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História

Quando havia poucas bancas de jornal em São Paulo

História de: Pedro Favalle Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Identificação. Primeiro trabalho como entregador de jornais. As revistas e a Editora Abril. O sistema de distribuição e as formas de pagamento. Os jornais da época e a concorrência para a banca. A morte de Getúlio Vargas. As revistas da época e o comportamento dos leitores. Seu trabalho e o Juizado de Menores. O Bar Revista Favalle e as transformações da Avenida Santo Amaro. Avaliação do papel do jornaleiro. Censura e imprensa. Casamento. A freguesia. Os filhos. Infância e atividades atuais.

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História completa

INFÂNCIA

Desde 12 anos, eu morava na Alameda Sarutaiá, que era no Jardim Paulista, mas nos fundos de uma casa e ali começou toda minha infância. Brincava, tinha tempo para tudo, joguei muita bolinha, muito pião. As ruas eram de terra, você podia jogar bolinha, você rodava pião, você empinava seu quadrado, hoje é papagaio. Depois, na minha infância, eu estudei no Grupo Escolar Rodrigues Alves, fiquei dois anos. Estudei dois anos no Rodrigues Alves, depois nós mudamos para a Vila Nova Conceição, é uma travessa da Aldo Moura Andrade. Depois dali, estudei no Grupo Escolar Aristides de Castro, que era na Joaquim Floriano, no Itaim Bibi. Eu entregava jornal nas casas, ia na escola no Aristides de Castro, a minha mãe me esperava na esquina da Avenida Brasil, pegava os jornais que sobravam da entrega e me dava a mala, um sanduíche e a blusa da escola. Eu pegava o ônibus e ia na Rua Joaquim Floriano estudar.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO

Comecei vendendo jornal na esquina da Avenida Paulista com a Brigadeiro Luiz Antônio. Isso em 1947. Naquele tempo eram poucas as bancas de jornais. Meu pai tinha vindo da Itália e não tinha quase serviço. Então, começamos a vender jornal, fomos empregados dessa banca. Depois nós mesmos começamos a fazer freguesia, entregar nas casas. Saía eu, meu pai e meu irmão cada um para um lado entregando jornal, por conta própria. Foi passando o tempo, em 1952 nós montamos, no ponto final do ônibus Jardim Paulista, em cima de caixotes, os jornais e revistas. Ficamos ali dois anos vendendo. Começou a prosperar e foi quando o Jânio Quadros deu uma anistia para quem estava há dois anos vendendo jornal no mesmo ponto. Fomos agraciados com uma banca de jornal.

DISTRIBUIÇÃO DOS JORNAIS

A concentração da distribuição era na Praça Antônio Prado, no centro, na rua mesmo, de madrugada. Traziam os exemplares com uma caminhonete, aí os jornaleiros compravam. Porque lá se concentravam todos os jornais, era o Estado, a Folha, o Diário Popular, o Correio Paulistano, a Gazeta Esportiva. Eu era criança, cada um pegava o seu jornal e saía na correia.

SURGIMENTO DA EDITORA ABRIL

Em São Paulo não existia revista, as revistas eram tudo do Rio. Apareceu o senhor Victor Civita, que a gente depois soube quem era, e ele dizia: "Olha, por favor, aqui está aparecendo uma editora em São Paulo. Eu gostaria que vocês oferecessem essa revista para seus fregueses." Ele começou com o Pato Donald. Daí que surgiu a Editora Abril, que começou a evolução de revistas em São Paulo.

COMPRA E VENDA

A compra na caminhoneta dos jornais era à vista, tudo a dinheiro. Aí você encontrava as pessoas, você que vendia na rua. Senão você entregava por mês e recebia por mês. Não dava prejuízo, porque dinheiro, antigamente, era um dinheiro seguro, tinha valor, era o tempo dos mil réis. Vendi muito jornal no mesmo quartel, vendia para os oficiais no segundo esquadrão. Entrava lá e vendia também para os cozinheiros, para o barbeiro. Depois ali tinha fábrica, na Brigadeiro Luiz Antônio na esquina da Rua Jundiaí, e era a concentração de muitos operários, ali que a gente ficava mais para vender o jornal.

