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Receita para a cura: amar e cozinhar

História de: Ângela Cristina Cancian de Jesus Andrade
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2019

Sinopse

Ângela conta sua trajetória de doenças que a acompanham durante toda a vida. Sempre foi uma criança doente, como costuma dizer. Foram várias as batalhas e os desafios, com muito sacrifício de seus pais a fim de buscar um tratamento eficaz. Foi, acima de tudo, o amor que sua família sente por ela. Por isso Ângela aconselha: valorize, ame e cuide daqueles que estão perto. Eles são a receita principal para qualquer processo de cura.

História completa

Fui uma criança muito doente. Nasci mega saudável, todo mundo falava que eu era um bebê lindo. Mas com um ano e meio, comecei a ficar doente. Meus pais até tinham uma situação estável, mas com a minha doença, a questão financeira foi se agravando muito. Meu pai e minha mãe abriram mão de terrenos que eles tinham. Chegou ao ponto de minha mãe tirar os brincos que ela tinha na orelha para poder comprar medicação, porque eu fui uma criança muito doentinha mesmo.

 

Eu vivia mais internada do que na minha casa. Teve um médico que até falou para minha mãe: “Leva sua filha para morrer em casa. Assim, você fica com ela umas horas até ela morrer”. Mas minha mãe nunca desistiu, meu pai nunca desistiu, mesmo sem recurso. Minha mãe fez de tudo que você imagina. Eles venderam carro, eles venderam o terreno, chegou uma época na vida da minha mãe que ela tinha uma calça jeans e duas blusas. Eles nunca desistiram de mim. Por isso que falo: os dois são um poço de amor.

 

Acho que estou viva graças aos meus pais. Minhas irmãs falam que é por que sou bicho ruim mesmo. Elas falam: “Se não morreu, não morre mais, só vai matando todo mundo, mas morrer não morre”.

 

Fui melhorando quando nos mudamos para Sorocaba, eu tinha sete anos. Nos mudamos porque falaram que o clima da cidade era bom e poderia ser benéfico para o meu quadro. E o quadro neurológico melhorou e usei medicação até os dez anos. Eu sempre fui alérgica respiratória. Sempre fui muito alérgica também, com picada de inseto. Mas até então, nunca tinha ouvido falar em dermatite atópica.

 

Bem mais tarde, em 2009 ou 2010, com três empregos, eu comecei a apresentar umas coceiras inexplicáveis, do tipo: “Nossa, mas por que eu estou assim, nenhum inseto me picou e eu não andei em mato”. Começaram a se agravar, era uma coisa que não melhorava. E foi tomando uma dimensão maior e decidi procurar uma dermatologista.

 

O primeiro diagnóstico que tive foi escabiose. “Gente, trabalhei nove anos no hospital psiquiátrico, entrava e saía do hospital, nunca peguei escabiose. Agora que eu nem trabalho em hospital, peguei escabiose. Que estranho.”, pensei. Olhava em minhas mãos, achava que não parecia escabiose, mas ela olhou e falou: “Quem é a médica aqui sou eu”. Não quis mais voltar nela.

 

Segui o tratamento. Se eu não seguisse, o que eu ia falar? Como você sabe se não deu certo se você não seguiu? Mas quando eu passei as loções que são para escabiose, aquilo me abriu inteira. Eu tive reação às loções e estava com a pele bem delicada. Virou uma pipoca.

 

Em 2014, por várias questões emocionais, questões de trabalho, da maternidade recente, por toda aquela responsabilidade que a maternidade te traz, eu comecei a ter lesões na mão. Porque na minha profissão, na enfermagem, a gente lava muito a mão. Lava a mão toda hora. E para a gente que tem uma pele extremamente ressecada, porque a dermatite atópica é isso, a pele que pede água por si só, toda hora você lavar. E aí comecei a ter uns probleminhas, comecei a ter as primeiras fissuras, as fissuras que você coça, contamina e infecta. Começou a formar os primeiros processos de pus, e aí o doutor começou a me afastar do trabalho. Eu ia numa consulta, ele via que estava pior: “Vamos afastar uma semana”. Só que eu não aceitava, de jeito nenhum. Fiquei afastada do trabalho por um ano e meio. Desses, foram sete meses sem dormir.

 

A gente coça demais à noite. Eu chegava a coçar naquele muro de chapisco. Eu acordava de madrugada e colocava as mãos ali. E foi indo assim até que eu já não tinha mais mão. Eu não dormia, eu não vivia, eu só me coçava. Imagina, sete meses sem dormir. Aquilo para mim tinha virado uma tortura. É uma coisa que emocionalmente te tortura. Já não conseguia mais tomar banho.

 

Foi quando eu tive uma conversa seríssima com Deus e falei para ele que não dava mais. Deus foi tão sábio, porque se eu não tivesse meu filho, eu acho que teria sido bem pior. Porque eu não tinha mais vontade nenhuma de viver.

 

Nessa fase que eu já não tinha mais vontade de fazer nada, fui fazer uma comida. Tinha dia que eu fazia só a sopa para o Gabriel, mas fui fazer uma comida e descobri que durante uma hora e dez minutos que eu cozinhei, a minha mão não coçou. E eu achei aquilo muito legal. E no outro dia eu falei: “Vou cozinhar de novo”. Só que aí eu fiquei duas horas cozinhando. E minha mão não coçou. Meu marido chegou em casa e eu falei: “Anderson, a minha mão não coçou por duas horas. Amanhã eu vou cozinhar mais”. E teve um dia em que eu cozinhei o dia inteiro.

 

Descobri um prazer que para mim foi mais do que terapêutico. E na verdade eu acho que ela não coçava porque era uma hora e dez que eu esquecia da dermatite atópica e prestava atenção na comida. E aquilo foi me dando prazer de novo. Por meio da culinária eu comecei a ter de novo vontade de fazer as coisas. E aí que fui melhorando. Nisso eu acho que tinha um ano e um mês que eu estava afastada do meu serviço. Mas eu fui melhorando.

 

Hoje quando eu converso com Deus, porque converso muito com Ele, eu já não estou brigada. Eu entendi todo o propósito dEle. Ele queria me mostrar que eu sou muito mais forte do que qualquer coisa que já aconteceu na minha vida. Se eu olhar minha trajetória, eu sempre tive uma trajetória de muita luta para poder ficar viva. E ainda às vezes eu insistia em achar que a doença era mais forte do que eu. E ele já me provou várias vezes que não. Hoje eu vejo a dermatite atópica como uma característica que eu tenho. Então se você me perguntar quais são minhas características, vou dizer que sou alegre, sou palhaça, risonha, dorminhoca, comilona e sou portadora de dermatite atópica. Mas é só uma característica. É uma luta diária, mas eu aprendi a controlar muito a doença pelo meu emocional.

 

Porque você é muito mais que ela. Você tem mil características, então a dermatite atópica não é a sua essência. Pelo sofrimento que ela proporciona, às vezes você mergulha na essência desse sofrimento, e ela acaba roubando todo o cenário da sua vida. Mas a doença não é sua vida, você é muito mais que isso. Eu sou muito mais que isso. Se aproximar de quem te ama acho que é a receita para qualquer idade, para qualquer grau de dermatite atópica. As pessoas que te amam, elas acreditam em você, elas acreditam no seu potencial de melhora, e ela consegue te ver além da doença. Então, se aproxima de quem te ama, porque eu acho que é o remédio principal.


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