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Petrolandense sim, Sinhô

História de: Zezito
Autor: Paula Rubens
Publicado em: 29/05/2018

Sinopse

Ele  trabalhou duro, mas encontrou o reisado, lugar de dança, cantoria e alegria onde a dureza da vida era substituída pela fantasia.

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História completa

Meu nome é José Barbosa Lima, mas me chamam de Zezito. Nasci na Paraíba, em Itaporanga, em 30 de abril de 1940, saí de lá ainda “de braço”, junto com meus irmãos. Portanto só fiz nascer fora , mas me criei mesmo foi em Petrolândia, Pernambuco. Meus pais fugiam da seca de 40. A pé , levando o pouco que tinham , procuravam um lugar para trabalhar que fosse perto do rio. No caminho pararam à beira do rio São Francisco, no Icó, distrito de Petrolândia (PE), lugar de destino da família, a princípio. No Icó, ao relento, foi preciso acender uma fogueira para aquecer a noite fria sem coberta. Meu irmão, criança, me carregava, ainda bebê, no colo. Foi levantar-se, tropeçou e eu caí na fogueira . Um lado inteiro do meu corpo ficou queimado. Foi uma agonia, mas não tinha o que fazer.

 

  No dia seguinte chegando em Petrolândia nos arranchamos no galpão da Estação Ferroviária. Minha mãe pediu ajuda e fui levado a Dr. Dario, médico da cidade, que cuidou das minhas queimaduras. Fiquei bom, mas até hoje tenho as marcas. No dia seguinte ela, meu pai e os mais velhos saíram para conhecer o povo do lugar. Conheceram “seu” Manoel Simplício, Raimundo Lima, Rodrigues, João Rodrigues, entre outros. Depois de muito andar, fomos bater na porta de “Seu” Dacruz. Que perguntou: “ – Vocês são de onde? Que vieram buscar aqui? “ Meu pai respondeu: “ Viemos da Paraíba fugindo da seca, viemos pra cá por causa do rio e só queremos trabalhar, mais nada. Só trabalhar!” “Seu” Dacruz disse: “Gosto de gente trabalhadeira!” E imediatamente convidou: “Vamos botar uma olaria? “ Meu pai topou na hora e foi trabalhar numa roça dele na beira do rio, perto do cemitério.

 

“Seu” Dacruz ficou sendo como uma pai da gente. Cuidou de nós todos, foi como pai para mim. Até hoje, até o último filho dele que ainda tem vivo tem consideração por a gente. Foi ele que alugou casa para nós no Alto da Raposa e confiou na gente. Meu pai ficou trabalhando na olaria, meus irmãos e minha mãe se viravam como podiam. Faziam carrego de água para as casas , naquela época não havia água encanada; catavam lenha no mato pra trocar por comida e todo serviço de roça que aparecesse. Minha mãe lava roupa “de ganho” no rio, lá mesmo na roça de Seu Dacruz. Era um serviço pesado e ainda tinha um “mói” de filho pra cuidar. . . Depois de crescido, por volta dos seis anos, comecei a fazer carrego d’água também para as casas das famílias, como a de D. Luzia de Pedro Espíndola, D. Otília de Alonso Leite e outras . Ganhei calo nos ombros, mas precisava ajudar minha mãe. Abastecia as casas pela manhã, logo cedo, e no final da tarde. No intervalo, agoniado em ver minha mãe trabalhando tanto , pedia a ela que separasse algumas roupas que eu pudesse lavar, queria ajudar. Minha mãe dizia que aquilo não era coisa para menino, mas acabava cedendo e me deixando lavar alguma coisa. No final da tarde, a gente enchia as latas d’água e ia fazer o ultimo carrego do dia. Tinha dia que de tão cansados dormíamos no terreiro da casa.

 

No outro dia tudo começava outra vez. Mas eu , durante o dia ainda achava tempo de sair pela rua vendendo picolé da sorveteria de Pedro Espíndola e pão da padaria de Zé Tôto. Tinha freguês que acertava com o dono da padaria e deixava as sacolas de pano pendurada no lado de fora da porta. Eu passava e colocava a quantidade de pão combinada. Ninguém mexia no alheio. Nessa época Petrolândia era PETROLâNDIA. O povo se ajudava. A gente só sabe o que perde depois de perdido.... Ainda hoje eu choro com a lembrança de lá... Mas, voltando a minha história de menino... Chegou a hora de ir para a escola. A professora era Fifia Costa e a escola ficava numa casa alugada pela Prefeitura na rua do Funil em frente a ERCAL, padaria de Sr. João Inocêncio. Não aprendi nada, troquei a escola pelo rio. Escondia caderno e lápis por baixo da camisa e junto com outros ia escondido para o cais. Pulávamos do alto do cais no rio e, vez por outra, aparecia alguém pagando para nos ver pulando. Era divertido, muito melhor do que a escola. O resultado é que até hoje não sei ler. Mas meu pai dizia sempre: “vocês trabalhem, andem na linha e nunca peguem no alheio!” . Essa lição eu aprendi direitinho. Meus irmãos mais velhos ajudavam meu pai na olaria e na roça, fazendo cerca e o que mais precisasse. Tempos depois arranjaram para eles trabalharem na cerâmica do Núcleo Colonial do São Francisco.,aí as coisas começaram a melhorar . Por volta dos 12 anos eu também trabalhei nas olarias, não na do núcleo, mas nas particulares. Depois trabalhei no caminhão de Zé da Cruz carregando material de construção para a construção das estradas.

