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História

Quem fala incomoda

História de: Samuel Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/03/2016

Sinopse

O assessor de comunicação do IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculinidade) Samuel Silva relembra em seu depoimento o conturbado período que viveu antes de se reconhecer como transexual. Uma infância “no limbo” entre o mundo das meninas e dos meninos fez com que ele sofresse bulliyng e outras agressões. Durante a adolescência se automutilou e foi internado cinco vezes, sob o diagnóstico de personalidade borderline. Hoje vive o processo transexualizador e com o apoio de sua mãe se sente realizado.

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História completa

Nasci em São Paulo em 1992. Minha mãe é de São Paulo e meu pai é de Curitiba. Ele trabalha com informática. Eu sei que ele tinha escolhido não fazer faculdade pra começar a trabalhar. Ele tinha feito um técnico, tinha começado a trabalhar e depois ele foi obrigado a fazer faculdade porque a firma tinha obrigado ele a fazer. A minha avó e minha tia-avó foram muito presentes, elas ajudaram a nos criar, eu e meu irmão. A minha família inteira é da Congregação Cristã no Brasil, que é uma religião super conservadora, nessa igreja as mulheres tocam piano e os homens tocam qualquer outro instrumento erudito. E minha avó queria que eu tocasse piano na igreja. Minha mãe fez faculdade de Matemática e depois passou pra Informática. Meus pais se conheceram no trabalho. Eles casaram e foram morar primeiro num apartamentinho não sei onde, eles estavam pagando aluguel e aí tinha a casona, que é a casa da minha avó e do meu avô por parte de mãe. E quando meu avô morreu, minha avó saiu dessa casa e foi morar com a minha tia-avó, num apartamento dela, e a minha mãe, meu pai, eu e meu irmão mudamos pra essa casona. Fica na Água Rasa.

Na escola eu lembro das aulas de balé, que eu era obrigado a ir e os meninos podiam fazer judô e eu queria fazer judô. E eu estragava toda aula de balé das meninas porque eu era péssimo. E eu lembro que chegou um tempo que a professora desistiu de me dar aula de balé e deixava eu ficar na biblioteca vendo os livros. Eu repeti o pré porque não estava conseguindo aprender a ler e a escrever e fui pro Agostiniano Mendel, uma escola super forte. E para eu aprender a ler e escrever quem me ensinou foi minha avó. Aí aprendi, fui pra primeira série e fui bem. Eu sempre gostei muito de escrever desde a época que eu ganhei um diário da babá do meu irmão e fui escrevendo. Saí do Agostiniano Mendel e fui pro Lourdão, que é o Nossa Senhora de Lourdes, que é um colégio um pouco mais tranquilo. No primeiro dia de aula eu fiquei amigo de uma menina que falava muito. O nome dela era Stefani e eu sou amigo dela até hoje. Depois eu fiquei amigo de mais duas meninas ao longo do caminho. Só que elas me zoavam muito porque eu era muito desajeitado enquanto menina. Eu era uma coisa que estava no limbo, que não era nem um garoto, nem uma garota e que não se encaixava em lugar nenhum. Desde que eu me entendo por gente eu tenho a impressão que tem alguma coisa errada comigo, mas eu não sei o quê.

Quando eu mudei pro prédio na Água Rasa, e é onde eu moro até hoje, eu fiz amizade com muitos meninos. Na escola eu só andava com as meninas, no prédio eu só andava com os meninos. Na escola eu tentava me encaixar com as meninas e no prédio eu meio que podia ser eu. E tinha umas crianças mais velhas que eram muito sexualizadas, com 10, 12 anos e estavam querendo imitar os adolescentes, que faziam sexo com as meninas na escada. E aconteceu uma vez da gente estar brincando de esconde-esconde e eu ia me esconder dentro do salão de festa, aí três meninos viram e me seguiram e aconteceu desses três meninos abusarem de mim sexualmente. Com nove anos. Eu não contei pra ninguém. Porque eu tinha aquela ideia de criança que se eu contasse qualquer coisa pros meus pais eles iam falar para eu ignorar. Depois disso as coisas foram ficando mais pesadas, o que eu percebi, inconscientemente, é que meu lugar não era ali.

