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História

Quem manda aqui sou eu!

História de: Antonia Bezerra de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/01/2019

Sinopse

Nascida no interior do Rio Grande do Norte, em 1933, Antônia cresceu em meio a costumes que hoje são coisas do passado. Ela se lembra do sal que, na falta de geladeira, era usado para conservar as carnes; das brincadeiras de roda na rua e das bonecas de pano que colecionava; da época em que às moças não era permitido saber como se gerava um bebê – ao se casar, aos 16 anos, Antônia não tinha nem noção do que aconteceria na “noite de núpcias”... Sua trajetória, que ela gosta de contar em detalhes, tem alguns marcos importantes: a morte da mãe, quando ela tinha apenas 12 anos; a indesejada mudança para São Paulo, no mês em que Getúlio Vargas se suicidou (agosto de 1954); e a morte do marido, quando tinha completado 37. Deste último episódio, no entanto, não guarda tristeza. Foi aí, ao se ver viúva com seis filhos, que, pela primeira vez, ela se sentiu dona de si mesma. Pôde, enfim, passar a mandar em seus próprios caminhos, apoiar a família como bem quisesse e até mesmo construir uma nova casa (grande, como ela sempre quis).

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História completa

Meus pais foram muito felizes, tiveram muitos filhos! A minha mãe teve 16 filhos: 15 partos, um de gêmeos. Mas naquela época não tinha medicamento que tem hoje. Então, morriam as crianças com muita facilidade. Só sei que ao todo morreram 11 filhos da minha mãe. Todos morreram pequenos, crianças, e restaram cinco. Depois de algum tempo, porque já tinham nascido várias, eu nasci e consegui sobreviver! Era isso, conseguir sobreviver.

 

Papai não encostava a mão em filho, de jeito nenhum! Era mamãe quem batia. Tinha a história do cipozinho de marmeleiro lá no interior. É um cipozinho que se arrancava, e ele era molinho. Mamãe batia na gente com aquilo. Ia lá no quintal, pegava e pá, pá. Mamãe batia, mamãe punha de castigo. Mas como mãe, né? Naquele tempo, se educava filho apanhando. Mas papai não batia.

 

Um dia, papai falou: “Vou a cavalo buscar o sal que está faltando”. E ele ia pegar o sal lá na salina dos meus primos, porque cobravam bem barato. E se usava muito sal, porque não tinha geladeira. As carnes, tudo que se guardava era salgado e dependurado no sol para secar. E se punha uma banana para a mosca não sentar. E eu queria ir com papai, mas ele falou: “Você não vai, porque eu vou a cavalo”. E, no Nordeste, se usava muito rogar praga para o outro. Usava-se muito! E, em casa, não se gostava de rogar praga, mamãe não deixava ninguém rogar praga. Mas, naquele dia, eu fiquei tão nervosa que falei para papai: “Pois eu tenho fé em Deus que seu cavalo vai morrer! Vai ficar doente e vai morrer”, porque eu ouvia todo mundo rogando praga e eu também roguei. Papai tirou a cinta na hora e pá! Fui a única filha de papai que apanhou dele. Mas também não roguei mais praga depois. Nunca.

 

Eu tinha 12 anos quando mamãe faleceu, com 36. Quando ela teve minha irmã mais nova, que ficou com seis anos, não teve mais saúde. Ela morreu, e me lembro que papai ficou muito triste, mas passou logo pra ele. Quando ele começou a trabalhar, teve uma viagem para buscar algodão no sertão. E, com quatro meses de viúvo, achou essa moça no caminho. Conheceu a Teresa, a minha madrasta. E eles lá namoraram, e ele se casou rápido!

 

Toda felicidade parou ali! Nós estranhamos muito porque ela já veio pra nossa casa e, lógico, se apossou da casa. Tinha minha avó que, desde que mamãe casou, morava com a gente... Já minha avó ficou pra trás. Ela já não dava direito à minha avó para comandar a casa. Foi uma vida muito atribulada, uma situação muito triste. A nossa vida mudou do céu para o inferno. Ela guardava as coisas num caixote, escondia o queijo, o doce. E ela sabia que eu era muito ligada no doce. E ela falava: “Que gostoso, nós estamos comendo queijo, nós estamos comendo isso, comendo aquilo! Que vinho bom!”. E eu sozinha do lado de fora.