 

Depois andei pelo mundo. Fui trabalhar no açude de Pariconha, mas sempre vinha em casa. Vinha a pé e no caminho ainda comprava uma Abóbora grande numa feirinha que encontrava no caminho e trazia na cabeça para minha mãe, que gostava muito de abóbora. Quando começou os serviços da barragem voltei para Petrolândia, já tinha uns 37 anos. Arranjaram para mim um emprego na INCOBAL, uma empreiteira que trabalhava para a CHESF. Foi nesse tempo que com ajuda de um tio, consegui construir uma casinha perto do posto fiscal e pude trazer minha mãe de volta. Ela, que sempre morou comigo, tinha ficado viúva e se mudado para Itacuruba.

 

  Depois da INCOBAL me transferiram para o Hospital da CHESF, onde trabalhei lá 12 anos. Fiz boas amizades. No hospital fazia de tudo um pouco, mas foi pegando marmita para o almoço do pessoal que me agradei de uma loira e ela de mim. Ela trabalhava na casa de um dos médicos. Convidei-a para namorar e ela topou. Visitei a família dela que morava em Santa Brígida (BA) e botei aliança no dedo. Acontece que o patrão dela foi transferido e ela teve que ir morar em Aracaju. Fiquei preocupado, mas na ocasião ainda não dava para casar. Na despedida ela pediu meu endereço dizendo que era para mandar carta. Entreguei o endereço todo contente. Dias depois chega uma carta. Levei para que o pessoal do hospital lesse para mim. Quando feliz abri o envelope, na frente de todo mundo.., para meu espanto..., dele caiu uma aliança. Leram para mim o que eu já desconfiava. Ela estava desfazendo o noivado. Não me conformei. Como assim? Não havia dado motivo, porque ela estava fazendo aquilo? Depressa fui à Santa Brígida conversar com os pais dela e expliquei o ocorrido. A mãe dela não gostou nada. Levou-me a uma velha vidente e pediu para que ela visse o que estava acontecendo com a filha. A mulher mexeu nos paus e logo garantiu que ela estava em minha casa. Eu podia voltar sossegado que ela estava lá à minha espera. Seguimos para Petrolândia, eu e a mãe dela. Pois não é que estava mesmo! Tinha se arrependido da carta e veio para ficar. A mãe depressa cuidou em fazer o casamento. Ela era menor de idade, tinha dezessete anos, mas deram um jeito nos documentos e Padre Pedro fez o casamento . Eu tinha 40 anos, mas deu tudo certo e até hoje estou casado com Ana, graças à Deus. Tivemos poucos filhos, apenas cinco. Dois morreram recém- nascidos e ficaram três: Arnaldo, Arionaldo e Ana Lúcia de Lima.

 

  Da época em que morei no Alto da Raposa , ainda solteiro, lembro que a única festa da qual participava era o Reisado. Era nossa festa! Eu era de dentro. Fazia o papel da velha. Aprendemos com um rapaz que veio de Alagoas, ele era o mestre.. A gente ensaiava no Alto da Raposa e vinha dançando de lá para a rua a fim de nos apresentar de casa em casa, requebrando e cantando versos assim: “ô minha gente que nunca viu venha ver/ pai de “famia” descer/ pra guerra não voltar mais/tanta “mulé” chorando por seus marido/ tanta criança perdida ô mamãe cadê papai” “ Eu tava lá em Palmeira/fazendo feira quando o avião passou/no campo de “canafista”/moça bonita seu namorado chegou” “ Eu vi um peixe na beira dágua/corta o cabelo Janaina e caia nágua!” ‘É P palavra P pApel P poesia/P pão P padaria P padeiro e P pintor/ Pavaão voou por cima do Pererê/ Quando eu digo apague o P você diz P apagou.” “ Boa noite senhor dona da casa/ o senhor desculpe eu brincar no salão/Serra Grande, Catende . Custódia/ só canta quem pode sou eu campeão” “ Os “alemão” só “ trabaia” em avião/ tem comercial pra tomar o Brasil/ tomar Brasil eu gemendo e eu chorando/ eu gemendo eu chorando a baiana tem que ir.” “ Brejão, Bom Conselho , Garanhuns saudade dos meus tá todo ao meu lado/Olinda Rio de Janeiro , ô viva primeiro Pernambuco amado!” Nossas roupas eram compradas com o dinheiro arrecadado entre os comerciantes Zé Marcelino, João Baiano e outros. A coisa era organizada, tinha regra, ninguém podia beber. Era bonito. O povo de Petrolândia, nesse tempo não tinha besteira. Todo mundo ia assistir. Aí chegou a barragem. Nem lembro como chegou a notícia. No começo foi bom. Apareceu emprego, mas depois ... Saudade da vivência. Do movimento com o povo. Lá o povo se chegava mais uns aos outros. Quando um adoecia todo mundo chegava junto para ajudar. Aqui todo mundo é estranho. Os velhos já morreram, se foram. Quem está hoje aqui não sabe quem é a gente e trata como estranho.

 

  Não nasci em Petrolândia, mas lá me criei desde pequeno. Lá ganhei mais um pai e uma mãe. Embora tivesse os meus, ganhei mais dois. Tenho muito a agradecer a todo mundo, todos foram bons para nós, mas em primeiro lugar os Cruz, que pra nós são como família e nós para eles. Isso eu conto sem pedir segredo a ninguém. Porque se passou mesmo. A vida não era fácil, mas era boa, por isso tenho saudade. Se dissessem que Petrolândia Velha tinha voltado, eu era o primeiro da fila para voltar para lá.

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