ENTREGAS

Naquele tempo eu distribuía a pé. Depois, com a evolução do tempo, surgiu a bicicleta. Comprei uma. Nesse intervalo surgiu uma oportunidade de eu fazer entrega para o Estado de S. Paulo, que eram os assinantes, virei empregado. Aí eu consegui ter a minha aposentadoria, porque antigamente jornaleiro não tinha.

JORNAIS DA ÉPOCA

Havia o Estado de S. Paulo, a Folha da Manhã, que hoje é a Folha de S. Paulo, Correio Paulistano, tinha O Dia, tinha O Tempo, tinha A Gazeta, tinha O Esporte, A Hora, O Governador, que era feito pelo Zé Fidelis, um comediante. Todos os jornais davam o mesmo lucro, eram trinta por cento e se conserva até hoje. Mas naquele tempo vendia mais a Folha, o Estado, o Diário Popular, a Gazeta Esportiva, a Gazeta. Hoje já não existe mais a Gazeta, não existe mais O Tempo, não existe mais o Correio Paulistano.

AQUISIÇÃO DO PONTO

Antes do Jânio Quadros, era com concorrência você. Mesmo que você estivesse há cinco, dez anos em um ponto, você fazia a sua proposta. Dizia quanto você ia dar por mês para a prefeitura, em um envelope fechado. Tanto fazia você estar lá há cinco anos, dez anos no ponto, se eu desse mais do que você tinha dado. Em 1954 foi que o Jânio Quadros formou uma lei que quem estava há dois anos no ponto, então, com um atestado, com um depoimento do dono do estabelecimento onde você estava mais próximo, ele dava o ponto para você trabalhar. A gente comprava uma estrutura pronta, que era de lata. Você já tinha a licença e todo ano você era obrigado a fazer exame médico. Tinha um cartão com a fotografia que tinha que ser sempre posta, apareciam os fiscais, e sabiam quem era o dono da banca ou não.

MORTE DE GETÚLIO VARGAS

Tem umas coisas que aconteceram, por exemplo, em grandes vendas de jornal, que aconteceu quandi eu estava na cidade. E eu estava na Rua Sete de Abril com a Rua Marconi em um bar tomando café. Nisso ouvi no rádio a morte do Getúlio. Ficou todo mundo abismado. Logo adiante existiam as oficinas dos Diários Associados. Fui lá, tinha o distribuidor e ele me viu: "Ô, Favalle, você não quer vender jornal? O Getúlio morreu. As máquinas já estão rodando." Nesse dia eu vendi três mil Diário da Noite na esquina da Rua Sete de Abril com a Rua Marconi, foi histórico. Ficou muita gente chocada pela morte. Uma outra passagem em que eu vendi muito jornal também foi casualmente. Eu vinha vindo pela Avenida São Luís, já estava de carro, e como eu trabalhava no Estado, que ele tinha se mudado para a Rua Martins Fontes, eu tinha que prestar uma conta. Nisso eu vi fogo, que foi o incêndio do Joelma. Foi outro dia de uma grande venda, vendi mais de dois mil Jornal da Tarde. Isso foi em 1973. REVISTAS Havia poucas bancas e poucas revistas. Revistas era só do Rio. Tinha O Cruzeiro, tinha A Cigarra, tinha A Carioca, tinha a Revista do Rádio, tinha o Fon-Fon, tinha o Jornal das Moças, tinha o Tico-Tico, tinha o Malho, tudo revistas cariocas. Aí o senhor Victor Civita apareceu com o Pato Donald, que surgiu a Editora Abril. Começou com o Pato Donald. Vendeu rápido, porque não tinha revistas infantis, foi uma das primeiras revistas infantis que surgiu no mercado. Depois veio a Capricho.

