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História

Poetisa na infância, professora na vida

História de: Maria Aparecida Cárdenas Kalume
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Não são poucas as histórias dramáticas na vida de Maria Aparecida Cárdenas Kalume, a Cida, nascida em Tatuí, no interior de São Paulo, em 1937. Com emoção, ela se lembra da separação dos pais, quando ainda era criança, e das dificuldades financeiras que passou ao lado da mãe e dos irmãos. A vontade de estudar, no entanto, a ajudou a enfrentar os obstáculos. Ainda na escola, descobriu o dom para a poesia e, aos 13 anos de idade, já dava aulas particulares de latim. Depois de casada, mudou-se para São Paulo, onde se formou e se pós-graduou na área de Letras. Construiu, então, uma carreira como professora e nunca perdeu o gosto pela leitura. Depois de se aposentar, com as boas recordações das comidas de sua mãe sempre vivas, decidiu ainda escrever um livro de receitas.  

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História completa

Eu nasci em Tatuí, Estado de São Paulo, 10 de março de 1937. O meu pai se chamava Domingos Cárdenas, origem espanhola, e a minha mãe, Dolores Balmisa, origem espanhola também. Eles vieram pra cá muito jovens, mas o amor não foi muito lindo. Eu achava bonito quando ela comentava que ela amava um maquinista e ela se comunicava com esse maquinista através do apito do trem: quando ele passava nas imediações da chácara onde ela residia, eles tinham um sinal. Até que chega uma família e diz a ela: “Dolores, esse é o seu futuro marido”. Aí, o mundo desabou, né? Então, não foi um início bonito, amoroso, não houve convívio, contato, nada! Ele ficou até o nascimento do segundo ou terceiro filho, separaram-se, e eu nasci. Eu acho que ela já estava grávida de mim, ele veio, mas não permaneceu, se separaram de novo.

 

E eu tive uma mãe maravilhosa, batalhadora, com quatro filhos, sem profissão. E muito prendada, principalmente na parte de costura. Mas era uma pessoa triste, tinha essa parte, e o que eu achava muito bonito nela, nunca ela falou mal do meu pai. Ela se referia a ele não com saudade, mas “coitado”, uma espécie de carinho. E ele tinha contato com meus irmãos mais velhos, dois irmãos e uma irmã e eu, que era a “rapinha”, a pequena. Ele vinha visitar ou me levava passar férias com ele, mas ele tinha uma parte de alcoolismo que não me agradava. Não era rude, mas machista. E a costura foi que auxiliou muito a minha mãe.

 

Eu lembro que eu era uma boa aluna. Eu era estudiosa, e isso dava muita alegria pra minha família. Com 13 anos, eu era tão boa aluna em latim – que era a cruz da época – que os pais dos alunos de melhor poder aquisitivo me procuravam pra dar aula particular na minha casa. Então, eu já era professorinha de latim. Tive muitos alunos, gente rica, gente pobre. Tive um menino chamado Bonifácio. Ele, quando pequeno, deve ter sofrido aquela doença pólio, poliomielite. E eu dava aula pra um menino e uma menina, irmãos, mocinhos, que moravam no hotel melhor da cidade e que cuidavam dele, pagavam os estudos dele. Aí, a dona do hotel, Dona Cizira, ela disse: “Oh, Cida, você é tão boazinha, dá aula para o Bonifácio!”. “Claro!” “Pode pôr com os meus dois netos.” Aí, ele veio comigo. Eu não cobrava, imagina que ia cobrar naquela situação. Então, são pessoas boas, porque ela, no meio da aula, mandava um prato de batata frita para os dois netos dela, para mim e para o Bonifácio.

 

Eu punha a mão no bolso, saía dinheiro. Eu ajudava muito minha mãe, na casa. Fazia pouco tempo que meu pai era ausente, e eu comprei um fogão pra ela – porque era fogão de lenha. Nossa! “Não gosto disso, essa coisa moderna! Eu gosto do meu de lenha!” Digo: “Mas deixa, mãe”. Depois, ela amava esse fogão. Meus irmãos também ajudavam, minha irmã punha num envelopinho um dinheirinho pra ela. Foi melhorando a situação da família.

 

Na escola, eu nunca tive problemas, tanto que é uma passagem que marcou muito minha vida. Novinha, com uns 13, 14 anos, os professores perceberam que eu tinha muita facilidade pra escrita em português. Então, eu fazia poesias. As colegas de classe: “Ah, Cida, faça uma poesia que eu quero mandar pro meu namorado!”. Fiquei a escritorinha dali e passei a participar de muitos eventos no colégio, de orfeão. E num dos eventos o meu professor de música fazia aniversário. Eu fui, li a poesia pra ele:

 

“Dos bens que recebemos e gozamos, sentimos a beleza e o esplendor, e nossos pensamentos dedicamos a quem nos oferece grande amor. E o bem que nos alegra e nos encanta é o límpido caminho da instrução, guiado pela mão divina e santa que tem a nossa eterna gratidão. Guiado pela mão do professor, que nos aponta a estrada da verdade, que nos ensina em Deus ter grande amor para podermos ter felicidade. Bendito sejas, professor, bendito. Divina mão que só pratica o bem, és o mestre da vida, do infinito, a esperança de sermos nós alguém.”