E com 12 anos eu comecei a me forçar a ficar com meninos, porque eu queria provar pra mim mesmo que eu estava no caminho certo, que eu era normal. Fiquei com meu melhor amigo e depois eu dei um soco na cara dele. Eu ficava com os meninos e ficava com raiva deles depois, porque estava errado, mas eu direcionava minha raiva pras pessoas. E com 12 anos eu fiquei menstruado pela primeira vez e o corpo começou a mudar. E aí vem uma série de complicações, porque a relação com você mesmo muda, por exemplo, eu não admitia que as pessoas me categorizassem. Então quando as pessoas viravam pra mim e falavam: “Você é menina”, ou “Você é mulher” eu falava: “Não, eu sou criança”, porque eu não queria ser classificado dessa forma. Quando eu falava: “Eu sou criança”, eu estou me dando o direito que eu estou numa posição neutra. Quando eu tinha 17 pra 18 anos eu comecei a me cortar, porque toda a raiva de tudo isso que tinha acontecido comigo começou a se direcionar pra mim mesmo. E a partir de então eu comecei a me cortar praticamente todo dia. Só depois de um tempo meus pais começaram a perceber. Antes de começar a ficar mais grave eu pedi pra minha mãe pra me levar no psiquiatra, porque por mais que eu estava doente disso eu também tinha consciência de que eu precisava de ajuda. Ele quase caiu pra trás quando viu as minhas marcas, me indicou pra terapia e me deu um antidepressivo, só que eu não posso tomar que eu entro em mania, eu tenho transtorno de personalidade limítrofe e tem que tomar porque senão dá o efeito contrário e me dá crise de mania. Com o antidepressivo eu comecei a me cortar mais. Eu comecei a ser internado quando eu tinha uns 19 anos em clínica psiquiátrica, quando eu já estava na faculdade. Dos 19 aos 21 anos foram cinco internações psiquiátricas, e ter essa vivência de internação é muito difícil porque você sofre diversas violências dentro da clínica psiquiátrica, desde você ser amarrado, de você ter privações, até o fato de conviver com diversas pessoas que estão em situações complicadas. O fato de você ficar preso dentro de uma UCE, que é Unidade de Cuidados Especiais, você só tem direito de ficar na sua cama por dias.

Quando eu comecei a me cortar uma menina da minha escola que era a minha amiga, a Gabi, e começou a cuidar dos meus cortes. E aí eu comecei a me apaixonar por ela. Até que um dia eu falei e a gente acabou ficando tal e eu namorei ela por uns três anos. Meus pais souberam depois de um tempo. E foi quando eu me assumi lésbica. Ela achava que meu problema era ter escondido o fato de eu ser lésbica por tanto tempo. Só que não era isso. E ela ficava frustradíssima com o fato de eu continuar me cortando apesar de ter ela, de namorar com ela. Até o ponto que ela não aguentou mais e me deixou. A relação com meus pais foi bem complicada no começo, porque eles eram da Congregação. Um dia voltando de uma vez que eu fui pro hospital e tinha me cortado e tals eu acho que eu falei pra eles que eu era lésbica, sim, e que eu amava a Gabi. Aí acho que eles falaram: “Ah é? Você fala tanto que está feliz sendo assim, mas você continua se cortando”. Me diagnosticaram como transtorno de personalidade limítrofe, que é borderline. Eu estava na faculdade de publicidade, na ESPM. Eu consegui uma bolsa e fiz um ano e meio mais ou menos, aí eu comecei a ser internado, tranquei o curso uns dois anos mais ou menos e quando eu voltei da última internação eu estava querendo prestar Cásper porque já tinha acabado a minha bolsa. Eu fui prestar Cásper e acabei sendo internado mais uma vez, tive que trancar mais um ano de Cásper e aí eu voltei.