MUDANÇAS DO COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR

Com as bancas a gente foi parando de vender de casa em casa. Começou a existir mais bancas, o pessoal ia lá, comprava o jornal, comprava a revista. A entrega de casa em casa começava às 4 da manhã e ia até meio-dia, uma hora, duas horas. Aí ficava de folga. Já na banca, ficava um pouco de manhã, um pouco de tarde. Meu pai, meu irmão e eu nos revezávamos.

TRABALHO QUANDO CRIANÇA

Comecei com 12 anos e naquele tempo criança não podia trabalhar, foi o tempo que eu comecei na Avenida Paulista. Surgiu até um juizado de menores, e ele me pegou vendendo jornal. Antigamente, só se trabalhava depois de 14 anos. Ele me deteve, me levou para o Juizado de Menores. Meu pai precisou ir lá me tirar, contou que a gente necessitava porque a gente não tinha condições de sobrevivência, que os filhos precisavam. A pessoa era o J. J. Arruda e ele falou: "Já que você necessita trabalhar, nós vamos dar uma chapinha com o número que você põe na lapela e com isso você vai poder trabalhar sem ser incomodado pelo juizado.” Fui sair, mas eles falaram: "Você não estuda?" Eu falei: "Eu estudo, eu já estou na escola." "Nós gostaríamos que você fosse na escola do juizado à noite." Que era à noite. Essa escola era na Rua Aguiar de Barros, e do lado existia uma padaria, a padaria chamava-se Java. Quando eu tinha 12 anos, jornaleiro era uma classe que não tinha distinção, não tinha um comércio. Engraxate, jornaleiro e lixeiro eram uma classe ralé. Então, o que é que faziam os juizados: pegavam os engraxates e os jornaleiros pra frequentar a escola. Como tinha um pouco mais de estudo, que já estava na escola, me encarregavam de buscar o lanche na padaria. Um dia eu comprava pão e banana, outro dia era pão e mortadela. Fiquei mais ou menos dois anos na escola. Depois a professora se casou, então ficou sem professora, aí já foi se dissolvendo as escolas do juizado, não teve mais.

TRABALHO NO ESTADO DE S. PAULO

Eu trabalhava na área assinaturas de jornal do Estado. Chegava no fim do ano as assinaturas terminavam e eu sempre ia na renovação de assinatura. Você ganhava um bom dinheiro, tinha uma comissão quando você renovava. Fiquei no Estado de 1954 até 1972, mesmo com a banca. Mais ou menos em 1966 eu comprei um carro, comprei um Volkswagen. Aí fui melhorando, fui ganhando. Depois apareceu um outro serviço, de fornecer à Editora Abril, que eu comecei a fornecer jornais para essas editoras. Quando foi em 1972 eu não queria mais trabalhar no Estado, aí só me fixei na banca. Nesses intervalos, nós também montamos uma livraria.

ABERTURA DA LIVRARIA

A livraria foi mais ou menos em 1952. A gente tinha a banca e tinha a livraria, aí o negócio começou a funcionar. Começamos a ganhar dinheiro, estou na livraria até hoje. Com banca eu estou desde o começo na Praça Dom Gastão Liberal Pinto. Com a livraria eu estou desde quando fundou na Avenida Santo Amaro. A Avenida Santo Amaro se tornou um corredor de ônibus, isso mais ou menos há uns seis anos, que não pode mais parar carro. A freguesia que a gente tinha é de parada de carro, os carros que iam para o Morumbi, para Santo Amaro. A gente foi perdendo os fregueses. Assim mesmo a gente continuou com a livraria, e há uns dois anos a gente teve uma outra ideia, começamos com uma choperia. Também não deu certo, porque não tem estacionamento. Dois anos atrás eu me dediquei à lanchonete que é Bar e Revista Favalle. Agora nós tornamos um restaurante de comida por quilo, mas continuamos com jornais e revistas.