 

Depois que todos aplaudiram, ele disse: “Agora, eu vou aproveitar o momento para beijar as mãos dessa artista”. Ah, me fez tão bem! Um mês depois, eu me encontrei com ele no corredor do colégio. Ele disse: “Sabe aquela poesia que você fez para o aniversariante gordo? Vai ser uma música!”. E essa música foi longe, foi nas cidades vizinhas. Ganhei um prêmio com ela e amava esse professor e a família dele também. Eu gostava da escola, eu acho que era um substituto de alguma coisa que eu não tive, né?

 

A minha primeira transformação foi uma vizinha muito querida, Dona Hortênsia, que falou: “Essa blusa já está muito justa pra você e já está marcando o seu seio”. Ali, foi o primeiro despertar. Quando fiquei mocinha mesmo, já tinha o irmão que se interessava por farmácia, ele foi um bom farmacêutico, então, ele orientava. Uma ajuda mútua. Eu sabia mais ou menos, né? Não entendia o tipo de proteção pra esses dias, porque o Modess estava surgindo, e eu não usava, usava tecido, que era aquela luta pra minha mãe lavar. Fui entendendo, eu mesma fui trocando, porque eu já podia comprar coisas pra mim. Não foi um drama.

 

Os traumas que eu tive foram horrorosos. Primeiro trauma: a tentativa de suicídio da minha mãe. Isso acabou comigo. Outro trauma: a tentativa de suicídio do meu irmão. E a tentativa dele deu certo, ele morreu. Morreu, eu acudindo, tentando salvar, gritando já com noção da vida, de tudo. E a tentativa de suicídio da minha irmã, com comprimidos. Aí, já não se fala mais em infância. Já é a mocidade. Foi triste. Eu sofri muito, muito. Eu amava aqueles irmãos e nunca entendia o porquê daquilo. Depois, você vai reunindo passagens, acontecimentos, e você descobre.

 

Fases muito difíceis eu não sei enfrentar muito bem, eu entro em depressão. Depressão profunda, de médico, de tratamento mesmo, tanto que estou saindo de uma depressão. Há uns quatro meses, ela apareceu, ela não tem cura.

 

A vinda pra São Paulo foi boa, porque meu marido era chefe do Ministério do Trabalho lá em Tatuí, e ele veio por uma promoção. Ele veio na frente, a Rita era pequenininha, quatro anos. Passava a semana aqui e, todo fim de semana, ia pra Tatuí. Até que, um dia, ele chegou, e ela, pequenininha, pôs a mãozinha assim e disse: “Quem é você? Eu não conheço você”. Ele falou: “Ah, Cida, não dá mais”.

 

Então, morava numa vilinha na Mooca, uma viela. Desse ambiente e, com a melhora salarial dele, nós fomos procurar casa. E, procura daqui, o dinheiro não dava. Procura de lá, o dinheiro não dava. Aí, passamos pela Nove de Julho, saindo do túnel, naquele barulhão, “aluga-se” ou “vende-se”. Kalume falou para o corretor: “A gente pode olhar essa casa?”. “Mas essa casa? O senhor quer essa casa? Pra começo de conversa, são seis casinhas iguais, antigas e sem conforto, na boca do túnel.” Então, foi a primeira casa. Tudo isso eu acho conquista! Daquela casa, a gente pintou, meu irmão ajudou. Daquela casa, eu fui pra casa onde eu moro até hoje, que eu amo.

 

Fiz vestibular e passei em sétimo lugar e fiquei indo pra Vila Formosa e indo pra USP [Universidade de São Paulo]. Fiquei dois anos aqui na Maria Antônia, e o final dela lá na Cidade Universitária. Eu sou formada em Letras com pós-graduação, fiz língua, fiz literatura.


Adoro ler! Adoro. Minhas coisas da faculdade, poesia, um bom autor eu gosto! E eu me enveredei pela culinária. Cheguei a publicar um livro em 1980. Quando eu me aposentei, eu queria preencher a minha vida. “Ah, não vou mais no primário, naquela lonjura! Vou assistir um curso de congelamento pra facilitar a minha vida.” Fui, um curso excelente, oferecido pela Prosdócimo. E, aí, eu falei: “Ah, eu gosto tanto de escrever”, e eu tinha o primeiro livro lançado no Brasil por uma autora, Maria Tereza Cintra, Aprenda a congelar. Eu gostei do livro dela, mas achei que poderia acrescentar alguma coisa. Aí, eu passei a fazer em primeiro lugar a técnica de congelamento e, em segundo lugar, o que dá bom resultado pra você congelar, durabilidade do alimento congelado. E, no final do livro, receitas. Do freezer para a mesa. Aí, começaram a encomendar, eu vendi muito!

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