 

Depois, minha avó se mudou para a casa da minha tia, e eu fui para a casa do meu tio, irmão da minha mãe, morar com ele. Aos 14 ou 15 anos, eu estava morando com meu tio em Natal, e minha irmã com meu outro tio. Ela era uma moça lindíssima! Nós nos trocávamos juntas, nos arrumávamos para ir para as festas. Chegavam as comadres e diziam: “Sua irmã pode pôr chita e você nunca chega aos pés dela!”. Eu ouvi muito isso, porque minha irmã realmente era linda! Uma morena um pouquinho mais escura do que eu, que poderia ser até uma miss. Cansei de ouvir isso, mas não ligava. Era minha irmã, tinha até prazer. Nós éramos muito amigas.

 

E minha irmã arranjou um namoro. Ela trabalhava no ateliê de costura e pegou esse namoro com um soldado da base. Ficou noiva, mas tiveram várias brigas. E ela ficou grávida. E as moças de família não ficavam grávidas, mas a nossa já nem era mais uma família, porque foi destroçada, foi revirada... Ele a abandonou, e ela não falou pra ninguém da família. Quando eu soube, ela já tinha ganhado o nenê – eram gêmeos – na Santa Casa de Natal. Eu peguei roupinhas e levei. Quando eu cheguei, eu nem esperava encontrar minha irmã naquela situação. Minha irmã muito bonita, muito elegante, sempre se vestiu muito bem! E, quando eu cheguei, passei por minha irmã e não a reconheci. Pálida, inchada, com uma gravidez decerto muito mal tratada.

 

Fomos, então, para Parnamirim. A casa dela era pequenininha, ela morava com outra família, que tinha ficado com dó por ela estar grávida e ter sido abandonada pelo noivo. Fui chamá-lo e falei: “Olha, você a deixou. Ela teve gêmeos, não tem o que comer, não tem leite para dar para os filhos, e eu quero que você vá lá”. Ele me obedeceu. Acho que sentiu até pena de mim. Chegou lá, comprou leite condensado para as crianças – leite condensado é mais velho que eu. Quando não dava para mamar, dava leite condensado! E minha irmã não tinha condições nem de dar de mamar, porque a fraqueza era tanta que não era aconselhável.

 

E, nisso, eu fiquei conhecida das vizinhas. E tinha uma vizinha que era da igreja batista. E eu fui com Dona Rosa à igreja. E Dona Chiquinha era amiga de Dona Rosa e mãe de Cristóvão, que era o moço que eu fui conhecer. Ele veio, me pediu em namoro. Casamos em três meses.

 

Naquela época, não se conversava nada sobre o que se passava entre o casal. Eu me casei com 16 anos e eu não sabia o que ia acontecer comigo. Nunca mamãe falou. Nada se falava sobre o casal, sobre filho, sobre como era o parto! Tudo era muito restrito para a gente. Eu não sabia mesmo de nada. Essa amiga da minha mãe, que era uma pessoa de idade, tinha uma neta que morava com ela, que era da minha idade, estava noiva, e eu estava noiva. E eu tive vergonha quando ela pegou um livro que o marido dela a proibia de ver. Ela falou: “Você sabe o que vai acontecer?”. Falei: “Não sei, não sei o que vai acontecer”, e eu não sabia mesmo. Eu não entrava na curiosidade, porque moça não entrava nesse negócio de perguntar como que você teve filho, nada disso. Então, ela pegou o livro: “Ninguém pode saber que estou te mostrando, mas, como você vai agora casar, pelo menos eu vou mostrar isso pra você”. Ela pegou o livro, abriu e me mostrou alguma coisa, como uma ereção, alguma coisa assim. Eu falei: “É?”. “É!” E ela tapou aquilo de repente, e eu só fiquei com aquilo na cabeça. E fui pro casamento assim, sem saber de nada. Foi tudo novidade pra mim, aquela situação. E vivi muito bem com meu marido, até um certo ponto, até vir para São Paulo.

