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História

Pólio e racismo: batalhas vencidas

História de: Regina Salles
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/01/2019

Sinopse

Regina nasceu em uma família numerosa, de oito irmãos, mas só foi conhecê-los de verdade aos sete anos de idade. Antes disso, vivia no hospital, para se tratar da poliomielite adquirida ainda bebê. Quando saiu de lá, além dos irmãos, ela também passou a conhecer a pobreza – sua casa, em São Paulo, ainda tinha chão de terra – e o preconceito que, mais tarde, enfrentaria por ser negra e ter uma deficiência na perna. Mas Regina não parece ter se importado com os obstáculos. Teve um filho e construiu uma bela carreira profissional, com passagens por grandes empresas e por duas faculdades: graduou-se como assistente social e como psicóloga. Quando contou sua história, continuava a cuidar da adoção de crianças e adolescentes e liderava grupos de terceira idade, organizando passeios e viagens pelo mundo.

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História completa

Meu nome é Regina Maria Salles de Andrade. Nasci em São Paulo, no dia 28 de janeiro de 1954. Minha mãe se casou com meu pai aos 24 anos. Eram de Ubatuba, se mudaram para São Paulo e ficaram juntos só dez anos, porque ele faleceu quando ela tinha 34. Tiveram oito filhos. Eu não vivi com eles, e só fui conhecer meus irmãos aos sete anos de idade. Até essa idade, eu só os conhecia através da janela do hospital. Tive poliomielite na infância, aos 11 meses, e minha mãe me internou na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Lá eu vivi. Lá no hospital eu fiz quatro cirurgias e, depois, fiz uma quinta. Eu fui entender o que era mãe, avó, com cinco anos, quando ela começou a falar: “Você tem irmãos!”. E eu: “O que é isso?”. Eu não sabia o que eram irmãos.

 

Lá no hospital, eu comecei a andar, a falar. Eu conhecia as enfermeiras – na época, eram madres. Eu aprendi a ler no hospital, ensinava as outras meninas. Eu era a única que andava, as outras não. Era muito deprimente aquela época. E fiquei ali durante sete anos. Quando eles me levaram para casa, chegaram lá e disseram que eu não tinha condições de ficar naquele lugar. Porque era uma casa que não tinha cimento, não tinha nada. E eu precisava de cuidados. Eu lembro que fui numa ambulância, fui recebida como se fosse uma festa. E realmente foi um choque quando eu cheguei. “Mas isso aqui é casa?” Minha mãe falou: “Aqui é sua casa. Esses aqui são seus irmãos”.

 

Foi marcante pisar em terra, porque no hospital o piso era de cimento. Ver bichos que eu nunca via, galinha, cachorro, isso não se via no hospital. Mas o hospital era um requinte e foi um baque para mim ver o quarto de terra, as camas divididas. Eram sete crianças, a minha mãe e a minha avó, que dormia num cômodo de madeira onde era a cozinha. Não tinha luz. Então, quando chegava de noite era uma tristeza. Era lamparina ou era vela.

 

Eu trabalhei na Antarctica durante 25 anos. Criei meu filho lá. Quando estava no meu último ano da faculdade de Serviço Social, eu precisava fazer estágio e pedi para eles. Eles falaram: “Infelizmente, não dá”. Aí eu fui conhecer a assistente social da empresa, uma loira bonita. E, depois, analisando, você vê o preconceito que existia na época. Eu, negra, não podia, porque a assistente social representava a empresa. Na empresa, você só via negros na fábrica, na cozinha, servindo. Na administração também não tinha. Foi ter na década de 90. Não reclamo, foi uma empresa que me deu todo o suporte. Se hoje eu sou o que sou, tenho o que tenho, foi trabalhando lá. Mas oportunidade de emprego eu não tive.

 

Quando me formei pela segunda vez, em Psicologia, eu falei para minha mãe: “Pois eu vou montar um consultório”. Aluguei uma salinha lá em Santana, e uma amiga me falou: “Ah, Regina, a gente podia ficar sócia”. Falei: “É, podia. Legal!”. Montei o consultório. E ela ficava de dia e eu à noite, quando saía da Antarctica. Mas nunca tinha cliente, não aparecia. Eu falei: “Ué! O que será que está acontecendo?”. Até que uma paciente chegou para mim e falou: “Sua sócia não é tua amiga porque, quando cheguei aqui, ela falou assim: ‘essa psicóloga que está à noite é negra e, além de tudo, é deficiente. E vocês acham que ela vai fazer um bom trabalho’?”. Menina, quando ela falou isso para mim, eu falei: “Espera aí, mas o consultório é meu! A gente só divide o aluguel”. E aí foi quando abandonei a Psicologia de vez mesmo, não quis saber mais e fui me dedicar realmente ao Serviço Social. Passei a amar essa área de criança e adolescente. Faço esse trabalho de adoção.


Em 2015, me aposentei, formei um grupo no Whatsapp, eu vou para teatro, cinema e viajo. Eu sou louca por viagens. E eu me sinto uma pessoa privilegiada, porque eu consegui me formar, ultrapassei a minha deficiência para poder estudar, trabalhar. Não sou coitadinha.

 


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