Aos 21 anos eu me assumi como trans. Na minha última internação eu conheci uma mulher trans. Quando você saía da UCE, Unidade de Cuidados Especiais, tinha uma área comum que a gente geralmente ficava fumando que nem louco porque não tinha muita coisa pra fazer e a gente sempre nervoso, ansioso, e ficava conversando lá. E tinha uma mulher trans lá que ainda não tinha feito a transição. Eu fiz amizade com ela e comecei a ver que o meu discurso era muito parecido com o dela em relação ao corpo, em relação à roupa, em relação a tudo. E aí ela me sugeriu que talvez eu tivesse alguma questão de gênero envolvida na minha vivência. Eu nunca tinha parado pra pensar nisso e ficou nisso. Ela saiu da clínica, eu saí um tempo depois e a gente se encontrou e de novo veio esse papo e ela perguntou se eu não seria talvez um demiboy. Eu falei: “O que é isso?”, e ela: “demiboy é uma pessoa que se identifica quase totalmente como menino, é uma pessoa que nasceu com vagina, mas se identifica quase totalmente como menino”. Aí eu: “Hum, sei lá, talvez”. “Mas não é um homem trans”, ela disse. Aí eu: “Ah, tá. Não sei”. Perguntei pra ela o que era homem trans, perguntei tudo pra ela, ela foi explicando. Aí ela me colocou no Facebook depois num grupo de pessoas trans não binárias. Pessoas trans não binárias são aquelas pessoas que não se identificam nem com um gênero e nem com o outro, nem como mulher, nem como homem, mas tem um espectro entre esses dois. E eu não me identifiquei como pessoas não binárias, eu comecei a conversar com os meninos trans e me identifiquei com eles. E foi uma libertação, foi um alívio. Porque eu nunca tinha me sentido pertencente a nada e pela primeira vez na vida eu estava me sentindo pertencente a um grupo social. E a partir de então eu comecei a me identificar como homem trans. Mudei meu nome social. Logo que eu me assumi eu fui no CRD, me apresentei como Samuel, aí eles fizeram o cadastro lá e me encaminharam pro CRT, que é onde fica o Ambulatório TT. Aí no Ambulatório TT me encaminharam pra fila pra tomar hormônio, pra entrar no processo transexualizador. É Tudo público, tudo do SUS. Eu comecei a tomar testosterona e depois fiz minha cirurgia da mamoplastia masculinizadora, de tirar os seios e construir um peitoral masculino. Minha mãe me ajudou a pagar a cirurgia. A minha mãe está sendo uma santa na minha vida. Acho que ela entendeu que eu estou muito mais feliz assim porque ela viu todo o meu processo na minha vida, ela viu o quanto eu estava triste e me acabando antes da transição e quanto eu estou feliz hoje e realizado.

E na Cásper eu venho de uma realidade diferente da dos meus colegas, de alguém que foi internado cinco vezes, é uma realidade de alguém que está na militância trans. Eu contestava os professores, dava opinião, isso começou a incomodar meus colegas, os professores, porque quem fala incomoda. E aconteceu que uma professora de Redação Publicitária deu uma prova que tinha um vídeo em inglês que ela passou que era de uma propaganda brasileira que ganhou Cannes, só que era em inglês. Ela passou só uma vez a propaganda e deu a prova. E na prova tinha uma questão que dependia do entendimento do áudio da propaganda. A minha crítica era que a professora estava sendo classista, elitista, na hora de achar que todo mundo ali da classe e da faculdade, porque ela dá prova pra todas as salas de Publicidade, ela achar que todo mundo ali sabia inglês fluente. Eu critiquei isso no Facebook, eu falei: “Sobre a prova da professora Marina”. E aí alguém da minha classe printou esse post e mandou pra professora. E a professora respondeu pra classe inteira num e-mail me detonando, me expondo, chamando de burro. Isso foi no final de semana. Na segunda-feira o coordenador do curso, que é o Freua, passou na sala e chamou dois meninos pra irem conversar na sala dele sobre o caso. Só que eu achei um absurdo porque não me chamaram e o caso é sobre mim, eu achei que tinha que me chamar e eu fui atrás. Eu cheguei na casa do Freua e falei: “Professor, se o assunto é sobre mim eu gostaria de estar presente nessa reunião”. Aí o Freua super puto não sei por que, falou que eu era desrespeitosa, que eu era mal-educada, sendo que na faculdade eu tenho meu nome social respeitado e meu gênero também respeitado. Eu falei: “Professor, você está me desrespeitando, eu não desrespeitei a professora e nem desrespeitei você e você está me desrespeitando me tratando no feminino”. Ele ligou pra não sei quem e decidiu que ia sair daquela sala com os meninos pra ter a reunião em outro lugar. Ele ainda apontou o dedo na minha cara e falou que nunca tinha me desrespeitado na vida. Eu saí correndo e chorando e eu trombei nele. E quando trombei nele, ele fingiu que caiu e começou a me acusar de ter agredido ele. E a escola ficou do lado dele e eu pedi pra ver câmera pra falar como eu estava correndo e eles falaram que não tinha câmera. Começaram a me acusar de agressora e tal e eu fui expulso por causa disso. A professora foi demitida e ele se demitiu. Eu pretendo entrar com um processo contra a faculdade pra me readmitir.

Meu cotidiano é bem atarefado porque eu faço parte da militância, faço parte do IBRAT, do Instituto Brasileiro de Transmasculinidade, sou assessor de comunicação de lá. Todo mundo que é do IBRAT faz trabalho voluntário. Eu achei que foi muito legal poder organizar a história e contar. Foi uma experiência até transformadora no sentido de reviver as coisas e poder deixar pra trás pra seguir em frente.

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