 

Ele quis mudar para São Paulo. Eu não podia dizer “não”. Era casada de poucos anos e não tinha voz ativa para nada. Eu não queria vir, vim chorando. Nós vendemos a minha casa, para poder vir pra São Paulo. Ele veio primeiro e, depois de três meses, eu vim. E justamente coincidiu com o mês da morte de Getúlio Vargas. Eu era apaixonada pelo Getúlio Vargas! Porque era um presidente maravilhoso para nós naquela época. Então, nunca vou esquecer da minha ida a São Paulo.

 

Eu sempre morei em casa enorme. Quando cheguei em São Paulo, foi uma decepção muito grande. Chorei muito! Era um quarto e cozinha, nos fundos de uma casa, e a cozinha separada. Eu tinha que trazer as meninas na chuva, quando era tempo de frio. Eu sonhava com uma casa, porque aquilo pra mim não era uma casa.

 

Em três anos, eu fiz muita clientela de costura, muita! Eu já costurava muito, muito mesmo. Primeiro, eu comecei a pegar costura lá na José Paulino. Depois, quando viam que eu estava costurando e perguntavam quem fazia as roupas – e tinha roupa muito bonita, muito bem vestida –, todo mundo começou a pedir! Pronto, eu não precisei mais sair de casa, só ficava costurando, costurando. E nós fomos ver esse terreno, que era em Santo André, Parque Novo Oratório. Estavam construindo 26 casas, e nós ficamos com uma.

 

Meu marido trabalhou na Ultragaz, na Lalekla, e depois comprou uma Kombi e foi trabalhar por conta. Um dia, no caminho de casa, ele falou: “Toinha, você vai morrer e eu vou casar com a filha da Francisca”. E a filha da Francisca era desquitada, moça, jovem. Eu também era moça naquele tempo, eu tinha 37 anos e me vestia bem, tinha uma vaidade muito forte. E eu falei: “Nem eu vou morrer nem você vai se casar com a filha de Francisca”. Quando ele chegou à nossa rua, virou a Kombi pra entrar na garagem, só entrou e falou: “Feche o portão porque estou passando mal”. E ele já estava pálido, pálido, pálido, e transpirando. Ele já estava tendo infarto do miocárdio. E, aí, ele morreu. Eu fiquei com meus seis filhos.

 

E foi muito bom, porque, antes, eu só fazia só o que ele queria. As ideias não eram minhas, as ideias eram dele. Quando ele morreu, fiz o enterro direitinho e falei: “Tudo era proibido na minha casa” – porque ele era um crente fanático, sofria muito por causa da religião – “Agora, tudo mudou! Quem vai mandar sou eu. De hoje em diante, vocês não estão proibidos a nada! Proibição não existe na minha casa, eu só quero o seguinte: sinceridade, honestidade e obediência. Só quero isso”.

 

Eu disse para os meus filhos: “Agora, eu vou fazer a minha casa, a casa em que eu quero morrer!”. Eu fiz uma casa da altura da rua, como eu queria, porque a minha ficava lá embaixo. Era uma casinha acanhada, feia, sem futuro. Eu fiz minha casa da altura da rua, fiz uma sala de quatro por sete de largura, uma sala enorme. Fiz uma sala de televisão, dois dormitórios, uma sacada em cima, uma sacada embaixo. Minha casa tinha tudo o que eu queria! E não me casei de novo, nunca namorei depois que fiquei viúva, nem por um instantinho. Nunca peguei nem na mão de um homem pra namorar. Fiquei viúva com 37 anos, e nunca quis namorado, nunca quis ninguém.

 

Já estou com 85 anos e só quero viajar, quero ver meus filhos felizes! Eu já fui a alguns países, já fui ao Canadá, já fui ao Uruguai. Quero viver até os 90 e não sei quantos anos! Quero passear ainda um pouco. Eu gosto de passear, eu gosto de viver!


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