estava lá também, lutando. E foi assim que ele ficou só com a minha mãe.

 

A primeira vez que uma menina usou calça comprida, macacãozinho, em Quinto de Ebro, fui eu! Minha mãe fez. Minha mãe sempre muito caprichosa, muito lencinho. Minha mãe, com três anos, me fez fazer permanente elétrica, me queimou aqui. Porque tinha que ser! Eu tenho o cabelo muito crespo, que espeta assim, de tão crespo que é. É grosso, é duro. E mamãe não tinha laquê na época. O que tinha para grudar? Cerveja! Minha mãe passava cerveja no meu cabelo, para ficar o cachinho penduradinho. Isso, com o monte de cabelo que eu tenho... Uma criança, com três, quatro anos, sentada duas horas. Eu chorava, e a minha mãe: “Para presumir, hay que sufrir”. “Para você ficar bonita, tem que sofrer”, minha mãe falava. E até hoje quando eu faço alguma coisa que demora muito, eu falo: “Para presumir, sufrir”. E assim foi.

 

Quando meu pai resolveu, veio embora para o Brasil, porque no Brasil dava ouro na árvore. Não nascia fruta, nascia ouro. Era o que se falava lá na Espanha. Então, meu pai veio para cá sozinho. Minha mãe começou a trabalhar de tecelã, saía de madrugada e voltava duas horas da tarde. Aí que ela cuidava do resto de casa e tudo o mais.

 

Meu pai chegou ao Porto de Santos e foi trabalhar na Mooca com um espanhol. Começou a encontrar amigos espanhóis. Hoje, a gente fala: “És catálan, és basco”. Mas, naquela época, não. Espanhol era espanhol, se uniam, ajudavam um ao outro. Aí, meu pai trabalhou seis meses para aquele espanhol, só que não recebeu um tostão, comeu e dormiu só. De domingo, ele vinha se reunir com essa turma em Osasco e se queixava. Um deles, Seu Luís, falou: “Santiago, você quer que eu te arrume emprego no Cobrasma [Companhia Brasileira de Materiais Ferroviários], fazendo engates de trem?”. Meu pai falou: “Quero! Só que eu não tenho um tostão para comer”. Falou: “Minha casa responde. Você dorme o mês inteiro, e eu te dou a comida. Quando você puder, você me paga”. Aí, foi assim.

 

Quando ele recebeu, viu aquele montão de dinheiro, eram contos na época, eram cruzeiros. Meu pai colocava o dinheiro em cartas e mandava. E minha mãe recebeu umas três, quatro vezes assim, por carta. Um dia, meu pai foi lá na agência do senhor Balaguer para trocar em pesetas, para mandar para a Espanha. E o Seu Balaguer falou: “Vem cá, Santiago! ¿Por que haces esto? É perigoso. É o seguinte: você me traz o dinheiro aqui, você me traz em cruzeiros e eu mando para tua esposa em pesetas”. E assim foi. Até que meu pai, no mês em que faria dois anos que estava aqui, mandou todo o dinheiro.

 

Quando nós fomos embarcar para o Brasil, fecharam as fronteiras. Teve a revolução com o Getúlio Vargas, ele se matou. Foi em agosto de 1954, e nós chegamos dia 25 de setembro. Trancaram as fronteiras, então, não saía nenhum navio para cá. Nós ficamos uma semana na casa de uma prima do meu pai, em Barcelona. Depois de uma semana, abriram as fronteiras, e nós viemos no navio Cabo de Hornos. Passamos 17 dias no navio, 17 dias! Só trouxemos roupa, mais nada. Só a roupinha que a gente tinha e coragem.

 

Já fomos direto para Osasco, nessa casa do cortiço que meu pai alugou. Era uma casa para seis cinco famílias. Era um banheiro para cinco famílias. A minha mãe obrigou todo mundo a ter um dia para limpar o banheiro. E ela ficou com dois dias para limpar o banheiro. E pintava a casa todos os meses, com cal, porque tinha que estar cheirosa, tinha que estar limpa. A mamãe era assim e nunca reclamou. Lutou para comprarmos uma casa.

 

Nós comíamos igual espanhol. Não comíamos arroz e feijão. A mamãe fazia muita sopa à noite porque meu pai tinha que fortalecer o estômago. Como nós não tínhamos muito dinheiro, a minha mãe comprava aquelas costelas com osso. A gente comia a carne, e o osso dava para a sopa.

 

Na primeira semana que estávamos aqui no Brasil, o papai nos levou à feira. Estranhamos porque na Espanha não tinha isso na rua. Nós fomos comprar o que minha mãe precisava – batata, cebola – e passamos na banana. Na Espanha, quando nós ficamos uma semana sem embarcar, a minha tia comprou uma banana. Até hoje, com 73 anos, eu sinto o gosto da banana. Eu comi aquela banana tiquinho por tiquinho, entrava no dente, mas aquele gosto delicioso. Bom, nós fomos para a feira no domingo, e meu pai comprou um cacho de banana, 113 bananas. Durou quatro dias, e não tinha mais banana nenhuma. Era só banana. A minha mãe começou a engordar por causa disso. Era banana com pão, engordava mesmo. A mamãe chegou aqui com 54 quilos e, em um ano e meio, estava com 80. E a Dona Esther também. Entrou também na banana.

 

A minha mãe tinha uma amiga que morava no Brooklin, e o marido tinha morrido. Ela era cabelereira. Para sobreviver, foi para Bragança Paulista e pediu para a minha mãe me deixar ir com ela. E me ensinaria a ser cabelereira. Eu detestava cabelo, mas fui. E fiquei seis meses, odiando. Ela fazendo cabelo e me ensinando, e eu engolindo. Aí, vim embora para Osasco de novo. Minha mãe falou: “Vamos te pôr num salão para aprender”. Eu fui à Praça da Sé, no Akahoshi, era um dos mais famosos cabelereiros para aprender a profissão. Eu engoli. E de fato eu dei lucro, porque, com o que eu ganhava, ia à feira e, de um lado, carregava um frango, duas sacolas de comida. Então, nessa época nós fizemos nossa casa lá em Osasco, dois quartos, sala e cozinha, um quintal enorme.

 

A gente ia até os quintos dos infernos de bicicleta. Eram 15, 16 meninas tudo de bicicleta. Íamos para um clube, ficávamos o dia inteiro. Era paqueradeira que só vendo. Se eu via um “zóio” bonito, estava paquerando. E eu era paquerada também.

 

O Valter foi o meu primeiro namorado. Tinha 14 anos e 18, quando casei. Eu o achei bonito, elegante. Nunca reparei que ele tinha perna torta, porque ele usava calça larga. E ficamos 48 anos casados. Foi uma vida, né? Faz cinco anos que ele morreu. Temos três filhos maravilhosos, netas maravilhosas.

 

Eu queria que os meus bisnetos vissem isso. Que se honrem, tenham orgulho de pertencer a imigrantes, que saibam respeitar o que os imigrantes trouxeram. Que eles saibam que eu tenho muito, muito orgulho de ser Ibañez, que eu tenho muito orgulho de ser imigrante, de estar neste país. Eu sou espanhola, nunca me nacionalizei, mas sou brasileira de coração. Amo o Brasil. Eu fico um mês na minha terra, quero voltar para esta terra. Quando eu escuto uma música espanhola, eu choro. E quando, lá, eu escuto uma música brasileira, Roberto Carlos, eu choro. E canto duas vezes. Quer dizer, eu tenho no coração dois países.

 


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