EVOLUÇÃO DOS JORNALEIROS

Jornaleiro era uma classe ralé. Conforme apareceram todas essas empresas que nem a Editora Abril, a Globo, a Rio Gráfica, então se concentraram e começou a evolução da imprensa brasileira. Isso melhorou a imagem do jornaleiro, hoje tem bancas sofisticadas, tem bancas de um comércio tremendo. Tem de tudo, até de vídeo, cigarro, doce, fichas telefônicas. Se você for na Praça João Mendes, vai ver uma estátua que mostra que eles achavam que jornaleiro e engraxate era a mesma coisa. A estátua tem um homem com uma caixa de engraxate nas costas e um jornaleiro com um monte de jornal do lado carregando. Mas jornaleiro, com todas essas empresas que apareceram, com toda essa evolução que teve na imprensa, cresceu. Hoje tem jornaleiro que tem advogado, engenheiro, executivos.

JORNAIS ALTERNATIVOS – DITADUTA MILITAR

Tenho uma passagem com os jornais alternativos da época da ditadura. Eu tinha banca e depois a livraria. Nesse intermédio faleceu meu irmão em 1961, que foi no dia da renúncia do Jânio Quadros. Depois de um ano, em 1962, morreu meu pai. Fiquei sozinho e me dediquei mais à livraria. Meus filhos eram pequenos, eu tinha casado em 1959. Eu não tinha pessoas da família que ficassem na banca, então eu arrendei a banca. Arrendei para umas pessoas que eu não sabia, mas eram membros da esquerda. Eram duas moças e elas vendiam esses jornais alternativos. Chegavam pessoas lá e falavam: "Olha, deixem de vender esse jornal, porque senão você vai pagar por isso." Elas não ligaram para o que falavam. Sabe o que aconteceu? Puseram fogo na banca, foi uma das primeiras bancas do Brasil que foi posto fogo, em 1964. Era essa banca na esquina da Joaquim Floriano com a São Gabriel. Perdi muita mercadoria, foi nesse ponto que eu tomei conta outra vez da banca e pus uma pessoa da família para tomar conta.

ENCALHE DE REVISTAS

É tudo consignado. Antigamente, era pago à vista. Hoje, o encalhe que você tem, você devolve e abate na tua conta. DINAMISMO Jornaleiro sempre jornaleiro ganha bem, desde que ele venda. Eu sempre fui uma pessoa muito dinâmica, eu nunca consegui ficar só na banca, tinha sempre alternativas. Eu entregava jornal nas casas, eu fornecia para empresa. Nunca fiquei sentado numa banca.

ATENDIMENTO AO CLIENTE

Você vai, pede uma informação, você dá, você se dedica. Agora está saindo esse atlas da Folha, o dicionário do Jornal da Tarde, então você se dedica: "Você guarda para mim a Folha?" E você diz: "Não, pode deixar que eu te guardo." E a gente tem os fregueses que a gente conserva, já se tornaram amigos.

EVOLUÇÃO DAS BANCAS DE JORNAL

Tem bancas que valem milhões. Essas bancas da zona sul, por exemplo, da Avenida Europa, do Morumbi. Da Avenida Paulista, da Avenida Ipiranga. Tem bancas que tem até computador, tem uma banca da Praça da República, de um amigo meu, o Paolo, que tem até computador. Aquela banca da Cidade Jardim também.

CASAMENTO

Como era uma classe que não tinha muita distinção, eu tive até problema para casar. Eu namorava. Depois as moças descobriam que eu era jornaleiro e não queriam mais namorar. Então, eu conheci a Alzira, que era vizinha da livraria, e nós começamos a namorar. Nesse intervalo teve uma vizinha da minha sogra que falou: "Dona Maria, a senhora vai deixar a Ziquinha casar com jornaleiro?" Virou a minha sogra e falou: "O que é que eu vou fazer se eles se gostam?" Depois de um ano de namoro eu casei. FAMÍLIA Tenho cinco filhos, e eles comigo. Eu ainda ajudo, trabalho, mas eu já dei essa banca de jornal para o filho mais velho. A livraria já dei para o outro filho, só as filhas que agora estão trabalhando nesse restaurante que nós montamos. Tem uma outra que é publicitária e tem um filho caçula que está com quinze anos ainda. Ele não trabalha, só estuda. Eu já estou no fim da carreira. E eu não mudaria, porque consegui tudo o que eu quis vendendo jornal.

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